Dom Quixote - Parte II

Miguel de Cervantes · Capítulo 73 de 84

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Dom Quixote - Parte II

Capítulo LXIII

De como Sancho Pança se deu mal com a visita às galés e da nova aventura da formosa mourisca.

 

Muito discorria D. Quixote acerca da resposta da cabeça

encantada, sem que desse com o embuste; e em que mais

pensava era na promessa, que teve por certa, do

desencantamento de Dulcinéia. Passeava dum lado para o

outro e folgava consigo mesmo, julgando que havia de ver

brevemente essa promessa cumprida; e Sancho, ainda que

detestava o ser governador, como já se disse, todavia desejava

outra vez mandar e ser obedecido: que esta má ventura tem

consigo o mando, ainda que seja fingido. Em conclusão,

naquela tarde, D. Antônio Moreno e os seus dois amigos, com

D. Quixote e Sancho, foram às galés. O capitão-mor, que estava prevenido da sua vinda, apenas eles chegaram ao cais, mandou

que todas as galés os saudassem com os pavilhões e que tocassem as charamelas; deitaram logo ao mar os escaleres, cobertos com ricas alcatifas e almofadas de veludo carmesim; e, apenas D. Quixote pôs pé no escaler, salvou a artilharia das galés e, ao subir o cavaleiro pelo portaló de estibordo, fez-lhe

continência a companhia, como é uso quando entra na galé

uma pessoa principal, bradando-lhe: hu! hu! hu! três vezes.

Deu-lhe a mão o capitão-mor, que era um fidalgo valenciano, e

abraçou-o dizendo:

— Este dia há-de ser marcado por mim com pedra branca, por

ser um dos melhores da minha vida, tendo visto nele o sr. D.

Quixote de la Mancha, em quem se cifra e encerra todo o valor

da cavalaria andante.

Com outras expressões não menos corteses lhe respondeu D.

Quixote, sobremaneira alegre por se ver tão senhorilmente

tratado. Dirigiram-se todos para a ré, que estava muito vistosa,

e sentaram-se nos bancos da amurada; passou o mestre à

coberta e deu sinal com o apito, para que a chusma despisse as

camisolas, o que se fez num instante. Sancho, que viu tanta

gente em pelota, ficou pasmado, e ainda mais quando viu içar o

pavilhão tão depressa, que parecia que todos os diabos

andavam ali trabalhando; mas tudo isto foi pão com mel, em

comparação com o que vou dizer. Estava Sancho sentado ao pé

do primeiro galeote da direita que, informado do que havia de

fazer, se lhe agarrou e, levantando-o nos braços, o passou para

o seu vizinho e este para o imediato, e assim correu toda a

roda, com tanta pressa, que o pobre Sancho perdeu a luz dos

olhos e, sem dúvida, imaginou que os próprios demônios o

levavam; e não pararam enquanto o não puseram outra vez na ré, pelo lado oposto àquele por onde dera começo ao passeio.

Ficou o pobre Sancho moído, ofegante e suado, sem poder

perceber o que lhe sucedera.

D. Quixote, que viu o vôo sem asas de Sancho, perguntou ao

capitão-mor se aquilo eram cerimônias que se usavam com os

que entravam de novo nas galés; porque, se assim fosse, ele, que não tinha tenção de seguir essa carreira, não queria fazer

semelhantes exercícios, e que votava a Deus que, se alguém o

agarrasse, arrancava-lhe a alma às estocadas; e, dizendo isto,

pôs-se em pé, de espada em punho. Neste momento amainaram

o pavilhão e, com grandíssimo ruído, deixaram cair as vergas.

Pensou Sancho que o céu se desencaixava dos quícios e lhe

vinha desabar em cima da cabeça e, tapando-a, cheio de medo,

escondeu-a entre as pernas. Também se assustou D. Quixote, que estremeceu, encolheu os ombros e perdeu a cor do rosto.

