Disque T para titias

Jesse Q. Sutanto · Capítulo 17 de 42

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Disque T para titias

Capítulo 14

Nathan olha para o cooler e inclina a cabeça para o lado.

— Isso é…

Ah, meu Deus. É sim. É a ponta do cobertor da Grande Tia saindo como uma merda de uma língua de lã. Observo Nathan se movendo em câmera lenta e esticando a mão para abrir o cooler. Então faço a única coisa possível, algo com que venho sonhando nos últimos quatro anos.

Agarro seus ombros largos, sentindo seus músculos sob os dedos, e o puxo para me encarar.

— Meddy…

Não deixo Nathan terminar a frase. Estico o braço, ainda o puxando para mim, e deixo nossas bocas se encontrarem em um beijo ardente.

 

14

O beijo queima minha pele, chamuscando minha carne, atingindo o fundo das minhas memórias, me fazendo recordar o calor do nosso romance. No espaço de alguns segundos, saboreio os dias de faculdade uma vez mais — os cookies que dividíamos com Selena às onze da noite de uma terça-feira; o odor da fumaça do narguilé enquanto descíamos a avenida Broxton de mãos dadas, a sensação da mão firme de Nathan ao redor da minha cintura, irradiando ondas de calor que fluíam por todo o meu corpo. O modo como ele me fazia rir, um riso pleno, sem limites, de doer a barriga, e depois subia em cima de mim e me beijava toda com vontade, sua pele contra a minha…

No momento em que nos afastamos, estamos sem fôlego. Fito o seu rosto e sei que ele também está pensando nos nossos dias na UCLA.

— Meddy — sussurra ele, curvando-se de novo, grudando sua boca na minha.

Tão suave e quente. Algo novo e, no entanto, tão incrivelmente familiar. — Meu Deus, senti tanta saudade de você.

— Também senti saudades. — Minha voz se enche de emoção. Senti mesmo.

Demais.

Ele pega minhas mãos e me observa com seus lindos olhos.

— Estou querendo beijar você desde que a vi hoje de manhã. — Ele suspira. —

Desde a formatura, fico me perguntando o que aconteceu com a gente. Sempre quis entrar em contato, mas não tinha certeza se você queria falar comigo… Quer dizer, o que aconteceu naquela época?

Meu estômago se retorce.

— É difícil explicar.

— Eu sei. Senti isso, principalmente quando descobri que você nunca contou sobre nós para a sua mãe.

Eu me retraio. Deve ter sido um golpe e tanto descobrir que sua namorada de três anos jamais contou à família sobre você. E o fato de ele descobrir isso logo hoje… Sou uma pessoa de merda.

— Desculpa. É… é complicado.

As covinhas aparecem de novo.

— Eu entendo. Família às vezes é uma complicação mesmo. Sinceramente, achei que fosse ficar mais chateado com isso, mas ver você depois de tantos anos…

Sinto um alívio no peito. Ele não está chateado! Meu Deus, como ele pode ser tão incrível?

— Eu sei.

— Eu…

— Ei! — grita alguém a distância.

Nós nos afastamos como se fôssemos adolescentes pegos em flagrante. Um homem de meia-idade com o bigode mais espesso do mundo sobe a colina em direção ao resort. No meio da ladeira, ele faz uma pausa para respirar, abanando-se com uma folha de papel. Quando finalmente nos alcança, seu rosto está vermelho como um tomate.

— Você… — Ele arfa.

— Oi, delegado — diz Nathan. — Posso ajudar em alguma coisa?

Delegado? Fico paralisada. Minhas entranhas se transformam em pedra.

— Você não pode… não pode fazer isso aqui! — exclama o delegado.

— Fazer o quê?

O delegado se endireita, ainda recuperando o fôlego.

— Essa baderna gigante no hotel. Você tem alvará? Duvido, porque sei muito

bem que não assinei nada. E tem uma tempestade a caminho. Deve nos atingir ainda hoje. Acho que você não deve continuar com essa festa.

