Dom Quixote - Parte II

Miguel de Cervantes · Capítulo 44 de 84

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Dom Quixote - Parte II

Capítulo XXXIV

Que dá conta da notícia que se teve de como se havia de desencantar a incomparável Dulcinéia del Toboso, que é uma das

aventuras mais famosas deste livro.

 

Divertiam-se muito o duque e a duquesa com a conversação de

D. Quixote e de Sancho Pança, e confirmando-se na intenção

que tinham de lhes fazer algumas burlas, que tivessem

vislumbres e aparência de aventura, aproveitaram a que D.

Quixote já lhes contara da cova de Montesinos, para inventar

uma que fosse famosa; mas, o que mais pasmava a duquesa

era a simplicidade de Sancho, que chegara a acreditar que

Dulcinéia del Toboso estava encantada, tendo sido ele mesmo o

nigromante e o inventor daquele negócio; e assim, ordenando

aos seus criados tudo o que haviam de fazer, dali a seis dias

levaram-nos a uma caça de montaria, com tanto séquito de

monteiros e caçadores, como poderia ter um rei coroado.

Deram a D. Quixote um fato de monte e a Sancho outro de

finíssimo pano verde; mas D. Quixote não quis vestir o seu,

dizendo que dentro em pouco teria de voltar ao duro exercício

das armas e que não podia levar consigo guarda-roupa; Sancho

recebeu o que lhe deram, com tenção de o vender na primeira

ocasião que pudesse. Chegado, pois, o dia aprazado, armou-se D. Quixote, vestiu-se Sancho e, montando no seu ruço, que não

quis deixar, apesar de lhe oferecerem um cavalo, meteu-se no

meio do bando dos monteiros. A duquesa saiu

esplendidamente vestida, e D. Quixote, por pura cortesia, tomou-lhe a rédea do palafrém, apesar de o duque não o querer consentir, e finalmente chegaram a um bosque, onde, ocupados

todos os pousos e veredas, e repartida a gente pelos diferentes

postos, se começou a caçada com grande estrondo, grita e

vozearia, de forma que se não podiam ouvir uns aos outros,

tanto pelo ladrido dos cães, como pelo som das buzinas. Apeou-se a duquesa e, com um agudo venábulo nas mãos, pôs-

se no sítio por onde sabia que costumavam romper alguns

javalis; apearam-se também o duque e D. Quixote e colocaram-

se ao lado dela; Sancho deixou-se ficar atrás de todos, sem se

apear do ruço, que não ousava desamparar, para que não

tivesse algum desmando, e, apenas tinham posto o pé no chão,

e formado alas com muitos criados, viram que vinha para eles,

acossado pelos cães e seguido pelos caçadores, um

desmedido javali, rangendo dentes e colmilhos, e deitando

espuma pela boca; e, apenas o viu, embraçando o escudo, e

levando a mão à espada, adiantou-se D. Quixote a recebê-lo; o

mesmo fez o duque com o seu venábulo, mas a todos se

adiantaria a duquesa, se seu marido lho não impedisse. Só o

nosso Sancho é que, apenas viu o valente animal, desamparou o ruço e largou a correr o mais que pôde e, procurando subir a

um alto carvalho, não o conseguiu; antes, quando chegou ao

meio, agarrado a um ramo, tentando trepar ao cimo da árvore,

tão desgraçado foi, que se partiu o ramo e Sancho caiu; mas

antes de desabar no chão, ficou pendurado de um esgalho: e,

vendo-se assim, sentindo que se lhe rasgava o saio verde, e

parecendo-lhe que, se a fera se chegasse para ali, o poderia

apanhar, começou a dar tamanhos gritos e a pedir socorro com

voz tão aflita, que todos que o ouviam e não o viam supunham

que estava nos dentes de algum bicho. Finalmente, o cerdoso

javali ficou atravessado pelos ferros de muitos venábulos, e D. Quixote, voltando a cabeça, aos gritos de Sancho, deu com ele