A chusma içou as vergas, com a mesma pressa e ruído com

que as tinham amainado, e tudo em silêncio, como se não tivesse nem alento, nem voz. Fez sinal o mestre que sarpassem

o ferro e, saltando para o meio da coberta, com o chicote principiou a fustigar as costas dos remeiros e, a pouco e

pouco, a galé se foi fazendo ao largo. Quando Sancho viu moverem-se tantos pés pintados (porque supôs que os remos

eram pés), disse consigo:

— Isso sim é que são coisas encantadas, e não as que meu

amo imagina. Que fizeram estes desgraçados para que assim os açoitem? e como é que este homem só, que anda por aqui

apitando, se atreve a açoitar tanta gente? Agora digo eu que

isto é inferno ou, pelo menos, purgatório.

D. Quixote, que viu a atenção com que Sancho Pança olhava

para o que se passava, disse:

— Ah! Sancho amigo, com muita brevidade e a pouco custo

podíeis, se quisésseis, despir meio corpo, meter-vos entre estes senhores e levar a cabo o desencantamento de Dulcinéia!

pois com a miséria e a pena de tantos não sentiríeis muito a

vossa; e até podia ser que o sábio Merlin tomasse cada um

destes açoites, por serem dados com boa mão, pelo valor de

dez dos vossos.

Queria perguntar o capitão-mor que açoites eram aqueles, ou

que era isso de desencantamento de Dulcinéia, quando um

marinheiro disse:

— Monjuich faz sinal de que há baixel de remos na costa, para a

banda do poente.

Ouvindo isto, saltou o capitão-mor para o banco do quarto e

disse:

— Eia, filhos, não nos fuja: este navio, de que a atalaia nos dá

sinal, deve ser algum de corsários de Argel.

Chegaram-se logo as outras três galés à capitania, a saber o

que se lhes ordenava. Mandou o capitão-mor que saíssem duas

ao mar, que ele, com a outra, iria terra a terra, porque assim o

baixel não lhes escaparia.

Apertou a chusma os remos, impelindo a galé com tanta fúria,

que parecia que voava. As que saíram ao mar, a obra de duas

milhas descobriram um baixel, que lhes pareceu de catorze ou

quinze bancos, e assim era; quando ele descobriu as galés pôs-

se em fuga, com tenção e na esperança de se escapar, pela sua ligeireza; mas deu-se mal com isso, porque a galé capitania era

dos baixéis mais ligeiros que no mar navegavam; e assim, foi

entrando com ele, de modo que os do bergantim claramente

perceberam que se não podiam escapar, e o arrais queria que

deixassem os remos e se entregassem, para não irritar o

capitão-mor das galés; mas a sorte, que outra coisa

determinara, fez com que, no momento em que chegava a

capitania, tão perto, que podiam os do baixel ouvir as vozes

que lhes diziam que se rendessem, dois toraquis, ou dois

turcos bêbedos, que vinham no bergantim com mais doze,

disparassem as escopetas e matassem dois soldados, que

estavam nas gáveas. Vendo isto, o capitão-mor jurou não deixar

com vida nem um só de todos os que apanhasse no baixel e,

investindo-o com fúria, escapou-se-lhe ele por debaixo dos

remos. Passou a galé adiante um bom pedaço: os do baixel

viram-se perdidos; fizeram-se à vela, enquanto a galé voltava, e

de novo, à vela e a remo, se puseram em fuga; mas não lhes

aproveitou a sua diligência, tanto como os prejudicou o seu

atrevimento, porque, alcançando-os a galé a pouco mais de

meia milha, deitou-lhe os arpéus e apanhou-os vivos a todos.

Nisto, chegaram as outras duas galés, e todas com a presa,

voltaram à praia, onde infinita gente as estava esperando,

desejosa de ver o que traziam.

Deu fundo o capitão-mor perto da terra e percebeu que estava

no cais o vice-rei da cidade. Mandou deitar o escaler ao mar,

para o ir receber, e mandou amainar a verga grande, para

enforcar imediatamente o arrais e os outros turcos, que

apanhara no baixel e que seriam uns trinta e seis, pouco mais

ou menos, todos galhardos, e a maior parte deles arcabuzeiros.

Perguntou o capitão-mor quem era o arrais do bergantim, e

respondeu-lhe, em língua castelhana, um dos cativos, que

depois se soube que era renegado espanhol:

— Este mancebo que aqui vês, senhor, é o nosso arrais.

