Dom Quixote - Parte II

Miguel de Cervantes · Capítulo 77 de 84

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Dom Quixote - Parte II

Capítulo LXVII

Da resolução que tomou D. Quixote de se fazer pastor e seguir a vida do campo, durante o ano da sua promessa, com

outros sucessos, na verdade gosotosos e bons.

 

Se muitos pensamentos fatigavam D. Quixote antes de ser

derribado, muitos mais o pungiam depois de caído. Estava à

sombra de uma árvore, como se disse, e ali lhe acudiam a picá-

lo os pensamentos, como as moscas ao mel. Uns eram

tocantes ao desencantamento de Dulcinéia, e outros à vida que

havia de passar no seu forçado retiro. Chegou Sancho e

louvou-lhe a liberalidade do lacaio Tosilos.

— É possível — disse D. Quixote — que ainda penses que

aquele homem seja um verdadeiro lacaio? Parece que se te

varreu da memória o teres visto Dulcinéia convertida e

transformada em lavradeira e o cavaleiro dos Espelhos no

bacharel Carrasco — tudo obra dos nigromantes que me

perseguem! Mas, dize-me agora: perguntaste a esse Tosilos,

como lhe chamas, o que fez Deus a Altisidora? se ela chorou a

minha ausência ou se deixou nas mãos do olvido os enamorados pensamentos que na minha presença a

perseguiam?

— Os que eu tinha não me deixavam perguntar por ninharias — tornou Sancho — corpo de tal! senhor: está Vossa Mercê agora

em termos de inquirir pensamentos alheios, especialmente

amorosos?

— Vê, Sancho — disse D. Quixote — muita diferença há entre

as obras que se fazem por amor e as que se fazem por

agradecimento. Pode ser um cavaleiro desamorável, mas,

realmente, nunca pode ser desagradecido. Quis-me bem, ao

que parecia, Altisidora; deu-me os três lenços que sabes;

chorou na minha partida e amaldiçoou-me, vituperou-me, queixou-se publicamente, a despeito da vergonha — tudo

sinais de que me adorava; que as iras dos amantes costumam

desabafar em maldições. Eu não lhe dei esperanças, nem lhe

ofereci tesouros, porque as minhas esperanças entreguei-as a Dulcinéia, e os tesouros dos cavaleiros andantes são como os

dos duendes, aparentes e falsos, e só lhe posso dar estas recordações, que dela tenho, sem prejuízo, contudo, das que

conservo de Dulcinéia, que tu agravas com a remissão que

mostras em te açoitar e em castigar essas carnes, que eu veja

comidas de lobos, porque antes se querem guardar para os

bichos da terra, que para remédio daquela pobre senhora.

— Senhor — respondeu Sancho — se quer que lhe diga a

verdade, não me posso persuadir que os açoites dados nas

minhas pousadeiras tenham nada que ver com os

desencantamentos dos encantados; e é como se disséssemos:

quando vos doer a cabeça fomentai os joelhos; pelo menos,

vou jurar que em nenhuma das histórias que Vossa Mercê tem

lido, e que tratam de cavalaria andante, aparece ninguém

desencantado por açoites; mas, pelo sim, pelo não, eu cá me

irei açoitando quando me apetecer e tiver comodidade para me

fustigar.

— Deus queira! — respondeu D. Quixote — e o céu te inspire o

desejo de cumprires a obrigação que tens de auxiliar a minha

senhora, que é senhora tua também, logo que tu és meu servo.

Nestas práticas iam seguindo o seu caminho, quando

chegaram ao mesmo sítio em que foram atropelados pelos

touros. Reconheceu-o D. Quixote e disse a Sancho:

— É este o prado em que topamos as bizarras pastoras e

galhardos pastores, que aqui queriam imitar e renovar a

pastoril Arcádia — pensamento novo e discreto, a cuja

imitação, se isso te agrada, quereria eu, Sancho, que nos

convertêssemos em pastores, pelo menos durante o tempo em

que eu tiver de estar recolhido. Comprarei algumas ovelhas e

tudo o mais que é necessário para o exercício pastoril; e,

chamando-me eu o pastor Quixotiz, e tu o pastor Pancino,

andaremos por montes, selvas e prados, cantando ali,

recitando endechas acolá, bebendo os límpidos cristais, ou das

fontes, ou dos regatos, ou dos rios caudalosos. Dar-nos-ão,

com mão abundantíssima, o seu dulcíssirno fruto as altas carvalheiras, assento os troncos dos duríssimos sobreiros, os

salgueiros sombra, aroma as rosas, alfombra matizada de mil

cores os extensos prados, o ar o seu puro e claro bafejo, luz as estrelas, e a lua, rompendo a escuridade da noite, suave prazer

o canto, alegria o choro, versos Apolo, e o Amor conceitos,

com que poderemos eternizar a nossa fama, não só nos

presentes, mas também nos porvindouros séculos.

— Por Deus! — disse Sancho — quadra-me esse gênero de

vida, tanto mais que nunca se lembraram disso, nem o bacharel

Sansão Carrasco, nem o barbeiro mestre Nicolau, e talvez a

queiram seguir e fazer-se pastores conosco; e praza a Deus

que o cura não tenha vontade também de entrar no aprisco, já

que tanto gosta de se divertir.