Apesar da situação esquisita, Nathan parece totalmente à vontade.

— Poxa, delegado McConnel . É um casamento, e tenho licença do continente para sediar grandes eventos aqui. Tudo dentro da lei. Vou chamar alguém para lhe mostrar os papéis. E, sim, estamos preparados para a tempestade, se ela realmente nos atingir. Vamos levar todo mundo para dentro. Vai correr tudo bem.

— Continente — cospe o xerife. — Vocês, do continente, acham que são melhores que nós. Vou voltar, espere só para ver. Você e suas licenças do continente. — Ele se afasta a passos largos, resmungando com raiva. Solto o ar.

— Você está bem? — indaga Nathan. Ele deve ter reparado em como fiquei pálida.

Estou prestes a responder quando ouço a Quarta Tia gritando:

— Ah, meus jovens, vocês ainda estão aqui!

— Já terminaram de tirar fotos? — pergunta Nathan, animado.

— Já. — Quando nos alcança, a Quarta Tia cochicha para Nathan: — Acho que o sr. Sutopo está bem cansado. É melhor mostrar o quarto para ele agora.

Nathan concorda e corre de volta para o ponto onde ficaram o sr. e a sra.

Sutopo. No meio do caminho, ele para e diz:

— Vou chamar um carrinho para vocês. O cooler está pesado.

— Não esquenta — balbucio. — Vamos dar um jeito. Pode ir.

Nathan assente e me dá um último sorriso antes de ir. A Quarta Tia e eu permanecemos no mesmo lugar, acenando para eles enquanto se afastam. Quando me viro, ela está com um sorriso malicioso no rosto.

— Ahn. Tudo bem?

— Não sei, me diga você — diz ela.

— Não faço ideia do que a senhora está falando.

Ela me cutuca com o cotovelo, de brincadeira.

— Eu vi aquele beijo.

Minha respiração sai pesada. Droga. A última coisa de que preciso agora é uma das minhas tias descobrindo detalhes da minha vida amorosa.

— Por favor, não conte para as outras.

A Quarta Tia abre um sorriso.

— Tem minha palavra. Oho, eu amo quando fico sabendo de alguma coisa que sua mãe não sabe! Ela não sabe de nada, né?

Balanço a cabeça.

— Bom, mas agora precisamos nos concentrar nisso. — Aponto para o cooler.

— O que vamos fazer com ele?

— Desisto de carregar essa coisa até o cais — diz a Quarta Tia. Ela agita os dedos. — Vai arruinar minhas unhas.

— É, também acho que não vamos conseguir carregar o cooler até lá. É melhor levarmos de volta para o frigorífico. Depois, quando as outras estiverem livres, carregamos todas juntas, que tal? Vai ser mais fácil.

— Certo.

Fazemos força para empurrar o cooler para fora das pedrinhas, mas, uma vez no chão de mármore liso, ele desliza bem e é fácil levá-lo de volta à cozinha.

O rosto da Grande Tia se ilumina quando nos vê, mas logo se fecha ao avistar o cooler atrás de nós.

— O que aconteceu? Por que essa coisa voltou para cá?

Conto a ela sobre a impossibilidade de fazer as rodinhas deslizarem pelo caminho de seixos. Ela suspira e nos conduz à câmara frigorífica.

— Empurre para lá — diz, apontando um canto. Faço o que ela manda, então colocamos recipientes de doces em cima do cooler. — Talvez fique seguro por enquanto.

Examinamos o cooler. Parece tão exposto, em um local onde as pessoas estão constantemente circulando. Bem quando penso nisso, um dos chefs do hotel entra

e para ao nos ver.

— Só o pessoal essencial aqui — diz ele.

— Elas comigo — rebate a Grande Tia friamente, e ele franze a testa, mas não fala nada. Em vez disso, apanha um caixote de legumes e sai da câmara frigorífica.

