Dom Quixote - Parte II

Miguel de Cervantes · Capítulo 54 de 84

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Dom Quixote - Parte II

Capítulo XLIV

De como Sancho Pança foi levado para o governo, e da estranha aventura que sucedeu no castelo a D. Quixote.

 

Dizem que se lêem no original desta história (que o intérprete

de Cid Hamete não traduziu este capítulo como o autor o

escrevera), queixas do mouro contra si mesmo, por ter tomado

a tarefa de narrar uma história tão seca como esta de D.

Quixote, sendo como que obrigado a estar sempre a falar nele e

em Sancho, sem ousar estender-se a outras digressões e

episódios mais graves e mais entretidos; e dizia que escrever

sempre num só assunto e falar pela boca de poucas pessoas

era um trabalho insuportável, que não redundava em proveito

do seu autor; e que por fugir deste inconveniente usara na

primeira parte do artifício de algumas novelas, como foram o

Curioso impertinente e o Capitão cativo, que estão separadas da

história, ainda que as outras que ali se contam são casos

sucedidos ao próprio D. Quixote, e que não podiam deixar de

se escrever. Também pensou que muitos, levados pela atenção

que pedem as façanhas de D. Quixote, não a dariam às novelas, e as leriam, ou com pressa, ou com enfado, sem reparar na gala e no engenho que revelam e que bem se mostrarão quando, por

si sós, e sem se encostarem às loucuras de D. Quixote, nem às

sandices de Sancho, vierem à luz; e assim, nesta segunda parte

não quis inserir novelas, nem soltas nem pegadas, mas apenas

alguns episódios que lhe parecessem nascidos dos próprios

sucessos que a verdade oferece, e estes ainda limitadamente, e

só com as palavras que bastam para os referir: e visto que se

contém e encerra nos estreitos limites da narração, tendo habilidade, suficiência e entendimento para tratar do universo todo, pede que se não despreze o seu trabalho, e se lhe dêem

louvores, não pelo que escreve, mas pelo que deixa de

escrever.

E prossegue a história, dizendo que logo que D. Quixote

acabou de jantar, no dia em que deu os conselhos a Sancho,

tratou de lhos ir pôr em escritura, para que ele procurasse

quem lhos lesse; mas, apenas lhos deu, caíram no chão e vieram parar às mãos do duque, que os mostrou à duquesa e

ambos de novo se admiraram da loucura e do engenho de D.

Quixote; e assim, levando por diante as suas burlas, naquela tarde mandaram Sancho com muito acompanhamento para a

povoação, que havia de representar para ele o papel de ilha.

Aquele que o levava a seu cargo era um mordomo do duque,

homem mui discreto e gracioso — que não pode haver graça

onde não há discrição; e era o mesmo que representara o papel

de condessa Trifaldi, com o donaire que se referiu.

Com isto, e com o ter sido industriado por seus amos, a respeito do modo como havia de proceder com Sancho,

realizou o seu intento maravilhosamente; mas, assim que

Sancho viu o tal mordomo, pareceu-lhe que o seu rosto era o

mesmo que o da Trifaldi, e, voltando-se para seu amo, disse-

lhe:

— Senhor, ou a mim me há-de levar o diabo daqui donde estou,

ou Vossa Mercê me há-de confessar que este mordomo é tal

qual a Dolorida.

Mirou D. Quixote atentamente o mordomo e, depois de o mirar,

disse para Sancho Pança:

— Escusa o diabo de te levar, que efetivamente o rosto da Dolorida se parece imenso com o do mordomo; mas nem por

isso o mordomo é a Dolorida, o que seria uma contradição

enorme; e agora não temos tempo de fazer essas averiguações,

para não entrarmos em intrincados labirintos. Acredita, amigo,

que é necessário rogar com todas as veras da nossa alma a

Nosso Senhor, que nos livre a ambos de maus feiticeiros e de

maus nigromantes.

— Isto não é brincadeira, senhor meu amo — redarguiu Sancho

Pança — que o ouvi falar há pedaço, e a voz dele pareceu mesmo a da condessa Trifaldi. Ora bem, eu calo-me, mas não

deixarei de andar daqui por diante muito alerta, a ver se

descubro outro sinal, que confirme ou desfaça as minhas

suspeitas, que me parece não são infundadas.

— Assim deves fazer, Sancho — disse D. Quixote — e avisar-

me-ás de tudo o que neste caso se descobrir e de tudo o que te

suceder no governo.

Saiu, enfim, Sancho, acompanhado de muita gente, vestido à

moda dos letrados, e por cima da roupa um gabão muito largo

de chamelote cor de pele de leão, com um gorro da mesma

fazenda, montado num macho à gineta, e atrás dele, por ordem do duque, ia o ruço, com jaezes e ornatos burricais flamantes e

de seda. Voltava Sancho a cabeça de quando em quando para ver o seu jumento, cuja companhia o contentava tanto, que se

não trocaria pelo imperador da Alemanha.

