Dom Quixote - Parte II

Miguel de Cervantes · Capítulo 40 de 84

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Dom Quixote - Parte II

Capítulo XXX

Do que sucedeu a D. Quixote com uma bela caçadora.

 

Muito tristes e muito constrangidos se chegaram às suas alimárias cavaleiro e escudeiro, especialmente Sancho, a quem

doía o coração de ter de tocar no dinheiro, parecendo-lhe que

todo o que se tirava se lhe arrancava das meninas dos olhos.

Finalmente, sem dizer palavra um ao outro, montaram a cavalo

e apartaram-se do famoso rio: D. Quixote imerso nos pensamentos dos seus amores, e Sancho nos do seu

acrescentamento, que por então lhe parecia que estava bem

longe de se realizar, porque, apesar de ser tonto, percebia que

as ações de seu amo, ou todas ou a maior parte, eram

disparates, e procurava ocasião de se safar e voltar para casa,

sem estar com despedidas nem contas; mas a fortuna ordenou

as coisas muito ao invés do que ele receava. Sucedeu, pois,

que no outro dia, ao pôr do sol e ao sair de uma selva, espraiou D. Quixote a vista por uma verde campina, e lá ao fim viu gente, e, aproximando-se, conheceu que eram caçadores de altanaria.

Chegou-se mais, e viu entre eles uma galharda senhora,

montada num palafrém, ou hacanéia branquíssima, com arreios verdes e uma cadeirinha de prata. Vinha a esbelta dama vestida

de verde, tão bizarra e opulentamente, que parecia a

personalização da própria bizarria.

Na mão esquerda trazia um gerifalte, e por isso viu D. Quixote que seria alguma grande senhora, a quem obedeceriam todos

aqueles caçadores, como era na verdade; e assim, disse a

Sancho:

— Corre, Sancho filho, e dize àquela senhora do palafrém e do

gerifalte, que eu, o cavaleiro dos Leões, beijo as mãos à sua

grande formosura; e que, se sua grandeza me der licença, eu

mesmo lhas irei beijar, e servi-la em tudo o que as minhas forças puderem e ordenar sua alteza: e vê, Sancho, não vás tu

encaixar algum rifão dos teus na tua embaixada.

— Olha a quem fala — respondeu Sancho Pança, — venha-me

dizer isso a mim, que não é a primeira vez que levo embaixadas

nesta vida a mui altas e importantes damas.

— A não ser a da senhora Dulcinéia — redarguiu D. Quixote —

não me consta que levasses outra, pelo menos estando ao meu

serviço.

— É verdade — respondeu Sancho — mas ao bom pagador não

custa dar penhor, e em casa cheia depressa se guisa a ceia:

quero dizer, que não precisa de me advertir de coisa alguma,

que para tudo tenho e de tudo sei um poucochinho.

— Isso creio eu, Sancho — disse D. Quixote — vai em muito

boa hora, e Deus te guie.

Partiu Sancho Pança de carreira, obrigando o ruço a sair do seu

passo habitual, e chegou ao sítio onde estava a bela caçadora,

e, apeando-se, ajoelhado diante dela, disse-lhe:

— Formosa senhora, aquele cavaleiro que acolá aparece,

chamado o cavaleiro dos Leões, é meu amo, e eu sou um seu

escudeiro, a quem chamam em sua casa Sancho Pança. Este

tal cavaleiro dos Leões, que não há muito que se chamava o

cavaleiro da Triste Figura, manda-me dizer a vossa grandeza que seja

servida dar-lhe licença que venha, com seu propósito,

beneplácito e consentimento, pôr em obra o seu desejo, que

não é outro, segundo ele diz e eu creio, senão o de servir a

vossa consumada altanaria e formosura, e, dando-lhe essa

licença, Vossa Senhoria fará uma coisa que redundará muito

em seu prol, e ele receberá assinalada mercê e satisfação.

— Não há dúvida, bom escudeiro — respondeu a senhora —

que destes a vossa embaixada com todas as circunstâncias

que tais embaixadas pedem; levantai-vos, que escudeiro de

tamanho cavaleiro, como é o da Triste Figura, de quem já por cá temos muita notícia, não é justo que esteja de joelhos; levantai-

vos, amigo, e dizei a vosso amo: que venha muito embora

honrar-nos a mim e ao duque, meu marido, numa casa de

recreio que aqui temos.

Levantou-se Sancho, admirado, tanto da formosura da boa

senhora, como da sua muita afabilidade e cortesia, e ainda mais

de lhe haver dito que tinha notícia de seu amo, o cavaleiro da

Triste Figura; e que, se lhe não chamara o dos Leões, devia ser por ele ter adotado esse nome há tão pouco tempo. Perguntou-lhe a

duquesa (cujo título ainda hoje se não sabe):

— Dizei-me, bom escudeiro: este vosso amo não é um de quem anda impressa uma história, que se chama do Engenhoso Fidalgo D.

Quixote de la Mancha , e que tem por dama dos seus pensamentos

uma tal Dulcinéia del Toboso?

— É o mesmo, senhora — respondeu Sancho — e aquele seu

escudeiro, que anda ou deve andar na tal história, e a quem

chamam Sancho Pança, sou eu, a não ser que me trocassem no

berço, quero dizer, que me trocassem na imprensa.

— Com tudo isso muito folgo — disse a duquesa. — Ide, bom

Pança, e dizei a vosso amo que seja muito bem chegado e

muito bem-vindo aos meus estados, e que nenhuma coisa

poderia haver que mais contentamento me desse.

