Dom Quixote - Parte II

Miguel de Cervantes · Capítulo 51 de 84

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Dom Quixote - Parte II

Capítulo XLI

 

Da vinda de Clavilenho, com o fim desta dilatada aventura.

 

Nisto, chegou a noite, e com ela o prazo fixado para a vinda de Clavilenho, cuja tardança já fatigava D. Quixote, parecendo-lhe

que, visto que Malambruno se demorava em enviá-lo, ou não

era ele o cavaleiro para quem estava guardada aquela aventura,

ou Malambruno não ousava vir com ele a singular batalha. Eis

que de repente entraram pelo jardim quatro selvagens, vestidos todos de verde hera, que traziam aos ombros um grande cavalo

de madeira. Puseram-no no chão, e um dos selvagens disse:

— Monte nesta máquina o cavaleiro, que para isso tiver ânimo.

— Então não monto eu — disse Sancho — que nem tenho

ânimo, nem sou cavaleiro.

E o selvagem prosseguiu, dizendo:

— E se o cavaleiro tiver escudeiro, este que monte na garupa, e fie-se no valoroso Malambruno, que, a não ser pela sua espada,

por nenhuma outra, nem por malícia alguma será ofendido; e

basta só dar volta a esta escaravelha que traz no pescoço, e

logo o cavalo os levará pelos ares ao sítio onde Malambruno os

espera; mas para que a altura e sublimidade do caminho lhes

não cause vágados, devem ir com os olhos tapados, até o cavalo rinchar, que é sinal de ter chegado ao termo da viagem.

Dito isto, deixaram Clavilenho, e saíram, com gentil porte, pelo

sítio por onde tinham vindo. A Dolorida, assim que viu o cavalo,

disse, quase com lágrimas, a D. Quixote:

— Valoroso cavaleiro, as promessas de Malambruno foram

certas: o cavalo aí está; as nossas barbas crescem, e todas

nós, com todos os cabelos dessas mesmas barbas, te

suplicamos que nos rapes e tosquies, pois que tudo está em

montares a cavalo com o teu escudeiro, e dares feliz princípio a

esta nova viagem.

— Isso farei eu, senhora condessa Trifaldi, e de muito bom

grado, sem ir buscar almofada nem calçar esporas, para não

me demorar: tal é a vontade que tenho de vos ver, senhora, e a

todas estas damas, rapadas e tosquiadas.

— Pois isso não faço eu — acudiu Sancho — não o faço por

caso algum; e se essa tosquiadela se não pode fazer sem eu

montar na garupa, procure meu amo outro escudeiro que o

acompanhe, e estas senhoras outro modo de alisar os rostos,

que eu não sou bruxo para gostar desses passeios; e que dirão

os meus insulanos, quando souberem que o seu governador

anda por ares e ventos? E outra coisa mais: havendo três mil e

tantas léguas daqui a Candaia, se o cavalo se cansa ou se o

gigante se enoja, não voltamos antes de meia dúzia de anos, e

já não haverá nem ilha, nem ilhéus no mundo que me

conheçam; e como se diz vulgarmente, que na tardança é que

está o perigo, e que em te dando uma vitela vai logo por ela,

perdoem-me as barbas destas damas, que bem está S. Pedro

em Roma, quero dizer, que estou perfeitamente nesta casa,

onde me fazem tanta mercê, e de cujo dono tamanho bem

espero, como é o de me ver governador.

— Sancho amigo — disse o duque — a ilha que eu te prometi

não é móvel, nem fugitiva: tem raízes tão fundas, lançadas nos

abismos da terra, que não a arrancam dali nem à mão de Deus

Padre; e como sabes que não há gênero algum de ofício, destes

de maiores proventos, que se alcance de graça, o que eu quero

em troca deste governo é que vás com teu amo D. Quixote pôr

fecho e remate a esta memorável aventura; e quer voltes

montado em Clavilenho, com a brevidade que a sua ligeireza

promete, quer volvas a pé, feito romeiro, sempre que voltares

encontrarás a tua ilha onde a deixas, e os teus insulanos com o

mesmo desejo que sempre têm tido de te receber por seu governador, e a minha vontade será a mesma, e não duvide do

que lhe afirmo, senhor Sancho, que seria fazer notável agravo

ao desejo que tenho de o servir.

