Dom Quixote - Parte II

Miguel de Cervantes · Capítulo 56 de 84

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Dom Quixote - Parte II

Capítulo XLVI

Da temerosa chuva de gatos barulhentos que recebeu D. Quixote, no decurso dos amores da enamorada Altisidora.

 

Deixamos o grande D. Quixote envolto nos pensamentos que

lhe causara a música da enamorada donzela Altisidora. Com

eles se deitou e, como se fossem pulgas, não o deixaram

dormir nem sossegar um momento, juntando-se a isso o

cuidado que lhe dava faltarem-lhe os pontos das meias: mas,

como o tempo é ligeiro e não há barranco que o detenha,

correram as horas depressa e não tardou a manhã. Vendo isto,

D. Quixote largou a branda pluma, e nada preguiçoso vestiu o

seu fato de camurça e calçou as botas da estrada para encobrir

o deplorável infortúnio das meias. Deitou por cima a sua capa

de escarlata e pôs na cabeça um barrete de veludo verde,

guarnecido de prata; pendurou dos ombros, com um talim, a

sua boa e cortadora espada; agarrou num grande rosário que

trazia sempre consigo, e com grande pausa e cadência saiu

para a ante-sala, onde o duque e a duquesa estavam já vestidos

e como que esperando-o, e ao passar por uma galeria

encontrou a postos, e à sua espera, Altisidora e outra donzela

sua amiga; e, assim que Altisidora viu D. Quixote, fingiu que

desmaiava, e a amiga recebeu-a no colo e com grande presteza

começou a desapertar-lhe o peito.

D. Quixote, vendo isto, disse, chegando-se a ela:

— Já sei de que procedem estes acidentes.

— Pois não sei eu — respondeu a amiga — porque Altisidora é

a donzela mais sadia desta casa e nunca lhe ouvi dar um ai,

desde que a conheço; mal hajam quantos cavaleiros andantes

há no mundo, se todos são desagradecidos; vá-se embora

Vossa Mercê, senhor D. Quixote, que esta pobre menina não

tornará a si, enquanto Vossa Mercê aqui estiver.

— Mande pôr um alaúde, esta noite, no meu aposento —

respondeu D. Quixote — que eu consolarei, o melhor que

puder, esta triste donzela; que nos princípios amorosos os

desenganos prontos costumam ser remédios excelentes.

E com isto se foi embora, para não ser notado pelos que ali o

vissem. Apenas ele se apartou, logo, tornando a si a desmaiada

Altisidora, disse:

— É necessário pôr-lhe lá o alaúde, que sem dúvida D. Quixote

nos quer regalar com música, que não há-de ser má, se for

dele.

Logo participaram à duquesa o que se passava e o pedido do

alaúde que D. Quixote fizera, e ela, extremamente alegre,

combinou com o duque e com Altisidora o fazerem-lhe uma

burla que fosse mais alegre do que danosa, e com muito

contentamento esperaram a noite, que não veio tão depressa

como viera o dia, que os duques passaram em saborosas práticas com D. Quixote; e a duquesa nesse dia despachou real e verdadeiramente um pajem seu, que fizera na selva o papel de

Dulcinéia, a Teresa Pança, com a carta de seu marido Sancho

Pança e com a trouxa de roupa que ele deixara para lhe ser

mandada, ordenando-lhe que lhe desse boa relação de tudo o

que se passasse.

Feito isto, e chegadas as onze horas da noite, encontrou D.

Quixote uma viola no seu aposento; experimentou-a, abriu a

reixa, sentiu que andava gente no jardim, e tendo apertado as

escaravelhas da viola, e afinando-a o melhor que pôde,

escarrou e aclarou o peito, e logo em seguida, com voz rouca,

ainda que entoada, cantou o seguinte romance, que naquele

mesmo dia compusera:

Tiram as almas dos eixos

as grandes forças do amor,

são os cuidados do ócio

seu instrumento melhor.

As donzelas na costura,

e em ’star sempre atarefadas,

têm antídoto ao veneno

das ânsias enamoradas.

As donzelas recolhidas,

e que desejam casar,

têm na honestidade o dote,

e a voz que as há-de louvar.

Os cavaleiros andantes

e os que vão da corte às festas,

têm com as soltas requebros,

mas só casam coas honestas.

Fútil amor de levante

podem-no hóspedes sentir,

chega rápido ao poente,

porque acaba co’o partir.