— Temos que sair daqui — digo. — É óbvio que não fazemos parte da equipe da cozinha. — Não eu, com meu traje de fotógrafa, e a Quarta Tia, com seu traje de flamingo cheio de lantejoulas.

— Não se preocupe, fico de olho em cooler — afirma a Grande Tia enquanto saímos da câmara.

— Preciso ir tirar as fotos da noiva agora, mas, assim que tivermos uma folga, devemos nos encontrar aqui e retirar o cooler.

Nós três assentimos, e a Grande Tia diz que vai contar a Ma sobre o plano.

Corro até a suíte da noiva para informar à Segunda Tia. E fazer meu trabalho.

***

A noiva, Jacqueline, já está deslumbrante mesmo antes de a Segunda Tia terminar a maquiagem. Sua pele tem o tipo de brilho que só pode ser alcançado com anos de cuidados meticulosos e caros, e seu nariz tem o arco perfeito e um ligeiro arrebitado que só o melhor cirurgião plástico consegue realizar. Ela me capta observando seu nariz e diz com uma piscadela:

— Suvenir de Seul.

Imediatamente simpatizo com ela.

Depois vem a rodada de apresentações; obviamente já conhecia a noiva, mas há muitas caras novas aqui, incluindo a mãe dela e o que parecem ser mil e duzentas madrinhas, todas usando robes de banho e caminhando de um lado para outro, bebericando champanhe. A suíte da noiva é imensa, sem dúvida maior do que a casa onde moro com Ma. É composta por dois quartos, uma sala lindamente decorada e uma sala de jantar com um grande lustre. Também está uma bagunça; cada

superfície disponível foi coberta por um vestido jogado de qualquer jeito, sapatos de salto alto, bolsas, rímel ou taças de champanhe. Uma garçonete circula com bandejas de champanhe e morangos cobertos de chocolate.

A Segunda Tia organizou uma estação de maquiagem perto da janela para obter a melhor luz possível. Perto dela, suas duas assistentes têm suas próprias bancadas e estão ocupadas pincelando o rosto das madrinhas.

Apanho minha leal Canon e acoplo minha lente favorita: uma lente fixa 50mm f/1.2 que me dei de presente de Natal no ano passado e que vale cada maldito centavo. As fotos saem exuberantes, o foco nítido e o fundo se dissolvendo em um desfocado belíssimo. Geralmente tenho que ajustar para 35mm ao tirar fotos dentro de quartos de hotel, porque preciso de ângulos mais amplos para captar tudo, mas essa suíte é tão colossal que posso facilmente abarcar tudo com 50mm. Um paraíso!

— Por favor, posso tirar fotos do vestido? — pergunto para Jacqueline.

— Com certeza! A srta. Halim vai ajudar. Ela é a melhor madrinha do mundo.

— Jacqueline abre um sorriso para uma mulher alta e magra, que revira os olhos.

— Ela só diz isso para me bajular. Meu nome é Maureen. Prazer em conhecê-la

— diz a madrinha, com um sorriso irônico.

— É, mas funciona muito bem. — Jacqueline ri.

— Só porque eu te amo, sua peste. — Maureen se volta para mim. — Venha, vou ajudá-la com o vestido. É uma tarefa para duas pessoas.

Ela não está brincando. O vestido é enorme, e são necessárias duas pessoas para tirá-lo do manequim e pendurá-lo na janela que vai do chão ao teto. A luz do sol no fundo deixa a peça quase translúcida e faz brilhar cada detalhe do rendado. Eu esperava um Vera Wang ou um Alexander McQueen, mas a etiqueta em seda diz Biyan, o que é uma agradável surpresa. Um estilista indonésio. Isso me faz gostar ainda mais de Jacqueline. Enquanto tiro fotos do vestido de ângulos variados, me ocorre que é a primeira vez que fotografo um vestido de noiva desenhado por um estilista indonésio, o que parece especial de alguma forma. Reaviva meu amor pela

fotografia e o motivo pelo qual decidi me juntar ao negócio da família para começo de conversa. Quem me dera fotografar casamentos pudesse ser apenas sobre os detalhes íntimos — apenas eu, minha câmera, vestidos bonitos e casais felizes, em vez do drama e das obrigações familiares que os acompanham. Mas agora com certeza não é a hora de pensar em deixar o negócio da família.

