Disque T para titias
Capítulo 26
(Ou tenta, pelo menos. É difícil porque tem
um cadáver e tudo o mais.)
26
Não vou gritar. Não vou. Está tudo bem. Não é um problema de forma nenhuma.
Sim. Posso lidar com isso. Quem não tem condições de lidar com um probleminha como a porra de um cadáver apoiado no altar como um fantoche macabro na frente de duas mil pessoas?
Estou ótima. Ó-ti-ma.
Acho que vou vomitar. Ou desmaiar. Ou entrar em combustão espontânea. O
que diabos está acontecendo? Por que o levaram para fora?
Examino os dois padrinhos que seguram Ah Guan. Como estou a apenas poucos metros deles, posso ver que, atrás dos óculos escuros, eles estão bêbados pra cacete. Todos os doze padrinhos. Estão cambaleando e dando risadinhas e apontando em direções aleatórias, e nenhum deles parece saber o que diabos está acontecendo. Será que o absinto pode causar um efeito tão forte assim nas pessoas?
Qual foi a quantidade que a Quarta Tia lhes deu?
O suor escorre pela minha nuca. Preciso fazer alguma coisa. Aqueles caras não vão ficar de pé por muito tempo e, quando eles caírem, não dá para saber o que vai acontecer com o corpo de Ah Guan. Olho em volta e tento captar o olhar da cerimonialista sem chamar muita atenção para mim, mas é inútil; ela está atrás da multidão, supervisionando os vários membros da equipe, provavelmente coordenando a entrada da comitiva da noiva com o tempo da música.
— E agora, aqui está ele — exclama o apresentador, voltando ao seu ritmo após a interrupção dos padrinhos —, o homem da vez, o lindo noivo, Tom Cruuuuuise
Sutopo!
Deixando meu pânico de lado, levanto minha câmera e registro os momentos em que Tom ginga pelo corredor com um sorriso presunçoso. Toda vez que aperto o botão para tirar uma foto, me dá uma vontade histérica de rir. Por que ainda me preocupo em fazer meu trabalho? Há literalmente um cadáver no altar! As coisas provavelmente não podem ficar piores do que já estão. Ainda assim, de alguma maneira, continuo tirando foto atrás de foto, até mesmo ajustando a velocidade do obturador entre elas. Aqui Tom está parecendo presunçoso; aqui outra de Tom parecendo ainda mais presunçoso; e uma terceira de Tom, bonito em seu terno, mas também presunçoso. E o tempo todo, o corpo de Ah Guan está a apenas alguns metros de mim. É como se eu pudesse sentir o frio de sua aura subindo pelas minhas costas. Preciso continuar me controlando para não virar a cabeça e olhar para ele.
À medida que Tom se aproxima do altar, seu sorriso vacila. Ah. Ele avistou os padrinhos. Ele tenta ao máximo manter o sorriso superior no rosto, mas seus olhos faíscam quando ele percebe os smokings amarrotados, os óculos escuros e a falta de equilíbrio. Ele assume seu lugar perto dos padrinhos.
— Que merda é essa, caras? — indaga ele, os lábios ainda esticados em um sorriso falso. — Sério, que merda é essa?
O padrinho perto de Tom se vira para encará-lo, a boca aberta. Demora alguns momentos para que seu cérebro aparentemente volte a funcionar.
— Onde? — retruca ele.
— Inacreditável — murmura Tom. — Vocês estão encrencados demais.
Engulo em seco. Tom só está separado do corpo de Ah Guan por sete padrinhos. Ele está tão perto. Quando se inclina para a frente para olhar a fila bagunçada dos padrinhos, meu coração se aperta e por pouco não desmaio. Mas tudo o que Tom faz é rir com desdém e balançar a cabeça para eles antes de se endireitar novamente.
A música abaixa até fazer uma pausa, e o apresentador diz:
— E agora, senhoras e senhores, vamos saudar a comitiva da noiva! — Começa a tocar o “Cânone em Ré Maior”, de Pachelbel, e a primeira madrinha entra.
Com todos os olhos nela, sou a única que avista a cabeça do primeiro padrinho balançando de leve para baixo e depois sacudindo para cima novamente. Ah, não.
Parece que ele está quase dormindo.
Eu me aproximo mais de Tom. Quando estou a uma distância mínima dele, digo:
— Tom, acho que precisamos dispensar seus padrinhos.
Ele me encara como se eu fosse uma mosca irritante e debocha.
