Dom Quixote - Parte II

Miguel de Cervantes · Capítulo 27 de 84

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Dom Quixote - Parte II

Capítulo XVII

Onde se declara o último ponto a que chegou e podia chegar o inaudito ânimo de D. Quixote, com a aventura dos leões,

tão felizmente acabada.

 

Conta a história que, quando D. Quixote bradava por Sancho

que lhe trouxesse o elmo, estava ele comprando uns

requeijões, que os pastores lhe vendiam; e, acossado pela

muita pressa de seu amo, não soube o que lhes havia de fazer, nem como havia de trazê-los, e, para os não perder, porque os

tinha já pago, lembrou-se de os deitar no elmo de seu amo, e

com este bom recato voltou a ver o que lhe queria D. Quixote,

que, assim que o viu, lhe disse:

— Amigo, dá-me esse elmo, que, ou pouco sei de aventuras, ou

o que ali descubro é alguma, que me há-de obrigar a pegar em

armas.

O do Verde Gabão, que isto ouviu, estendeu a vista por todas

as partes, e não descobriu outra coisa senão um carro que para

eles vinha, com duas ou três bandeiras pequenas, que lhe

fizeram supor que o tal carro devia trazer dinheiro de Sua

Majestade, e assim o disse a D. Quixote; mas este não lhe deu

ouvidos, acreditando sempre e pensando que tudo o que lhe

sucedesse havia de ser aventuras e mais aventuras; e,

portanto, respondeu ao fidalgo:

— Homem apercebido vale por dois; não se perde nada em eu

me aperceber, que sei por experiência que tenho inimigos visíveis e invisíveis, e não sei quando, nem onde, nem em que

tempo, nem em que figura me hão-de atacar.

E, voltando-se para Sancho, pediu-lhe o elmo; e Sancho, não

tendo ensejo de tirar os requeijões, deu-lho como estava.

Pegou-lhe D. Quixote e, sem ver o que vinha dentro, encaixou-o

a toda a pressa na cabeça; e, como os requeijões se

espremeram e apertaram, começou a correr o soro por todo o

rosto e barbas de D. Quixote, o que o assustou por tal forma,

que disse para Sancho:

— Que será isto, Sancho? parece que me amoleceram os

cascos, e se derreteram os miolos, ou que suo dos pés até à

cabeça; e, se suo, não é de medo; decerto, será terrível a

aventura que me vai suceder: dá-me, se tens, alguma coisa com

que me limpe, que o copioso suor já me cega os olhos.

Calou-se Sancho e deu-lhe um lenço, dando ao mesmo tempo

graças a Deus por seu amo não ter descoberto a marosca.

Limpou-se D. Quixote, tirou o elmo para ver o que era que lhe

esfriava a cabeça e, vendo aquelas coisas brancas, chegou-as

ao nariz e, ao cheirá-las, disse:

— Por vida da minha senhora Dulcinéia del Toboso, são

requeijões que aqui me puseste, traidor, bargante e maldito

escudeiro!

Ao que Sancho respondeu, com grande fleuma e dissimulação:

— Se são requeijões, dê-mos Vossa Mercê, que eu os comerei,

ou antes coma-os o diabo, que foi ele decerto quem aí os pôs.

Pois eu havia de me atrever a sujar a cabeça de Vossa Mercê? À

fé, senhor, pelo que vejo, também eu devo ter nigromantes que

me perseguem, como a criatura e membro de Vossa Mercê; e

puseram talvez aí essa imundície para irritar a sua paciência, e

fazer com que me derreie as costelas; mas desta vez

enganaram-se, que eu confio no bom discorrer de Vossa Mercê,

que deve considerar que eu nem tenho requeijões, nem leite,

nem coisa que o valha; e, se os tivera, mais depressa os metia

no meu estômago do que no elmo.

— Pode ser — respondeu D. Quixote.

Pasmava o fidalgo de tudo isto, e ainda mais pasmou quando,

depois de D. Quixote haver limpado a cabeça, o rosto, as

barbas e o elmo, o encaixou na cabeça e, firmando-se nos

estribos, verificando se a espada saía bem da bainha, e

erguendo a lança, disse:

— Agora, venha o que vier, que aqui estou eu com ânimo de me

bater com Satanás em pessoa.

Nisto, chegou o carro das bandeiras, em que vinha só o

carreiro montado numa das mulas e um homem sentado na

dianteira do carro. D. Quixote atravessou-se-lhes na frente e

disse:

— Aonde ides, irmãos? que carro é este? o que levais nele? e

que bandeiras são estas?