E mostrou-lhe um dos mais belos e galhardos moços, que pode

pintar a imaginação humana. A idade não parecia chegar aos

vinte anos. Perguntou-lhe o capitão-mor:

— Dize-me, perro mal aconselhado: quem te levou a matar os

meus soldados, se vias que era impossível escapares-te? É

assim que se respeitam as capitanias? Não sabes que não é

valentia a temeridade? As esperanças duvidosas devem fazer

os homens atrevidos, mas não temerários.

Queria o arrais responder, mas não pôde o capitão-mor ouvir

então a sua resposta, porque teve de acudir a receber o vice-rei

que já entrava na galé e, com ele, entraram alguns dos seus

criados e algumas pessoas do povo.

— Boa caça, senhor capitão-mor — disse o vice-rei.

— E tão boa — respondeu o capitão-mor — como Vossa

Excelência vai ver, que não tardo a pendurar-lha na verga.

— Como assim? — perguntou o vice-rei.

— É porque me mataram — tornou o capitão-mor — contra toda

a razão, contra toda a lei, uso e costume da guerra, dois soldados dos melhores que vinham nestas galés, e jurei

enforcar todos os que aprisionasse — principalmente este

moço, que é o arrais do bergantim.

E mostrou-lhe o rapaz, que estava já de mãos atadas e corda na

garganta, esperando a morte. Olhou o vice-rei para ele e,

vendo-o tão formoso, tão galhardo e tão humilde, e

compadecendo-se da sua formosura, desejou evitar-lhe a

morte, e perguntou-lhe:

— Dize-me, arrais: és turco de nação, mouro ou renegado?

— Nem sou turco de nação, nem mouro, nem renegado —

respondeu o arrais.

— Então o que és? — redarguiu o vice-rei.

— Mulher cristã — tornou o mancebo.

— Mulher! e cristã! com tal trajo e em tal situação! É coisa mais

para se admirar do que para se acreditar.

— Suspendei, senhores — disse o moço — a execução da

minha morte, que não se perderá muito em se dilatar a vossa

vingança, enquanto eu vos conto a minha vida.

Quem haveria de coração tão duro, que se não abrandasse com estas palavras ou, pelo menos, que não desejasse ouvir o que o

triste mancebo queria dizer?

Concedeu-lhe o general que dissesse o que quisesse, mas que

não esperasse alcançar perdão da sua conhecida culpa. Com

esta licença, principiou o moço a contar desta maneira:

— Pertenço àquela nação, mais desditosa que prudente, sobre

a qual choveu, nestes últimos dias, um mar de desgraças; nasci

de pais mouriscos. Na corrente da sua desventura, fui levada,

por dois tios meus, à Berberia, sem que me valesse o dizer que era cristã, como sou, efetivamente, e não das fingidas, mas das

verdadeiras e católicas. Não me valeu o dizer esta verdade aos

que estavam encarregados do nosso mísero destino, nem meus

tios a quiseram acreditar — antes a tiveram por mentira

inventada por mim, para ficar na terra onde nascera; e assim,

por força, mais que por vontade, me levaram consigo. Tive mãe

cristã e pai discreto e cristão também; bebi, com o leite, a fé

católica; criei-me com bons costumes e nem neles, nem na

língua, parece-me, dei sinal de ser mourisca. A par e passo

destas virtudes, que eu creio que o são, cresceu a minha

formosura, se alguma tenho; e o meu grande recato e o meu

encerramento não impediram, contudo, que me visse um

mancebo chamado D. Gaspar Gregório, filho morgado dum

cavaleiro, que tem junto do nosso lugar outro que lhe pertence.

