Dom Quixote - Parte II

Miguel de Cervantes · Capítulo 37 de 84

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Dom Quixote - Parte II

Capítulo XXVII

 

Onde se dá conta de quem eram mestre Pedro e o seu macaco, e também do mau resultado que tirou D. Quixote da

aventura do zurro, a que não pôs o termo que desejava e pensava.

 

Entra Cid Hamete, cronista desta grande história, neste capítulo

com as seguintes palavras:

“Juro, como cristão católico”, segundo diz o seu tradutor, que

jurar Cid Hamete como católico cristão, sendo ele mouro, não

quer dizer outra coisa senão que, assim como o católico

cristão, quando jura, diz ou deve dizer a verdade, assim ele a

diria no que de D. Quixote queria escrever, mormente em referir

quem era mestre Pedro e o macaco adivinho, que trazia

pasmados todos aqueles povos; diz, pois, que bem se

recordará quem tiver lido a primeira parte desta história,

daquele Gines de Passamonte, a quem, juntamente com os

outros galeotes, deu liberdade D. Quixote na Serra Morena,

benefício que depois lhe foi mal agradecido e mal pago por

aquela gente maligna e mal costumada. Este Gines de

Passamonte, a quem D. Quixote chamava Ginesillo de Parapilla,

foi quem furtou o ruço a Sancho Pança, que até por se não ter

contado na primeira parte, por culpa dos impressores, nem

como nem quando esse furto se fizera, deu que entender a muitos, que atribuíam à pouca memória do autor o erro da

imprensa. Mas, em conclusão, Gines furtou o burro estando

Sancho Pança montado, a dormir, usando do estratagema que

usou Brunelo, quando, estando Sacripante montado em

Albraca, lhe tirou o cavalo de entre as pernas; e Sancho depois recuperou o jumento, como já se contou. Este Gines, pois, com

medo de ser apanhado pela justiça, que o procurava para o

castigar pelas suas infinitas malfeitorias, velhacarias e delitos,

que foram tantos e tais, que ele mesmo compôs um grande

volume em que os narrava, resolveu passar para o reino de Aragão, e tapar o olho esquerdo, empregando-se no ofício de

titereiro, que em habilidades de mãos ninguém o excedia.

Sucedeu, pois, que a uns cristãos já libertos, que vinham da

Barbaria, comprou aquele macaco, a quem ensinou o saltar-lhe

para o ombro, em ele lhe fazendo certos sinais, e o murmurar-

lhe ou o fingir que lhe murmurava ao ouvido. Feito isto, antes

de entrar em qualquer sítio com o seu retábulo e o seu macaco,

informava-se no lugar mais próximo, ou com quem podia, a

respeito de quaisquer particularidades que houvessem

acontecido no tal sítio, ou das pessoas que lá estivessem; e,

levando essas informações bem de memória, a primeira coisa

que fazia era mostrar o seu retábulo, em que representava

diversas histórias, mas todas alegres, divertidas e conhecidas;

acabado o espetáculo, propunha as habilidades do macaco,

dizendo ao povo que adivinhava o passado e o presente, mas

que do futuro nada sabia.

Pela resposta a cada pergunta pedia dois reais, e às vezes

levava mais barato, conforme tomava o pulso aos

perguntadores; e quando chegava a casas, onde morava gente

a quem tinham sucedido coisas que ele sabia, ainda que nada

lhe perguntassem, para lhe não pagarem, fazia sinal ao macaco,

e logo bradava que ele lhe dissera tais e tais coisas, que

vinham de molde com o acontecido. Assim alcançava crédito e

andavam todos atrás dele: outras vezes, como era muito

discreto, respondia de modo que as respostas se

acomodassem às perguntas, e como ninguém o apertava para

ele dizer como era que o macaco adivinhava, a todos burlava, e

ia enchendo as algibeiras. Logo que entrou na venda,

reconheceu D. Quixote e Sancho, e esse reconhecimento

tornou-lhe fácil causar-lhes a ambos grande admiração, e a

todos os que estavam na venda; mas esteve para lhe sair cara a

brincadeira, se D. Quixote abaixasse mais a mão, e lhe

destruísse toda a sua cavalaria, como fica dito no antecedente

capítulo. É isto o que há a dizer de mestre Pedro e do seu

macaco.