— Certo, e ficar sem padrinho nenhum no meu casamento como a porra de um fracassado? Nem pensar.
— Olhe para eles. Eles mal conseguem ficar de pé. — Aceno com a cabeça para os padrinhos. Pelo menos três deles estão se balançando de forma mais acentuada.
Merda, um deles está escorando Ah Guan. Se ele cair… — Se eles caírem, vai ser um papelão — sibilo, minha voz aumentando de pânico. — Vai estragar tudo! —
Como a minha vida, por exemplo.
Um lampejo de insegurança cruza o rosto de Tom, mas então ele ergue o queixo, a mandíbula rígida de uma maneira teimosa, e diz:
— Se esses merdas caírem, vou processar todos eles.
“Processar”? Como essa cabecinha distorcida funciona? Processar os próprios amigos? Quer dizer, claro, de seu ponto de vista, os amigos pisaram feio na bola, mas, mesmo assim, não vale a pena continuar batendo nessa tecla e arruinar o próprio casamento. É tipo jogar pedra no próprio telhado. E também, com uma ponta de remorso, me ocorre que nem é muito culpa dos padrinhos. Foi a Quarta Tia que os deixou bêbados e fora de si. Preciso consertar isso, mas como? Pego o celular e digito o número da cerimonialista.
— Uma salva de palmas para nossas lindas madrinhas — anuncia o
apresentador, sua voz carregada de um óbvio alívio por nenhuma das madrinhas, até então, parecer bêbada.
— Alô? Meddelin? — atende a cerimonialista. — O que foi? Você não está tirando…
— Precisamos tirar esses padrinhos do altar.
Ela suspira.
— Sim, eles parecem estar bêbados mesmo, esses merdas. Mas não sei como fazer isso sem parar tudo.
A quarta madrinha já está atravessando o corredor. Estou ficando sem tempo.
— Peça ao apresentador para anunciar, faça parecer que o planejado sempre foi ter só a noiva e o noivo no altar. Ele pode falar, tipo: “E agora a comitiva dos noivos sairá para que o casal possa ficar com o altar só para eles.”
— Hum. Isso pode funcionar. É. Boa ideia. Vou falar com ele. Meu Deus, aqueles filhos da puta, eles parecem prestes a cair. — Ela desliga e solto a respiração. Por favor, por favor, isso tem que funcionar. Que os padrinhos consigam se segurar por tempo suficiente para sair do altar. Claro, quando eles saírem, não tenho ideia do que vai acontecer com Ah Guan, mas um passo de cada vez.
Quando a última madrinha toma seu lugar no altar, há um silêncio de expectativa. Nos casamentos sino-indonésios, na hora em que a cerimônia começa, o noivo e os membros próximos da família já viram a noiva, mas o resto dos convidados não. O apresentador grita:
— É agora! O momento que todos aguardavam! Aí vem nossa linda noiva, Jacqueline Wijaya!
Todos soltam suspiros de admiração conforme Jacqueline, acompanhada pelos pais, faz a curva e caminha graciosamente pelo corredor. Ela parece a rainha das fadas. Seu vestido esvoaça com delicadeza ao vento, dando-lhe um visual etéreo, e, atrás do véu de renda pura, seu rosto está radiante. Mas, quando dou zoom e tiro fotos dela, vejo que seu sorriso é forçado e seu queixo treme ligeiramente. Tante
Yohana fala alguma coisa para ela, e ela assente de leve.
A distância, posso ver a cerimonialista correndo até o apresentador e lhe sussurrando alguma coisa. Ele franze a testa e balança a cabeça. Meu coração se aperta. O homem se recusa a dar o aviso para a comitiva dos noivos deixar o altar. A cerimonialista fala alguma outra coisa, gesticulando freneticamente, e o apresentador mira o altar, encolhendo-se quando seu olhar pousa nos padrinhos. Jacqueline chega, abraça os pais e depois se vira para encarar Tom, que sorri com malícia para ela.
— E aqui estamos nós, a noiva e o noivo! Ah, que lindo casal! — exclama o apresentador. — Antes de a cerimônia começar, por favor, peço que todos os padrinhos e madrinhas se retirem do altar para que a noiva e o noivo possam ter um pouco de privacidade?
Um murmúrio percorre a multidão de convidados, e Jacqueline e Tom se viram confusos.
— Que diabos está acontecendo? — pergunta Tom.
Ando até eles com o máximo de discrição e falo:
— Acho que é melhor. Os padrinhos estão mal. Você não quer que eles causem um escândalo durante a cerimônia.
