Dom Quixote - Parte II

Miguel de Cervantes · Capítulo 83 de 84

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Dom Quixote - Parte II

Capítulo LXXIII

Dos agouros que teve D. Quixote ao entrar na sua aldeia, com outros sucessos que são adorno e crédito desta grande

história.

 

À entrada do povo, contou Cid Hamete que viu D. Quixote dois

pequenos, renhindo um com o outro; e disse um deles:

— Não te canses, Periquito, que nunca a hás-de ver nos dias da

tua vida.

Ouviu-o D. Quixote, e disse para Sancho:

— Não reparas, amigo, que disse aquele pequeno: nunca a hás-

de ver em dias da tua vida?

— Mas que importa — respondeu Sancho — que o rapaz

dissesse isso?

— Que importa? — tornou D. Quixote — pois não vês que, aplicando aquela palavra à minha intenção, quer significar que

não tenho de ver nunca mais a minha Dulcinéia?

Ia Sancho para lhe responder, quando viu que vinha fugindo

pela campina fora, uma lebre, seguida por muitos galgos e

caçadores, que veio acolher-se, receosa, e acachapar-se

debaixo dos pés do ruço.

Apanhou-a Sancho sem dificuldade e apresentou-a a D.

Quixote, que estava dizendo:

— Malum signum, malum signum: lebre foge, galgos a seguem,

Dulcinéia não aparece.

— Vossa Mercê é esquisito — disse Sancho; — suponhamos

que essa lebre é Dulcinéia del Toboso, e estes galgos, que a

perseguem, são os malandrinos nigromantes que a transformaram na lavradeira: ela foge, eu apanho-a e entrego-a a Vossa Mercê, que a tem nos seus braços, e a regala e amima:

que mau sinal é este, ou que mau agouro se pode tirar daqui?

Chegaram-se os dois rapazes da pendência para ver a lebre, e

perguntou Sancho a um deles por que é que renhiam.

Respondeu-lhe o que dissera as palavras que tinham

sobressaltado D. Quixote, que tirara ao outro rapaz uma gaiola

de grilos, e que não tencionava devolver-lha nos dias da sua

vida.

Tirou Sancho quatro quartos da algibeira e comprou a gaiola ao

rapaz, para a dar a D. Quixote, dizendo:

— Aqui estão, senhor, rotos e desbaratados esses agouros, que

têm tanto que ver com os nossos sucessos — pelo menos

assim mo diz o meu bestunto de tolo — como com as nuvens

do ano passado; e, se bem me recordo, ouvi dizer ao cura da

nossa terra, que não é de pessoas cristãs e discretas atender a

estas criancices; e até Vossa Mercê mo disse também há

tempos, dando-me a entender que eram tolos todos os cristãos

que faziam caso de agouros; mas não vale a pena fazer finca-pé

nestas coisas, e entremos na nossa aldeia.

Chegaram os caçadores, pediram a sua lebre, deu-lha D.

Quixote; e, seguindo para diante este e Sancho Pança, toparam

à entrada do povo, a passear num campo, o cura e o bacharel

Sansão Carrasco.

E é de saber que Sancho Pança deitara para cima do burro e do

feixe das armas, para servir de reposteiro, a túnica de bocaxim

pintada com chamas de fogo, que lhe vestiram no castelo do

duque, na noite em que Altisidora tornou a si. Pôs-lhe também

a mitra na cabeça, que foi a mais nova transformação e adorno

com que nunca se viu um jumento neste mundo.

Foram logo conhecidos ambos pelo cura e pelo bacharel, que

vieram para eles de braços abertos.

Apeou-se D. Quixote e abraçou-os estreitamente; e os rapazes,

que são uns linces nestas coisas, deram logo com a mitra do

jumento e acudiram a vê-lo; e diziam uns para os outros:

— Vinde ver, rapazes, o burro de Sancho Pança, mais galã do

que Mingo, e a cavalgadura de D. Quixote, mais magra hoje que

no primeiro dia.

Finalmente, rodeados de rapazes e acompanhados pelo cura e

pelo bacharel, entraram no povo e dirigiram-se a casa de D.

Quixote, a cuja porta encontraram a ama e a sobrinha, que já

sabiam da sua vinda. Tinham dado também essa notícia a Teresa Pança, mulher de Sancho, que, desgrenhada e seminua,

levando pela mão Sanchita sua filha, veio ver seu marido; e,

não o encontrando tão ataviado como ela imaginava que devia

vir um governador, disse-lhe:

— Como é que vindes assim, marido meu, que parece que foste

apeado, e trazeis cara mais de desgovernado, que de

governador?

— Cala-te, Teresa — respondeu Sancho — que, muitas vezes

numa banda se põe o ramo e noutra se vende o vinho; e vamos

para nossa casa, que lá ouvirás maravilhas. Trago dinheiros,

que é o que mais importa, ganhos por minha indústria e sem

prejuízo de ninguém.

— Traze tu dinheiro, marido meu — disse Teresa — e fosse ele

ganho lá como fosse, que, de qualquer forma que o ganhasses,

não inventavas coisa nenhuma.

Abraçou Sanchita seu pai, e perguntou-lhe se lhe trazia alguma

coisa, que o estava esperando como a água de Maio; e,

agarrando-lhe por um lado do cinto, e sua mulher pela mão,

puxando Sanchita o ruço, foram para sua casa, deixando D.