— Basta, senhor — disse Sancho — um pobre escudeiro, como eu sou, já não pode com o peso de tantas cortesias: monte meu

amo a cavalo, tapem-me estes olhos, e encomendem-me a

Deus, e digam-me se quando formos por esses ares posso

encomendar-me ao Senhor e aos anjos que me favoreçam.

— Sancho — respondeu Trifaldi — podeis perfeitamente

encomendar-vos a Deus ou a quem quiserdes, que

Malambruno, apesar de nigromante, é cristão, e faz as suas

nigromancias com muita arte e muito tento, sem se meter com

ninguém.

— Eia, pois — disse Sancho — Deus me ajude e a Santíssima

Trindade de Gaeta.

— Desde a memorável aventura das azenhas — tornou D.

Quixote — nunca vi Sancho com tanto medo como agora; e se

eu fosse tão agoureiro como muitos outros, a sua

pusilanimidade havia de me fazer algumas cócegas na alma.

Mas chega-te aqui, Sancho, que, com licença destes senhores,

quero-te dizer à parte duas palavras.

E, levando Sancho para um arvoredo do jardim, e agarrando-lhe

em ambas as mãos, disse-lhe:

— Já vês, Sancho, a longa viagem que nos espera, e sabe Deus

quando voltaremos dela, e o tempo e a comodidade que nos

darão os negócios; e assim, desejaria que te retirasses para o

teu aposento, como se fosses procurar alguma coisa

necessária para o caminho, e, num abrir e fechar de olhos,

arrumasses em ti uma boa parte dos três mil e trezentos

açoites, a que estás obrigado, pelo menos quinhentos, que

sempre são uns tantos que ficam dados, que o principiar as

coisas é tê-las meio acabadas.

— Por Deus — disse Sancho — Vossa Mercê não está em si;

pois agora, que tenho de ir sentado numa tábua rasa, é que

Vossa Mercê quer que eu esfole as pousadeiras? Verdade,

verdade, isso não é razoável; vamos nós tosquiar estas damas,

que à volta prometo a Vossa Mercê, como quem sou, que me

hei-de apressar tanto a cumprir a minha obrigação, que Vossa

Mercê ficará contente; e não lhe digo mais nada.

E D. Quixote respondeu:

— Pois com essa promessa, bom Sancho, vou consolado, e

creio que a cumprirás, porque efetivamente apesar de seres

tonto, és homem verídico.

— Não sou verdito, nem verde, sou moreno — respondeu Sancho

— mas ainda que fosse de furta-cores, havia de cumprir a

minha palavra.

E nisto, voltaram para montar em Clavilenho; e quando ia a

montar, disse D. Quixote.

— Tapa os olhos e sobe, Sancho, que quem de tão longes

terras nos manda buscar, decerto não pretende enganar-nos,

pela pouca glória que lhe resultaria de enganar quem se fia

nele; e ainda que tudo sucedesse às avessas do que imagino, a honra de ter empreendido esta façanha não a poderá escurecer

malícia alguma.

— Vamos, senhor — disse Sancho — que as barbas e as

lágrimas destas senhoras tenho-as cravadas no coração e não

comerei bocado que bem me saiba, enquanto não as vir na sua

primitiva lisura. Monte Vossa Mercê e tape os olhos, que, se

tenho de ir à garupa, é claro que primeiro deve montar quem vai

na sela.

— É verdade — redarguiu D. Quixote.

E tirando um lenço da algibeira, pediu à Dolorida que lhe

tapasse muito bem os olhos, e, depois de lhos terem tapado,

exclamou:

— Se bem me lembro, li em Virgílio o caso do Paládio de Tróia,

que foi um cavalo de madeira, que os gregos consagraram a

Palas, e que ia cheio de cavaleiros armados, que depois foram a ruína da cidade de Príamo; e assim, será bom ver primeiro o

que tem Clavilenho no estômago.

— Não é necessário — disse a Dolorida — que eu fico por ele, e

sei que Malambruno nada tem de malicioso nem de traidor, e

Vossa Mercê, senhor D. Quixote, monte sem receio, e em meu

prejuízo redunde qualquer dano que tiver.

