Dom Quixote - Parte II

Miguel de Cervantes · Capítulo 33 de 84

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Dom Quixote - Parte II

Capítulo XXIII

Das admiráveis coisas que o extremado D. Quixote contou que vira na profunda cova de Montesinos, coisas que, pela

impossibilidade e grandeza, fazem que se considere apócrifa esta aventura.

 

Seriam quatro horas da tarde, quando o sol, encoberto e entre

nuvens, com escassa luz e temperados raios permitiu a D.

Quixote contar, sem calor nem incômodo, aos seus dois

claríssimos ouvintes, o que vira na cova de Montesinos; e

começou do seguinte modo:

— A coisa de doze ou catorze estádios, nas entranhas desta

caverna, fica à mão direita uma concavidade espaçosa, capaz

de caber dentro dela um grande carro com as suas mulas. Entra

ali, coada por algumas fendas, que, abertas na superfície, bem

longe ficam, uma tenuíssima luz. Esta concavidade vi eu,

quando já ia mofino e cansado de me sentir suspenso e de

caminhar preso à corda por aquela escura região abaixo, sem

levar certo nem determinado rumo, e assim resolvi entrar e

descansar um pouco. Bradei, pedindo-vos que não largásseis

mais corda, até que eu vo-lo dissesse; mas creio que me não

ouvistes. Fui juntando corda que mandáveis e arranjando com

ela um rolo, em que me sentei, muito pensativo, considerando o

que havia de fazer para chegar ao fundo, não tendo quem me

segurasse; estando eu neste cismar e nesta confusão, de

repente salteou-me um sono profundíssimo e, quando menos o

pensava, sem saber como, nem como não, despertei e achei-me

no meio do mais deleitoso prado, que pôde criar a natureza ou

fantasiar a mais discreta imaginação humana. Arregalei os

olhos, esfreguei-os e vi que não dormia, mas que estava

perfeitamente desperto. Contudo, sempre tenteei a cabeça e o

peito, para me certificar se era eu mesmo que ali estava, ou

algum fantasma vão; mas o tato, o sentimento, os discursos

concertados que fazia entre mim, me certificaram que era eu ali

então o mesmo que sou agora aqui. Ofereceu-se-me logo à

vista um verdadeiro e suntuoso palácio ou alcáçar, cujos muros pareciam fabricados de claro e transparente cristal, donde saiu,

ao abrirem-se duas grandes portas, e veio direito a mim, um

ancião venerável, coberto com um capote de baeta roxa, que

arrastava pelo chão. Vestia por baixo uma batina de cetim

verde, trazia uma negra gorra milanesa, e a barba alvíssima

descia-lhe abaixo da cintura; não tinha armas, tinha apenas na

mão um rosário de contas maiores que nozes, e os padre-nossos eram do tamanho de ovos de avestruz; o porte, o andar,

a gravidade e a majestade da presença suspenderam-me e

assombraram-me. Chegou-se a mim, e a primeira coisa que fez

foi abraçar-me estreitamente e dizer logo:

— Há largos tempos, valoroso D. Quixote de la Mancha, que

todos os que estamos encantados nesta soledade esperamos

ver-te, para que dês notícia ao mundo do que encerra e cobre a

profunda cova por onde entraste, chamada a cova de

Montesinos, façanha só guardada para ser cometida por teu

invencível coração e pelo teu ânimo estupendo. Vem comigo,

claríssimo senhor, que te quero mostrar as maravilhas

solapadas neste transparente alcáçar, de que eu sou alcaide e

guarda-mor perpétuo, porque sou o próprio Montesinos, que dá

nome à cova.

Apenas ele me disse que era Montesinos, logo lhe perguntei se

era verdade o que no mundo cá de cima se contava, que ele

tirara, com uma pequena adaga, o coração do seu grande

amigo Durandarte, para o levar à senhora Belerma, como

Durandarte ordenara quando morrera. Respondeu-me que em

tudo diziam verdade, e que a adaga era buída e agudíssima.

— Devia ser — disse Sancho neste ponto — de Ramon de

Hoces, o Sevilhano.

— Não sei — prosseguiu D. Quixote — mas parece-me que não

seria, porque Ramon de Hoces viveu ontem, por assim dizer, e a batalha de Roncesvales, onde sucedera esta desgraça, feriu-

se há muitos anos; e essa averiguação é pouco importante e

não turba nem altera a verdade e contexto da história.

