Dom Quixote - Parte II

Miguel de Cervantes · Capítulo 35 de 84

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Dom Quixote - Parte II

Capítulo XXV

Onde se conta a aventura dos zurros, e o gracioso caso do homem dos títeres, com as memoráveis adivinhações do

macaco.

 

Não descansou D. Quixote enquanto não pôde ouvir e saber as maravilhas prometidas pelo almocreve das armas. Foi-o buscar

ao sítio onde o vendeiro lhe dissera que ele estava; encontrou-

o e instou-o para que lhe dissesse logo o que lhe havia de dizer

depois, acerca do que lhe perguntara no caminho.

O homem respondeu-lhe:

— Mais devagar, e sem ser de pé, hei-de contar as minhas maravilhas; deixe-me Vossa Mercê, meu bom senhor, acabar de

tratar do macho, que eu lhe direi coisas que o espantem.

— Lá nisso não esteja a dúvida — respondeu D. Quixote — que

eu vos ajudarei em tudo.

E assim o fez, começando logo a tratar da ração do animal e da

limpeza da manjedoura, humildade que obrigou o homem a

contar-lhe com muito boa vontade o que ele lhe pedia; e

sentando-se num poial, e D. Quixote junto dele, tendo por

senado e auditório o primo do licenciado, o pajem, Sancho

Pança e o vendeiro, principiou a dizer desta maneira:

— Saberão Vossas Mercês que num lugar que fica a quatro

léguas e meia desta venda sucedeu que a um regedor, por indústria e engano duma rapariga sua criada (e isto são contos

largos), lhe faltou um burro; e, apesar de o tal regedor fazer as

possíveis diligências para o encontrar, não o conseguiu. Teriam

passado quinze dias, segundo é pública voz e fama, quando

uma vez, estando ele na praça, outro regedor do mesmo povo

lhe disse:

— Dai-me alvíssaras, compadre, que o vosso jumento

apareceu.

— Eu vo-las mandarei, e boas, compadre — respondeu o

primeiro — mas saibamos onde é que ele está.

— No monte o vi eu esta manhã — tornou o outro — sem

albarda nem aparelho de espécie alguma, e tão magro, que era uma compaixão; quis ver se o apanhava, e se vo-lo trazia; mas está já tão bravio e montês, que apenas me cheguei a ele fugiu

a sete pés e sumiu-se; se quereis que vamos ambos procurá-lo,

deixai-me pôr esta burrica lá em casa, que eu já volto.

— Grande favor me fareis — tornou o dono do burro — e eu

procurarei pagar-vo-lo na mesma moeda.

Com estas circunstâncias todas, e do modo que eu vou

contando, o referem os que estão inteirados da verdade deste

caso. Enfim, os dois regedores foram a pé até ao monte e, chegando ao sítio onde supuseram encontrar o jumento, não o acharam, nem apareceu em todos aqueles contornos, por mais

que o procurassem. Vendo, pois, que não aparecia, disse o

regedor, que o encontrara, para o outro:

— Olhai, compadre, lembrei-me agora duma traça, com a qual

sem dúvida alguma poderemos descobrir o maldito animal,

ainda que esteja metido nas entranhas da terra; e é que eu sei zurrar admiravelmente, e se vós também sabeis alguma coisa,

está tudo concluído.

— Alguma coisa, dizeis vós, compadre? — tornou o dono do

burro — por Deus, que nisso ninguém se me avantaja, nem os

próprios jumentos.

— Agora o veremos — redarguiu o segundo regedor; — ide vós

por um lado e eu por outro, de modo que rodeemos todo o

monte, e de espaço a espaço zurrareis vós e zurrarei eu, e, se o

jumento por cá estiver, decerto nos ouve e nos responde.

— Digo, compadre, que a graça é excelente e digna do vosso

grande engenho.

Separaram-se os dois, conforme o combinado, e sucedeu que

zurraram quase ao mesmo tempo, e enganado cada um pelo

zurro do outro, correram julgando que aparecera o jumento, e,

ao encontrarem-se, disse o dono:

— É possível, compadre, que não fosse o meu burro que

orneou?