Quixote na sua, em poder da ama e da sobrinha, e em

companhia dos seus amigos o cura e o bacharel Sansão

Carrasco.

D. Quixote, sem aguardar hora nem tempo, imediatamente

chamou de parte o bacharel e o cura, e em breves razões lhes

contou a sua derrota e a obrigação que contraíra de não sair da

sua aldeia durante um ano — obrigação que tencionava guardar

ao pé da letra, sem a transgredir nem num átomo só que fosse,

como cavaleiro andante, obrigado pelo rigor da sua Ordem; e

que pensara em fazer-se pastor durante esse ano e entreter-se na soledade dos campos, onde, à rédea solta, podia dar largas

aos seus amorosos pensamentos, exercitando-se no pastoral e

virtuoso exercício; e que lhes suplicava, se não tinham muito

que fazer e não estavam impedidos por negócios mais

importantes, que fossem seus companheiros, que ele

compraria ovelhas e mais gado suficiente para poderem tomar

o nome de pastores; e que lhes fazia saber que o mais principal

daquele negócio estava feito, porque já lhes arranjara nomes,

que lhes haviam de cair mesmo de molde.

Pediu-lhe o cura que os dissesse. Respondeu-lhe D. Quixote

que ele havia de chamar-se o pastor Quixotiz; o bacharel, o

pastor Carrascão; o cura, o pastor Curiambro, e Sancho, o

pastor Pancino.

Pasmaram todos de ver a nova loucura de D. Quixote; mas,

para que se lhes não fosse outra vez do povo para as suas

cavalarias, e esperando que naquele ano se pudesse curar,

concordaram com a sua boa intenção e aprovaram como

discreta a sua loucura, oferecendo-se-lhe para companheiros

no seu exercício.

— De mais a mais — disse Sansão Carrasco — eu, como todos

sabem, sou celebérrimo poeta e farei a cada instante versos

pastoris ou cortesãos, ou como melhor me quadrar, para nos

entretermos nas nossas passeatas; e, o que mais necessário é, meus senhores, é que escolha cada um a pastora que tenciona celebrar nos seus versos, e que não deixemos árvore, por mais dura que seja, em que não gravemos o seu nome, como é uso e

costume de pastores enamorados.

— Isso vem mesmo de molde para mim — respondeu D.

Quixote — porque eu não preciso de procurar nome de pastora fingida, pois aí está a incomparável Dulcinéia del Toboso, glória

destas ribeiras, adorno destes prados, sustento da formosura,

nata dos donaires e, finalmente, pessoa em quem assenta bem

todo o louvor, por hiperbólico que seja.

— Assim é — disse o cura — mas nós outros procuraremos por

aí umas pastoritas que nos convenham.

— E se faltarem — acudiu Sansão Carrasco — dar-lhes-emos

os nomes das impressas, de que está cheio o mundo: Fílis,

Amarílis, Dianas, Fléridas, Galatéias e Belisardas, que, visto

que se vendem nas praças, podemos perfeitamente comprá-las

nós e considerá-las nossas. Se a minha dama ou, para melhor

dizer, a minha pastora, porventura se chamar Ana, celebrá-la-ei

debaixo do nome de Anarda e, se for Francisca, chamo-lhe

Francênia e, se for Luzia, Lucinda; e Sancho Pança, se tem de

entrar nesta confraria, poderá celebrar sua mulher Teresa

Pança com o nome de Teresaina.

Riu-se D. Quixote da aplicação do nome, e o cura louvou-lhe

imenso a sua honesta e honrada resolução, e ofereceu-se de

novo para o acompanhar todo o tempo que lhe deixasse vago o

atender às suas forçosas obrigações.

Com isto se despediram dele e lhe rogaram e aconselharam

que tomasse conta com a sua saúde, e com o regalar-se do que

fosse bom.

Quis a sorte que a sobrinha e a ama ouvissem a prática dos

três; e, apenas os dois se foram embora, entraram ambas com

D. Quixote às voltas.

E disse-lhe a sobrinha:

— Que é isso, senhor tio? agora que nós outras pensávamos

que Vossa Mercê se vinha meter em sua casa e passar nela vida

quieta e honrada, quer-se meter em novos labirintos, fazendo-

se pastorinho daqui, pastorinho dalém? pois olhe que Vossa

Mercê já não está para essas folias.

E a ama acrescentou:

— E Vossa Mercê pode, por acaso, passar no campo as sestas do verão, as noitadas do inverno e arriscar-se aos lobos? Não, decerto, que tudo isso é ofício de homens robustos, curtidos e

criados para tal mister, desde as faixas e mantilhas, a bem

dizer; mal por mal, era melhor ser cavaleiro andante que pastor.

E olhe, senhor, tome o meu conselho, que é conselho de

mulher de cinqüenta anos, que está em jejum natural, no seu

perfeito juízo: fique na sua casa, trate da sua fazenda,

confesse-se a miúdo, favoreça os pobres e caia sobre mim o

mal que daí lhe vier.

— Calai-vos, filhas — respondeu D. Quixote — eu bem sei o que me cumpre fazer: levai-me para a cama, que parece que me não

sinto lá muito bem; e tende por certo que, embora eu seja cavaleiro andante ou pastor, nunca deixarei de acudir àquilo de

que precisardes, como podereis ver daqui por diante.

E as duas boas filhas (que assim realmente se lhes podia chamar) levaram-no para a cama, onde lhe deram de comer e o

animaram o mais possível.