— Assim é — respondeu o primo do licenciado; — prossiga

Vossa Mercê, senhor D. Quixote, que o estou ouvindo com o

maior gosto que se pode imaginar.

— Não pode ser mais do que aquele com que o estou contando

— respondeu D. Quixote — e, assim, digo que o venerável

Montesinos introduziu-me no cristalino palácio, onde, numa

sala baixa e fresquíssima, havia um sepulcro de mármore,

fabricado com grande primor, sobre o qual vi um cavaleiro estendido em todo o seu comprimento, não de bronze, nem de

mármore, nem de jaspe, como os costuma haver nos nossos

sepulcros, mas de carne e osso. Tinha a mão direita (que me

pareceu cabeluda e nervosa: sinal de grandes forças) posta

sobre o lado do coração; e, antes de eu perguntar coisa

alguma, Montesinos, vendo-me suspenso a contemplar o do

sepulcro, disse-me:

— É este o meu amigo Durandarte, flor e espelho dos

cavaleiros enamorados e valentes do seu tempo. Tem-no aqui

encantado, como me tem a mim e a muitos outros e outras,

Merlin, aquele nigromante francês, que dizem que foi filho do

diabo, e o que eu creio é que não foi filho do diabo, mas que

soube, como dizem, ainda mais do que ele. O motivo por que

nos encantou ninguém o sabe, e ele o dirá, em chegando os

tempos marcados, que imagino que não estão muito longe. O

que me admira é que seja tão certo, como ser dia agora, o acabar Durandarte a sua vida nos meus braços, e que, depois

de morto, lhe arranquei o coração com as minhas próprias

mãos, coração que não devia pesar menos de dois arráteis,

porque se afirma que quanto maior é o coração dum homem,

maior é a sua valentia. Pois, sendo isto assim, e tendo

realmente morrido este cavaleiro, por que é que se queixa e

suspira agora, de quando em quando, como se estivesse vivo?

Nisto, o mísero Durandarte, com um grande brado, disse:

— Ó meu primo Montesinos,

uma coisa vos pedia:

que, em eu dando a Deus minh’alma,

e meu corpo à terra fria;

meu coração a Belerma

leveis, sem tardar um dia,

arrancando-mo do peito

com a adaga luzidia.

Ao ouvir estas palavras, o venerável Montesinos pôs-se de

joelhos ante o triste cavaleiro, e exclamou:

— Senhor Durandarte, meu caríssimo primo, fiz o que mandaste

no aziago dia da nossa perda; arranquei-vos o coração o

melhor que pude, sem vos deixar no peito a mínima parte dele,

limpei-o com um lenço de rendas, parti de carreira para França,

tendo-vos entranhado primeiro no seio da terra, com tantas

lágrimas, que bastaram para me lavar as mãos, e limpar o

sangue que as tingia; e, por sinal, primo da minha alma, no

primeiro sítio que topei, ao sair de Roncesvales, salguei o

vosso coração, para que não cheirasse mal, e fosse, senão

fresco, pelo menos de salmoura, à presença da senhora

Belerma, a qual, convosco e comigo, e com Guadiana vosso

escudeiro, e com a dona Ruidera e suas sete filhas e duas

sobrinhas, e com outros muitos dos vossos conhecidos e amigos, estamos aqui encantados pelo sábio Merlin, há mais de

quinhentos anos; e, apesar disso, nenhum de nós morre; só

nos faltam Ruidera, suas filhas e sobrinhas, que,

compadecendo-se Merlin das suas lágrimas, foram convertidas

em outras tantas lagoas, que no mundo dos vivos e na

província da Mancha se chamam lagoas de Ruidera; as sete

pertencem aos reis de Espanha, e as duas sobrinhas aos

cavaleiros duma ordem santíssima, que chamam de S. João.

Guadiana, vosso escudeiro, chorando a vossa desgraça, foi

convertido num rio, a que deu o nome, que, apenas chegou à

superfície da terra e viu o sol do outro céu, tamanho pesar

sentiu de ver que vos deixava, que se submergiu nas entranhas

da terra; mas, como não é possível deixar de acudir à sua natural corrente, de quando em quando sai e mostra-se onde o

