Dom Quixote - Parte II

Miguel de Cervantes · Capítulo 47 de 84

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Dom Quixote - Parte II

Capítulo XXXVII

Onde prossegue a famosa aventura da Dona Dolorida.

 

Folgaram muito o duque e a duquesa por verem como D.

Quixote correspondia bem aos seus intentos; e nisto disse

Sancho:

— A mim é que me não agradaria que esta senhora dona viesse

pôr tropeços à promessa do meu governo, porque ouvi dizer a um boticário toledano, que chalrava como um pintassilgo, que

onde interviessem donas não podia haver coisa boa. Ai!

senhor! e que mal que dizia delas o tal boticáriol Donde eu

infiro que, se todas as donas são enfadosas e impertinentes, de

qualquer qualidade e condição que sejam, o que farão as que forem doloridas, como disseram que é essa condessa de três

faldas ou de três fraldas!

— Cala-te, Sancho amigo — disse D. Quixote — que, vindo esta

senhora dona de tão longes terras procurar-me, não pode ser

daquelas a que o boticário se referia, tanto mais que esta é

condessa, e quando as condessas servem de donas, não pode

ser senão a rainhas e imperatrizes, e em suas casas são

senhoríssimas, e com outras donas se servem.

A isto respondeu dona Rodríguez, que se achava presente:

— Donas tem ao seu serviço a senhora duquesa, que poderiam ser condessas, se a fortuna o quisesse; mas lá se vão leis onde querem reis; e ninguém diga mal das donas, e ainda menos das que são antigas e donzelas, que, ainda que eu não seja dessas,

percebo perfeitamente a vantagem que leva uma dona donzela

a uma dona viúva, e a quem pretende tosquiar-nos ficam-lhe as

tesouras nas mãos.

— Com tudo isso, diz o meu barbeiro que não há pouco que

tosquiar nas donas, e portanto será melhor não mexer o arroz,

ainda que cheire a esturro.

— Sempre os escudeiros — respondeu dona Rodríguez — são

nossos inimigos, porque, sendo duendes das ante-salas, e

vendo-nos a cada instante, o tempo em que não rezam (que não

é pouco) gastam-no em murmurar de nós outras,

desenterrando-nos os antepassados, e enterrando-nos a fama.

Pois eu mando-os para os cavalos de pau, que, em que lhes

pese, havemos de viver no mundo e nas casas principais, ainda

que morramos de fome e cubramos com um vestido negro as nossas carnes delicadas ou não. Ah! se fosse ocasião agora,

eu mostraria a todos os presentes, e até ao mundo em peso,

que não há virtude que se não encerre numa dona.

— Creio — disse a duquesa — que a minha boa dona Rodríguez

tem muitíssima razão; mas bom será que aguarde o ensejo

próprio para punir por si e pelas outras donas, para confundir a

má opinião daquele mau boticário, e desarraigar a que abriga

no peito o grande Sancho Pança.

E Sancho respondeu:

— Depois que tenho fumaças de governador já nada tenho de

escudeiro, e não me importam donas nem meias donas.

O colóquio foi interrompido pelos tambores e o pífaro, que

tornavam a tocar, o que lhes deu a entender que Dona Dolorida

entrava. Perguntou a duquesa ao duque se seria bem o ir

recebê-la, visto que era condessa e pessoa principal.

— Lá por ser condessa — respondeu Sancho, adiantando-se ao

duque — acho bem que vossas grandezas saiam a recebê-la,

mas visto ser dona, parece-me que nem um passo devem dar.

— Para que te metes tu nestas coisas, Sancho? — perguntou D.

Quixote.

— Para quê? Meto-me, porque me posso meter, porque sou um

escudeiro que aprendeu as praxes da cortesia na escola de

Vossa Mercê, que é o mais cortês e bem criado cavaleiro do

mundo; e nestas coisas ouvi dizer a Vossa Mercê que tanto se

perde por carta de mais como por carta de menos, e a bom

entendedor meia palavra basta.

— Sancho diz muito bem — acudiu o duque; — veremos as

maneiras da condessa, e a cortesia que se lhe deve.

Nisto entraram os tambores e o pífaro, como da vez primeira. E

aqui, neste breve capítulo, pôs ponto o autor, e principiou o

outro, continuando com a mesma aventura, que é uma das mais

notáveis desta história.