Disque T para titias
Capítulo 30
30
— O quê? — grito. — Espera. O quê?
— Shh. — Nathan coloca um dedo na frente dos lábios, olhando para a porta.
Luto para abaixar a voz.
— Desculpa. Mas como assim, Nathan?
Ele suspira.
— Eu sei. Eu percebi.
— Quando? O qu… Como? O quê?
— Meddy, você e a sua família estão agindo de forma suspeita pra cacete o dia inteiro. E estavam arrastando aquele cooler ridículo para todo lugar. Eu não sabia o que pensar. Achei que talvez tivesse dado alguma coisa errada com o bolo do casamento e vocês estivessem tentando esconder ou algo do tipo. Mas aí fui até a cozinha checar, e o bolo estava perfeito, então pensei que talvez fosse alguma outra coisa com a comida. Aí o corpo apareceu no altar… não é preciso ser exatamente um gênio para ligar os pontos.
Fico boquiaberta. Meus lábios formam palavras. Nada sai. Minha boca simplesmente se mexe de forma idiota, sem sentido. Nenhuma palavra ainda.
— Você pode pelo menos me dizer por que fez isso?
De alguma maneira, consigo fazer minha voz funcionar de novo.
— Bem, foi legítima defesa, e eu não queria… Foi tão rápido.
A raiva toma seu rosto.
— Legítima defesa? Ele machucou você?
Balanço a cabeça rapidamente.
— Ele estava prestes a fazer isso, mas eu, hum… É uma longa história.
Nathan solta a respiração.
— Bom, ainda bem que ele não a machucou. — Ele aperta minha mão. — Está tudo bem, não vou contar para ninguém.
— Mas… Por quê? — disparo. — Por que não vai contar? Você foi acusado de assassinato. Você deveria contar para todo mundo que não foi você, fui eu.
— Eu duvido que essa versão do delegado se sustente. Não existe nenhuma prova de que eu tenha alguma coisa a ver com o corpo.
— Você não sabe o que ele vai fazer, como ele vai contar a história. Ele me parece o tipo de cara que não respeita as regras. Não acho que ele se importaria de pegar a pessoa errada, contanto que prenda alguém. — Nathan estremece, e percebo que estou segurando as mãos dele com tanta força que minhas unhas cavaram pequenas meias-luas nas palmas dele. — Desculpa. — Solto as mãos, mas ele pega as minhas novamente e as leva até os lábios.
— Eu falhei com você uma vez, Meddy — diz ele, os olhos fixos nos meus. —
Não lutei por você, e me arrependi desde então. Não quero perdê-la de novo.
Meu rosto cora. Inferno, meu corpo inteiro cora. Eu me inclino para a frente e minha boca vai até a dele, nossos lábios se moldando no encaixe perfeito, duas peças do mesmo quebra-cabeça. Nossa respiração se mistura, e eu juro que consigo sentir as batidas do coração dele bem perto das minhas. É por isso que não tive um relacionamento sério desde a faculdade. Ninguém mais se compara a isso, ninguém consegue segurar meu coração nas mãos como Nathan.
— Não posso deixar você ser preso por isso — sussurro. Ele acaricia meu lábio inferior com o polegar, traçando uma linha ardente até o meu queixo, e um arrepio delicioso me percorre.
— Não vou. De verdade.
Juntando o que resta das minhas forças, eu me afasto.
— Mas… — Meus pensamentos estão uma bagunça. Minha respiração está saindo em arfadas rasas. Luto para pensar direito. — Vai ser uma péssima publicidade. Se houver sequer um pingo de suspeita sobre você, o resort…
Uma sombra cruza o rosto dele, e sei, então, que cheguei ao cerne da questão.
O delegado McConnel provavelmente não vai conseguir sustentar a acusação de assassinato, não com tão poucas provas. Mas a acusação será suficiente para afastar os investidores. E então o que vai acontecer? Na minha imaginação, vejo uma sala cheia de pessoas com ternos bem cortados sentados ao redor de uma grande mesa de reuniões. Alguém começa uma votação para afastar Nathan Chan do cargo de CEO do Ayana Lucia. E, um por um, todos erguem as mãos. Não podem deixar que alguém de tão má reputação seja o rosto da empresa. E aí já era. Seria o fim dos sonhos de Nathan. Este lindo resort que ele planejou, projetou e construiu… Ele vai perdê-lo. Provavelmente lhe darão uma boa indenização de rescisão, mas ele nunca mais vai conseguir encontrar investidores para outro empreendimento, não com esse rumor pairando sobre seus ombros, manchando sua vida para sempre.
— Ah, Nathan. — Não consigo suportar a tristeza que ele está tentando esconder a qualquer custo. Eu sei como é quando ele tenta esconder alguma coisa para não me deixar preocupada.