Voltando a D. Quixote de la Mancha, referirei que, depois de ter

saído da venda, resolvera ir ver primeiro as margens do rio

Ebro, e todos aqueles contornos, antes de entrar na cidade de

Saragoça, porque lhe dava tempo para tudo o muito que faltava

ainda para começarem as justas. Com esta intenção, seguiu o

seu caminho, em que andou dois dias, sem lhe acontecer coisa

digna de se contar; até que ao terceiro dia, ao subir uma

encosta, ouviu grande estrondo de tambores, trombetas e de

arcabuzes. Primeiro pensou que passava por aquele sítio algum terço de soldados, e, para os ver, picou as esporas a Rocinante,

e subiu a encosta; e, quando chegou ao cimo, viu na falda do

outeiro mais de duzentos homens armados com diversas

armas, tais como lanças, partazanas, bestas, alabardas, piques, alguns arcabuzes e muitas rodelas. Desceu o outeiro e acercou-

se do esquadrão, até ver distintamente as bandeiras, e as

cores, e as empresas, especialmente uma de cetim branco, em

que se pintara ao vivo um burro, de cabeça levantada, boca

aberta, língua de fora, como se estivesse a zurrar; ao redor

liam-se, escritos em letras grandes, estes dois versos:

Não ornearam em vão

os alcaides da questão.

Por esta insígnia entendeu D. Quixote que aquela gente era o

povo do zurro, e assim o disse a Sancho, declarando-lhe o que

vinha escrito no estandarte. Disse-lhe também que o homem,

que lhes contara aquele caso, enganara-se quando afirmara

que tinham sido regedores os que zurraram, ao passo que os

versos do estandarte mostravam que tinham sido alcaides.

— Senhor meu amo — respondeu Sancho Pança — não há que

reparar, que pode muito bem ser que os regedores que então zurraram viessem com o tempo a ser alcaides do seu povo, e

assim podem-se designar por ambos os títulos; tanto mais que

isso não faz nada ao caso, nem altera a verdade da história

serem os zurradores regedores ou alcaides, contanto que eles zurrassem; porque tão a pique está de zurrar um alcaide como

um regedor.

Finalmente, conheceram e souberam que o povo chacoteado

saía a pelejar com o outro que o chacoteava em demasia.

Chegou-se para eles D. Quixote, com grande desgosto de

Sancho, que nunca foi amigo de se achar metido nessas

danças. Os do esquadrão abriram-lhe campo, julgando que era

algum dos da sua parcialidade. D. Quixote, alçando a viseira

com gentil brio e porte, chegou ao pé do estandarte do burro, e

ali o rodearam os mais principais do exército para o verem,

cheios do costumado pasmo que sentiam todos os que o divisavam pela primeira vez. D. Quixote, que os viu tão atentos

a contemplarem-no, sem que nenhum deles lhe falasse, nem

lhe perguntasse coisa alguma, quis aproveitar-se daquele

silêncio e, levantando a voz, disse:

— Meus bons senhores, o mais encarecidamente que posso

vos suplico que não interrompais o discurso que vos quero

fazer, até verdes se vos desgosta e enfada; e, se isso acontecer,

ao mais leve sinal porei um selo na boca e uma mordaça nos

dentes.

Todos lhe afirmaram que podia dizer o que quisesse, que de

bom grado o escutariam. D. Quixote, com esta licença,

prosseguiu, dizendo:

— Eu. meus senhores, sou cavaleiro andante, cujo exercício é o

das armas e cuja profissão é a de favorecer os que de favor

precisam, e acudir aos que de socorro hão mister. Há dias que

soube da vossa desgraça e da causa que vos move a pegar em

armas, para vos vingardes dos vossos inimigos; e, tendo

pensado maduramente no vosso negócio, entendo, segundo as

leis do duelo, que andais erradamente, supondo-vos

afrontados, porque nenhum particular pode afrontar um povo inteiro, senão arrojando a todos juntos o epíteto de traidores,

por não saber qual deles foi que cometeu a traição. Temos

exemplo disto em D. Diogo Ordoñez de Lara, que desafiou todo o povo de Samora, porque ignorava que só Velido Dolfos fora o traidor que matara o seu rei, e por isso a todos reptou e a todos tocava a vingança e a resposta; e, ainda assim, não pode deixar

de se dizer que o senhor D. Diogo andou com certa

precipitação, e passou muito adiante dos limites do repto, porque não tinha motivo para reptar os mortos, as águas e os

pães e os que ainda não tinham nascido, nem as outras

minudências que no desafio se declaram; mas, enfim, passe!