Amor que nasce depressa,

hoje vem, vai-se amanhã,

nas almas não deixa impressa

a sua imagem louçã.

Pintura sobre pintura

não é como em tábua rasa;

onde há primeira beleza

a segunda não faz vaza.

Dulcinéia del Toboso

eu tenho n’alma pintada

com tal viveza, que nunca

poderá ser apagada.

A firmeza nos amantes

é dote mui de louvar,

amor opera milagres

por quem assim sabe amar.

Aqui chegou D. Quixote com o seu canto, que estavam

escutando o duque e a duquesa, Altisidora e quase toda a gente do castelo, quando de repente, duma varanda, que corria

por cima da janela de D. Quixote, deixaram cair um cordel, a

que vinham presas mais de cem campainhas, e logo em

seguida despejaram um grande saco de gatos, que traziam

também campainhas mais pequenas, presas aos rabos. Foi tal

o barulho das campainhas e o miar dos gatos que, ainda que os duques tinham sido os inventores da caçoada, sobressaltaram-

se e D. Quixote ficou temeroso e pasmado; e quis a sorte que

dois ou três gatos entrassem no seu quarto e, correndo dum

lado para o outro, parecia uma legião de diabos que por ali

andava.

Apagaram as velas que ardiam no aposento e saltavam

procurando sítio por onde se escapassem.

O descer e subir do cordel com as campainhas grandes não

cessava; a maior parte da gente do castelo, que não sabia da

verdade do caso, estava verdadeiramente suspensa e

admirada.

Pôs-se D. Quixote em pé e, levando a mão à espada, começou a

atirar estocadas pelas reixas e a dizer com grandes brados:

— Fora, malignos nigromantes, fora, canalha feiticeiresca; eu

sou D. Quixote de la Mancha, contra quem não valem nem têm

força as vossas más intenções.

E voltando-se para os gatos que andavam pelo aposento, atirou-lhes muitas cutiladas; acudiram à reixa, e por ali saíram; mas um, vendo-se tão acossado pelas cutiladas de D. Quixote, saltou-lhe à cara, agarrou-se-lhe ao nariz com unhas e dentes, e

a dor obrigou D. Quixote a soltar grandes gritos.

Ouvindo isto o duque e a duquesa, e considerando o que podia

ser, acudiram muito depressa ao seu quarto e, abrindo a porta,

deram com o pobre cavaleiro procurando com todas as suas

forças arrancar o gato da cara. Entraram com luzes e viram a

desigual peleja; acudiu o duque a separar os contendores, e D.

Quixote bradou:

— Ninguém mo tire, deixem-me com este demônio, com este

nigromante, com este feiticeiro, que eu lhe mostrarei quem é D.

Quixote de la Mancha.

Mas o gato, não se importando com essas ameaças, cada vez

mais berrava e o arranhava; afinal, o duque arrancou-o e atirou-

o pela janela. Ficou D. Quixote de cara escalavrada e com o

nariz pouco são, mas muito despeitado por lhe não terem

deixado pôr termo à batalha que travara com aquele malandrino

nigromante.

Mandaram buscar óleo de amêndoas doces, e a própria

Altisidora lhe pôs com as suas branquíssimas mãos uns panos

em todos os sítios feridos e, ao pôr-lhos, disse-lhe em voz

baixa:

— Todas estas desgraças te sucedem, empedernido cavaleiro,

pelo pecado da tua dureza e pertinácia; e pede a Deus que

Sancho, teu escudeiro, se esqueça de se açoitar, para que nunca saia do seu encantamento essa Dulcinéia tão tua amada,

nem a gozes, nem vás para o tálamo com ela, pelo menos

vivendo eu, que te adoro.

A tudo isto só respondeu D. Quixote com um profundo suspiro,

e logo se estendeu no leito, agradecendo aos duques a mercê,

não porque tivesse medo daquela canalha gatesca,

nigromântica e campainhadora, mas porque conhecera as boas

intenções com que tinham vindo socorrê-lo.

Os duques deixaram-no sossegar e foram-se ambos pesarosos

do mau resultado da burla, porque não tinham suposto que

saísse tão pesada e tão custosa a D. Quixote aquela aventura,

que lhe rendeu cinco dias de cama e de encerramento,

sucedendo-lhe então outra mais agradável que a anterior, que

não se conta agora para se acudir a Sancho Pança, que andava

muito solícito e muito gracioso no seu governo.