sol e a gente o vejam. Vão-no fornecendo das suas águas as

referidas lagoas, e com essas e outras muitas entra pomposo e

grande em Portugal. Mas, por onde vai, revela a sua tristeza e

melancolia, e não se orgulha de criar nas suas águas peixes de

regalo e de estimação, mas sim grosseiros e dessaborosos,

muito diferentes dos peixes do áureo Tejo; isto que vos disse

agora, meu primo, muitas vezes vo-lo tenho dito, e, como me

não respondeis, imagino que me não acreditais nem ouvis; e

Deus sabe o que me pesa. Umas novas vos quero dar agora,

que, ainda que não sirvam de alívio à vossa dor, pelo menos

não a aumentarão de modo algum. Sabei que tendes aqui, na

vossa presença (abri os olhos, e vê-lo-eis) aquele grande

cavaleiro, de quem tantas coisas profetizou o sábio Merlin,

aquele D. Quixote de la Mancha, que de novo, e com maiores

vantagens que nos passados séculos, ressuscitou a já olvidada

cavalaria andante, por cujo meio e favor poderia ser que nós

outros fôssemos desencantados; que as grandes façanhas

para os grandes homens estão guardadas.

— E quando assim não seja — respondeu o triste Durandarte,

com voz desmaiada e baixa — quando assim não seja,

paciência, e toca a baralhar as cartas.

E, voltando-se para o outro lado, tornou ao seu habitual

silêncio.

Ouviram-se nisto grandes alaridos e prantos, acompanhados

de profundos suspiros e angustiados soluços. Voltei a cabeça,

e pelas paredes de cristal vi que passava por outra sala uma

procissão de duas fileiras de formosíssimas donzelas, todas

vestidas de luto, com turbantes brancos ao modo turco. No

coice da procissão vinha uma senhora, grave e vestida de

preto, com touca branca tão estendida e larga que beijava o

chão. O seu turbante era o dobro do maior de qualquer outra;

tinha os sobrolhos muito unidos, o nariz um tanto

esborrachado, a boca grande, e os lábios corados; os dentes,

que de vez em quando mostrava, eram ralos e mal postos, ainda que alvos como amêndoas sem casca: trazia nas mãos

um lenço finíssimo, e dentro dele um coração tão seco, que

parecia mumificado. Disse-me Montesinos que toda aquela

gente eram servidores de Durandarte e de Belerma, que

estavam encantados com os seus amos, e que a última, que

trazia o coração no lenço e nas mãos, era a senhora que fazia

Belerma, quatro dias por semana aquela procissão com as suas

damas, cantando, ou, para melhor dizer, chorando endechas

sobre o corpo e sobre o coração de seu primo; e que, se me

parecera feia, ou pelo menos não tão formosa como dizia a

fama, eram causa disso as más noites e piores dias que

passava naquele encantamento, como podia ver nas suas

grandes olheiras e na sua palidez; e não vem esse estado de

incômodos femininos, que é coisa que ela não tem desde que

aqui está, mas da dor que o seu coração sente, que lhe renova e lhe traz à memória a cada momento o outro coração que tem

nas mãos, e que lhe é inspirada pela desgraça do seu

malogrado amante; que, se não fosse isso, apenas a igualaria

em formosura, donaire e brio a grande Dulcinéia del Toboso,

tão celebrada em todos estes contornos e até em todo o

mundo.

— Alto lá, senhor D. Montesinos — disse eu então — conte

Vossa Mercê a história como deve, que bem sabe que tudo

quanto são comparações é odioso; a sem par Dulcinéia é quem

é, e a senhora Belerma é quem é e quem foi, e fiquemos por

aqui.

— Senhor D. Quixote — respondeu-me ele — perdoe Vossa

Mercê, que eu confesso que andei mal em comparar a senhora

Belerma com a senhora Dulcinéia, porque soube que esta era a sua dama, e isso me devia bastar para eu morder a língua e não

a comparar senão com o próprio céu.

Com esta satisfação que me deu o grande Montesinos,

aquietou-se o meu coração do sobressalto que teve, quando

ouvi comparar a minha senhora Dulcinéia com Belerma.

— E ainda me espanto — redarguiu Sancho — de Vossa Mercê

não trepar pelo velhote, não lhe moer os ossos a pontapés e

não lhe arrepelar as barbas, sem lhe deixar um cabelo.

— Não, Sancho — respondeu D. Quixote — não me ficava bem

fazer isso, porque todos somos obrigados a respeitar os

anciãos, ainda que não sejam cavaleiros, e muito mais os que o

são e estão encantados; mas olha que não ficamos a dever

nada um ao outro nas perguntas e respostas que houve entre

nós.

— O que eu não sei, senhor D. Quixote — observou o primo do

licenciado — foi como Vossa Mercê em tão curto espaço de

tempo viu tanta coisa e falou e respondeu tanto.