— Fui eu — respondeu o outro.

— Agora digo — tornou o dono — que em zurrar sois um asno perfeito, porque nunca ouvi na minha vida coisa mais própria.

— Esses louvores e encarecimentos — respondeu o inventor

da traça — melhor vos cabem a vós do que a mim, compadre;

que, pelo Deus que me criou, podeis dar dois zurros de partido

ao maior e mais perito zurrador deste mundo; porque o som

que tendes é alto, o sostenido da voz a tempo e compasso, os

zurros muito encadeados, e, enfim, dou-me por vencido, entrego-vos a palma, e a bandeira desta rara habilidade.

— Agora digo — respondeu o dono — que me terei em maior

conta daqui por diante, e entenderei que valho mais alguma

coisa, porque, ainda que sempre supus que zurrava bem, nunca

pensei que chegasse ao extremo que alegais.

— Também direi agora — acudiu o outro — que há habilidades

raras perdidas no mundo, e que são mal empregadas nos que

não sabem aproveitá-las.

— As nossas — respondeu o dono — a não ser no caso que

temos entre as mãos, para nada nos podem servir, e ainda

neste, praza a Deus que nos aproveitem.

Dito isto, tornaram a separar-se e a zurrar outra vez, e a cada

instante se enganavam, e corriam um para o outro, até que

combinaram, que para entender que eram eles e não o burro,

zurrassem duas vezes, uma atrás da outra. Com isto, dobrando

a cada passo os zurros, rodearam todo o monte, sem que o

perdido jumento respondesse nem por sombras. Mas como

havia de responder o pobre e malogrado animal, se o

encontraram no sítio mais recôndito do monte, comido por

lobos? E, ao vê-lo, disse o dono:

— Eu já me espantava de que ele não respondesse, pois, a não

estar morto, ou zurraria se nos ouvisse, ou não seria burro:

mas, a troco de vos ter ouvido zurrar com tanta graça,

compadre, dou por bem empregado o trabalho que tive em

procurá-lo, apesar de o ter encontrado morto.

— O mesmo digo eu, compadre — respondeu o outro — se bem

canta o abade, não lhe fica atrás o noviço.

Com tudo isto, voltaram desconsolados e roucos para a sua

aldeia, onde contaram aos seus amigos, vizinhos e conhecidos,

tudo o que lhes acontecera na busca do jumento, exagerando

cada um a graça do outro no zurrar: soube-se o caso, espalhou-

se pelos lugares circunvizinhos, e o diabo, que não dorme,

como é amigo de semear bulhas e discórdias por toda a parte, e

faz castelos do vento a grandes e quimeras de nada, fez com

que a gente das outras povoações, em vendo algum da nossa

aldeia, zurrasse, como para lhes lançar em rosto o zurro dos

nossos regedores. Deram com o caso os rapazes, que foi o

mesmo que cair nas mãos e nas bocas dos demônios do

inferno, e tanto foi rendendo o zurro, que os da minha aldeia

são conhecidos e diferençados como os negros dos brancos; e

a tanto chegou a desgraça desta zombaria, que muitas vezes,

com a mão armada e esquadrão formado, saíram os caçoados

contra os caçoantes, a darem batalha, sem o poder remediar

nem rei, nem roque, nem temor, nem vergonha. Creio que

amanhã ou depois hão-de sair em campanha os da minha aldeia, contra outro lugar que fica a duas léguas do nosso, que

é um dos que mais nos perseguem; e, para sairmos bem

apercebidos, fui comprar as lanças e alabardas que vistes. E

são estas as maravilhas que disse que vos havia de contar, e se

tais vos não pareceram, outras não as sei.

Com isto dava fim à sua prática o narrador, quando entrou pela

porta da venda um homem todo vestido de camurça, meias,

calções e gibão, e disse em voz alta:

— Senhor hospedeiro, há pousada? vem aqui o macaco

adivinho e o retábulo da liberdade de Melisendra.

— Corpo de tal — acudiu o vendeiro — aqui temos o senhor

mestre Pedro; alegre noite se nos prepara!