Fotografo todos os outros detalhes: a sola vermelha dos Louboutins da noiva, que certamente vão matar seus pés, o exuberante buquê que Ma criou, os convites.

— Tante Yohana — digo para a mãe da noiva. Tante significa “tia” em indonésio: não consigo chamar os mais velhos apenas pelo primeiro nome. —

Posso tirar fotos das joias, por favor? — Em casamentos chineses, as joias da noiva são as últimas coisas a serem exibidas, em geral um presente dos pais. Tirei dezenas de fotos de pais colocando colares de brilhantes em suas filhas e, com toda a certeza, é sempre um momento agridoce, cheio de sorrisos e lágrimas.

Tante Yohana sorri e me conduz para o quarto. Ela tira uma caixa de veludo do cofre e a abre.

— O que você acha?

É um belíssimo conjunto de brincos, colar e pulseira, todos cheios de brilhantes dispostos em um desenho floral. O menor diamante parece ter um quilate; o maior tem facilmente mais de três. Estou admirando um conjunto que deve ter custado mais de um milhão de dólares.

— É lindo — elogio, e ela fica radiante.

— Foi desenhado por um joalheiro indonésio, sabe — diz, com evidente orgulho.

Peço que ela permaneça no quarto enquanto fotografo as joias. Nunca aceitei ficar sozinha com nada caro, no caso de alguma coisa sumir e eu levar a culpa.

Quando acabo de fotografar as joias, entrego a caixa a Tante Yohana aberta, de forma que ela possa ver que tudo está intacto, ela sorri e a devolve ao cofre. Estou prestes a voltar para a sala de estar quando meu celular vibra com uma mensagem.

Seb [10:18]: SOS

Meddy [10:18]: O que aconteceu?

Seb [10:19]: Homens.

Uma foto aparece na minha tela.

Encaro o celular sem querer acreditar. Seb está na suíte do noivo, que fica na outra ponta do corredor da suíte da noiva e parece idêntica. Só que, em vez de madrinhas circulando, conversando e rindo, os padrinhos do noivo estão completamente bêbados, jogados em todos os cantos.

Seb envia outra foto, e solto um grunhido alto. O noivo, Tom Cruise Sutopo, jaz seminu na grande banheira.

Meddy [10:21]: Por que os homens são assim??

Seb [10:21]: Nem me fale. Tô tentando acordar os caras já faz quinze minutos.

Meddy [10:22]: Onde está a cerimonialista?

Seb [10:23]: Não sei, não fico vigiando a cerimonialista. É ela que tem que ficar de olho nesse tipo de coisa!

Solto um palavrão em voz baixa.

Meddy [10:24]: Vou já para aí.

Escapo da suíte da noiva e desço o corredor às pressas até a suíte do noivo. Seb abre a porta e faz um gesto grandioso para o interior do quarto, dizendo:

— Ta-dá! Apresentando o Homo sapiens macho.

— Puta merda. — Avalio o caos reinante. O quarto fede a álcool e vômito, e os padrinhos estão tão acabados que nem se mexem ao som da nossa voz. Estão todos em variados estágios de nudez; mais de uma vez tenho que desviar o olhar, as

bochechas em chamas.

— Ahn, com licença, rapazes, vocês têm que acordar agora.

Seb dá uma risada.

— Certo, você quer acordar os caras com essa sua vozinha. Ei! Galera!

Acordem, porra!