— Quanto tempo estive eu lá em baixo? — perguntou D.

Quixote.

— Cerca duma hora — respondeu Sancho.

— Isso não pode ser — redarguiu D. Quixote — porque lá me

anoiteceu e amanheceu três vezes, de forma que pelas minhas

contas estive três dias naquelas partes remotas e escondidas â

v»sta humana.

— Deve ser verdade o que meu amo diz — acudiu Sancho —

porque como tudo lhe sucedeu por obra de encantamento,

talvez nos parecesse uma hora o que lá deve parecer três dias

com três noites.

— E Vossa Mercê não comeu em todo esse tempo, meu

senhor? — perguntou o primo do licenciado.

— Não meti na boca nem uma hóstia de pão e não tive nem

sombra de fome.

— E os encantados comem? — tornou o guia.

— Não comem, nem descomem — disse D. Quixote — ainda

que muita gente é de opinião que lhes crescem as barbas e os

cabelos.

— E dormem? — perguntou Sancho.

— Não, por certo — respondeu D. Quixote — pelo menos, nestes três dias em que estive com eles, nenhum pregou olho,

nem eu tão pouco.

— Aqui é que vem de molde o rifão: Dize-me com quem anda, dir-te-ei as

manhas que tens . Anda Vossa Mercê com encantados que jejuam e

velam, já se vê que não dorme nem come; mas, perdoe-me

Vossa Mercê, leve-me S. Pedro, ia a dizer o diabo, se acredito

uma só palavra de tudo quanto Vossa Mercê disse.

— Como não acredita! — acudiu o guia — pois o senhor D.

Quixote havia de mentir, quando de mais a mais, ainda que o

quisesse, não teve tempo nem ocasião para compor e imaginar

tanto milhão de patranhas!

— Eu não suponho que meu amo minta.

— Então o que é que supões? — perguntou D. Quixote.

— Suponho — respondeu Sancho — que aquele Merlin ou

aqueles nigromantes que Vossa Mercê viu lá em baixo lhe

encasquetaram na cachimônia ou na memória toda essa

manivérsia que nos contou e tudo o que lhe fica por contar.

— Podia muito bem ser, Sancho — replicou D. Quixote — mas

não foi, porque o que contei vi-o com os meus olhos e toquei-o

com as minhas mãos. Mas que dirás tu em eu te referindo que

entre outras mil coisas e maravilhas que Montesinos me mostrou (que devagar e a seu tempo te irei contando no

decurso da nossa viagem), me apresentou três lavradeiras, que

por aqueles ameníssimos campos brincavam e pulavam como

cabras, e, apenas as vi, conheci logo que uma delas era a

incomparável Dulcinéia, e que as outras duas eram as

lavradeiras que vinham com ela e a quem falamos à saída do Toboso? Perguntei a Montesinos se as conhecia; respondeu-

me que não, mas que supunha que seriam algumas damas

principais encantadas, que havia poucos dias que tinham

aparecido naqueles prados; e que me não espantasse disso,

porque ali estavam muitas outras damas das eras passadas e

presentes, encantadas em diferentes e estranhas figuras, entre

as quais conhecia ele a rainha Ginevra e a sua dona

Quintanhona, que deitara vinho a Lançarote, na sua volta da

Bretanha.

Quando Sancho Pança ouviu dizer isto a seu amo, pensou em

morrer de riso, porque sabendo a verdade do fingido

encantamento de Dulcinéia, a quem ele levantara esse falso

testemunho, acabou de conhecer indubitavelmente que seu

amo estava doido varrido, e assim lhe disse:

— Em má conjuntura e em aziago dia desceu Vossa Mercê, meu

caro patrão, ao outro mundo, e em má ocasião se encontrou

com o senhor Montesinos, que tal nos voltou. Muito bem estava

Vossa Mercê cá em cima, com todo o seu juízo, como Deus lho

dera, dizendo sentenças e dando conselhos a cada passo, e

não agora contando os maiores disparates que se podem

imaginar.

— Como te conheço, Sancho — respondeu D. Quixote — não

faço caso das tuas palavras.

— Nem eu das de Vossa Mercê — replicou Sancho — ainda que

me fira ou me mate pelas que lhe digo e pelas que lhe tenciono

dizer, se nas suas se não corrigir e emendar. Mas diga-me Vossa Mercê agora, que estamos em paz, como é que conheceu

a nossa senhora ama? e se lhe falou, que é que lhe disse, e o

que é que ela lhe respondeu?