Pareceu a D. Quixote que tudo que dissesse a respeito da sua

segurança seria em detrimento da sua valentia, e assim, sem

mais altercar, montou em Clavilenho, e tenteou-lhe a

escaravelha, que se movia facilmente; e, como não tinha

estribos, e era obrigado por isso a apertar bem o cavalo com as

pernas, não parecia senão uma figura de tapeçaria flamenga,

pintada ou tecida nalgum triunfo romano. Com má vontade e a

pouco e pouco se foi chegando Sancho para montar a cavalo, e

acomodando-se o melhor que pôde na garupa, achou-a dura, e

pediu ao duque se lhe podia arranjar um coxim ou almofada,

ainda que fosse do estrado da senhora duquesa, ou do leito de

algum pajem, porque as ancas daquele cavalo mais pareciam

de mármore que de madeira. A isto disse a Trifaldi que

Clavilenho não consentia em cima de si nenhum jaez, nem adorno; que o que podia fazer era sentar-se como as mulheres,

e que assim não sentiria tanto a dureza. Seguiu Sancho o

conselho, e dizendo adeus a todos, deixou-se vendar os olhos,

e já depois de vendados tornou-os a destapar, e, olhando para

os circunstantes, ternamente e com lágrimas, disse que o ajudassem naquele transe com muitos padre-nossos e muitas

ave-marias, para que Deus lhes deparasse quem por eles os

dissesse quando se vissem em agonias semelhantes.

— Ladrãol — bradou D. Quixote — estás por acaso pendurado

na forca, ou no último termo da vida, para usar de tais rogos?

Não estás, desalmada e cobarde criatura, no mesmo sítio que a

linda Magalona ocupou, e de que se apeou, não para descer à

sepultura, mas para ser rainha de França, se as histórias não

mentem? E eu, que vou aqui ao teu lado, não posso comparar-

me com o valoroso Pedro, que oprimiu este mesmo lugar que

eu agora oprimo? Tapa os olhos, tapa, animal descoroçoado, e

não te venha à boca o medo que tens, pelo menos na minha

presença.

— Tapem-me os olhos — respondeu Sancho — e, já que não

querem que me encomende a Deus, nem que seja

encomendado, que admira que eu receie que ande por aqui

alguma região de diabos, que ferre conosco em Peralvillo?

Taparam-lhe os olhos, e, sentindo D. Quixote que estava como

havia de estar, agarrou a escaravelha, e, apenas lhe pôs a mão, logo todas as donas, e quantos estavam presentes, levantaram

a voz, dizendo:

— Deus te guie, valoroso cavaleiro! Deus seja contigo,

escudeiro intrépido! Já ides, já ides por esses ares, rompendo-

os com mais velocidade que uma seta; já começais a

suspender e admirar todos os que da terra vos estão mirando.

Segura-te, valoroso Sancho, que te bamboleias; vê não caias,

que a tua queda seria pior que a do atrevido moço que quis

governar o carro do Sol seu pai.

Ouviu Sancho as vozes, e, agarrando-se a seu amo, cingiu-o

com os braços, e disse-lhe:

— Senhor, como é que estes dizem que vamos tão alto, se

alcançam cá as suas vozes, e não parece senão que estão aqui

falando ao pé de nós?

— Não repares, Sancho, que, como estas coisas e estas

volatarias vão fora dos cursos ordinários, de mil léguas verás e

ouvirás o que quiseres, e não me apertes tanto, que me fazes

cair: e em verdade, não sei por que te turbas, nem por que te

espantas, que ousarei jurar que nunca em todos os dias da

minha vida montei em cavalgadura de passo mais sereno; não

parece senão que não saímos do mesmo lugar. Desterra o medo, amigo, que efetivamente a coisa vai como há-de ir, e nós

de vento em popa.

— Isso é verdade — respondeu Sancho — que sinto aqui para

este lado um vento tão forte, que parece que me estão

assoprando com foles.

E era verdade, que os estavam arejando com um grande fole.

Tão bem traçada estava a tal aventura pelo duque, pela

duquesa e pelo seu mordomo, que lhe não faltou requisito que

deixasse de a fazer perfeita.

Sentindo o assopro, disse D. Quixote:

— Sem dúvida alguma, Sancho, estamos chegados à segunda

região do ar, onde se geram o granizo e as neves; os trovões,

os relâmpagos e os raios produzem-se na terceira região; e, se

desta maneira vamos subindo, depressa entraremos na região do fogo, e não sei como hei-de moderar esta escaravelha, para

que não subamos a sítio onde nos abrasemos.

Nisto, aquentaram-lhes os rostos com umas estopas ligeiras,

destas que se acendem e se apagam logo, penduradas de uma

cana. Sancho, que sentiu o calor, bradou:

— Que me matem, se não estamos no lugar do fogo, ou muito

perto, porque já se me chamuscou uma grande parte da barba, e tenho vontade, senhor, de destapar os olhos e de ver em que

sítio nos achamos.

