Dom Quixote - Parte II

Miguel de Cervantes · Capítulo 17 de 84

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Dom Quixote - Parte II

Capítulo VII

Do que passou D. Quixote com o seu escudeiro, e outros sucessos famosíssimos.

 

Apenas viu a ama que Sancho Pança se encerrava com D. Quixote, logo imaginou o que eles iriam tratar; e, percebendo

que daquela prática resultaria terceira saída, com grande

mágoa e aflição foi procurar o bacharel Sansão Carrasco,

parecendo-lhe que, sendo bem falante, o novo amigo de seu

amo lhe podia persuadir que deixasse tão desvairado

propósito. Achou-o a passear no pátio da sua casa, e, assim

que o viu, caiu-lhe aos pés, toda suada e aflita.

Vendo-a Carrasco tão sobressaltada e queixosa, disse-lhe:

— Que é isso, senhora ama? Que lhe aconteceu, que parece

que se lhe arranca a alma?

— Não é nada, senhor Sansão, é que meu amo se vai, vai-se

sem dúvida alguma.

— Vai-se por onde? — perguntou Sansão — Sangraram-no?

— Vai-se pela porta da sua loucura; o que digo, senhor bacharel

da minha alma, é que quer sair outra vez, e com esta será a

terceira, a procurar por esse mundo o que ele chama aventuras,

que não sei como lhes pode dar semelhante nome. Da primeira

vez trouxeram-no para casa atravessado em cima de uma

carreta, moído de pauladas; da segunda veio num carro de

bois, metido dentro de uma gaiola, onde ele dizia que estava

encantado; e o triste do homem vinha de tal maneira, que não o

conheceria a mãe que o deu à luz — fraco, amarelo, com os

olhos encovados nas profundas da cara; e para o fazer tornar a

ser o que era, gastei mais de seiscentos ovos, como sabem

Deus e todo o mundo, e as minhas galinhas, que me não

deixarão mentir.

— Isso creio eu — respondeu o bacharel — que elas são tão

boas, tão gordas e tão bem criadas, que não diriam uma coisa por outra, nem que rebentassem. Então, senhora ama, não há

mais nada de novo, nem sucedeu outra coisa ao senhor D.

Quixote, senão o que se teme que ele queira fazer?

— Mais nada — redarguiu ela.

— Pois não se aflija — tornou o bacharel — vá para casa,

arranje-me para o almoço alguma coisa quente, e de caminho

reze a oração de Santa Apolônia, se a sabe, que eu não tardo, e

verá então maravilhas.

— Coitada de mim! — retrucou a ama — diz-me Vossa Mercê

que reze a oração de Santa Apolônia! isso era bom se meu amo

padecesse da espinhela, mas do que ele padece é dos cascos.

— Sei o que digo, senhora ama; vá e não comece com disputas,

bem sabe que sou bacharel por Salamanca, que não há maior

bacharelice.

E com isto se foi a ama, e o bacharel tratou logo de ir combinar

com o cura o que a seu tempo se dirá.

Entretanto, passavam-se entre D. Quixote e Sancho Pança os

arrazoados que a história conta com muita pontualidade e

verdadeira relação.

— Afinal reluzi minha mulher a que me deixe ir com Vossa Mercê,

aonde me quiser levar.

— Dize reduzi e não reluzi, Sancho — observou D. Quixote.

— Já uma ou duas vezes — respondeu Sancho — se bem me

lembro, supliquei a Vossa Mercê que me não emende os

vocábulos, logo que entenda o que eu quero dizer, e, em não os

entendendo, diga assim: Sancho ou diabo, não te percebo. E,

se eu me não explicar, então emende, que eu sou muito fócil. — Não te percebo, Sancho — disse logo D. Quixote — não sei o

que quer dizer: sou muito fócil.

— Muito fócil quer dizer sou muito coisa.

— Agora ainda te entendo menos — tornou D. Quixote.

— Pois se não me entende, eu é que já não sei como hei-de

dizer; não estou para mais, e Deus seja comigo.

— Ai! ai! agora é que eu caio no que tu querias explicar —

acudiu D. Quixote — que eras muito dócil.

— Aposto — tornou Sancho — que logo desde o princípio me

entendeu, mas quis atrapalhar-me, para me ouvir dizer

duzentos disparates.

— É possível — redarguiu D. Quixote — mas vamos ao caso: o

que disse Teresa?

— Teresa disse que ponha Vossa Mercê o preto no branco, que

joguemos com cartas na mesa, que pelo falar é que a gente se

entende, que mais vale um toma que dois te darei; e eu

acrescento que o conselho da mulher é pouco, e quem o toma é

louco.

— Digo o mesmo também — respondeu D. Quixote — mas

continua, Sancho, que falas hoje como um livro.