— Conhecia-a — tornou D. Quixote — por vestir o mesmo fato

que trazia, quando tu ma mostraste. Falei-lhe, mas não me respondeu palavra; antes, pelo contrário, voltou-me as costas e

foi fugindo com tanta pressa, que a não alcançaria nem uma

seta. Quis segui-la, e tê-lo-ia feito, se Montesinos me não

aconselhasse que me não cansasse com semelhante corrida, que seria baldada, e tanto mais que se aproximava a hora em

que me cumpria sair da caverna. Disse-me também que, pelo

tempo adiante, eu seria avisado do modo como os poderia

desencantar a ele, a Belerma, a Durandarte e a todos os outros que ali estavam; mas o que mais me penalizou de tudo o que vi

e notei foi que, estando Montesinos a dizer-me tudo isto,

chegou-se a mim, sem eu dar pela sua aproximação, uma das

duas companheiras da desventurada Dulcinéia, e com os olhos

rasos de água e com voz turbada e baixa, disse-me:

— Dulcinéia del Toboso, minha ama, beija as mãos a Vossa

Mercê, e pede-lhe que lhe mande dizer como está, e por ter de

acudir a uma grande urgência, suplica a Vossa Mercê, o mais

encarecidamente que pode, seja servido emprestar-lhe sobre

esta saia de algodão nova, que aqui trago, meia dúzia de reais,

ou os que Vossa Mercê trouxer, que lhe dá a sua palavra de

lhos restituir em breve.

Pasmei com este recado e, voltando-me para Montesinos,

perguntei-lhe:

— É possível, senhor Montesinos, que encantados tão

principais padeçam necessidades?

— Creia-me Vossa Mercê, senhor D. Quixote de la Mancha —

respondeu-me ele — que isso a que chamam necessidade em

toda a parte se usa, a tudo se estende e tudo alcança, e nem

aos encantados perdoa; e se a senhora Dulcinéia del Toboso

lhe manda pedir esses seis reais, e o penhor é bom, ao que

parece, não há remédio senão dar-lhos, que ela está sem

dúvida nalgum grande aperto.

— Penhor não lho tomo eu — respondi — mas também lhe não

dou o que me pede, porque só tenho comigo quatro reais.

E dei-lhos, que foram os que tu me passaste para a mão,

Sancho, para eu dar de esmola aos pobres que topasse pelos

caminhos; e acrescentei:

— Dizei, amiga minha, a vossa ama, que muito me pesa dos

seus trabalhos; que desejaria ser um Fúcar para os remediar, e

que lhe faço saber que não tenho nem devo ter saúde,

carecendo da sua agradável presença e discreta conversação, e

que lhe suplico, o mais encarecidamente que posso, seja Sua

Mercê servida deixar-se ver e tratar por este seu cativo servidor e desvairado cavaleiro. Dir-lhe-eis também que, quando menos

o pensar, ouvirá dizer que fiz um juramento e um voto, como o

que fez o marquês de Mântua de vingar seu sobrinho

Baldovino, quando deu com ele a expirar no meio da serra, que

consistiu em não comer pão em toalha, e outras trapalhadas,

enquanto o não vingasse; e eu também jurarei não ter sossego e andar as sete partidas do mundo, como o infante D. Pedro de

Portugal, enquanto a não desencantar.

— Tudo isso, e muito mais, deve Vossa Mercê a minha ama —

respondeu a donzela.

E, pegando nos meus quatro reais, em vez de me fazer uma

mesura, deu uma cabriola que a ergueu duas varas no ar.

— Ó senhor Deus! — exclamou Sancho, com um grande brado

— é possível que haja no mundo, e que tanta força tenham,

nigromantes e encantamentos, que assim trocaram o bom juízo

de meu amo em tão disparatada loucura. Ó senhor, senhor, em nome de Deus, olhe Vossa Mercê para si, cuide na sua honra e

não dê crédito a essas asneiras que lhe dão volta ao miolo.

— Como me queres bem, Sancho — tornou D. Quixote — falas

dessa maneira, e como não és experimentado nas coisas do

mundo, tudo o que é um pouco difícil te parece impossível; mas

o tempo correrá, como disse ainda agora, e eu te contarei

outras coisas que lá em baixo vi, e que te farão acreditar nas

que te refiro, cuja verdade não admite nem réplica nem disputa.