Ao despedir-se dos duques, beijou-lhes as mãos e tomou a

bênção de seu amo, que lha deu com lágrimas e Sancho

recebeu-a com umas caretas de enternecimento.

Deixa, leitor amável, ir em paz e em boa hora o bom Sancho, e

espera duas fanegas de riso, que te há-de render o saberes

como ele se portou no governo da sua ilha; e, entretanto,

vamos ver o que passou seu amo naquela noite, que também te

fará rir um pedaço.

Conta-se, pois, que, apenas Sancho partiu, sentiu D. Quixote a

sua soledade, e, se lhe fosse possível revogar a nomeação de Sancho, e tirar-lhe o governo, fá-lo-ia sem a menor hesitação.

Percebeu a duquesa a sua melancolia e perguntou-lhe por que

motivo estava triste: que se era pela ausência de Sancho, havia

em sua casa escudeiros, donas e donzelas com fartura, que o

serviriam muito a seu sabor.

— É certo, senhora minha — respondeu D. Quixote — que sinto

a ausência de Sancho, mas não é essa a causa principal que

por agora me entristece; e dos muitos oferecimentos que Vossa Excelência me fez, só aceito e agradeço o da boa vontade, e no

mais peço a Vossa Excelência que dentro do meu aposento

consinta e permita que eu só me sirva a mim próprio.

— Isso não pode ser assim, senhor D. Quixote — respondeu a

duquesa; — é forçoso que o sirvam quatro das minhas

donzelas, lindas como umas flores.

— Para mim — respondeu D. Quixote — não seriam flores, mas

espinhos que me pungiriam a alma. Não entram no meu

aposento nem mulheres nem coisa que o pareça, se Vossa

Excelência não mandar o contrário. Deixe-me levantar uma

muralha entre a minha honestidade e os meus desejos, e não

quero perder este costume, pela liberalidade com que Vossa

Alteza pretende honrar-me e favorecer-me. Enfim, prefiro

dormir vestido, a consentir que alguém me dispa.

— Basta! basta! senhor D. Quixote — acudiu a duquesa — por

minha vida que darei as mais apertadas ordens para que não

entre no seu quarto nem uma mosca sequer. Por minha culpa

não há-de ter nem o mais leve detrimento a decência do senhor

D. Quixote, que, segundo me dizem, a virtude que mais campeia

entre as muitas que o ornam é a da castidade. Dispa-se Vossa

Mercê, e vista-se sozinho e à sua vontade, como e quando

quiser, que não haverá quem lho impeça, porque dentro do seu

aposento achará tudo o que lhe pode ser preciso, e que

dispense de abrir a porta, quando lá estiver. Viva mil séculos a

grande Dulcinéia del Toboso, e espalhe-se o seu nome por toda

a redondeza do globo, pois mereceu ser amada por tão valente e casto cavaleiro! e os benignos céus infundam no coração de

Sancho Pança, do nosso governador, um desejo de acabar

depressa com os seus açoites, para que o mundo torne a

desfrutar a formosura de tão excelsa senhora.

— Vossa Alteza — disse D. Quixote — falou como quem é, que

em boca das boas senhoras não há senhora má, e mais

venturosa e mais conhecida será Dulcinéia no mundo por

vossa grandeza a ter louvado, do que por todos os louvores

que lhe possam dar os mais eloqüentes escritores do mundo.

— Ora bem, senhor D. Quixote — redarguiu a duquesa —

aproxima-se a hora de cear, e o duque deve estar à espera:

venha Vossa Mercê e ceemos, e deite-se cedo, que a viagem de

Candaia que ontem fez não foi tão curta que o não moesse.

— Não sinto cansaço, senhora — respondeu D. Quixote — porque ousarei jurar a Vossa Excelência que nunca montei num

cavalo mais suave e de melhor andadura que Clavilenho, e não sei o que foi que levou Malambruno a desfazer-se de tão ligeira

e tão gentil cavalgadura, abrasando-a assim sem mais nem

mais.

— O que se pode imaginar é que, arrependido do mal que fizera

à Trifaldi e companhia, e das maldades que, como feiticeiro e nigromante, devia de ter cometido, quis dar cabo de todos os

instrumentos do seu ofício; e como o principal e o que mais

desassossegado o trazia, vagando de terra em terra, era

Clavilenho, incendiou-o, e com as suas abrasadas cinzas e com

o troféu do cartel fica eternizado o valor do grande D. Quixote

de la Mancha.