— Não faças tal — respondeu D. Quixote — e lembra-te da

verdadeira história do licenciado Torralva, que os diabos

levaram em bolandas por esses ares, montado numa cana, com os olhos tapados, e em doze horas chegou a Roma, e apeou-se

na Torre de Nona, que é uma rua da cidade, e viu todo o

fracasso e assalto e morte de Bourbon, e pela manhã já estava

de volta em Madrid, onde deu conta de tudo o que vira: este

Torralva disse também que, quando ia por esses ares, mandou-

lhe o diabo que abrisse os olhos, e viu-se tão perto, ao seu

parecer, do corpo da lua, que lhe poderia deitar a mão, e que se

não atreveu a olhar para a terra, com medo de desmaiar.

Portanto Sancho, não será bom destaparmos os olhos, que

quem nos leva a seu cargo, de nós dará contas, e talvez

estejamos tomando campo e subindo muito alto, para nos deixarmos cair de chofre sobre o reino de Candaia, como faz o

nebri sobre a garça; e, ainda que nos parece que não há meia

hora que saímos do jardim, acredita que havemos de ter

andado grande caminho.

— Não sei lá disso — respondeu Sancho — o que sei apenas é

que, se a senhora Magalhães ou Magalona se contentou com

esta garupa, é porque não tinha as carnes muito tenras.

Todas estas práticas dos dois valentes eram ouvidas pelo

duque e pela duquesa, e por todos os do jardim, que se

divertiam com isso extraordinariamente; e querendo dar remate

à estranha e bem fabricada aventura, pelo rabo de Clavilenho

deitaram fogo com umas estopas a bombas e foguetes, de que

o cavalo estava cheio, e o cavalo voou pelos ares com estranho

ruído, e deu com D. Quixote e Sancho Pança no chão, meio

chamuscados. A este tempo já desaparecera do jardim todo o

barbado esquadrão das donas, e a Trifaldi e tudo, e os de casa

estavam como que desmaiados e estendidos no chão. D.

Quixote e Sancho levantaram-se bastante magoados, e olhando

para todas as bandas, ficaram atônitos de se ver no mesmo

jardim donde tinham partido, e de ver estendida no chão tanta

gente; mas ainda aumentou mais o seu pasmo, quando viram a

um lado do jardim uma lança pregada no chão, e suspenso

dela, por dois cordões de seda verde, um pergaminho liso e

branco, onde, com grandes letras de ouro, estava escrito o

seguinte:

“O ínclito cavaleiro D. Quixote pôs termo e remate à aventura

da condessa Trifaldi, por outro nome chamada a Dona Dolorida,

só com o intentá-la.

“Malambruno dá-se por contente e satisfeito, e as caras das

donas ficam lisas e tosquiadas, e os reis D. Clavijo e

Antonomásia no seu prisco estado; e quando se cumprir o

compromisso escudeiril, a branca pomba ver-se-á livre dos

pestíferos gerifaltes que a perseguem, e nos braços do seu

querido arrulhador, que assim está determinado pelo sábio

Merlin, o protonigromante dos nigromantes.”

Tendo D. Quixote lido todas as letras do pergaminho, percebeu

claramente que falavam do desencantamento de Dulcinéia, e

dando muitas graças ao céu por ter acabado tão grande feito

com tão pouco perigo, restituindo à sua passada tez os rostos

das veneráveis donas, que já não apareciam, foi aonde estavam

o duque e a duquesa ainda desmaiados, e, travando da mão ao

duque, disse-lhe:

— Eia, bom senhor, ânimo, ânimo, que tudo é nada, acabou-se

já a aventura sem dano de ninguém, como claramente mostra o

escrito posto naquele padrão.

O duque, a pouco e pouco, e como quem acorda de um pesado

sono, foi tornando a si, e do mesmo teor a duquesa e todos os

que estavam caídos no jardim, com tais mostras de maravilha e

espanto, que podiam quase imaginar-se que lhes acontecera

deveras o que tão bem sabiam fingir.

O duque leu o cartel com os olhos meio cerrados, e logo foi,

com os braços abertos, abraçar D. Quixote, dizendo-lhe que era

o melhor cavaleiro que em todos os séculos se tinha visto.