— O carro é meu — respondeu o carreiro — o que vai dentro

dele são dois bravos leões engaiolados, que o governador de

Orã envia à corte, de presente a Sua Majestade; as bandeiras

são de El-Rei nosso senhor, em sinal de que vai aqui coisa sua.

— E são grandes os leões? — perguntou D. Quixote.

— Tamanhos — respondeu o homem que ia sentado no carro —

que nunca vieram de África para Espanha outros assim; eu

tenho passado muitos, mas como estes nenhum; são macho e

fêmea; o macho vai nesta primeira jaula, a fêmea na outra de

trás; e agora estão famintos, porque ainda hoje não comeram; e

assim, desvie-se Vossa Mercê, que precisamos de chegar

depressa ao sítio onde lhes havemos de dar a ração.

— Leões a mim? — disse D. Quixote com leve sorriso — leões a

mim e a tais horas? pois, por Deus, hão-de ver esses senhores

que cá os mandam, se me arreceio de leões. Apeai-vos, bom

homem e, visto que sois o guarda, abri essas jaulas e largai-me

estas feras, que, no meio deste campo, lhes mostrarei quem é D Quixote de la Mancha, a despeito e apesar dos nigromantes que

mos enviam.

— Tá, tá! — disse para si o fidalgo — o nosso bom cavaleiro

deu sinal do que é; os requeijões sem dúvida lhe amoleceram

os cascos e lhe diluíram os miolos.

— Senhor — disse-lhe Sancho, chegando-se a ele — por Deus,

proceda Vossa Mercê de modo que o meu senhor D. Quixote

não se meta com estes leões, que, se o faz, aqui nos

despedaçam a todos.

— Pois tão louco é vosso amo — respondeu o fidalgo — que

chegueis a temer e a acreditar que ele se meta com tão ferozes

animais?

— Não é louco — tornou Sancho — mas é atrevido.

— Eu farei com que o não seja — replicou o fidalgo.

E, chegando-se a D. Quixote, que estava insistindo com o

guarda para que abrisse as jaulas, disse-lhe:

— Senhor cavaleiro, os cavaleiros andantes hão-de empreender

as aventuras que dão esperança de se poder alguém sair bem delas, e não as que a tiram de todo em todo, porque a valentia

que entra por temeridade é mais loucura que fortaleza, tanto

mais que estes leões não vêm contra Vossa Mercê, nem

sonham semelhante coisa; vão de presente a Sua Majestade, e

não será bem detê-los, nem impedir-lhes a viagem.

— Vá Vossa Mercê, senhor fidalgo — respondeu D. Quixote —

tratar do seu perdigueiro manso e do seu furão atrevido, e

deixe cada qual cumprir a sua obrigação; esta é a minha, e eu é

que sei se vêm ou não contra mim estes senhores leões.

E voltando-se para o guarda, disse-lhe:

— Voto a tal, D. Velhaco, que se não abris imediatamente as

jaulas, com esta lança vos hei-de pregar no carro.

O carreiro, que viu a determinação daquele armado fantasma,

disse-lhe:

— Senhor meu, Vossa Mercê seja servido, por caridade, deixar-

me tirar as mulas e ir pô-las a salvo, antes de se soltarem os

leões, porque, se me dão cabo delas, fico arruinado para toda a

vida, que não tenho outra fazenda senão este carro e estas

mulas.

— Homem de pouca fé — respondeu D. Quixote — apeia-te e

desatrela, e faze o que quiseres, que depressa verás que trabalhaste em vão, e que te poderias ter poupado a essa

diligência.

Apeou-se o carreiro e tirou as mulas, a toda a pressa, e o

guarda das jaulas disse em altos brados:

— Sejam boas testemunhas todos quantos aqui estão, de que,

contra minha vontade e forçado, abro as jaulas e solto os leões,

e de que protesto a este senhor, que todo o mal e dano que as feras fizerem correm por conta dele, juntamente com os meus

direitos e salários. Vossas Mercês, senhores, ponham-se a

salvamento antes de eu abrir, que a mim sei eu que não fazem

eles mal.

De novo lhe persuadiu o fidalgo que não fizesse semelhante

loucura, que era tentar a Deus cometer tal disparate.

Respondeu D. Quixote que bem sabia o que fazia. Insistia o

fidalgo, dizendo-lhe que se enganava.