Sancho, portador de tão agradável resposta, com imenso gosto

voltou para seu amo, a quem contou minuciosamente tudo o

que a nobre senhora lhe dissera, levantando ao céu, com os

seus rústicos termos, a sua muita formosura, o seu grande

donaire e cortesia.

D. Quixote aprumou-se na sela com toda a galhardia, firmou-se nos estribos, ajustou a viseira, picou as esporas a Rocinante, e

com gentil denodo foi beijar as mãos à duquesa, a qual,

mandando chamar o duque, seu marido, enquanto D. Quixote

se aproximava, lhe contou a sua embaixada toda, e ambos, por

terem lido a primeira parte desta história, e terem sabido por ela

a disparatada índole de D. Quixote, com imenso gosto e desejo

de o conhecer o esperavam, no firme propósito de o não

contrariar, de concordar com tudo o que ele dissesse, tratando-

o como a cavaleiro andante, no tempo que com eles se

demorasse, com todas as cerimônias costumadas nos livros de cavalaria que tinham lido, e a que ainda eram muito afeiçoados. Nisto, chegou D. Quixote, e, dando mostras de querer apear-se,

acudiu Sancho a segurar-lhe no es tribo; mas, com tanta

desgraça, que, ao saltar, embrulhou-se-lhe um pé de tal modo

numa das silhas da albarda, que não lhe foi possível

desenredá-lo, e ficou pendurado, com a boca e o peito no chão.

D. Quixote, que não costumava apear-se sem lhe segurarem no

estribo, supondo que Sancho estava já no seu posto, largou o

corpo de golpe, e levou consigo a sela de Rocinante, que por

força estava mal apertada, e ele e a sela caíram ao chão, não

sem grande vergonha sua e sem muitas maldições, que atirou

por entre dentes ao desditoso Sancho, que ainda estava com o pé preso. O duque mandou aos seus monteiros que acudissem

ao cavaleiro e ao escudeiro, e eles correram logo a levantar a D.

Quixote, que, maltratado da queda, coxeando e como pôde, foi

ajoelhar diante dos duques; mas o nobre fidalgo não lho consentiu de modo algum; antes, apeando-se do cavalo,

abraçou D. Quixote, dizendo-lhe:

— Pesa-me, senhor cavaleiro da Triste Figura, que a primeira

que Vossa Mercê fez nas minhas terras fosse tão má como se

viu; mas descuidos de escudeiros costumam ser causa de

sucessos ainda piores.

— O acontecimento que me proporcionou a honra de vos ver,

valoroso príncipe, — respondeu D. Quixote — nunca podia ser

mau, ainda que a minha queda só parasse nas profundas dos

abismos, pois dali me levantaria e me tiraria a glória de vos ter

visto. O meu escudeiro, que Deus maldiga, desata melhor a

língua para dizer malícias, do que ata e aperta uma sela para

ficar firme; mas, esteja eu como estiver, caído ou levantado, a

pé ou a cavalo, sempre estarei ao vosso serviço e ao da duquesa, muito minha senhora, digna consorte vossa e digna

senhora da formosura, e universal princesa da cortesia.

— Devagar, devagar, meu senhor D. Quixote, que onde está

Dulcinéia del Toboso, senhora minha, não é razão que se

louvem outras formosuras.

Já a este tempo Sancho Pança, livre do laço e achando-se ali

próximo, antes que seu amo respondesse, disse:

— Não se pode negar que é muito formosa a minha senhora

Dulcinéia del Toboso, mas, onde menos se pensa, se levanta a

lebre, que eu tenho ouvido dizer que isto da natureza é como

um oleiro que faz vasos de barro, e quem faz um formoso pode

fazer dois ou três, ou um cento; digo isto, porque a duquesa,

minha senhora, decerto que não fica atrás de minha ama, a

senhora Dulcinéia del Toboso.

Voltou-se D. Quixote para a duquesa, e disse:

— Imagine vossa grandeza que nunca teve um cavaleiro andante, neste mundo, escudeiro mais falador nem mais

divertido do que eu tenho, e ele me não deixará por mentiroso,

se alguns dias me conceder a vossa excelsa grandeza

empregar-me no seu serviço.

— Que Sancho, o bom, seja divertido — respondeu a duquesa

— muito estimo, porque é sinal de ser discreto, que as graças e

os donaires, como Vossa Mercê bem sabe, senhor D. Quixote,

não assentam em rudes engenhos; e visto que o bom Sancho é

gracioso e donairoso, desde já o confirmo por discreto.

— E falador — acrescentou D. Quixote.

— Tanto melhor — observou o duque — porque muitas graças

não se podem dizer com poucas palavras, e para que se nos

não vá o tempo com elas, venha o grande cavaleiro da Triste

Figura...

— Dos Leões, há-de dizer Vossa Alteza — interrompeu Sancho —

que já não há Triste Figura.

— Venha, pois, o senhor cavaleiro dos Leões — prosseguiu o

duque — a um castelo meu, que está aqui próximo, onde se lhe

fará o acolhimento que a tão excelsa pessoa justamente se

deve, e o que eu e a duquesa costumamos fazer a todos os

cavaleiros andantes que ali chegam.

Entretanto, já Sancho arranjara e apertara bem a sela a

Rocinante, em que montou D. Quixote; e, montando o duque

num formoso cavalo, puseram a duquesa no meio, e

encaminharam-se para o castelo.

Ordenou a duquesa a Sancho que fosse junto dela, porque

gostava imenso de ouvir os seus ditos.

Não se fez rogar Sancho; meteu-se entre os três, e fez de

parceiro na conversação, com grande gosto do duque e da

duquesa, que tiveram por alta ventura o acolher no seu castelo

tal cavaleiro andante e tal escudeiro falante.