— Disseste muito bem — respondeu D. Quixote — e o bacharel Sansão Carrasco, se entrar no grêmio pastoril, poderá chamar-

se o pastor Sansonino, ou o pastor Carrascão; o barbeiro

Nicolau chamar-se-á Nicoloso, como o antigo Boscan se

chamou Nemoroso; ao cura é que não sei que nome lhe havemos de pôr, a não ser algum que derive de cura: por

exemplo — o pastor Curiambro. Às pastoras, nossas

enamoradas, é fácil escolher os nomes; e, como o da minha

dama tanto quadra a uma princesa como a uma zagala, não

preciso de me cansar a procurar outro que melhor lhe caiba: tu,

Sancho, lá porás à tua o que quiseres.

— Não tenciono — respondeu Sancho — pôr-lhe nome diferente

do de Teresona, que fica bem à sua gordura e ao nome próprio

que tem, pois se chama Teresa; tanto mais que, celebrando-a

eu nos meus versos, revelo os meus castos desejos, porque

não ando a meter a foice em seara alheia. O cura é que não

deve ter pastora, para dar bom exemplo; e, se o bacharel a

quiser ter, sua alma, sua palma.

— Valha-me Deus! — disse D. Quixote — que vida que nós

vamos passar, Sancho amigo! que de charamelas ressoarão

aos nossos ouvidos! que gaitas de Samora, que tamboris, que

rabecas e que violas! e, se entre estes diversos instrumentos

se ouvirem também as albogas, juntar-se-ão quase todos os

instrumentos bucólicos!

— Que são albogas? — perguntou Sancho — nunca as vi, nem

nunca ouvi falar nelas.

— Albogas são — respondeu D. Quixote — umas placas que,

batendo uma na outra, dão um som, não muito harmonioso

talvez, mas que não desagrada e se casa bem com a

rusticidade da gaita e do tamboril; e este nome alboga é

mourisco, como todos aqueles que nas nossas línguas

peninsulares começam por al, a saber: almofada, almoçar, alcanzia e

outros semelhantes — que poucos mais devem de ser; e alguns são mouriscos também, mas acabam em i. Isto disse-to, por mo

ter trazido à memória o nome de albogas; e há-de nos ajudar

muito a usar com perfeição deste exercício pastoril o ser eu

algum tanto poeta como sabes, e sê-lo também em extremo o

bacharel Sansão Carrasco. Do cura nada digo; mas vou apostar

que também faz versos; e não duvido que os componha o mestre Nicolau, porque os barbeiros são todos mais ou menos guitarristas e fazedores de coplas. Eu lamentarei a ausência da

minha dama; tu gabar-te-ás de fino enamorado; o pastor

Carrascão se queixará dos desdéns da sua bela, e o cura

Curiambro do que quiser; e assim andará tudo admiravelmente.

— Sou tão desgraçado, senhor — respondeu Sancho — que

receio que não chegue o dia em que me veja em tal exercício.

Oh! que polidas colheres eu hei-de fazer quando for pastor! que

migas, que natas, que grinaldas e que pastoris cajados que,

ainda que me não granjeiem fama de discreto, não deixarão de

ma granjear de engenhoso! A minha filha Sanchita nos levará

comida ao aprisco. Mas, esperem lá; a pequena não é nenhuma peste e há pastores que são mais manhosos do que parecem; e

não queria que ela fosse buscar lã e viesse tosquiada, porque,

tanto nos campos como nas cidades, andam amores de

companhia com os maus desejos; e nas choças dos pegureiros acontece o mesmo que nos palácios dos reis; e, tirada a causa,

tira-se o efeito; e olhos que não vêem, coração que não

suspira; e mais vale salteador que sai à estrada, que namorado

que ajoelha.

— Basta de rifões, Sancho — acudiu D. Quixote; — um só dos

que disseste é suficiente para nos fazer entender o teu

pensamento; e muitas vezes te tenho aconselhado que não

sejas tão pródigo de provérbios; mas parece-me que é pregar

no deserto. Minha mãe a castigar-me e eu com o pião às voltas.

— Parece-me — respondeu Sancho — que Vossa Mercê é como

o outro que diz: disse a caldeira à sertã, tira-te para lá, não me

enfarrusques. Está-me a repreender e a aconselhar que não

diga rifões e enfia-os Vossa Mercê aos pares.

— Nota, Sancho — disse D. Quixote — que eu trago os rifões a

propósito e ajeitam-se ao que digo, como os anéis aos dedos; mas tu, tanto os puxas pelos cabelos, que os arrastas, em vez de os guiar; e, se bem me lembro, já de outra vez te disse que

os rifões são sentenças breves, tiradas da experiência e das

especulações dos nossos antigos sábios; e o rifão que não

vem de molde é mais disparate que sentença. Mas deixemo-nos

disto e, como a noite já vem próxima, retiremo-nos da estrada real um pedaço e procuremos sítio onde passar a noite; Deus

sabe o que amanhã sucederá.

Retiraram-se, cearam tarde e mal, bem contra vontade de

Sancho, a quem desagradavam os jejuns da cavalaria andante, principalmente comparados com as abundâncias da casa de D.

Diogo de Miranda, das bodas do opulento Camacho e da

habitação de D. Antônio Moreno. Mas considerava que não era possível ser sempre dia; e assim, passou esta noite dormindo,

e seu amo velando.