Sancho andava à cata da Dolorida, para ver se era tão formosa sem as barbas como prometia a sua galharda disposição; mas disseram-lhe que, logo que Clavilenho desceu, ardendo, pelos

ares, todo o esquadrão das donas desaparecera com a Trifaldi,

e que já iam perfeitamente rapadas. Perguntou a duquesa a

Sancho que tal se dera naquela larga viagem.

— Eu, senhora, senti que íamos, segundo meu amo me disse,

voando pela região do fogo, e quis destapar um pouco os olhos; mas meu amo, a quem pedi licença, não consentiu; eu,

que tenho sempre umas comichões de curiosidade, e de

desejar saber o que me querem ocultar, fui à sorrelfa desviando

um bocadinho o lenço que me tapava os olhos, e por ali olhei para a terra, e pareceu-me que ela toda seria do tamanho de um

grão de mostarda, e os homens que andavam sobre ela pouco

maiores que umas avelãs, para que se veja como estávamos

altos nessa ocasião.

— Sancho amigo — interrompeu a duquesa — vede o que

dízeis, porque me parece que não vistes a terra, mas sim os

homens que andavam sobre ela; e é claro que, se a terra vos

pareceu um grão de mostarda, e cada homem uma avelã, um

homem só cobria a terra inteira.

— Isso é verdade — respondeu Sancho — mas eu sempre a

descobri por um lado e vi-a toda.

— Mas — tornou a duquesa — quem vê as coisas por um lado,

não as vê todas.

— Não sei lá disso de vistas — redarguiu Sancho — o que sei é

que será bom que Vossa Senhoria entenda que, como

voávamos por encantamento, por encantamento podia eu ver a

terra toda, e todos os homens, olhasse lá como olhasse; e se

isto não se me acredita, decerto Vossa Mercê não acreditará

também que, destapando um pouquito os olhos por cima, vi-me tão perto do céu, que não estava a distância de mais de palmo e

meio, e o que posso jurar, senhora minha, é que é imenso; e

sucedeu caminharmos pelo sítio onde estão as sete cabras, e

eu, como em terra quando era pequeno fui cabreiro, assim que

as vi me deu logo vontade de brincar com elas um pedaço, e se

não satisfizesse essa vontade, parece-me que rebentava. E vai

eu que faço, sem dizer nada a ninguém, nem mesmo a meu

amo? apeio-me de manso de Clavilenho, e estive-me entretendo com as cabras, que são mesmo umas flores, quase três quartos

de hora, e Clavilenho não se arredou nem um passo.

— E enquanto o bom do Sancho brincava com as cabras —

perguntou o duque — em que se entrelinha D. Quixote?

— Como todas estas coisas e estes sucessos estão fora da

ordem natural — observou D. Quixote — não admira que

Sancho diga o que diz; agora eu de mim só o que sei dizer é que não destapei os olhos nem por cima nem por baixo: nem vi

o céu, nem a terra, nem o mar, nem as areias. É verdade que

senti que passava pela região do ar, e até que tocava na do

fogo; mas que passássemos de ali para diante, não o posso

crer, pois, estando a região do fogo entre o céu da lua, e a última região do ar, não podíamos chegar ao céu onde estão as

sete cabras que Sancho diz sem nos abrasarmos, e, como nos

não abrasamos, ou Sancho mente, ou Sancho sonha.

— Nem minto, nem sonho — tornou Sancho — senão

perguntem-me os sinais das tais cabras, e verão se digo ou não

digo verdade.

— Diga lá, Sancho — acudiu a duquesa.

— São — respondeu Sancho — duas verdes, duas encarnadas,

duas azuis, e outra malhada.

— Nunca vi cabras assim — observou o duque — pelo menos

na terra não se usam cabras dessas cores.

— Pois é claro — tornou Sancho — que há-de haver diferença

entre as cabras do céu e as da terra.

Não lhe quiseram perguntar mais nada a respeito da sua

viagem, porque lhes pareceu que levava caminho de passear

por todos os céus e de dar notícias de tudo o que por lá havia,

sem se mexer do jardim.

Foi este, em conclusão, o fim da aventura da Dona Dolorida,

que deu que rir aos duques, não só naquela ocasião, mas em

todos os dias da sua vida, e a Sancho que contar durante séculos, se séculos vivesse; e, chegando-se D. Quixote a

Sancho, disse-lhe ao ouvido:

— Se quereis, Sancho, que acredite no que vistes no céu,

haveis de acreditar também no que vi na cova de Montesinos; e

não vos digo mais nada.