pendurado do carvalho, de cabeça para baixo, e ao pé o ruço,

que o não desamparou na sua calamidade; e diz Cid Hamete,

que poucas vezes se viu Sancho Pança sem se ver o ruço, nem

o ruço sem se ver Sancho Pança, tal era a leal amizade que

havia entre ambos. Chegou-se D. Quixote e despendurou

Sancho, o qual, vendo-se livre e no chão, olhou para o seu

esfarrapado saio e sentiu grande pesar, porque imaginara que

aquele fato seria para ele um morgado. Nisto, atravessaram o

poderoso javali em cima de uma azêmola, e, cobrindo-o com

ramos de rosmaninho e murta, levaram-no, como em sinal de

vitoriosos despojos, para umas grandes tendas de campanha, que estavam armadas no meio do bosque, onde encontraram

as mesas em ordem, e o jantar servido com tanta suntuosidade

e grandeza, que bem mostrava a magnificência de quem o dava.

Sancho, mostrando à duquesa os rasgões do seu roto saio,

disse:

— Se esta caça fosse às lebres ou aos pássaros, estaria livre o

meu saio de se ver neste extremo; não sei que gosto pode

haver em esperar um animal que, se nos deita um colmilho, nos

pode tirar a vida: lembro-me de ter ouvido cantar um romance

antigo, que diz:

Que te comam feros ursos,

como ao célebre Favila.

— Esse foi um rei godo — disse D. Quixote — que, indo à caça

da montaria, foi comido por um urso.

— É o que eu digo — respondeu Sancho; — não me parece bem

que os príncipes e os reis se metam em semelhantes perigos,

por um prazer que, afinal de contas, o não é, porque consiste

em matar um animal que nenhum delito cometeu.

— Pois muito vos enganais, Sancho — respondeu o duque — o

exercício da caça do monte é mais conveniente e necessário

para reis e príncipes, do que nenhum outro. A caça é uma imagem da guerra: tem estratagemas, astúcias, insídias, para

se vencer a são e salvo o inimigo. Padecem-se nela

grandíssimos frios e intoleráveis calores, menoscaba-se o ócio

e o sono, corroboram-se as forças, tornam-se ágeis os

membros de quem a usa, e enfim é um exercício que se pode

fazer sem prejuízo de ninguém e com agrado de muitos, e seu melhor predicado é o não ser para todos, como é o dos outros

gêneros de caça, exceto o da volateria, que também só para

reis e grandes senhores se reserva. Portanto, Sancho, mudai de

opinião e, quando fordes governador, ocupai-vos na caça, e

vereis que haveis de lucrar muito.

— Isso não — respondeu Sancho — um bom governador deve

estar em casa, de perna partida; seria muito bonito virem os

negociantes procurá-lo, afadigados, e ele no monte a divertir-

se; assim, em má hora andaria o governo. Por minha fé, senhor,

a caça e os passatempos mais devem ser para os folgazãos do

que para os governadores: o meu entretenimento consistirá em

jogar pelas Páscoas, nos domingos e dias santos, algum jogo

caseiro, que lá isso de caças não dizem bem com a minha

condição, nem se acomodam com a minha consciência.

— Praza a Deus que assim seja, Sancho, porque do dizer ao

fazer vai grande distância.

— Haja lá a distância que houver; o bom pagador não teme dar

penhor; e mais faz quem Deus ajuda, que quem muito madruga;

e as tripas é que levam os pés, não são os pés as tripas; quero

dizer que, se Deus me ajudar e eu fizer o que devo com boa

intenção, hei-de governar melhor que um gerifalte, e senão

metam-me o dedo na boca e verão se eu mordo.

— Maldito sejas, por Deus e por todos os santos, Sancho

amaldiçoado — acudiu D. Quixote — quando virá o dia, como já

por muitas vezes tenho dito, em que eu te ouça expender, sem

provérbios, razões correntes e concertadas? Deixem vossas

grandezas este tonto, senhores meus, se não querem que ele

lhes moa as almas com dois mil rifões despropositados.