— Agora, senhor — tornou D. Quixote — se Vossa Mercê não quer assistir a esta, no seu entender, tragédia, pique a égua e

ponha-se a salvo.

Sancho, ouvindo isto, suplicou-lhe com as lágrimas nos olhos

que desistisse de semelhante empresa, em comparação da qual

tinham sido pão com mel a dos moinhos, e todas as façanhas

que praticara em todos os dias da sua vida.

— Olhe, senhor — dizia Sancho — que aqui não há

encantamento nem coisa que o valha, que eu vi pelas grades da

jaula uma garra de leão verdadeiro, e a julgar pela garra o leão

deve ser maior que uma montanha.

— O medo, pelo menos — respondeu D. Quixote — faz-to

parecer maior que meio mundo. Retira-te, Sancho, e deixa-me,

e, se eu aqui morrer, já sabes a nossa antiga combinação:

acudirás a Dulcinéia; e não te digo mais nada.

A estas acrescentou outras razões, com que tirou as

esperanças de que deixaria de prosseguir no seu desvairado

intento. Quereria opor-se-lhe, até pela força, o do Verde Gabão;

mas viu-se desigual em armas, e não lhe pareceu grande

cordura travar peleja com um doido, que já assim lhe parecera

D. Quixote, o qual, tornando a apressar o guarda e a reiterar as ameaças, deu ocasião a que o fidalgo picasse a égua e Sancho

o ruço, e o carreiro as mulas, procurando todos afastar-se do

carro o mais depressa possível, antes que os leões se

desembestassem. Chorava Sancho a morte de seu amo, que

daquela vez é que a supunha segura nas garras dos leões;

maldizia a sua fortuna, e chamava minguada a hora em que se

lembrou de o tornar a servir; mas, apesar dos choros e dos

lamentos, não deixava de ir verdascando o burro, para se desviar do carro. Vendo o guarda já bastante afastados os que iam fugindo, tornou a requerer e a intimar a D. Quixote o que já

lhe requererá e intimara, mas D. Quixote respondeu que o ouvira perfeitamente, que não tratasse de mais intimacões nem

requerimentos, que tudo seria de pouco fruto, e que se

apressasse. No espaço que se demorou o guarda a abrir a

primeira jaula, esteve considerando D. Quixote se não seria

melhor dar batalha a pé do que a cavalo, e por fim resolveu dá-la a pé, receando que Rocinante se espantasse com a vista dos

leões; por isso, saltou do cavalo abaixo, arrojou a lança,

embraçou o escudo e, desembainhando a espada, foi a passos

contados, com maravilhoso denodo e ânimo valente, colocar-se

diante do carro, encomendando-se a Deus de todo o coração, e

logo depois à sua senhora Dulcinéia. E é de saber que,

chegando a este ponto, o autor desta verdadeira história

exclama e diz:

“Ó forte e sobre todo o encarecimento animoso D. Quixote de la

Mancha, espelho em que se podem mirar todos os valentes do

mundo, novo D. Manuel de Leão, que foi glória e honra dos

cavaleiros espanhóis! Com que palavras contarei tão pasmosa

façanha e com que argumentos a farei acreditar dos séculos

vindouros? que louvores haverá que te não convenham e

quadrem, ainda que sejam hipérboles sobre todas as

hipérboles? Tu a pé, tu só, tu intrépido, tu magnânimo, só com

uma espada, e não cortadora como as de Persilo, com um escudo, e não de aço muito límpido nem muito luzente, estás

aguardando os dois mais feros leões que nunca criaram as

selvas africanas! Sejam os teus próprios feitos que te louvem,

valoroso manchego, que os deixo aqui, por me faltarem

palavras para os encarecer.”

Terminada esta invocação, o autor prossegue na história,

dizendo que ao ver o guarda D. Quixote a postos, e que não

podia deixar de soltar o leão, sob pena de ser maltratado pelo

colérico e atrevido cavaleiro, abriu a primeira jaula, onde

estava, como se disse, o macho, que pareceu de grandeza extraordinária, e de espantosa e feia catadura. A primeira coisa que fez foi revolver-se na jaula onde vinha metido, e estender a

garra e espreguiçar-se todo; bocejou um pedaço e, deitando

para fora dois palmos de língua, esteve a lamber o rosto e os

olhos; feito isto, pôs a cabeça fora da jaula e olhou para todos

os lados, com os olhos em brasa, vista e ademã capazes de

causar espanto à própria temeridade. Só D. Quixote o mirava

atentamente, desejando vê-lo saltar para fora do carro, e

deliberando despedaçá-lo com as suas mãos.