Esquecia-me dizer que o tal mestre Pedro trazia tapado o olho esquerdo e quase meio carão, com um parche de tafetá verde,

sinal de que todo aquele lado devia de estar enfermo; e o

vendeiro prosseguiu, dizendo:

— Seja bem-vindo, senhor mestre Pedro; mas onde estão o

macaco e o retábulo, que os não vejo?

— Aí vem já — respondeu Pedro — eu é que me adiantei a

saber se há pousada.

— Ao próprio duque de Alba a tiraria para vo-la dar, senhor

mestre Pedro — respondeu o vendeiro — venham o macaco e o

retábulo, que esta noite há gente na venda, que pagará para os

ver e ouvir.

— Seja em muito boa hora — respondeu o do parche — que eu

estipularei preços moderados e contentar-me-ei com que me paguem o custo da pousada; vou apressar a vinda da carreta

que traz o macaco e o retábulo.

E logo saiu da venda. Perguntou D. Quixote ao vendeiro que

mestre Pedro era aquele, e que retábulo e que macaco trazia.

— É um famoso mostrador de títeres — respondeu o vendeiro

— que há muitos dias que anda por esta Mancha do Aragão,

mostrando um retábulo da liberdade de Melisendra, dada pelo

famoso D. Gaifeiros, que é uma das melhores e mais bem

representadas histórias que há muitos anos a esta parte se tem

visto neste reino; traz também consigo um macaco, da mais

rara habilidade que se viu em macacos ou se imaginou em

homens; porque, se lhe perguntam alguma coisa, está com

muita atenção e logo em seguida salta para os ombros de seu

amo, e chegando-se-lhe ao ouvido lhe diz a resposta do que lhe

perguntam, e mestre Pedro declara-a imediatamente; e das

coisas passadas diz muito mais que das futuras, e, ainda que

nem sempre em todas acerta, a maior parte das vezes não erra,

de forma que nos faz crer que tem o diabo no corpo. Leva

mestre Pedro dois reais por cada pergunta se o macaco

responde, quer dizer, se depois de ter falado ao ouvido do amo,

este responde por ele, e assim imagina-se que o tal mestre

Pedro está riquíssimo, e é um bom companheiro e passa vida

regalada; fala mais do que seis, e bebe mais do que doze, tudo

à custa da sua língua, do seu macaco e do seu retábulo.

Nisto, voltou mestre Pedro, trazendo numa carreta o retábulo e

o macaco, grande e sem rabo, com as pousadeiras peladas,

mas de focinho alegre; e apenas D. Quixote o viu, perguntou-

lhe:

— Diga-me Vossa Mercê, senhor adivinho: que mouro temos na

costa? e que há-de ser de nós outros? Aqui estão já os meus

dois reais.

E mandou a Sancho que os desse a mestre Pedro, que

respondeu pelo macaco:

— Senhor, este animal não dá notícia das coisas futuras; sabe

um pouco das passadas e um tanto das presentes.

— Diabos me levassem — disse Sancho — se eu desse um

ceitil para me dizerem o que se passou comigo, porque lá isso

quem o pode saber melhor do que eu próprio? e pagar para que

me digam o que sei, seria uma grande asneira; mas, se sabe as

coisas presentes, aqui estão dois reais: diga-me o senhor

macacão, o que está fazendo agora minha mulher Teresa

Pança, e em que é que se entretém?

Não quis mestre Pedro receber o dinheiro, dizendo:

— Não costumo receber adiantados os prêmios, sem os terem

precedido os serviços; e, dando com a mão direita duas

pancadas no ombro esquerdo, num trinque saltou para o chão,

e logo com grandíssima pressa foi mestre Pedro pôr-se de

joelhos diante de D. Quixote e, abraçando-lhe as pernas, disse:

— Abraço estas pernas, como se abraçasse as duas colunas de

Hércules, ó ressuscitador insigne da já olvidada cavalaria

andante! ó nunca assaz louvado cavaleiro D. Quixote de la

Mancha, ânimo dos desmaiados, arrimo dos que vão a cair,

braço dos caídos, báculo e consolação de todos os desditosos!