Como me viu, como nos falamos, como se achou perdido por

mim, e eu por ele, seria largo de contar, principalmente em

ocasião como esta; e assim, só direi como foi que, no nosso

desterro, me quis acompanhar D. Gregório. Meteu-se de envolta

com os mouriscos, que de outros lugares saíram, porque sabia muito bem a nossa língua e, na viagem, fez-se grande amigo de

dois tios meus, que me levavam consigo; porque meu pai, prudente e avisado, assim que saiu o primeiro bando do nosso

desterro, saiu da povoação e foi procurar alguma terra nos

reinos estrangeiros, aonde nos acolhêssemos. Deixou

encerradas e enterradas, num sítio de que só eu tenho notícia,

muitas pérolas e pedras de grande valor, com alguns dinheiros,

em cruzados e dobrões de ouro. Mandou-me que não tocasse

no tesouro, que deixara, se por acaso, antes dele voltar, nos

desterrassem. Assim fiz e, com os meus tios e outros parentes

e aliados, passamos à Berberia, e o lugar onde fizemos assento

foi Argel, que é o mesmo que dizermos: no próprio inferno.

Teve notícia, o dei, da minha formosura e a fama levou-lhe

notícia também das minhas riquezas — o que, em parte, foi

ventura para mim. Chamou-me, perguntou-me de que parte da

Espanha era, e que dinheiro e que jóias trazia. Disse-lhe o lugar

e que as jóias e dinheiro tinham ficado nele enterrados, mas

que, com facilidade, se poderiam cobrar, se eu mesma voltasse a procurá-los. Tudo isto eu lhe disse, receosa de que o cegasse

a minha formosura, e preferindo que o cegasse a cobiça.

Estando nestas práticas, foram-lhe dizer que vinha comigo um

dos mais galhardos e gentis mancebos, que se podiam

imaginar. Logo percebi que falavam de D. Gaspar Gregório, cuja

beleza deixa a perder de vista as maiores que se podem

encarecer. Turbei-me, considerando o perigo que D. Gregório

corria, porque, entre aqueles bárbaros turcos, em mais se

estima um rapaz formoso do que uma mulher, ainda que seja

lindíssima. Mandou logo o dei que o levassem à sua presença,

para o ver, e perguntou-me se era verdade o que daquele moço

lhe diziam. Eu então, como avisada pelo céu, disse-lhe que sim;

mas que não era homem, era mulher como eu, e que lhe

suplicava que ma deixasse ir vestir com os seus trajos naturais,

para que mostrasse completamente a sua beleza, e com menos

embaraço aparecesse na sua presença. Respondeu-me que

fosse, e que outro dia falaríamos no modo de eu poder voltar a

Espanha desenterrar o tesouro escondido. Falei com D. Gaspar,

contei-lhe o perigo que corria, vesti-o de moura, e naquela

mesma tarde o levei à presença do dei, o qual, apenas a viu, ficou admirado e projetou guardá-la, para fazer presente dela ao

grão-senhor; e, para fugir do perigo, que no serralho das suas

mulheres podia correr, mandou-a pôr em casa dumas mouras

principais, para que a guardassem e servissem; para ali o

levaram logo. O que ambos sentimos (pois não posso negar

quanto lhe quero) deixo-o à consideração dos que se apartam,

querendo-se bem. Tratou logo o dei de me fazer voltar a

Espanha neste bergantim, ordenando que me acompanhassem

dois turcos de nação, que foram os que mataram os vossos

soldados. Veio também comigo este renegado espanhol — e

apontou para o que primeiro falara — que sei perfeitamente que

é cristão encoberto, e que vem com mais desejo de ficar na

Espanha, do que de voltar à Berberia; o resto da chusma da

galé são mouros, que não servem senão para remar. Os dois

turcos insolentes e cobiçosos, sem respeitar a ordem que

traziam, de nos porem em terra, a mim e a este renegado, no

primeiro sítio de Espanha que topássemos, depois de nos vestirmos à moda cristã, com fato de que vínhamos providos,

quiseram primeiro varrer esta costa e fazer alguma presa, se

pudessem, receando que, se primeiro nos deitassem em terra,

em qualquer desastre que nos sucedesse pudéssemos

descobrir que ficava o bergantim no mar, e que o

aprisionassem, se por acaso houvesse galés por aqui. Este é,

senhores, o fim da minha lamentável história, tão verdadeira

como desgraçada; o que vos peço é que me deixeis morrer

como cristã, porque, como já disse, em nada fui participante da

culpa em que os da minha nação caíram.