Levo um susto com o grito de Seb, mas nenhum dos padrinhos move sequer um músculo.

— Será que estão vivos?

Seb assente, cutucando a perna de um dos padrinhos com o sapato. O rapaz resmunga qualquer coisa antes de voltar a dormir. Dentro do banheiro de mármore, Tom Cruise Sutopo se encontra em semelhante estado. É um banheiro perfeito para o Pinterest: há mármore polido em toda parte e uma banheira luxuosa atrás de um enorme janelão com vista para os jardins do hotel. Dou um tapinha delicado na bochecha de Tom. Ele resmunga, mas não se mexe.

— Você precisa canalizar sua tia asiática interior e dar um grito que vai deixar sua mãe orgulhosa.

— Rá! Acho que dá para contar nos dedos o número de vezes que levantei a voz. — Provavelmente é o resultado de ter sido criada por mulheres tão barulhentas. Tenho uma aversão natural a vozes excessivamente altas. — Faça isso você, Seb. Por favooor.

Seb suspira, limpa a garganta e grita alto o suficiente para fazer meus ouvidos zumbirem. Tom se mexe, pisca algumas vezes e cai no sono de novo. Estou prestes a pedir que Seb grite de novo quando, pela janela, um movimento capta minha atenção.

Pu. Ta. Mer. Da.

A Grande Tia, Ma e a Quarta Tia estão empurrando o cooler, cambaleando pelo gramado caro, e — ai, meu Deus — a tampa do cooler deve ter aberto alguma hora sem elas perceberem, porque uma porra de uma mão está para fora.

— AI, MEU DEUS! — grito.

Tom acorda com um susto.

— O q-quê? — fala com a voz esganiçada, piscando e olhando ao redor. —

Minha cabeça.

— Bom trabalho! Sabia que tinha uma tia asiática dentro de você — diz Seb, levantando a palma da mão para bater na minha, mas passo por ele correndo e vou até a porta. — Aonde você vai? Ainda tem que acordar os padrinhos.

— É só jogar água neles. Tenho que ir. — Saio em disparada pelo corredor, segurando minha preciosa câmera e a bolsa onde a carrego, para elas não quicarem muito. Meu coração bate com força, martelando meus ouvidos. Quando alcanço minha mãe e minhas tias, estou tão ofegante que sinto que sou capaz de vomitar meus pulmões.

— Meddy, ah, que bom — diz Ma, alegre. — Pegue aquela ponta e levante.

— O que vocês estão fazendo? — meio sussurro, meio grito. — A mão dele está para fora! — Ergo a tampa do cooler de leve e empurro a mão de Ah Guan de volta para dentro. Só então me dou conta de que acabei de tocar no cadáver. Um tremor percorre todo o meu corpo.

Ma, a Grande Tia e a Quarta Tia arregalam os olhos.

— Ops — murmura Ma depois de um segundo.

— Deve ser quando passamos por cima de montinho — diz a Grande Tia.

— Mas por que vocês estão carregando o cooler agora? — grito.

— A geladeira ficando cheia demais, gente entrando e saindo, entrando e saindo. Acho que não é seguro lá — responde a Grande Tia.

— E, como somos três, achamos que conseguimos carregar caminho todo até cais, sem problema — explica Ma.

Pisco. Sem problema? A versão delas para “sem problema” é lutar com o cooler o caminho todo até o cais com essa maldita mão despontando para fora? Pensar no que poderia ter acontecido se eu não as tivesse visto pela janela quase faz meus

joelhos cederem. E quem sabe quantas pessoas as viram?

— Sim, somos três, não precisa de Segunda Tia — diz a Grande Tia.