De novo D. Quixote agradeceu à duquesa e, depois de cear,

sozinho se retirou para o seu aposento, sem consentir que

ninguém entrasse com ele para o servir, tanto receava

encontrar ocasiões que o impelissem ou obrigassem a perder o

honesto decoro que guardava a Dulcinéia em sonhos, sempre

com a imaginação posta na bondade de Amadis, flor e espelho

dos cavaleiros andantes.

Fechou a porta para si e, à luz de duas velas de cera, despiu-se

e, ao descalçar-se, ó desgraça indigna duma pessoa como esta!

soltaram-se-lhe duas dúzias de pontos duma meia, que ficou

transformada em gelosia.

Afligiu-se muito o bom do fidalgo, e daria de bom grado uma

onça de prata para ter ali um novelo de seda verde, e digo de

seda verde, porque as meias de D. Quixote eram dessa cor.

Aqui exclamou Benengeli:

Ó pobreza! pobreza! não sei com que razão o grande poeta

cordovês se lembrou de te chamar dádiva santa que não é agradecida: eu, apesar de ser mouro, sei perfeitamente, pela comunicação

que tenho tido com cristãos, que a santidade consiste em caridade e humildade, fé, obediência e pobreza; mas, com tudo

isso, digo que se há-de parecer muito com Deus quem se

rejubilar em ser pobre, a não ser aquele gênero de pobreza a

que se refere um dos maiores santos do cristianismo: tende todas

as coisas como se as não tivésseis. E a isto se chama pobreza de

espírito. Mas tu, segunda pobreza (que é a de que eu falo) por que queres atacar os fidalgos e os de nobre nascimento, mais

do que a outra gente? Por que os obrigas a arremendar os

sapatos e a trazer nos gibões uns botões de seda e outros de

chifre, e outros de vidro? Por que hão-de andar sempre os seus

cabeções corridos a ferro e não engomados?

Mísero do bem-nascido que sacrifica tudo à sua honra: janta

mal e à porta fechada e sai para a rua com um palito hipócrita,

depois de não ter comido coisa que se lhe metesse nos dentes!

Mísero! continua Benengeli, mísero do que tem a honra

espantadiça e imagina que a uma légua de distância se lhe

descobre a tomba do sapato, o roçado do chapéu, o fio da capa

e a fome do seu estômago.

Tudo isto acudiu ao pensamento de D. Quixote ao ver as meias

rotas, mas consolou-se notando que Sancho lhe deixara umas

botas de viagem, que tencionou calçar no outro dia.

Finalmente, recostou-se pensativo e pesaroso, tanto pela falta

que Sancho lhe fazia, como pela irreparável desgraça das suas

meias, às quais tomaria os pontos, ainda que fosse com seda

de outra cor, o que é um dos maiores sinais de miséria que um

fidalgo pode dar na sua prolixa estreiteza.

Apagou a luz; o tempo estava quente e D. Quixote não podia

dormir; levantou-se do leito, abriu um pouco a janela que

deitava para um formoso jardim e, ao abri-la, sentiu que nesse

jardim andava gente a falar.

Pôs-se a escutar atentamente; levantaram a voz os passeantes,

tanto que pôde ouvir este diálogo:

— Não teimes comigo, Emerência, para eu cantar, porque sabes

perfeitamente que desde o momento em que este forasteiro

entrou no castelo, eu já não sei cantar, e não sei senão chorar,

tanto mais que o sono da minha senhora é levíssimo e não

quereria ser encontrada aqui nem que me dessem todos os

tesouros do mundo: e ainda que ela não despertasse, baldado

seria o meu canto, visto que dorme e não acorda para o ouvir

este novo Enéias, que chegou à minha pátria para me deixar

escarnecida.

— Não digas isso, Altisidora amiga — respondeu outra voz; —

decerto a duquesa e todas as pessoas de casa dormem, menos

o senhor do teu coração e o despertador de tua alma, porque

senti agora mesmo que abriu a janela do seu quarto e está sem

dúvida acordado. Canta, minha pobre amiga, em tom brando e

suave e ao som da tua harpa e, se a duquesa nos sentir,

deitaremos a culpa ao calor que faz.

— Não é aí que bate o ponto, Emerência — respondeu Altisidora — o que eu não queria era que o meu canto

descobrisse o meu nome e fosse considerada, pelos que não

avaliam o que é o amor, donzela leviana; mas, venha o que vier,

melhor é a vergonha na cara, que a nódoa no coração.

E começou a tocar uma harpa suavissimamente.