Ficou pasmado D. Quixote, absorto Sancho, suspenso o guia, atônito o pajem, aparvalhado o do zurro, confuso o vendeiro e

finalmente espantados todos os que ouviram as razões do

homem dos títeres, que prosseguiu dizendo:

— E tu, ó bom Sancho Pança, o melhor dos escudeiros do

melhor dos cavaleiros do mundo, alegra-te, que a tua mulher

Teresa vai de saúde e a estas horas está ela fiando na sua roca,

e por sinal tem à esquerda um canjirão, cheio de boa pinga,

com que se entretém no seu trabalho.

— Isso acredito eu — respondeu Sancho — porque ela é uma bem-aventurada e, se não fosse ciumenta, não a trocaria pela

própria giganta Andanhona que, segundo diz meu amo, foi

mulher de prol; e a minha Teresa é daquelas que não se deixam

passar mal, ainda que seja à custa dos seus herdeiros.

— Agora digo eu — interrompeu D. Quixote — que quem lê

muito e viaja muito, muito vê e muito sabe. Digo isto, porque

ninguém seria capaz de persuadir-me que houvesse macacos

no mundo que adivinham como agora vi com os meus olhos;

porque sou, efetivamente, o D. Quixote de la Mancha, que esse

bom animal disse, ainda que exagerou um pouco os meus

louvores; mas, seja eu quem for, dou graças ao céu, que me

dotou de um ânimo brando e compassivo, inclinado sempre a

fazer bem a todos e mal a ninguém.

— Se eu tivesse dinheiro — disse o pajem — perguntaria ao

senhor macaco o que me há-de suceder nesta peregrinação

que eu levo.

A isso respondeu mestre Pedro, que acabara de se levantar:

— Já disse que este animalejo a respeito do futuro não

responde coisa alguma, que, se respondesse, não importaria

que não tivesse dinheiro, que, por serviço do senhor D.

Quixote, que se acha presente, deixaria eu todos os interesses

do mundo; e agora, porque lho devo, e para lhe ser agradável,

vou armar o meu retábulo e divertir todos os que estão na

venda, sem receber a mínima paga.

Ouvindo isto, o vendeiro, sobremaneira alegre, indicou o sítio onde se podia pôr o retábulo, que num momento se armou. D.

Quixote não estava muito satisfeito com as adivinhações do

macaco, por lhe parecer que não era muito corrente que um

macaco adivinhasse nem coisas futuras, nem passadas; e

assim, enquanto mestre Pedro acomodava o retábulo, retirou-

se D. Quixote com Sancho para um canto da cavalariça, onde

lhe disse em voz baixa:

— Olha, Sancho, que eu refleti bem na extrema habilidade deste

macaco e entendo que sem dúvida mestre Pedro deve ter feito

pacto expresso ou tácito com o demônio.

— Se o pátio é espesso, e do demônio ainda por cima — respondeu

Sancho — há-de sem dúvida ser muito sujo; mas que proveito

tira mestre Pedro de ter esses pátios?

— Não me entendes, Sancho; quero dizer que ele tem por força

algum contrato com o demônio, para que infunda no macaco

essa habilidade que lhe dê de comer, e depois de estar rico lhe dará a sua alma, que é o que pretende este universal inimigo; e

faz-me crer isso mesmo não responder o macaco senão a respeito de coisas passadas e presentes, porque a sabedoria do diabo também se não estende a mais, que as do porvir não

as sabe senão por conjectura, e nem sempre, que só a Deus

está reservado o conhecer os tempos e os momentos, e para ele não há passado, nem futuro, que tudo é presente; e, sendo

isto assim, como é, está claro que este macaco fala com o

estilo do diabo, e admira-me como o não acusaram ainda ao

Santo Ofício, como o não examinaram e não o obrigaram a

dizer por virtude de quem adivinha; porque é certo que não é

astrólogo este macaco, e que nem ele, nem o seu dono,

levantam, nem sabem levantar essas figuras a que chamam

judiciárias, tão usadas agora na Espanha, que não há

mulherzinha, nem pajem, nem remendão que não tenha

presunções de levantar uma figura, como quem levanta do

chão uma sota de qualquer naipe, deitando a perder com as

suas mentiras e a sua ignorância a verdade maravilhosa da

ciência. Duma senhora sei eu que perguntou a um destes

figureiros se uma cadelinha sua pariria, e quantos, e de que cor

seriam os cachorrinhos. E o tal senhor judiciário, depois de ter levantado a figura, respondeu que a cadelita havia de parir três

