Dom Quixote - Parte II

Miguel de Cervantes · Capítulo 29 de 84

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Dom Quixote - Parte II

Capítulo XIX

Onde se conta a aventura do pastor enamorado, com outros sucessos na verdade graciosos.

 

Pouco se afastara D. Quixote da aldeia de D. Diogo, quando se encontrou com dois estudantes e dois lavradores, que vinham

todos quatro montados em jumentos. Um dos estudantes trazia

em feitio de mala um lenço de bocaxim, em que embrulhara

uma pouca de roupa branca e dois pares de meias de burel

negro: o outro, só duas espadas pretas de esgrima, emboladas.

Os lavradores levavam para a sua aldeia vários objetos, que

davam indício e sinal de virem de alguma grande povoação,

onde os tinham comprado; e tanto estudantes como lavradores

caíram na mesma admiração em que caíam todos os que viam pela primeira vez D. Quixote, e morriam por saber que homem

seria aquele, tão fora do uso dos outros. D. Quixote, depois de

saber o caminho que levavam, que era o mesmo que o seu,

ofereceu-se para os acompanhar, e pediu-lhes que demorassem

o passo, porque mais andavam os jumentos do que o seu

cavalo; e para os obrigar, em breves razões lhes disse quem

era e o seu ofício e profissão de cavaleiro andante, que ia à cata

de aventuras por todas as partes do mundo. Contou-lhes que

se chamava D. Quixote de la Mancha, por apelido o cavaleiro

dos Leões; tudo isto para os lavradores era grego ou

gerigonça, mas não para os estudantes; apesar disso,

contemplavam-no com admiração e respeito, e um deles disse-

lhe:

— Se Vossa Mercê, senhor cavaleiro, não leva caminho

determinado, como não costumam levar os que buscam

aventuras, venha Vossa Mercê conosco e verá uma das

melhores e mais ricas bodas que até hoje se têm celebrado na

Mancha e em muitas léguas ao redor.

Perguntou-lhe D. Quixote se eram de algum príncipe.

— Não, não — respondeu o estudante — são de um lavrador e

de uma lavradeira; ele o mais rico de toda esta terra, ela a mais

formosa que os homens têm visto; e o aparato com que se hão-

de fazer é extraordinário e novo, porque se celebram num

prado que fica junto da aldeia da noiva, a quem chamam por

excelência Quitéria, a formosa, e o desposado chama-se

Camacho, o rico; ela de idade de dezoito anos, e ele de vinte e

dois, ambos iguais em tudo, ainda que alguns curiosos, que

sabem de cor a linhagem de toda a gente, querem dizer que a da formosa Quitéria se avantaja à de Camacho; mas já se não

olha a isso, que as riquezas podem soldar muitas quebras.

Efetivamente, o tal Camacho é generoso e lembrou-se de

enramar e toldar todo o prado por ali arriba, de forma que o sol

há-de se ver em trabalhos, se quiser visitar a verde relva, de

que está recoberto o chão. Haverá muitas danças, tanto de

espadas como de castanholas, que há no povo gente muito

perita nesses exercícios; de sapateadores nada digo, que nesse

gênero juntou ele o poder do mundo; mas nenhuma das coisas

referidas, nem das que deixei de referir, há-de tornar tão

memoráveis estas bodas, como as que imagino que nelas fará

o despeitado Basílio. Esse Basílio é um zagal, vizinho do mesmo povo, que morava paredes meias com os pais de

Quitéria, o que deu ensejo ao Amor de renovar no mundo os já

olvidados afetos de Píramo e Tisbe, porque Basílio se namorou

de Quitéria, desde os seus tenros e primeiros anos, e ela foi

correspondendo ao seu desejo, tanto que muita gente se

entretinha na aldeia em falar nos amores das duas crianças. Foi

crescendo a idade, e o pai de Quitéria resolveu-se enfim a

proibir a Basílio a entrada em sua casa, e para se livrar de

receios e suspeitas, tratou de casar sua filha com o opulento

Camacho, porque lhe não parecia bem casá-la com Basílio,

menos favorecido da fortuna que da natureza, pois, para se

dizer a verdade sem assomos de inveja, é ele o mais ágil

mancebo que conhecemos, atirando a barra como ninguém,

grande jogador de péla, lutador extremado, corre como um gamo, salta mais que uma cabra; canta como uma calhandra,

toca guitarra que parece que a faz falar, e sobretudo joga a

espada como o mais pintado.

— Lá por essa prenda — observou D. Quixote — merecia esse

mancebo não só casar com a formosa Quitéria, mas com a

própria rainha Ginevra, se hoje fosse viva, apesar de Lançarote

e de todos os que o quisessem estorvar.

