Disque T para titias
Capítulo 6
Por que diabos fiz isso? Que pessoa em sã consciência faria uma coisa dessas?
As perguntas invadem minha mente, uma atrás da outra, até que solto um grito.
Naquele instante, percebo que não posso ir à polícia. Vão pensar que cometi um assassinato, que sou uma homicida maluca, e vou ser presa.
Há um posto de gasolina mais à frente. É a minha oportunidade. Posso parar ali, correr até lá dentro e suplicar por ajuda. Mas meu pé pisa firme no acelerador, recusando-se a sair de lá, e passo em disparada pelo posto. É como se meu subconsciente tivesse se apoderado do meu corpo e o forçasse a continuar dirigindo, sem olhar para trás, até eu alcançar a saída para a 405. Entro nela, o coração martelando dolorosamente com a placa de trânsito conhecida, a cabeça latejando quando me junto ao trânsito da rodovia. Estou seguindo pela 405 com um cadáver no porta-malas. Solto uma risada histérica. Soa entrecortada, ligeiramente enlouquecida. As lágrimas saltam dos meus olhos quando vejo a placa para a 10.
Tão perto de casa. Da segurança. Sinto um bolo na garganta. Pela primeira vez em anos, mal posso esperar para chegar em casa e ver Ma.
6
Terceiro ano da faculdade, seis anos atrás
O cenário está montado. Por cenário, me refiro ao fato de que nossa mesa está rangendo sob o peso de todos os pratos do dim sum empilhados no meio, e servi chá para todas, e agora tudo o que preciso fazer é… contar a elas. Bota tudo para fora, Meddy. Anda logo. Desembuche!
— Hum, então…
— Temos uma grande novidade! — exclama Ma em mandarim. Seus olhos brilham como estrelas. Sério, parecem luzes de Natal. Ela bate palmas como uma criança empolgada.
— É? — Recuo no encosto, o coração martelando por quase ter despejado a notícia sobre Nathan. Calma, coração. Vou tentar de novo após a grande novidade.
Ma faz um aceno para a Grande Tia, que se empertiga de maneira majestosa.
Ela limpa a garganta.
— Decidimos abrir um negócio de família.
— Hum. Tudo bem… uau. Incrível. — Minha mente flutua. Que tipo de negócio elas poderiam abrir?
— Todas nós — diz a Grande Tia e, para variar, a Segunda Tia não a contradiz.
Todas estão sorrindo e me encarando.
— Tá bom…
Por que estão me olhando desse jeito? O pavor se instala no meu estômago. Ai, meu Deus, é agora que elas vão contar que usaram a casa como garantia para os
empréstimos que fizeram para esse negócio misterioso. Ou talvez o negócio seja traficar cocaína. Ou pessoas. Uau, tenho uma opinião bem ruim sobre a minha família.
— Que tipo de negócio? — pergunto, sem conseguir mais conter a curiosidade.
— Casamentos! — grita a Quarta Tia, jogando a mão para cima em um floreio.
A Grande Tia franze a testa para ela.
— Eu já ia contar isso — repreende a Grande Tia.
— Desculpe — diz a Quarta Tia, sem parecer arrependida.
— Casamentos? — Franzo a testa.
— Isso mesmo — responde a Grande Tia. — Vou fazer os bolos. Já faço grandes bolos de aniversário, e muito bons.
Assinto lentamente, pensando nos bolos de aniversário de múltiplas camadas da Grande Tia. É verdade que seus bolos são bons, não há como negar. Mas as outras…
— Vou me ocupar da maquiagem e do penteado da noiva — diz a Segunda Tia.
— Tenho muitas freguesas fiéis no salão. Se eu sair, todas vão me seguir.
— Vou fazer os buquês e os arranjos de flores — diz Ma.
— E eu vou ser responsável pelo entretenimento — conclui a Quarta Tia. —
Tenho muitos fãs na comunidade asiática, sabe. Sem dúvida eles vão querer me contratar como cantora de casamento.
Minha mãe revira os olhos e sussurra alto:
— Ela só está de penetra, na nossa aba. Mas, como faz parte da família, temos que lhe dar uma tarefa.
— Diz a funcionária de supermercado que ganha salário mínimo — murmura a Quarta Tia.
As duas se olham de cara feia até a Grande Tia estalar os dedos entre as irmãs e falar:
— E Meddy, querida Meddy.
Todos os olhares se voltam para mim. Me encolho mais na cadeira.
— Sim? — pergunto, em tom agudo.
— Você vai ser a fotógrafa.
De repente, fico sem fôlego. Acho que eu devia ter adivinhado. É óbvio que elas iam me querer como fotógrafa. Faz sentido; afinal, estou estudando fotografia.
Mesmo assim.
— Hum. Me deem um minuto.
Pulo da cadeira e atravesso a multidão, ziguezagueando pelo salão até sair do restaurante. Inspiro fundo algumas vezes e tento deixar o turbilhão de pensamentos menos revolto. Estou aborrecida, mas não sei exatamente o motivo. Acho que uma parte de mim está lutando e gritando: “Não posso eu mesma escolher o que vou fazer com o meu diploma?” Porém, quando de fato paro e penso no assunto, gosto da ideia de fotografar casamentos. Acho que estou ofendida pelo fato de elas terem decidido tudo sem me consultar. O que é uma tolice, né? Eu não devia sentir raiva por elas terem tomado uma decisão acertada. E é uma decisão acertada; elas têm razão, cumprem bem todas essas tarefas. Os arranjos de flores de Ma são maravilhosos. O talento da Grande Tia é desperdiçado em aniversários e a Segunda Tia realmente tem uma clientela fiel no salão. Quanto à Quarta Tia, bom, ela acha que é uma celebridade, e tem uma voz decente. É um negócio que tem boas chances de prosperar.
Logo que penso nisso, lampejos de entusiasmo brotam dentro de mim.
Podemos levar isso adiante. Talvez assim minha família saia da porcaria de casinha onde estamos amontoadas.
A porta do restaurante se abre e o barulho invade a rua. Ma se ilumina ao me avistar.
— Aiya, por que veio aqui para fora? Fui procurar você no banheiro, mas você não estava lá. — Ela me examina e franze a testa. Deve ter sentido que estou passando por Um Momento, porque muda de indonésio para inglês. — Você está
bem? Por que tão triste? — O fato de ela trocar para inglês, apesar de não ser fluente, faz meu estômago se revirar de culpa. Ela já sacrificou tanta coisa por mim, e não posso nem mesmo me comunicar com ela em sua língua materna.
Forço um sorriso.
— Não estou triste. Só estou tentando digerir toda essa história de negócio da família.
— Ah, é. Muito importante. Mas se você não se interessar, está bem. Não precisamos de fotógrafa.
Eu a encaro.
— Mas, lá dentro, vocês estavam tipo “Meddy, você tem que ser a nossa fotógrafa”.
— Sim, é lógico que queremos você como fotógrafa. Você é a melhor.
Dou uma risada amarga.
— Ma, não tem como a senhora saber disso. Sou uma mera iniciante.