— Os rifões de Sancho — disse a duquesa — não sendo mais

do que os do comentador grego, nem por isso são menos estimados, pela verdade das sentenças; eu, por mim, digo que

os prefiro a outros quaisquer, ainda que esses outros venham

mais a propósito.

Com estas e outras práticas, saíram da tenda para o bosque e

passaram o dia em preparar novos postos de caça, até que

chegou a noite, não tão clara como pediam o tempo e a

estação, que era pleno estio; mas um certo claro-escuro, que trouxe consigo, favoreceu a tenção dos duques; e, assim que

principiou a anoitecer, um pouco depois do crepúsculo, pareceu de repente que o bosque todo ardia, e ouviram-se logo

por diferentes pontos infinitas cornetas e outros instrumentos

de guerra, como se passassem pelo bosque muitos esquadrões

de cavalaria. A luz do fogo e o som dos bélicos instrumentos

quase que cegaram e ensurdeceram os circunstantes, e até

quantos pelo bosque estavam. Depois, ouviram-se infinitos

clamores, semelhantes aos dos mouros, quando entram nas

batalhas; soaram trombetas e clarins, rufaram tambores,

vibraram pífaros, quase todos a um tempo, tão contínua e

apressadamente, que entontecia o som confuso de tantos

instrumentos. Pasmou o duque, ficou suspensa a duquesa,

admirou-se D. Quixote, tremeu Sancho Pança, e finalmente os

mesmos que sabiam a causa desse barulho se espantaram.

Com o temor veio naturalmente o silêncio, e silenciosos os

encontrou um postilhão, que, em trajo de demônio, passou por

diante deles, tocando, em vez de corneta, um chifre oco e

desmedido, que despedia um som rouco e horroroso.

— Olá, correio mano, quem sois vós? — perguntou o duque —

aonde ides? que gente de guerra é essa, que parece atravessar

este bosque?

— Sou o diabo — respondeu o correio, com voz horríssona; —

vou buscar D. Quixote de la Mancha; a gente que aí vem são

seis esquadrões de nigromantes, que trazem num carro ovante

a incomparável Dulcinéia del Toboso: vem encantada, com o

galhardo francês Montesinos, dizer a D. Quixote como é que a

pode desencantar.

— Se fôsseis diabo, como dizeis, e como a vossa figura mostra,

já teríeis conhecido o cavaleiro que procurais, D. Quixote de la

Mancha, pois que o tendes diante de vós — tornou o duque.

— Por Deus e pela minha consciência — redarguiu o diabo —

não dava por ele; trago os pensamentos distraídos com tantas

coisas, que já me ia esquecendo do principal a que vinha.

— Sem dúvida — disse Sancho — este demônio deve ser

pessoa de bem, e bom cristão, porque, se o não fosse, não

juraria por Deus e pela sua consciência.

Logo o demônio, sem se apear, e dirigindo a vista para D.

Quixote, disse:

— A ti, cavaleiro dos Leões (e entre as garras deles eu te veja),

me envia o desgraçado, mas valente cavaleiro Montesinos,

mandando-me que te diga da sua parte que o esperes no sítio

em que eu te topar, porque traz consigo aquela a quem chamam

Dulcinéia del Toboso, com ordem de te dar o que é mister para

que ela seja desencantada; e por não ter outro fim a minha

vinda, não terei aqui mais demora: fiquem contigo os demônios

como eu, e com estes senhores os anjos bons.

E, dizendo isto, assoprou no extravagante chifre, voltou as

costas, e foi-se, sem esperar resposta alguma. Renovou-se o

espanto de todos, especialmente de Sancho e de D. Quixote; de

Sancho, por ver que, a despeito da verdade queriam à viva

força que Dulcinéia estivesse encantada; de D. Quixote, por se

não poder certificar se era verdade ou não o que passara na

cova de Montesinos; e, estando, enlevado nestes pensamentos,

disse-lhe o duque:

— Vossa Mercê tenciona esperar, senhor D. Quixote?