— Vão lá falar nisso a minha mulher — acudiu Sancho Pança,

que até aí fora calado — quer ela que cada um case com a sua

igual, agarrando-se ao rifão que diz: cada ovelha com a sua

parelha. Eu então não desejava senão que o bom desse Basílio,

a quem já me vou afeiçoando, casasse com a senhora Quitéria,

e má peste mate os que estorvam que se casem os que se

querem bem,

— Se casassem todos os que se querem — acudiu D. Quixote

— tirava-se aos pais a escolha e a jurisdição de casarem os

seus filhos com quem devem e quando querem, e se ficasse à

vontade das filhas escolher os maridos, haveria tal que

escolheria o criado do pai, e outra o que viu passar na rua, no

seu entender bizarro e jeitoso mancebo, ainda que fosse um

espadachim valdevinos: que o amor e a afeição facilmente

cegam os olhos do entendimento, tão necessários para

escolher estado; e no do matrimônio é muito perigoso o erro, e

é mister grande tento e particular favor do céu para acertar.

Quer uma pessoa empreender uma larga viagem e, se é

prudente, antes de se pôr a caminho busca alguma companhia segura e aprazível. Pois por que não fará o mesmo o que há-de

caminhar toda a vida até ao paradeiro da morte, quando de

mais a mais a pessoa escolhida tem de ser sua companheira de

cama e mesa, como acontece à mulher com seu marido? Uma

esposa não é mercadoria que, depois de comprada, ainda se

pode trocar ou rejeitar; é um acidente inseparável, que dura a

vida toda; é um laço que, uma vez atado ao pescoço, se

transforma em nó górdio, que, se não for cortado pela garra da

morte, não há meio de desatar. Muitas mais coisas poderia dizer neste assunto, se o não estorvara o desejo que tenho de

saber se o senhor licenciado tem mais alguma coisa que narrar

da história de Basílio.

— Não tenho mais que dizer — acudiu o estudante, bacharel, ou

licenciado, como D. Quixote lhe chamou — senão que, desde

que Basílio soube que a formosa Quitéria casava com o

opulento Camacho, nunca mais o viram rir, nem dizer coisa

com coisa, e anda sempre triste e pensativo, falando sozinho,

dando assim claros e certos sinais de que se lhe ourou o juízo. Come pouco e pouco dorme, e o que come são frutas, e dorme

no campo, se dorme, em cima da terra dura, como animal bravio; olha de quando em quando para o céu, e outras vezes

crava os olhos no chão, com tal embevecimento, que não parece senão estátua vestida, a que o ar move a roupa. Enfim, dá tais mostras de angustiado, que receamos, todos os que o conhecemos, que proferir a formosa Quitéria amanhã o sim fatal

seja o sinal da sua morte.

— Deus o fará melhor — acudiu Sancho, — quem dá o mal, dá o remédio; ninguém sabe o que está para vir; de hoje até amanhã

não me doa a cabeça, e numa hora cai a casa; tenho visto

chover e fazer sol ao mesmo tempo; a gente deita-se são e

acorda doente; e digam-me se há porventura quem se gabe de

ter travado a roda da fortuna; entre o sim e o não da mulher não

me atrevia eu a meter uma ponta de alfinete, porque não

caberia; queira Quitéria de coração e deveras a Basílio, e pode

este contar com um saco de ventura, que o amor, pelo que

tenho ouvido dizer, olha de tal maneira que o cobre lhe parece

ouro.

— Aonde vais parar, Sancho, amaldiçoado sejas — disse D.

Quixote — que em tu começando a enfiar provérbios e contos

só te pode apanhar o diabo que te leve! Dize-me, animal, que

sabes tu de rodas e de alfinetes, nem de coisa nenhuma?

— Pois se me não entendem — respondeu Sancho — não

admira que as minhas sentenças sejam tidas por disparates;

mas não importa, eu cá me entendo e sei que não disse

asneira; mas Vossa Mercê, senhor meu, é sempre friscal dos

meus ditos e das minhas ações.

— Fiscal é que tu queres dizer — acudiu D. Quixote — e não

friscal , prevaricador de boa linguagem, que Deus te confunda!

— Não se agonie Vossa Mercê comigo — tornou Sancho — que

me não criei na corte, nem estudei em Salamanca, para saber

se aumento ou tiro alguma letra aos meus vocábulos. Valha-me

Deus! como se há-de obrigar a um saiaguês a falar como um

toledano, se há toledanos que falam como Deus é servido?

— Sem dúvida — acudiu o licenciado — não podem falar tão

bem os que se criam nas lojas de Zocodober, como os que

passeiam todo o santíssimo dia no claustro da Sé, e contudo

são toledanos todos. A linguagem pura e clara falam-na só os

cortesãos discretos, ainda que tenham nascido em

Majalahonda; disse discretos, porque nem todos o são, e a

discrição é a gramática da boa linguagem, que se aprende com

o uso. Eu, senhores, por meus pecados, estudei cânones em

Salamanca e gabo-me de dizer as minhas razões em frase clara,

chã e apropriada.

— Se não vos gabásseis mais de saber manejar a espada preta

do que a língua — acudiu o outro estudante — seríeis o

primeiro nos atos, em vez de terdes sido o último.

— Olhai, bacharel — respondeu o licenciado — que tendes

erradíssima opinião a respeito da destreza na espada, supondo-

a prenda inútil.