Até aqui chegou o extremo da sua nunca vista loucura; mas o generoso leão, mais comedido do que arrogante, não fazendo caso de ninharias nem de bravatas, depois de olhar para um e para outro lado, voltou os quartos traseiros para D. Quixote, e

com grande fleuma e remanso tornou a deitar-se na jaula; vendo isto, D. Quixote ordenou ao guarda que o irritasse com

pauladas, para o fazer sair.

— Isso não faço eu — respondeu o guarda — porque, se o

instigo, o primeiro a quem despedaça é a mim. Vossa Mercê,

senhor cavaleiro, contente-se com o que praticou, que é o mais

que se pode dizer em gênero de valentia, e não queira tentar fortuna segunda vez; o leão tem a porta aberta, está na sua mão

sair ou não sair; pois se não saiu agora, não sai nem que

estejamos aqui o dia todo; a grandeza de ânimo de Vossa Mercê

está já bem declarada; nenhum bravo pelejador, parece-me a

mim, é obrigado a mais do que a desafiar o seu inimigo e

esperá-lo em campina rasa; e, se o contrário não acode, com

ele fica a infâmia, e o que espera ganha a coroa do vencimento.

— É verdade — disse D. Quixote; — pois fecha a porta, amigo, e

dá-me testemunho, da melhor forma que puderes, do que aqui

me viste fazer; convém a saber: de como abriste a porta ao

leão, de como eu o esperei, e ele não saiu; tornei-o a esperar,

tornou a não sair; e, finalmente, deitou-se. Não devo mais, e

fora com as nigromancias, e ajude Deus a razão e a verdade, e

fecha, como disse, enquanto eu faço sinal aos fugitivos e

ausentes, para que saibam da tua boca esta façanha.

Assim fez o guarda, e D. Quixote, pondo na ponta da lança o

lenço com que limpara o rosto da chuva dos requeijões,

começou a chamar os que não deixavam de fugir e de voltar a

cabeça a cada passo; vendo, porém, Sancho o sinal do lenço

branco, disse:

— Que me matem, se não é meu amo que venceu as feras e que

nos está a chamar.

Pararam todos, e conheceram que era D. Quixote quem fazia os

sinais; e, perdendo parte do medo, a pouco e pouco vieram

aproximando-se, até que ouviram claramente a voz de D.

Quixote. Finalmente, voltaram para o carro e, quando

chegaram, disse D. Quixote para o carreiro:

— Tornai, irmão, a atrelar as vossas mulas e a prosseguir na

viagem; e tu, Sancho, dá-lhe dois escudos de ouro, para ele e

para o guarda, em recompensa do tempo que por minha causa

se demoraram.

— Isso dou eu de muito boa vontade — respondeu Sancho —

mas que é feito dos leões? estão mortos ou estão vivos?

Então o guarda, minuciosa e pausadamente, contou o fim da

contenda, exagerando, como melhor pôde e soube, o valor de D. Quixote, cujo aspecto acobardara o leão, de forma que não quis nem ousou sair da jaula, apesar de ter tido a porta aberta

por um bom pedaço; e dizendo ele ao cavaleiro que era tentar a

Deus irritar o leão para sair à força, como ele queria que o irritasse, mau grado seu e muito contra sua vontade permitira

que se fechasse a porta.

— Que te parece isto, Sancho — disse D. Quixote — há

nigromancias que valham contra a verdadeira valentia? Podem

os nigromantes roubar-me a ventura, mas não o ânimo, nem o

esforço.

Deu Sancho os escudos, o carreiro pôs as mulas ao carro, o

guarda beijou as mãos a D. Quixote, pela mercê recebida, e

prometeu-lhe contar aquela façanha ao próprio rei, quando

chegasse à corte.

— Pois se acaso Sua Majestade perguntar quem a praticou, dir-

lhe-eis que foi o cavaleiro dos Leões, que daqui por diante quero

mudar nesta denominação a que tive até aqui de cavaleiro da Triste

Figura ; e nisto sigo a antiga usança dos cavaleiros andantes, que

mudavam de nomes quando queriam, ou quando vinha a

propósito.

Seguiu o carro o seu caminho, e D. Quixote, Sancho e o do

Verde Gabão continuaram no seu. Em todo este tempo, D.