Ouvindo isto, ficou D. Quixote pasmado, porque logo naquele

instante lhe acudiram à memória as infinitas aventuras,

semelhantes àquela, de reixas e de jardins, músicas, requebros e desvanecimentos, que lera nos seus livros de cavalaria. Logo

imaginou que alguma donzela da duquesa estava dele

enamorada e que a honestidade a forçava a ter oculto o seu

desejo.

Tremeu de ser rendido, mas tomou a firme resolução de se não

deixar vencer, e encomendando-se com o maior fervor à sua

dama Dulcinéia del Toboso, decidiu-se a escutar a música; e para fazer perceber que estava ali, deu um fingido espirro, com

que muito se divertiram as donzelas, que não desejavam outra

coisa senão que D. Quixote as ouvisse.

Afinada a harpa, Altisidora deu princípio ao seguinte romance:

Ó tu, que estás no teu leito

com lençóis de holanda fina,

dormindo bem regalado,

sem sentires a espertina,

cavaleiro o mais valente

que na Mancha se há gerado,

mais honesto e abençoado

que o ouro da Arábia ardente:

ouve uma triste donzela,

bem-nascida e mal lograda,

que na luz desses teus olhoa

a alma sente abrasada.

Achas desditas alheias,

quando buscas aventuras;

e de amor cruéis feridas

tu as dá, mas não as curas.

Dize-me, bravo mancebo,

(que Deus cumpra os teus desejos)

se te criaste na Líbia

ou em montes sertanejos.

Deram-te leite as serpentes?

Foram tuas amas bravias

as aspérrimas florestas

e o horror das serranias?

Mui bem pode Dulcinéia,

donzela sã e gorducha,

gabar-se de ter rendido

um tigre, fera machucha.

Por isso, será famosa

de Jarama até Henares,

de Pisuerga até Arlanza

e do Tejo ao Manzanares.

Eu trocava-me por ela,

e ainda em cima dava a saia

mais vistosa que eu possuo

de áureas franjas na cambraia,

Quisera estar nos teus braços,

ou prestar-te o bom serviço

de te sacudir a caspa,

de te coçar o toutiço.

Muito peço, não sou digna

de mercê tão levantada;

dá-me os teus pés, isso basta,

nem eu desejo mais nada.

Que prendas eu te daria!

escarpins de prata fina,

umas calças de damasco,

uns calções de bombazina;

muitas pedras preciosas,

finas pér’las orientais,

que, a não terem companheiras,

não contariam iguais!

Não mires dessa Tarpéia

este incêndio que me queima,

Nero manchego, que o fogo

avivas coa tua teima.

Menina sou, virgem tenra,

quinze anos não completei;

tenho catorze e três meses,

juro pela santa lei.

Não sou manca, não sou coxa,

não tenho um só aleijão,

meus cabelos cor de lírios,

’stando em pé, chegam-me ao chão.

A boca tenho aquilina,

tenho a penca abatatada;

os dentes são uns topázios!

vê que beleza afamada!

Sou pequenina, o que importa?

A minha voz, fresca e pura,

confessa que (se me escutas)

tem suavíssima doçura.

Conquistou minha alma ingênua

teu rosto que me enamora;

sou donzela desta casa,

e chamam-me Altisidora.

Aqui deu fim o canto da malferida Altisidora e começou o

assombro do requestado D. Quixote, que, dando um grande

suspiro, disse entre si:

— Tenho de ser tão desditoso cavaleiro andante, que não há-de haver donzela que olhe para mim e que de mim se não namore; e tão desventurada há-de ser a simpática Dulcinéia del Toboso,

que a não deixem gozar tranqüilamente a minha incomparável

firmeza! Que lhe quereis, rainhas? Por que a perseguis,

imperatrizes? Por que a acossais, donzelas de menos de quinze

anos? Deixai! deixai à mísera que triunfe e desfrute a fortuna

que Deus lhe quis dar, em render-lhe o meu coração e em

entregar-lhe a minha alma. Vede, caterva enamorada, que só

para Dulcinéia sou de manteiga, e para todas as outras sou

pedra: para ela sou mel, e fel para vós outras: para mim só

Dulcinéia é formosa, discreta, honesta, galharda e bem-nascida, e as outras são feias, tolas, levianas e de pior linhagem: para eu

ser dela e de mais ninguém me arrojou a natureza ao mundo.

Chora, canta, Altisidora! Desespere-se a madama, por causa de

quem me desancaram no castelo do mouro encantado, que eu

tenho de ser de Dulcinéia, cozido ou assado, limpo, bem-criado

e honesto, apesar de todas as potestades feiticeiras da terra.

E com isto fechou de golpe a janela, e despeitado e pressuroso,

como se lhe houvesse acontecido alguma grande desgraça,

deitou-se no seu leito, onde agora o deixaremos, porque nos

está chamando o grande Sancho Pança ao seu famoso

governo.