— O caso vem a ser o seguinte — tornou Sancho. — Como

Vossa Mercê sabe, todos havemos de morrer; nunca se pode

contar com o dia de amanhã; tão depressa morre o cordeiro

como o carneiro; a gente neste mundo está nas mãos de Deus;

a morte é surda e vem-nos bater à porta quando menos a

esperamos, e não a detém nem rogos nem súplicas, nem mitras

e cetros, como é fama, e como nos dizem por esses púlpitos.

— Tudo isso é a pura verdade — acudiu D. Quixote — mas o

que eu não sei é aonde queres chegar.

— Quero chegar ao seguinte: que Vossa Mercê me arbitre um salário certo, dizendo o que me há-de dar por cada mês que o servir, e mandando-mo pagar pela sua fazenda, e que não hei-

de estar à mercê de que ele venha tarde ou nunca; ajude-me

Deus com o que é meu. Enfim, quero saber o que ganho, pouco

ou muito que seja, que grão a grão enche a galinha o papo,

muitos poucos fazem muitos, e quem ganha alguma coisa não

perde coisa alguma. É verdade que se Vossa Mercê (o que eu já não creio, nem espero) me viesse a dar a ilha que me prometeu,

nem sou tão ingrato, nem levo as coisas tanto à risca, que não

queira que se avaliem as rendas da tal ilha, para se fazer um

gateio no meu salário.

— Sancho amigo, não é gateio, é rateio.

— Vossa Mercê entendeu-me, e é o que basta.

— Entendi, sim — respondeu D. Quixote — e de tal forma, que

penetrei no íntimo dos teus pensamentos, e percebi o alvo a

que miram as inúmeras setas dos teus rifões. Olha, Sancho, eu não teria dúvida em te marcar salário, se houvesse encontrado

nalgumas histórias de cavaleiros andantes exemplo que me

descobrisse e mostrasse, por qualquer pequeno resquício, o

que era que costumavam ganhar, por mês ou por ano, os

escudeiros; mas li todas ou a maior parte das suas histórias, e

não me recordo de ter visto que qualquer cavaleiro andante

desse ao seu escudeiro salário certo; sei apenas que todos

serviam à mercê, e que, quando menos pensavam, se correra a

seus senhores próspera fortuna, achavam-se premiados com alguma ilha ou outra coisa equivalente, e pelo menos ficavam

com título e senhoria; se, com estas esperanças e

adiantamentos, quiseres, Sancho, tornar a servir-me, seja em

muito boa hora, que lá tirar eu dos seus termos e dos seus

eixos a antiga usança da cavalaria andante, nunca o farei:

assim, pois, meu Sancho, volta para casa, e declara à tua

Teresa a minha intenção, e se ela quiser, e tu quiseres também,

bene quidem, e se não quiserem, amigos como dantes, que se no

pombal houver milho, pombas não faltarão, e repara, filho, que

mais vale esperança boa que pensão ruim, e boa queixa que

mau pago. Falo deste modo, Sancho, para te dar a entender que

também eu sei, como tu, despejar uma saraivada de rifões.

Finalmente, digo que se não queres vir à mercê, e correr a mesma sorte, Deus seja contigo e te faça um santo, que me não

faltarão escudeiros mais obedientes, mais solícitos e menos

faladores e empachados do que tu.

Quando Sancho ouviu estas firmes palavras, anuviaram-se-lhe

os olhos, e enegreceu-se-lhe o coração, porque supunha que

seu amo não iria com ele, nem a troco de todos os haveres

deste mundo, e, estando assim suspenso e pensativo, entraram

Sansão Carrasco e a ama e a sobrinha, desejosas de ouvir com

que razões persuadiria ele a D. Quixote que não tornasse a

procurar aventuras.

Chegou Sansão, famoso magano, e, abraçando D. Quixote

como da primeira vez, disse-lhe:

— Ó flor da cavalaria andante! ó luz resplandecente das armas!

ó honra e espelho da nação espanhola! praza a Deus

Onipotente que a pessoa ou pessoas que puserem

impedimento à tua terceira saída, não a encontrem no labirinto

dos seus desejos, nem nunca se lhes cumpra o que mal

desejarem.

E, voltando-se para a ama, disse-lhe:

— Bem pode a senhora ama deixar de rezar a oração de Santa Apolônia, que eu sei que é determinação rigorosa das esferas

que o senhor D. Quixote volte a executar os seus altos e novos pensamentos; e eu muito encarregaria a minha consciência, se não intimasse e persuadisse a este cavaleiro que não tenha por

mais tempo encolhida e presa a força do seu valoroso braço, e a bondade do seu ânimo valentíssimo, porque defrauda com a

sua tardança o amparo dos órfãos, a honra das donzelas, o

favor das viúvas, o arrimo das casadas, e outras coisas deste

jaez, que tocam e andam anexas à ordem da cavalaria. Meu

senhor D. Quixote, formoso e bravo, ponha-se Vossa Mercê a

caminho, mais a sua grandeza, antes hoje que amanhã; e, se

alguma coisa faltar para a execução da sua saída, aqui estou eu

para a suprir com a minha pessoa e fazenda; e se for

necessário servir a sua magnificência de escudeiro, tê-lo-ei por

felicíssima ventura.