— Pois não! — respondeu ele — aqui esperarei, intrépido e

forte, ainda que venha investir-me o inferno todo.

— Pois eu, se vejo outro diabo e ouço outro chifre, espero tanto

como se estivesse em Flandres — acudiu Sancho.

Nisto cerrou-se mais a noite e principiaram a correr pelo

bosque muitas luzes, como correm pelo céu as exalações da

terra, que parecem à nossa vista estrelas cadentes. Ouviu-se

logo também um espantoso ruído, como aquele que produzem

as rodas maciças dos carros de bois, de cujo chiar áspero e

continuado se diz que fogem os lobos e os ursos, se os há nos

sítios por onde passam. Acrescentou-se a toda esta

tempestade outra muito maior, e foi o parecer verdadeiramente

que nos quatro cantos do bosque se estavam dando ao mesmo

tempo quatro recontros ou batalhas, porque ali soava o duro

estrondo de espantosa artilharia; acolá, disparavam-se infinitas

escopetas; mais perto, soavam as vozes dos combatentes; ao

longe, reiteravam-se os clamores agarenos; finalmente, as

cornetas, as trompas, as buzinas, os clarins, as trombetas, os tambores, a artilharia, os arcabuzes, e, sobretudo, o temeroso

ruído dos carros, formavam, no seu conjunto, um som tão

confuso e tão horrendo, que foi mister que D. Quixote se

valesse de todo o seu ânimo; mas o de Sancho é que se desfez,

e deu com ele desmaiado nas saias da duquesa, a qual o

recebeu, e com grande pressa mandou que lhe deitassem água

no rosto. Assim se fez, e tornou Sancho a si, exatamente

quando chegava àquele sítio um dos carros das chiadoras

rodas. Puxavam-no quatro preguiçosos bois, todos cobertos de

paramentos negros: em cada chifre traziam amarrado e aceso

um grande círio, e em cima do carro, num alto assento, vinha

um venerável velho, com a barba mais branca do que a branca neve, e tão comprida, que lhe passava para baixo da cintura; a

sua vestimenta era uma roupa larga de negro bocaxim, e via-se

perfeitamente tudo o que vinha no carro, por causa das infinitas

luzes que o alumiavam. Guiavam-no dois feios demônios, vestidos da mesma fazenda, e com rostos tão horrendos, que Sancho, apenas os viu, fechou os olhos para os não continuar

a ver. Chegando, pois, o carro ao sítio onde eles estavam, levantou-se do seu alto assento o venerável velho e, posto em

pé, disse com um grande brado:

— Eu sou o sábio Lirgandos.

E o carro passou adiante, sem ele dar nem mais palavra.

Atrás deste veio outro carro do mesmo feitio, com outro velho

entronizado, o qual, fazendo parar o carro, com voz não menos

grave do que a do outro, disse:

— Eu sou o sábio Alquife, o grande amigo de Urganda, a

desconhecida.

E passou adiante. Veio logo atrás terceiro carro mas o que

vinha sentado no trono não era velho: era um homenzarrão

robusto e de má catadura, que, ao chegar, pondo-se de pé como os outros, disse com voz mais rouca e mais endiabrada:

— Sou Archelaus, o nigromante, inimigo mortal de Amadis de

Gaula e de toda a sua parentela.

E passou.

A pouca distância fizeram alto os três carros e cessou a

enfadosa chiadeira das suas rodas; e não se ouviu outro ruído,

a não ser um som de suave e concertada música, com que

Sancho se alegrou, tendo-o por bom sinal, e assim o disse à

duquesa, de quem não se arredava um passo:

— Senhora, onde há música não pode haver coisa má.

— Nem onde há luzes e claridade — respondeu a duquesa.

— Luz dá o fogo, e claridade as fogueiras, como vemos nas que

nos cercam, e podiam, contudo, perfeitamente abrasar-nos —

tornou Sancho — mas a música sempre é indício de regozijo e

de festas.

— Ele o dirá — acudiu D. Quixote, que tudo escutava. E disse

bem, como se verá no capítulo seguinte.