Dentro de mim, uma ficha cai. Isso. Isso aqui é o motivo real por que a Grande Tia chamou Ma e a Quarta Tia para deslocarem o cooler agora, justo agora. Porque a Grande Tia quer provar que a Segunda Tia não é necessária. Só posso imaginar o olhar presunçoso no rosto da Grande Tia quando a Segunda Tia descobrir que resolvemos tudo sem a ajuda dela. A Grande Tia vai ficar tipo “Está vendo? Posso lidar com problema muito bem, não precisa se preocupar”. E a Segunda Tia, por dentro, vai ficar tipo “Vai se foder”, mas no exterior vai ter que sorrir e parabenizar a Grande Tia por um trabalho bem-feito. Não acredito que a rivalidade entre minhas tias está pondo em risco nossa chance de nos safarmos desse assassinato.

— Enfim, agora que você aqui, podemos levar corpo até cais com certeza — diz Ma. — Ayo, cepat. Rápido!

Olho as horas. Ainda temos vinte minutos antes de a Segunda Tia terminar o cabelo e a maquiagem da noiva. Jacqueline é um amor, mas não vai gostar nada se eu deixar de fotografá-la enquanto ela se prepara. Por outro lado, uma noiva decepcionada é muito melhor do que ser presa por descobrirem que você tem um cadáver dentro de um cooler. E agora que já estamos aqui, voltar para a cozinha vai dar o mesmo trabalho. É melhor acabar com essa tarefa agora.

Com um resmungo de frustração, pego um canto do cooler. Erguemos o objeto ao mesmo tempo, e o cooler sai do chão. Caminhamos o mais rápido possível. A cada passo os músculos do meu ombro queimam e minhas coxas soltam espasmos e me imploram para parar.

Parece que levamos uma eternidade até avistarmos o cais, e quase brado de alegria com a visão daqueles barcos ancorados.

— Senhoras — fala o organizador das travessias quando nos aproximamos. —

Posso ajudá-las?

Pousamos o cooler delicadamente. Eu me viro para ele.

— Precisamos (ofegando) pegar (ofegando) um barco (ofegando) de volta para Los Angeles.

— Certamente, subam.

— Ah, obrigada, obrigada. — Minha família e eu nos entreolhamos de modo entusiasmado e tornamos a levantar o cooler.

— Opa, opa, o que é isso? — pergunta ele. Que babaca. Ele tinha visto que estávamos carregando o cooler até o píer, mas esperou que o erguêssemos de novo antes de perguntar. Babaca.

— Ah, suprimentos de confeitaria. Minha tia é a confeiteira, e precisamos levar esse material de volta para a confeitaria. Não tem muito espaço sobrando na cozinha.

Os olhos do homem se estreitam.

— Ah. São do bufê — desdenha ele. — Sinto muito, mas esse barco é só para convidados.

Nós o encaramos.

— É uma pergunta? — questiona a Quarta Tia.

— Não? Quer dizer, tipo, é só para convidados. Ponto final.

— Tecnicamente, não faço parte do bufê — diz a Quarta Tia, jogando o cabelo para trás. — Sou a estrela do espetáculo.

— Ah, é? Não sei quem é você… — Ele estreita os olhos como se estivesse tentando descobrir quem é ela.

— Por que você não pergunta ao seu chefe quem sou eu…?

— Não, espera, tudo bem, por favor, não esquenta! — digo rapidamente. Se Nathan ouvir falar mais uma vez que minha família e eu estamos lidando com o cooler, com certeza vai ficar desconfiado. — Vamos só armazenar isso na cozinha.

Obrigada!

O organizador dos barcos nos dá o sorriso mais fingido do ano e volta a digitar em seu iPad.

— Kenapa? — diz a Grande Tia, e lhe lanço um olhar que significa “Mais tarde”. Com dificuldade, voltamos do cais com o cooler e, quando paramos para tomar um pouco de fôlego, conto a elas sobre como Nathan tinha me visto empurrando o cooler com a Quarta Tia, e como ele definitivamente ia achar estranho estarmos tentando carregar o mesmo cooler de novo.