— Não te disse eu — interrompeu D. Quixote, voltando-se para

Sancho — que haviam de sobrar-me escudeiros? vê quem se

oferece para o ser, o inaudito bacharel Sansão Carrasco, o

gárrulo regozijador dos pátios das escolas de Salamanca,

sadio, ágil, calado e sofredor do calor, do frio, da fome e da

sede, com todas as partes que se requerem para se ser

escudeiro de um cavaleiro andante; mas não permita o céu que em proveito meu decapite e quebre a coluna das letras e o vaso

das ciências, e corte a eminente palma das boas artes liberais:

fique-se o novo Sansão na sua pátria, e, honrando-a, honre

juntamente as cãs de seus velhos pais, que eu com qualquer

escudeiro ficarei satisfeito, e já que Sancho se não digna vir

comigo...

— Digno, sim — respondeu Sancho, enternecido e com os

olhos cheios de lágrimas.

E prosseguiu:

— Não se dirá de mim: comida feita, companhia desfeita; que

eu não descendo de gente desagradecida, e sabe todo o

mundo, e especialmente a minha terra, quem foram os Panças meus ascendentes, tanto mais que tenho conhecido, por boas

palavras, o desejo que Vossa Mercê tem de me agraciar, e se

estive com contas de tantos e quantos a respeito do meu

salário, foi por comprazer com minha mulher, que, em se lhe

metendo na cabeça persuadir uma coisa, não há cunha que

tanto aperte uma tranca, como ela aperta para que se faça o

que deseja; mas, efetivamente, um homem é um homem, e um gato é um bicho, e se eu sou homem em toda a parte, hei-de o

ser também em minha casa, pese a quem pesar, e assim não há

mais que fazer, senão ordenar Vossa Mercê o seu testamento

com o seu codicilo, de forma que não possa ser revolcado, e

ponhamo-nos a caminho, para que não padeça a alma do

senhor Sansão, que diz que a sua consciência lhe lita persuadir a Vossa Mercê que saia pela terceira vez por esse mundo, e eu

de novo me ofereço a servi-lo fiel e lealmente, tão bem e melhor

do que quantos escudeiros serviram a cavaleiros andantes, em

tempos passados e presentes.

Ficou admirado o bacharel de ouvir os termos e modo de falar

de Sancho Pança, pois, apesar de ter lido a primeira história de

seu amo, nunca julgou que fossem tão graciosos como ali se

pintam; mas, ouvindo-lhe falar agora em testamento e codicilo

que não possa ser revolcado, em vez de revogado, acreditou em

tudo o que lera, e considerou-o um dos mais solenes

mentecaptos do nosso século, e disse de si para si que dois

doidos como amo e criado nunca se tinham visto no mundo.

Finalmente, D. Quixote e Sancho abraçaram-se, e ficaram

amigos; e com parecer e beneplácito de Carrasco, que estava

sendo o seu oráculo, ordenou-se que partissem daí a três dias,

empregando esse tempo em preparar o necessário para a sua viagem, e em procurar uma celada de encaixe, que, por todos

os modos, disse D. Quixote que havia de levar.

Ofereceu-lha Sansão, contando que lha não negaria um amigo

seu que tinha uma, ainda que mais escura pela ferrugem do que

limpa e clara pelo aço luzente.

As maldições, que a ama e a sobrinha arrojaram ao bacharel,

foram sem conto; arrepelaram os cabelos, arranharam a cara, e,

à moda das carpideiras que então se usavam, deploravam a

partida, como se fosse a morte de seu amo e tio.

O desígnio que teve Sansão, persuadindo-lhe que saísse outra

vez, foi o que a história adiante refere, tudo por conselho do

cura e do barbeiro, com quem anteriormente se combinara.

Enfim, naqueles três dias, D. Quixote e Sancho muniram-se de

tudo o que lhes conveio, e, tendo Sancho aplacado sua mulher,

e D. Quixote sua sobrinha e sua ama, ao anoitecer, sem que

ninguém os visse, a não ser o bacharel, que os acompanhou a

meia légua do lugar, puseram-se a caminho de Toboso — D.

Quixote montado no seu bom Rocinante, e Sancho no seu

antigo ruço, com os alforjes providos de coisas tocantes à

bucólica, e a bolsa de dinheiros que D. Quixote lhe deu para o que

necessário fosse.

Abraçou-o Sansão, e suplicou-lhe que lhe comunicasse a boa

ou má sorte que tivesse, para se alegrar com uma e entristecer-

se com outra, como pediam as leis da boa amizade.

Prometeu-lho D. Quixote; voltou Sansão para a sua terra, e

ambos tomaram o caminho da grande cidade de Toboso.