Dom Quixote - Parte II

Miguel de Cervantes · Capítulo 14 de 84

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Dom Quixote - Parte II

Capítulo IV

Em que Sancho Pança satisfaz ao bacharel Carrasco, acerca das suas dúvidas e perguntas, com outros sucessos dignos de

se saber e de se contar.

 

Voltou Sancho a casa de D. Quixote, e, tornando à mesma

palestra:

— Visto que o senhor Sansão disse desejar saber quem me

furtou o jumento, e como e quando, respondo que na mesma

noite em que, fugindo à Santa Irmandade, nos internamos na

Serra Morena; depois da desventurada aventura dos galeotes e

da do defunto que levavam a Segóvia, eu e meu amo metemo-

nos por uma espessura, onde meu amo, arrimado à sua lança, e

eu em cima do meu ruço, moídos e cansados das passadas

refregas, nos pusemos a dormir como se estivéssemos em

cima de quatro colchões de plumas, eu especialmente com

sono tão pesado, que quem quer que foi pôde chegar-se a mim,

amezendar-me em cima de quatro estacas, que pôs aos quatro

cantos da albarda, de forma que me deixou a cavalo nelas, e

tirou debaixo de mim o burro, sem eu o sentir.

— Isso é coisa fácil de acontecer, e não caso novo, que o

mesmo sucedeu a Sacripante, quando, estando no cerco de

Albraca, o famoso ladrão Brunelo, com essa mesma invenção,

lhe tirou o cavalo debaixo das pernas.

— Amanheceu — prosseguiu Sancho — e apenas acordei, logo,

escapando-me as estacas, dei comigo no chão. Procurei o

jumento e não o vi. Vieram-me as lágrimas aos olhos, fiz uma

lamentação, que, se a não pôs no livro o autor da nossa história

se pode gabar de que lhe faltou uma coisa boa deveras. Ao

cabo de não sei quantos dias, vindo eu com a senhora princesa

Micomicoa, conheci o jumento, e que vinha montado nele,

vestido de cigano, aquele Gines de Passamonte, aquele

embusteiro e grandíssimo patife, que eu e meu amo tiramos da

grilheta.

— Não está aí o erro — tornou Sansão — mas sim em que,

antes de ter aparecido o jumento, diz o autor que ia Sancho

montado no mesmo ruço.

— A isso — disse Sancho — não sei que hei-de responder,

senão que o historiador se enganou, ou talvez fosse descuido

do impressor.

— Sem dúvida assim é — tornou Sansão — mas, dizei-me: que

foi feito dos cem escudos?

— Desfizeram-se — respondeu Sancho; — gastei-os em prol da

minha pessoa, e da de minha mulher e dos meus filhos, e foi

por causa deles que minha mulher enguliu as caminhadas que

dei em serviço de meu amo o senhor D. Quixote, que, se ao

cabo de tanto tempo eu voltasse para casa a tinir, e sem o jumento, negra sorte me esperava; e, se querem mais saber de

mim, aqui estou para responder ao próprio rei em pessoa, e

ninguém tem nada com o eu ter trazido ou não ter trazido, ter

gasto ou não ter gasto; se as pauladas que apanhei nessas

viagens se houvessem de pagar a dinheiro, ainda que só se

taxassem a quatro maravedis cada uma, estou convencido que

nem com outros tantos escudos me pagariam metade, e metam

a mão na sua consciência, e não comecem a chamar preto ao

branco, e branco ao preto; cada qual é como Deus o fez, e

muitas vezes ainda pior.

— Eu terei cuidado — disse Carrasco — de acusar ao autor da história, que, se outra vez a imprimir, não lhe esqueça isto que

disse o bom do Sancho, que será realçá-la bastante acima do

que está.

— Há mais alguma coisa que precise de emenda nesse livro? —

perguntou D. Quixote.

— Sim, deve haver — respondeu o bacharel — mas nenhuma

decerto da importância das referidas.

— E porventura — disse D. Quixote — promete o autor dar à luz

uma segunda parte?

— Sim, promete — respondeu Sansão — mas diz que não a

encontrou nem sabe quem a tem, e assim estamos em dúvida

se sairá ou não. E por isto, e porque dizem alguns que nunca

saíram boas as segundas partes, e outros que das coisas de D.

Quixote bastam as que estão escritas, suspeita-se que não se

escreverá, apesar de haver gente jovial que diz: Venham as

quixotadas! invista D. Quixote, e fale Sancho Pança, e seja o

que for, que com isso nos contentamos.

— E o autor o que resolve? — perguntou D. Quixote.

— Que em encontrando a história, que procura com

extraordinária diligência, logo a dará à estampa, levado mais

pelo interesse, que disso lhe resulta, do que pela esperança de

quaisquer louvores.

— Ao dinheiro e ao interesse mira o autor — disse Sancho; —

será maravilha que acerte, porque não fará senão alinhavar,

alinhavar, como alfaiate em véspera da Páscoa, e obras

aldrabadas à pressa nunca se acabam com a perfeição que

requerem. Veja o que faz esse senhor mouro, ou quem é, que

eu e meu amo lhe daremos tanta obra em matéria de aventuras

e de sucessos diferentes, que possa compor não só segunda

parte, mas mais cem. Deve pensar o bom do homem, sem dúvida, que estamos a dormir; pois venha bater-nos os cravos na ferradura, e verá se temos cócegas. O que sei dizer é que, se

meu amo tomasse o meu conselho, já devíamos de estar por

esses campos, desfazendo agravos e tortos, como é uso e

costume dos bons cavaleiros andantes.