— Ah, sim, aquele rapaz simpático. . — diz a Quarta Tia, abrindo um largo sorriso. — É verdade, Meddy. Tinha me esquecido dele. — Ela arqueia as sobrancelhas.

Ma alterna o olhar entre mim e a irmã.

— O quê? O que foi?

— Nada! — respondo apressada.

A Quarta Tia arqueia as sobrancelhas de novo.

— Óbvio que não é nada. O que é? Por que você não pode contar à sua mama?

Minha mãe franze a sobrancelha, aparentemente magoada porque estou escondendo alguma coisa dela.

— Aiyo, San Jie, se sua filha não se sente confortável de compartilhar algum segredo, você não deve forçar. Talvez seja por isso que Meddy não quer te contar essas coisas — diz a Quarta Tia.

Ai, por FAVOR! Essas rivalidades entre irmãs vão me matar. Além do mais, conto uma porção de coisas para Ma. Certo, sim, de fato escondi um relacionamento de três anos, mas é diferente. Todo o resto eu conto para ela. Sou tão próxima dela quanto uma filha pode ser. Sou a boa filha, lembram? Tenho vontade de gritar. Fiquei para trás enquanto todos os outros foram embora. Então, talvez eu não conte tudo para elas, mas o que mais elas querem de mim?

— Não é nada! Só que ele é uma pessoa que eu já conhecia. O que importa é que temos problemas maiores agora. — Aponto para o cooler. — Não acham que devemos nos concentrar nisso?

— Sim, Meddy tem razão, vocês duas podem conversar sobre onde você falhou

como mãe mais tarde — diz a Quarta Tia.

Pelo amor de Deus.

— Ma, não guardo segredos da senhora, sabe disso. — Exceto Nathan.

Literalmente o ÚNICO segredo que guardei dela. Quer dizer, até contei que matei Ah Guan. Isso tem que valer alguma coisa.

Ma não me encara nos olhos.

— Eu faço tudo para você, e é assim que me retribui? Begitu ya? O que fiz para merecer filha tão ingrata?

E aqui vamos nós.

— Agora não é a hora.

— E quando vai ser hora?

— Depois de nos livrarmos do cara que eu matei! — Ah, meu Deus. Eu não queria falar tão alto. Mas, sério, ninguém me deixa mais louca do que Ma e minhas tias. Todas olhamos em volta para ver se alguém escutou, mas, para nossa sorte, o local está relativamente deserto. — Por favor, Ma, vamos deixar isso para depois?

Eu te conto tudo mais tarde, prometo. Quero muito te contar, Ma, de verdade, mas, por enquanto, vamos nos concentrar em resolver essa trapalhada, ok?

Com um suspiro, Ma relaxa os ombros.

— Tudo bem — sussurra. — Para onde levamos cooler agora? De volta para geladeira?

A Grande Tia balança a cabeça.

— Não, tem gente demais. O chef principal está enlouquecendo todo mundo, pessoas correndo para dentro e para fora da geladeira, procurando aqui e ali, trufa lah, alecrim lah, isso e aquilo, só questão de tempo até alguém abrir cooler.

Meu celular apita com uma mensagem de texto.

Seb [10:43]: Tem vômito demaaais rolando aqui agora. Podemos trocar de lugar, por favor?

Meddy [10:44]: Troco de lugar com você depois. Agora estou no meio de

uma coisa.

Seb [10:45]: Você não está na suíte da noiva?? Cadê vc?? Ela não vai gostar nada se você não fotografar a hora que ela colocar o véu!

Meddy [10:46]: É uma emergência. Pensando bem, você pode assumir meu lugar? Vá tirar fotos da noiva, já que pelo jeito não vai conseguir nada de bom aí com o noivo.

Seb [10:47]: Você é quem pensa, estou conseguindo cliques fantásticos do noivo e seus padrinhos patetas.

Ele envia a foto de um cara com a cabeça na privada. Atrás, outro cara está tomando banho, inteiramente vestido.