Diogo de Miranda não dissera uma só palavra, atento a

contemplar e a notar as falas e gestos de D. Quixote,

parecendo-lhe um doido ajuizado, e um ajuizado que tinha um

tanto ou quanto de doido. Não lera ainda a primeira parte da

sua história, e se a tivesse lido cessaria o seu pasmo, pois já

conheceria o gênero da sua loucura; mas, como o não sabia,

ora o tinha por doido, ora por homem de juízo, porque o que

dizia era concertado, elegante e sensato, e o que fazia era disparatado, temerário e tonto; e pensava consigo: Que mais

loucura pode haver do que pôr na cabeça um elmo cheio de

requeijões e imaginar que foram os nigromantes que lhe

amoleceram o crânio? Que maior temeridade e disparate do

que, por força, querer pelejar com leões? Destas imaginações e

deste solilóquio tirou-o D. Quixote, dizendo-lhe:

— Sem dúvida, senhor D. Diogo de Miranda, tem-me Vossa

Mercê na sua opinião por homem disparatado e louco; e não

admira, porque as minhas obras não dão testemunho de outra coisa; mas, com tudo isso, quero que Vossa Mercê advirta que

não sou tão doido como pareço. Fica bem a um galhardo

cavaleiro, à vista do seu rei, dar numa praça uma lançada feliz

num touro bravo; fica bem a um cavaleiro, armado de armas

resplandecentes, entrar na liça de alegres justas, diante das

damas; e fica bem a todos os cavaleiros, em exercícios

militares ou que o pareçam, entreter, alegrar e, se assim se

pode dizer, honrar a corte dos seus príncipes; mas, acima de

todos estes, melhor parece um cavaleiro andante que, pelos

desertos, pelas soledades, pelas encruzilhadas, pelas selvas e

pelos montes, anda procurando perigosas aventuras, com

intenção de lhes dar ditoso e afortunado termo, só para

alcançar gloriosa e perdurável fama. Melhor parece, digo, um

cavaleiro andante socorrendo uma viúva num despovoado, do

que um cavaleiro cortesão requestando as donzelas nas

cidades. Todos os cavaleiros têm as suas ocupações especiais:

o cortesão que sirva as damas, pompeie com ricas librés na

corte do seu rei, sustente os cavaleiros pobres com os

esplêndidos pratos da sua mesa, combine justas, mantenha

torneios e mostre-se grande, liberal e magnífico, e bom cristão

sobretudo, e deste modo cumprirá as suas rigorosas

obrigações; mas devasse o cavaleiro andante todos os cantos

do mundo, entre nos mais intrincados labirintos, acometa o

impossível a cada passo, resista nos ermos páramos aos ardentes raios do sol de um pleno estio, e no inverno áspero ao influxo dos ventos e dos gelos; não o assombrem leões, nem o

espantem aventesmas, nem o atemorizem endríagos, que procurar estes, acometer aqueles e vencê-los a todos, são os

seus principais e verdadeiros exercícios. Eu, pois, como me

coube em sorte pertencer ao número da cavalaria andante, não

posso deixar de empreender tudo aquilo que me parece que

fica debaixo da jurisdição dos meus exercícios; e assim, o

acometer os leões que ainda agora acometi, diretamente me

tocava, apesar de eu conhecer que era uma temeridade

exorbitante; mas não será tão mau que aquele que é valente se

exalte a ponto de ser temerário, como que se rebaixe a covarde; que, assim como é mais fácil vir o pródigo a ser liberal do que o

avaro, assim mais fácil é dar o temerário em verdadeiro valente

do que o fraco; e nisto de tentar aventuras, creia-me Vossa

Mercê, senhor D. Diogo, antes se perca por carta de mais que

por carta de menos; porque soa melhor aos ouvidos de todos:

fulano é temerário, do que fulano é tímido e medroso.

— Digo, senhor D. Quixote — respondeu D. Diogo — que tudo quanto Vossa Mercê diz é nivelado pelo fiel da própria razão, e que entendo que, se as ordenanças e leis da cavalaria andante

se perdessem, se encontrariam no peito de Vossa Mercê, como

num arquivo e num sacrário; e apressemo-nos, que se faz tarde, e cheguemos à minha aldeia e casa, onde Vossa Mercê descansará do passado trabalho, que, se não foi do corpo, foi do espírito, o que costuma às vezes redundar em cansaço do

corpo.

— Tenho esse oferecimento na conta de grande favor e mercê

— respondeu D. Quixote.

E, picando mais as esporas, chegaram pelas duas da tarde à

aldeia e casa de D. Diogo, a quem D. Quixote chamava o cavaleiro

do Verde Gabão.