— Não é opinião, é verdade assente — redarguiu o bacharel, e se chamava Corchuelo — e se quereis que vo-lo mostre com a

experiência, trazeis espada, o sítio é cômodo, eu tenho pulso e

força, que, juntos ao meu ânimo, que não é pouco, vos farão

confessar que me não engano. Apeai-vos e usai dos vossos

círculos, dos vossos ângulos e da vossa ciência, que eu conto

fazer-vos ver estrelas ao meio-dia, com a minha destreza, e

espero em Deus que ainda esteja para nascer o homem que me

faça voltar as costas, e que não há ninguém que eu não deite

ao chão.

— Lá nisso de voltar costas não me meto — redarguiu o

esgrimidor — mas o que pode suceder é que, onde puserdes o

pé, vos cavem a sepultura.

— Vamos a ver isso — respondeu Corchuelo.

E, apeando-se com presteza do burro, tirou com fúria uma das

espadas que o licenciado levava.

— Não há-de ser assim — acudiu D. Quixote — que eu quero

ser mestre desta esgrima e juiz desta questão, há muito tempo

pendente.

E apeando-se de Rocinante e agarrando na lança, pôs-se no

meio do caminho, quando já o licenciado, com gentil donaire de

corpo, e em posição de esgrima, ia contra Corchuelo, que veio

para ele, lançando, como se diz, chamas pelos olhos. Os outros

dois lavradores que iam na companhia, sem se apearem dos

jericos serviam de espectadores da mortal tragédia. As

estocadas e cutiladas de Corchuelo eram inúmeras; pareciam

um granizo de golpes. Arremetia como um leão furioso, mas

saía-lhe ao encontro o licenciado com a ponta embolada do

florete, fazendo-lha beijar como se fosse relíquia, porém com

menos devoção.

Finalmente, o licenciado contou-lhe a estocadas todos os

botões da batina que trazia vestida, fazendo-lhe em tiras o

pano; tirou-lhe o chapéu duas vezes e cansou-o de forma que o

bacharel, de despeito, cólera e raiva, agarrou na espada pelos

copos e atirou-a para longe com tanta fúria, que a arrojou a três

quartos de légua, como afirmou depois um dos lavradores

assistentes que a foi buscar. Sentou-se Corchuelo

fatigadíssimo, e Sancho disse-lhe, chegando-se a ele:

— Por minha fé, senhor bacharel, se Vossa Mercê quer tomar o

meu conselho, daqui por diante não desafie ninguém para esgrimir, mas sim para lutar ou atirar a barra, pois para isso tem

idade e forças, e destes a que chamam destros esgrimidores

ouvi dizer que metem a ponta de um espadim pelo fundo de

uma agulha.

— Contento-me — respondeu Corchuelo — com o ter caído da

minha burra, e ter-me mostrado a experiência a verdade de que

tão longe estava.

E, levantando-se, abraçou o licenciado e ficaram ainda mais

amigos do que dantes, e não quiseram esperar o lavrador que

tinha ido à busca da espada, por lhes parecer que se demoraria muito, e resolveram seguir o seu caminho, para chegarem cedo

à aldeia de Quitéria, donde todos eram.

Foi-lhes descrevendo o licenciado as excelências do jogo da

espada, com tantas razões, e com tantas figuras e

demonstrações matemáticas, que todos ficaram convencidos

da utilidade da ciência, e Corchuelo reduzido da sua pertinácia.

Anoitecera; mas, antes que chegassem, pareceu-lhes ver diante

da povoação um céu cheio de inúmeras e resplandecentes

estrelas. Ouviram também confusos e suaves sons de

instrumentos, como de flautas, pandeiros, saltérios, pífaros; e,

quando chegaram perto, notaram que as árvores de uma

ramada, que tinham posto à mão, à entrada da aldeia, estavam

cheias de luminárias, que o vento não ofendia, porque soprava

tão manso, que nem força tinha para agitar as folhas do

arvoredo. Os músicos eram os que deviam regozijar a boda,

que andavam em diversas quadrilhas por aquele agradável

sítio, uns bailando, outros cantando e outros tocando a

variedade dos referidos instrumentos.

Efetivamente, não parecia senão que por todo aquele prado

pulava o contentamento e a alegria.

Outros muitos se ocupavam em levantar andaimes, donde pudessem ver comodamente ao outro dia as representações e

danças que se haviam de fazer naquele sítio, consagrado à

solenização das bodas do opulento Camacho e das exéquias de

Basílio. Não quis entrar na aldeia D. Quixote, apesar de lho

pedirem, tanto o lavrador como o bacharel; mas deu por

desculpa, no seu entender mais que bastante, ser costume dos

cavaleiros andantes dormirem nos campos e florestas, antes

que nos povoados, ainda que fosse debaixo de áureos tetos; e

com isto afastou-se um pouco do caminho, muito contra

vontade de Sancho, que se lembrava do bom alojamento que

tivera no castelo ou casa de D. Diogo.