Dom Quixote - Parte II

Miguel de Cervantes · Capítulo 71 de 84

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Dom Quixote - Parte II

Capítulo LXI

Do que sucedeu a D. Quixote na entrada de Barcelona, com outras coisas que têm mais de verdadeiras que de discretas.

 

Três dias e três noites esteve D. Quixote com Roque e, se estivesse trezentos anos, não lhe faltaria que ver e admirar no

seu modo de vida. Amanheciam aqui e jantavam acolá; umas

vezes fugiam sem saber de que e outras vezes esperavam, sem

saber a quem. Dormiam em pé, interrompendo o sono com o

mudar-se de um sítio para outro. Tudo era pôr espias, escutar

sentinelas, assoprar os morrões dos arcabuzes, ainda que não

tinham muitos, porque todos se serviam de pistolas. Roque

passava as noites apartado dos seus, e de forma que eles não

pudessem saber onde ele estava, porque os muitos bandos que

o vice-rei de Barcelona deitara para alcançar a sua cabeça,

traziam-no inquieto e receoso, e não se atrevia a fiar-se em

ninguém, temendo que até os seus o entregassem à justiça —

vida decerto miserável e enfadosa. Enfim, por caminhos

desusados, por atalhos e sendas encobertas, partiram Roque,

D. Quixote e Sancho, com mais seis escudeiros, para

Barcelona. Chegaram ali na véspera de S. João, à noite, e, abraçando Roque a D. Quixote e a Sancho, a quem deu os dez

escudos prometidos, que até então lhe não dera, deixou-os,

com mil oferecimentos, que de um e de outro lado se fizeram.

Voltou Roque para trás, ficou D. Quixote esperando o dia, a

cavalo como estava, e não tardou muito que não principiasse a

descobrir-se pelos balcões do Oriente, o rosto da branca

aurora, alegrando as ervas e as flores. Ao mesmo tempo

alegraram também os ouvidos as muitas charamelas e

timbales, tambores e pífaros, e tropear de cavalos, cujo som

parecia vir da cidade. Deu lugar a aurora ao sol que, com o

rosto maior que uma rodela, surgia a pouco e pouco do fundo

do horizonte. Estenderam D. Quixote e Sancho a vista por todos os lados, viram o mar, que até então nunca tinham visto,

e pareceu-lhes imenso e espaçosíssimo, muito maior que as

lagoas de Ruidera, que tinham na Mancha. Viram as galés

varadas na praia, que estavam cheias de flâmulas e

galhardetes, que tremulavam ao vento e varriam as águas. Dentro delas soavam clarins, trombetas e charamelas que, ao

perto e ao longe, enchiam os ares de suaves e belicosos

lamentos. Principiaram a mover-se e a fazer como que umas

escaramuças navais nas sossegadas águas, correspondendo-

lhes, quase do mesmo modo, infinitos cavaleiros, que saíam da

cidade montados em formosos cavalos e com vistosas galas.

Os soldados das galés disparavam muitos canhões, a que respondiam os que estavam nas muralhas e fortes da cidade; e

a grossa artilharia, com temeroso estrondo, rompia os ares,

respondendo-lhe os canhões de maior calibre das galeras.

O mar alegre, a terra jucunda e o ar límpido, ou apenas turvo

com o fumo da pólvora, parece que iam infundindo e gerando

súbita alegria em toda a gente. Não podia imaginar Sancho

como podiam ter tantos pés aqueles vultos que se moviam no

mar. Nisto, vieram correndo com gritos: “é ele, é ele, é ele”, em grande algazarra, os cavaleiros das vistosas galas e, dirigindo-se para o sítio onde estava, atônito e suspenso, D. Quixote, um

deles, que era o que Roque avisara, disse em alta voz a D.

Quixote:

— Seja bem-vindo à nossa cidade o espelho, o farol, a estrela e

o norte de toda a cavalaria andante, o homem em cujo peito

mais largamente ela se encerra; bem-vindo seja, repito, o

valoroso D. Quixote de la Mancha, não o falso, não o fictício,

não o apócrifo, que em falsas histórias ultimamente nos

mostraram, mas sim o verdadeiro, o legal, o fiel, que nos descreveu Cid Hamete Benengeli, flor dos historiadores.

Não respondeu palavra D. Quixote, nem os cavaleiros

esperaram resposta; mas, girando e regirando com os outros

que os seguiram, começaram a galopar, em espiral, em torno de

D. Quixote que, voltando-se para Sancho, disse:

— Eles logo nos conheceram: aposto que leram a nossa

história e também a do aragonês, que foi há pouco impressa.

Voltou outra vez o cavaleiro que falara a D. Quixote, e disse:

— Venha Vossa Mercê conosco, senhor D. Quixote, que somos

todos seus servos e grandes amigos de Roque Guinart.

— Se cortesias geram cortesias — respondeu D. Quixote — a

vossa, senhor cavaleiro, é filha ou parenta muito próxima da do grande Roque. Levem-me para onde quiserem, que eu não terei

outra vontade senão a vossa, e ainda mais se a quiserdes

empregar em servir-vos.

Com palavras não menos comedidas do que estas lhe

respondeu o cavaleiro e, metendo-o todos no meio, ao som das

charamelas e dos timbales, encaminharam-se com ele para a

cidade, a cuja entrada o mafarrico, que todo o mal ordena, e os

gaiatos, que ainda são piores do que ele, tramaram uma

partida: dois garotos, travessos e atrevidos, meteram-se por

meio de toda a gente e, levantando um deles o rabo do ruço e

outro o de Rocinante, ataram-lhes um molho de cardos.

Sentiram os pobres animais essas esporas de novo gênero e, apertando as caudas, ainda aumentavam a dor; de modo que,

aos corcovos e aos coices, deram com seus donos em terra. D.

Quixote, corrido e afrontado, apressou-se a tirar os cardos do rabo do seu companheiro, e Sancho os do jumento. Quiseram

os que guiavam D. Quixote castigar o atrevimento dos gaiatos,

mas não foi possível, porque se meteram no meio de mais de

mil que os seguiam. Tornaram a montar D. Quixote e Sancho e, com o mesmo aplauso e música, chegaram a casa do seu guia,

que era grande e principal, enfim como de cavaleiro rico; e aí os

deixaremos por agora, porque assim o quer Cid Hamete.