E logo se calou, com os olhos cheios de ternas lágrimas,

chorando também muitos dos que estavam presentes. O vice-

rei, terno e compassivo, sem lhe dizer palavra, chegou-se a ela

e tirou-lhe, com as suas mãos, a corda que atava as formosas

mãos da moura. Enquanto, pois, a cristã mourisca narrava a

sua história, esteve com os olhos cravados nela um velho

peregrino, que entrara na galé quando o vice-rei entrou; e, apenas a mourisca terminou, arrojou-se-lhe ele aos pés e, abraçado a eles, com palavras interrompidas por mil soluços e

suspiros, disse-lhe:

— Ó Ana Félix, desditosa filha minha: sou teu pai Ricote, que

voltava a procurar-te, por não poder viver sem ti, que és a

minha alma.

A estas palavras abriu os olhos Sancho e levantou a cabeça,

que tinha inclinada, pensando na desgraça do seu passeio; e,

olhando para o peregrino, viu que era o mesmo Ricote que

topou no dia em que saiu do seu governo, e reconheceu que

era realmente sua filha aquela moça, que, já desamarrada, abraçava seu pai, misturando as suas lágrimas com as dele; e

Ricote disse para o vice-rei e para o capitão-mor:

— Esta, senhores, é minha filha, mais desgraçada pelos seus

sucessos do que pelo seu nome: chama-se Ana Félix Ricote,

tão famosa pela sua formosura como pela minha riqueza; eu saí

da minha pátria a procurar, em reinos estrangeiros, quem nos

albergasse e recolhesse e, tendo encontrado o que buscava, na

Alemanha, voltei, com este hábito de peregrino, em companhia

de outros alemães, a procurar a minha filha e a desenterrar

muitas riquezas que deixei escondidas. Não encontrei a filha,

encontrei o tesouro, que trago comigo; e agora, pelo estranho

rodeio que vistes, achei o tesouro que mais me enriquece —

que é a minha filha querida: se a nossa pouca culpa e as suas

lágrimas e as minhas, pela integridade da vossa justiça podem

abrir porta à misericórdia, usai-a conosco, que nunca tivemos

pensamento de ofender-vos, nem concordamos, de modo

algum, com a intenção dos nossos, que foram com justiça

desterrados.

— Bem conheço Ricote — disse então Sancho — e sei que é

verdade o que ele diz, enquanto a chamar-se Ana Félix a sua

filha; que nas outras baralhadas de ir e vir, ter boa ou má

intenção, não me intrometo.

Admirados do estranho caso todos os presentes, disse o

capitão-mor:

— As vossas lágrimas não me deixarão cumprir o meu

juramento: vivei, Ana Félix, os anos de vida que o céu

determinou conceder-vos, e carreguem com a pena da sua

culpa os insolentes e atrevidos que a cometeram.

E mandou logo enforcar na verga os dois turcos, que tinham

morto os seus dois soldados; mas o vice-rei pediu-lhe

encarecidamente que os não enforcasse, porque o seu ato

ainda fora mais de loucura, que de valentia. Fez o capitão-mor o

que o vice-rei lhe pedia, porque se não executam bem as

vinganças a sangue frio; procuraram logo ver como tirariam D. Gaspar Gregório do perigo em que se achava: ofereceu Ricote,

para isso, mais de dois mil ducados, que tinha em pérolas e em

jóias; apresentaram-se muitos alvitres, mas o melhor de todos

foi o do renegado espanhol, que se ofereceu para voltar a

Argel, num barco pequeno duns seis bancos, tripulado com

remeiros cristãos, porque sabia onde, como e quando podia e

devia desembarcar, e também sabia a casa onde morava D.

Gaspar Gregório. Hesitaram o capitão-mor e o vice-rei em se

fiar no renegado e em lhe entregar cristãos remeiros; Ana Félix afiançou-o, e Ricote seu pai declarou que pagaria ele o resgate

dos cristãos, se acaso se perdessem.

Resolvidas as coisas nesse sentido, desembarcou o vice-rei, e

D. Antônio Moreno levou consigo a mourisca e seu pai,

encarregando-o o vice-rei de os tratar o melhor que lhe fosse

possível, que, pela sua parte, lhe oferecia tudo o que em sua

casa houvesse — tal foi a benevolência e a caridade que a

formosura de Ana Félix lhe acendeu no peito.