Ainda Sancho não acabara bem de dizer estas razões, quando

chegaram aos seus ouvidos relinchos de Rocinante, o que

tomou D. Quixote por felicíssimo agouro, e resolveu fazer daí a

três ou quatro dias outra saída; declarando o seu intento ao

bacharel, pediu-lhe que lhe aconselhasse por onde havia de

começar a sua jornada, e o bacharel respondeu-lhe que era de

parecer que fosse ao reino de Aragão, à cidade de Saragoça,

onde, daí a poucos dias, se haviam de fazer umas soleníssimas

justas para a festa de S. Jorge, nas quais poderia ganhar fama

sobre todos os cavaleiros aragoneses, que seria ganhá-la sobre

todos os cavaleiros do mundo.

Louvou-lhe a sua resolução, como valentíssima e

honradíssima, e advertiu-lhe que andasse mais atento no

acometer dos perigos, porque a sua vida não lhe pertencia, mas

sim aos que dele haviam mister, para que os amparasse e

socorresse nas aventuras.

— Disso é que eu arrenego, senhor Sansão — disse então Sancho — que meu amo acometa com cem homens armados,

como um rapaz guloso com meia dúzia de peras. Corpo do

mundo, senhor bacharel, há ocasiões para acometer e ocasiões

para retirar, e não é lá estar sempre com Santiago cerra, e Espanha! E

demais, ouvi dizer, creio até que ao meu senhor, se bem me

lembro, que entre os extremos de cobarde e de temerário está o

meio termo da valentia, e, se isto assim é, não quero que fuja

sem haver de que, nem que acometa quando a boa razão outra

coisa pede, mas sobretudo, aviso a meu amo que, se tenciona

levar-me consigo, é com a condição de que há-de ele combater,

e eu não serei obrigado a outra coisa senão a cuidar da sua

pessoa, no que tocar ao seu asseio e ao seu regalo, que lá

nisso eu lhe deitarei água às mãos; mas pensar que hei-de

desembainhar a espada, ainda que seja contra vilãos

malandrins, é completamente escusado. Eu, senhor Sansão,

não cuido em granjear fama de valente, mas sim do melhor e

mais leal escudeiro que nunca serviu a um cavaleiro andante, e

se meu amo, o senhor D. Quixote, obrigado pelos meus largos

e bons serviços, me quiser dar alguma ilha das muitas que Sua Mercê diz que há-de topar por aí, receberei nisso grande mercê,

e se não ma der, paciência! E demais, talvez melhor ainda me

saiba o pão, sendo desgovernado, que sendo governador; sei

lá porventura se nesses governos não me tem aparelhada o diabo alguma armadilha em que eu tropece e caia, e quebre os

queixos? Sancho nasci, e Sancho hei-de morrer. Mas se, com

tudo isso, às boas, sem cuidado nem risco, me deparasse o céu alguma ilha, ou outra coisa semelhante, não sou tão néscio que a largue, que também se diz: a cavalo dado não se olha o dente,

e mais vale um pássaro na mão que dois a voar.

— Falastes, Sancho mano — disse Sansão — como um

catedrático; confiai em Deus e no senhor D. Quixote, que vos

há-de dar um reino, e não uma ilha.

— Tanto é o de mais como o de menos — respondeu Sancho —

ainda que sei dizer ao senhor Carrasco que não deitaria em

saco roto meu amo o reino que me desse, que eu tomei o pulso

a mim próprio, e acho-me com saúde para reger reinos e

governar ilhas; e isto já por outras vezes lho tenho dito a ele.

— Reparai, Sancho — tornou Sansão — que os ofícios mudam

os costumes, e poderia ser que, vendo-vos governador, não

conhecêsseis a mãe que vos deu à luz.

— Isso é bom para os que nasceram filhos das ervas —

respondeu Sancho — e não para os que têm na alma quatro

dedos de enxúndia de cristão velho, como eu tenho; nada, eu

cá não sou desagradecido.

— Nosso Senhor dirá quando o governo há-de vir — tornou D.

Quixote — que já me parece que o trago diante dos olhos.

Dito isto, rogou ao bacharel que, se era poeta, lhe fizesse mercê

de lhe compor uns versos que tratassem da despedida que

tencionava fazer à sua dama Dulcinéia del Toboso, e que

reparasse que no princípio de cada verso havia de pôr uma

letra do seu nome, de modo que, no fim dos versos, juntando-

se as primeiras letras, se lesse Dulcinéia del Toboso.

O bacharel respondeu que, ainda que não era dos famosos

poetas que havia em Espanha, que diziam que eram só três e

meio, não deixaria de compor os tais metros, apesar de não

serem fáceis, porque as letras que formavam o nome eram dezessete, e se fizesse quatro quadras sobrava uma letra e se

fossem quatro redondilhas em cinco versos, faltavam três;

contudo isso procuraria sumir uma letra o melhor que pudesse,

de modo que nas quatro quadras castelhanas se incluísse o

nome de Dulcinéia del Toboso.

— Assim há-de ser em todo o caso — disse D. Quixote — que,

se o nome não for patente e manifesto, não é mulher que

acredite que para ela se fizesse os versos.

Nisto ficaram, e em que a partida seria dali a oito dias. Pediu D

Ouixote ao bacharel que a conservasse em segredo,

especialmente para o cura, para mestre Nicolau, para sua

sobrinha e para a ama, a fim de que não estorvassem a sua

honrada e valorosa determinação. Carrasco tudo prometeu, e

com isto se despediu, pedindo a D. Quixote que lhe desse

conta, sempre que lhe fosse possível, de tudo quanto lhe

sucedesse, bom ou mau. E assim se despediram, e Sancho foi

pôr em ordem tudo o que era necessário para a sua jornada.