— Vai ficar tudo bem — diz ele, a voz rouca.
Mas não vai.
Como se lesse a minha mente, Nathan me puxa contra ele de modo que sinto o calor intoxicante de seu corpo.
— Por favor, me deixe fazer isso por você — pede ele, com uma voz baixa que faz minhas pernas vacilarem.
— Mas…
— Se você for em frente e admitir a culpa, vou fazer a mesma coisa. Vou insistir que fui eu, e aí mesmo que eu perco tudo definitivamente, cem por cento. — Ele está falando totalmente sério. Nathan realmente escolheria perder tudo para
impedir a minha prisão.
— Nathan. — Seu nome sai em um soluço contido, e eu o beijo novamente.
Nunca mais quero sentir os lábios dele se afastando dos meus.
Uma cadeira do lado de fora range alto e nos afastamos, logo antes de o delegado McConnel abrir a porta. Ele estreita os olhos para nós. Que imagem devemos ser — dois jovens ofegantes, meu cabelo todo desarrumado, nossos rostos vermelhos, sentados de frente um para o outro na posição mais esquisita. Devemos estar parecendo adolescentes excitados, pegos em flagrante. O delegado McConnel franze a testa. Claro que ele vai perceber que eu não sou advogada…
— Meu Deus, detesto advogados — resmunga ele.
Hum. Talvez ele não tenha ligado os pontos.
— Sim, o senhor e todo mundo — digo, me levantando e me ajeitando com a maior calma do mundo. — Já estou terminando aqui. Obrigada, delegado. Eu vou… — Olho para Nathan, que ergue as sobrancelhas. — Vou voltar depois de consultar minha firma.
— Leve o tempo que quiser — comenta o delegado McConnel , abaixando-se para se sentar na cadeira de couro elegante de Nathan com um prazer óbvio. Ele se recosta, coloca os pés em cima da mesa de mogno e apoia as mãos na barriga.
Tento mandar mensagens silenciosas para Nathan enquanto saio. Vou voltar.
Não vou deixá-lo aqui desse jeito. Vou libertar você. Vou limpar seu nome. Não sei se ele captou nada disso.
Assim que estou na privacidade do elevador, viro contra a parede e enterro o rosto nas mãos. Que bagunça. O que eu vou fazer? Eu devia simplesmente juntar todas as provas que tenho contra mim para inocentar Nathan e apresentá-las ao delegado. Vou me entregar. Eu…
Mas isso vai incriminar Ma e minhas tias. Aos olhos da lei, minha família é muito, muito culpada. E, para aumentar a imensa torre de calamidades, Ah Guan não estava morto quando o colocamos no cooler. Ele morreu sufocado lá dentro. O
que significa que não fui só eu quem o matou. Foi minha família inteira.
Talvez eu possa mudar a história para que eu seja a única culpada. Talvez eu possa contar como se eu tivesse enganado a família inteira, invadido a cozinha da Grande Tia e guardado o corpo no cooler sem o conhecimento de ninguém. Sim, isso poderia funcionar. Agitação e medo tomam conta de mim. Posso fazer isso funcionar. Ficaria na cadeia por muito tempo. Mas não é menos do que mereço.
Pelo menos será, pela primeira vez na vida, uma decisão que estou tomando sozinha. Não uma decisão que tomo porque estou cedendo aos desejos de Ma ou a deveres familiares ou algo assim. Acho que posso pelo menos me sentir bem quanto a isso.
Na recepção, as gigantescas janelas de madeira estão fechadas para proteger o lugar da tempestade. Isso transforma o resort completamente, que vai de paraíso tropical a um castelo fechado com chuva e ventos fortes investindo contra ele. O
clima é sombrio. Não sei até que ponto os funcionários sabem sobre a prisão de Nathan, mas é óbvio que todos têm consciência de que alguma coisa está errada.
Embora sorriam educadamente para mim quando eu passo, suas expressões estão tensas e rígidas de medo. Apressada, atravesso o corredor que leva aos quartos.
Primeiro, vou voltar para o meu e trocar essas roupas molhadas. Depois vou pedir que Ma vá comigo ao quarto da Grande Tia, onde vou contar a todas o meu plano de assumir toda a culpa. Respiro fundo. Não vai ser fácil convencê-las. Ma vai chorar com certeza. A Grande Tia vai ficar brava e insistir que eu escute os mais velhos e deixe que elas resolvam o problema. A Segunda Tia provavelmente vai se lançar em alguma pose esquisita de tai chi, e a Quarta Tia vai balançar suas unhas emplumadas e me dizer para deixar de ser tão melodramática. Mas estou decidida.
Ninguém pode me impedir de fazer a coisa certa.
No meu quarto, pego a chave-mestra de Nathan e a passo na fechadura, que se abre com um clique. Então empurro a porta e falo:
— Ma, posso tomar um chá…