Jacqueline arregala os olhos quando ela nota os padrinhos em seu completo desalinho.
— Ah, meu Deus. Sim, você está certa. Sim, diga para eles saírem.
— Não! — retruca Tom rispidamente. — Eles são MEUS padrinhos, eu decido o que fazer com eles, e eu digo para eles ficarem.
— Eles não são coisas, Tom — sussurra Jacqueline. — Olhe para eles, estão péssimos. Eles precisam se deitar. — Ela se inclina para a frente e levanta a voz: —
Sim, muito obrigada a todos vocês por estarem aqui. Ahn, a cerimônia vai ser bem longa, então vocês podem se sentar. — Ela gesticula para que as madrinhas também saiam.
As madrinhas começam a voltar para o corredor, mas os padrinhos continuam balançando em seus lugares até Jacqueline fazer um gesto com a cabeça para uma das madrinhas. Ela cruza o altar e pega o primeiro padrinho pela mão, aparentemente pretendendo guiá-lo pelo corredor.
— Não! Nenhum de vocês ouse sair daí — vocifera Tom, alto o suficiente para os convidados da frente escutarem. Eles se mexem e se entreolham, e o burburinho fica mais alto.
— Você não está sendo razoável — diz Jacqueline. — Continue — pede ela à madrinha —, tire eles daqui.
A madrinha faz o que a noiva falou, enlaçando o braço do padrinho com uma das mãos e segurando firme com a outra, cambaleando um pouco quando o padrinho balança e apoia boa parte de seu peso nela.
— Parem! — ordena Tom, mas é tarde demais. Todas as madrinhas, que obviamente o desprezam, se reuniram e estão ajudando os padrinhos a saírem. —
Não, esperem… ESPEREM!
Tudo acontece em câmera lenta. Vejo Tom estendendo o braço de forma desesperada, irritado, tentando segurar qualquer coisa que esteja ao seu alcance.
Vejo a cena se desdobrando bem devagar, como se ele estivesse se movendo embaixo d’água ou em um sonho. Ou em um pesadelo, melhor dizendo. Porque, naquele momento, o homem mais próximo de Tom é o padrinho número sete. Um dos caras que está mantendo Ah Guan em pé. Abro a boca, e dela sai um “Nãooo”, baixo e devagar e tarde demais.
Tom agarra o padrinho, empurrando-o para trás, e, em seu estado embriagado, o padrinho número sete tomba como um pino de boliche. O padrinho número seis, que está segurando o outro braço de Ah Guan, cai também, os pés tropeçando pelo altar até que ele cai em um mergulho teatral na piscina de borda infinita. Sem nenhum apoio, Ah Guan cai no chão como um tronco de madeira.
Vou vomitar. Isso é tão ruim… Isso é… Não pode estar acontecendo.
As pessoas estão gritando. Mais padrinhos caíram na água e… Ah, meu Deus, eles estão bêbados demais para nadar.
— Salvem os padrinhos! — grita alguém. Há mais gritos, mas não consigo entender nada. O mundo é um borrão de barulho e movimento.
Diversos convidados tiram o paletó e mergulham na água. Nathan vem correndo dos fundos, onde devia estar, supervisionando o evento. Seus seguranças avançam na frente dele e pulam dentro da água.
A realidade vem à tona novamente e percebo que, no caos, ninguém notou o corpo. Ah Guan ainda está caído, intocado, enquanto as pessoas escalam por todo lado. Essa é minha chance. Preciso tirá-lo de lá. Agarro o braço dele e não hesito nem um pouco. Coloco toda a minha força ali, e a adrenalina correndo pelas minhas veias me impulsiona para cima, para cima, para cima, e, antes que eu perceba, estou em pé. O braço de Ah Guan está caído em volta dos meus ombros. Seguro firme em sua cintura, sem nem mesmo fazer uma careta com o fato de estar carregando um homem morto, sem dar ao meu cérebro tempo para se desesperar, dou um passo adiante. E outro. Eu consigo fazer isso. Posso tirá-lo daqui.
— Ah, meu Deus, ele está completamente desmaiado — diz Jacqueline, correndo para a minha frente.
Não. Não, não.
— Está tudo bem! — grito.
— Deixa que eu ajudo.
Ela está buscando o outro braço de Ah Guan. Seus dedos roçam na mão dele. A mão fria, imóvel, morta. A expressão no rosto dela congela.
— Espera…