cachorrinhos: um verde, outro vermelho, outro malhado,

contanto que fosse coberta entre as onze e meia noite, numa

segunda-feira ou num sábado; e daí a dois dias a cadela

morreu, mas nem por isso o tal figurão deixou de passar por

acertadíssimo judiciário, como passam todos ou a maior parte

deles.

— Apesar de tudo, eu quereria — disse Sancho — que Vossa

Mercê dissesse a mestre Pedro que perguntasse ao seu

macaco se é verdade o que Vossa Mercê passou na cova de

Montesinos; que eu tenho para mim, com perdão de Vossa

Mercê, que tudo foi patranha, ou sonho, pelo menos.

— Pode ser — respondeu D. Quixote — mas sempre farei o que

me aconselhas, apesar de ter nisso um certo escrúpulo.

Estavam nisto, quando chegou mestre Pedro à procura de D.

Quixote, para lhe dizer que já estava em ordem o retábulo, e

sua Mercê que o viesse ver, porque o merecia. D. Quixote

comunicou-lhe o seu pensamento e rogou-lhe que perguntasse

logo ao macaco se certas coisas que se tinham passado na

cova de Montesinos tinham sido sonhadas ou verdadeiras, porque lhe parecia a ele que tinham de tudo. Mestre Pedro, sem responder palavra foi buscar o macaco e, pondo-se diante de D.

Quixote e de Sancho, disse:

— Olhai, senhor macaco, que este cavaleiro quer saber se certas coisas que se passaram com ele numa cova chamada de

Montesinos, foram falsas ou verdadeiras.

E, fazendo-lhe o sinal costumado, o macaco trepou-lhe para o

ombro esquerdo, pareceu que lhe falava ao ouvido, e mestre

Pedro disse logo:

— Diz o macaco que parte das coisas que Vossa Mercê viu ou

passou na dita cova são falsas e outras verossímeis; e que

mais nada sabe a esse respeito, e que, se Vossa Mercê quiser

saber mais, na próxima sexta-feira responderá a tudo o que lhe

perguntar.

— Não lhe dizia eu — acudiu Sancho — que se me não podia

meter na cabeça que tudo o que Vossa Mercê disse da cova

fosse verdadeiro, nem metade sequer?

— Os sucessos o dirão, Sancho — respondeu D. Quixote — que

o tempo, descobridor de todas as coisas, não deixa nenhuma

que não tire à luz do sol, ainda que esteja escondida nas

entranhas da terra; e por agora basta, e vamos ver o retábulo

do bom mestre Pedro, que imagino que deve ter alguma

novidade.

— Alguma? — respondeu mestre Pedro — sessenta mil encerra

este meu retábulo: digo-lhe a Vossa Mercê, senhor D. Quixote, que é uma das coisas mais dignas de se verem que há hoje no

mundo: operibus credite et non verbis, e mãos à obra, que se faz tarde;

temos muito que fazer, que dizer e que mostrar.

Obedeceram-lhe D. Quixote e Sancho, e foram aonde estava o

retábulo posto e descoberto, cheio por todos os lados de

velinhas de cera, acesas, que o faziam vistoso e

resplandecente. Mestre Pedro, que era quem havia de mexer as

figuras, meteu-se para dentro, e ficou de fora um rapaz seu

criado, para servir de intérprete e revelador dos mistérios do

retábulo; tinha uma varinha na mão, com que apontava para as

figuras que iam saindo. Reunidas, pois, todas as pessoas que

estavam na venda, algumas de pé, defronte do retábulo, e

sentados D. Quixote, Sancho, o pajem e o guia nos melhores

lugares, o trugimão começou a dizer o que ouvirá ou verá quem

ouvir ou ler o capítulo seguinte.