porque, quando a cólera se apodera impetuosamente de um

homem, não há quem lhe segure a língua, nem há freio que a

corrija. Sendo, pois, isto assim, que um homem só não pode

afrontar nem reino, nem província, nem cidade, nem república,

nem povo algum inteiro, é claro que não há motivo para sairdes

a vingar-vos de semelhante afronta, que o não é, porque seria

curioso que a cada passo se matassem os habitantes de

diferentes povoações, que têm diversas alcunhas, e os que lhas

puseram ou que por elas os chamem; seria estranho, decerto,

que todos os povos insignes, que têm alcunhas, se

chacoteassem e se vingassem e andassem continuamente de espada desembainhada em qualquer pendência, por pequena

que fosse. Não, não, nem Deus tal permita, nem queira; os varões prudentes, as repúblicas bem concertadas, por quatro

coisas hão-de pegar em armas e arriscar as suas pessoas,

vidas e fazendas. Primeira, para defender a fé católica;

segunda, para defender a vida, que é de lei natural e divina;

terceira, em defesa da sua honra, da sua família e da sua

fazenda; quarta, em serviço do seu rei em guerra justa; e, se lhe

quisermos ainda acrescentar uma quinta causa, para defender

a sua pátria. A estes cinco motivos capitais se podem

acrescentar alguns outros justos e razoáveis, que obriguem a

tomar as armas; tomá-las, porém, por ninharias e por causas

que são antes de riso e passatempo, que de afronta, não parece

de gente razoável; tanto mais que o tirar vingança injusta (que justa não a pode haver), vai diretamente contra a santa lei que

professamos, em que se nos manda que façamos bem aos

nossos inimigos e amemos a quem nos aborrece; mandamento

que, ainda que pareça um tanto dificultoso de cumprir, não o é

senão para aqueles que têm menos de Deus que do mundo, e

mais de carne que de espírito, porque Jesus Cristo, Deus e

homem verdadeiro, que nunca mentiu, nem pôde nem pode mentir, sendo nosso legislador, disse que o seu jugo era suave,

e leve a sua carga; e assim, não nos podia ordenar coisas que

fossem impossíveis de executar. Portanto, meus senhores,

Vossas Mercês são obrigados, pelas leis divinas e humanas, a

desistir da luta.

— Diabos me levem se este meu amo não é tólogo, e se o não é,

parece-o — resmungou Sancho.

Parou um pedaço para respirar D. Quixote e, notando que ainda

lhe prestavam atenção, quis continuar com a sua prática como

continuaria, se não se metesse no meio a agudez de Sancho

que, vendo que seu amo se detinha, tomou a mão por ele,

dizendo:

— Meu amo, D. Quixote de la Mancha, que em tempo se

chamou o cavaleiro da Triste Figura, e se chama agora o cavaleiro dos

Leões, é um fidalgo de muita esperteza, que sabe latim e

espanhol como um bacharel; e em tudo quanto aconselha e

trata procede como bom soldado, e traz de cor e salteadas

todas as leis e ordenanças do que chamam duelo; e assim, não

têm mais que fazer senão deixarem-se levar pelo que ele disser;

tanto mais que ele diz muito bem, alegando que é asneira agoniar-se qualquer só por ouvir um zurro, que eu me lembro que zurrava, quando era pequeno, sempre que me parecia, sem

que ninguém me fosse à mão, e com tanta graça e propriedade

que, em eu zurrando, zurravam todos os burros da povoação; e

eu nem por isso deixava de ser filho de meus pais, que eram

honradíssimos; e, apesar de ser invejado por causa dessa

prenda por mais de quatro, não se me dava disso; e, para que

se veja que falo verdade, esperem e escutem, que esta ciência é

como a de nadar: em se aprendendo, nunca mais se esquece.

E, apertando o nariz com a mão, começou a zurrar com tamanho estrondo, que retumbaram todos os vales dos

arredores; mas um dos que estavam ali ao pé, julgando que ele

os chasqueava, levantou um varapau que tinha na mão e

arrumou-lhe tamanha bordoada, que deu com Sancho Pança

em terra. D. Quixote, que viu Sancho tão mal parado, arremeteu

ao que lhe batera, mas foram tantos os que se meteram no

meio, que não foi possível vingá-lo; antes, vendo que chovia

sobre ele uma nuvem de pedras, e que o ameaçavam mil bestas

retesadas, e não menor quantidade de arcabuzes, voltou as

rédeas a Rocinante e a todo o galope saiu do meio deles,

encomendando-se de todo o coração a Deus, para que o

livrasse de tamanho perigo, temendo a cada passo que lhe

entrasse uma bala pelas costas e lhe saísse pelo peito, e a cada

momento tomava a respiração para ver se lhe faltava; mas os

do esquadrão contentaram-se com vê-lo fugir sem lhe atirarem.

A Sancho, apenas tornou a si, puseram-no em cima do jumento, e deixaram-no ir atrás de seu amo, não que ele tivesse tino para

o guiar, mas o ruço seguiu, como de costume, as pisadas de

Rocinante. Quando D. Quixote se julgou a boa distância, voltou

a cabeça e viu Sancho, e esperou-o, depois de observar que

ninguém o seguia. Os do esquadrão estiveram ali até à noite, e,

por não terem saído a dar batalha os seus contrários, voltaram

para a sua aldeia muito alegres, e, se soubessem o costume

antigo dos gregos, levantariam naquele lugar um troféu.