Dom Quixote - Parte II

Miguel de Cervantes · Capítulo 64 de 84

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Dom Quixote - Parte II

Capítulo LIV

Que trata de coisas tocantes a esta história, e a nenhuma outra.

 

Resolveram o duque e a duquesa, que fosse por diante o

desafio que D. Quixote fez ao seu vassalo, pela causa já

referida; e ainda que o moço estava em Flandres, para onde

fugira com medo de ter por sogra a dona Rodríguez,

determinaram pôr em seu lugar um lacaio gascão, que se

chamava Tosilos, ensinando-lhe primeiro muito bem o que havia de fazer. Daí a dois dias disse o duque a D. Quixote, que dali a quatro viria o seu contrário, e se apresentaria no campo,

armado como cavaleiro, e sustentaria que a donzela mentia

pela gorja, se afirmava que ele lhe dera palavra de casamento. D. Quixote recebeu muito gosto com tais notícias; prometeu a si mesmo fazer maravilhas no caso, e teve por grande ventura haver-se-lhe oferecido ensejo daqueles senhores poderem ver até aonde se estendia o valor do seu poderoso braço; e assim,

com alvoroço e contentamento, esperava que passassem os

quatro dias, que lhe pareciam já quatrocentos séculos.

Deixemo-los nós passar, como deixamos passar outras coisas,

e vamos acompanhar Sancho, que, entre alegre e triste, vinha

caminhando montado no ruço, a procurar seu amo, cuja

companhia lhe agradava mais do que ser governador de todas

as ilhas do mundo.

Sucedeu pois, que, não se tendo afastado da ilha do seu

governo (que ele nunca averiguou se fora ilha, cidade, vila ou lugar que governara), encontrou seis peregrinos com os seus

bordões, destes estrangeiros que pedem esmola cantando, os

quais, quando chegaram a ele, formaram-se em alas, e,

levantando as vozes todos juntos, principiaram a cantar na sua

língua, e Sancho só pôde entender uma palavra, que dizia claramente: “esmola”; por onde percebeu que mendigavam; e,

como ele, segundo diz Cid Hamete, era muito caritativo, tirou

dos seus alforjes o meio pão e o meio queijo que trouxera, e

deu-lhos, dizendo-lhes, por sinais, que não tinha mais nada que

lhes dar. Receberam-no com muito boa vontade, e disseram:

“Guelte, guelte”.

— Não entendo o que me pedis, boa gente — respondeu

Sancho,

Então um deles tirou uma bolsa do seio, e mostrou-a a Sancho,

por onde este percebeu que lhe pediam dinheiro; e ele, pondo o

polegar na garganta, e estendendo a mão para cima, fez-lhes

perceber que não tinha nem mealha e, picando o ruço, seguiu

para diante; e, quando passava um deles mirou-o com muita

atenção, e depois deitou-lhe os braços à cintura, dizendo-lhe

em voz alta, e muito castelhana:

— Valha-me Deus! que estou vendo? é possível que eu tenha

nos braços o meu caro amigo, o meu bom vizinho Sancho Pança? Isso tenho, sem dúvida, porque nem durmo, nem estou

bêbedo agora.

Admirou-se Sancho de se ouvir chamar pelo seu nome, e, depois de ter estado a olhar para o peregrino muito atento, sem dizer palavra, nunca o pôde conhecer, mas o outro, vendo a sua

suspensão, disse-lhe:

— Pois é possível, Sancho Pança, mano, que não conheças o

teu vizinho Ricote, o mourisco, tendeiro do teu lugar?

Então Sancho mirou-o com mais atenção, tornou a encará-lo e

afinal conheceu-o perfeitamente; e, sem se apear do jumento,

deitou-lhe os braços ao pescoço, e disse-lhe:

— Quem diabo te havia de conhecer, Ricote, com esse fato de

mamarracho, que trazes? Como tens tu atrevimento de voltar a

Espanha, onde, se te apanham e te conhecem, terás decerto má

ventura?

— Se me não descobrires, Sancho — respondeu o peregrino —

estou seguro que, com este trajo, não haverá ninguém que me

conheça; e apartemo-nos do caminho para aquela alameda que

ali aparece, onde querem jantar e descansar os meus

companheiros, e jantarás com eles, que são gente muito

aprazível; ali terei lugar de te contar o que me sucedeu depois

de sair da nossa terra, para obedecer ao bando de Sua

Majestade, que com tanto rigor ameaçava os desgraçados da

minha nação, como tu soubeste.

Fez Sancho o que lhe disse Ricote, e, falando este com os

outros peregrinos, apartaram-se para a alameda, muito

desviada da estrada real. Deitaram para o lado os bordões,

despiram as esclavinas, e Sancho viu que todos eram moços e

mui gentis-homens, exceto Ricote, já entrado em anos. Todos

traziam alforjes bem fornecidos, pelo menos de coisas que

chamam a sede a duas léguas de distância. Estenderam-se no

chão, e, fazendo toalha da relva, puseram-lhe em cima pão, sal, facas, nozes, fatias de queijo, e ossos de presunto, que, se não

se deixavam trincar, não se eximiam a ser chupados. Puseram

também um manjar negro, que dizem que se chama caviar, e é

feito de ovas de peixe, grande despertador da sede; não

faltaram azeitonas, ainda que secas e sem tempero algum, mas

saborosas e bem conservadas; porém, o que mais campeou

naquele banquete, foram seis garrafas de vinho, que tirou cada um a sua do seu alforje: até o bom Ricote, que se transformara

de mourisco em alemão ou tudesco, tirou também a sua, que,

em grandeza, podia competir com as outras cinco. Principiaram

a comer com muito gosto e muito devagar, saboreando cada

bocado que tiravam com a ponta da faca, e logo, todos à uma,

levantaram os braços e as garrafas, e, pondo à boca os

gargalos, com os olhos cravados no céu, não parecia senão

que era para lá que apontavam; e, deste modo, meneando as

cabeças para um lado e para outro, sinais que mostravam bem

o gosto que lhes dava o beber, estiveram um bom pedaço,

transvazando para os seus estômagos as entranhas das

vasilhas. Para tudo olhava Sancho, e nenhuma coisa o molestava; antes, para cumprir o rifão que ele muito bem sabia,

de que, quando fores a Roma, faze o que vires fazer, pediu a

Ricote a sua garrafa, e fez pontaria como os outros, e não com

menos gosto. Quatro vezes empinaram as garrafas, mas, à

quinta vez, não puderam, porque estavam mais secas e mais

enxutas que um esparto, o que atenuou a alegria que até ali

tinham mostrado. De quando em quando, punha algum deles a sua mão direita na mão de Sancho, e dizia: Espanhol e Tudesqui tuto

uno, bom compaño ; e Sancho respondia: Bom compaño, jura Di; e dava

uma risada que durava uma hora, sem se lembrar de nada do

que lhe sucedera no seu governo, porque, sobre o tempo em

que se come e em que se bebe, pouca jurisdição têm os

cuidados. Finalmente, o acabar-se-lhes o vinho foi princípio de um sono, que a todos acometeu, ficando adormecidos em cima da mesa e da toalha: só Ricote e Sancho permaneceram alerta,

porque tinham comido mais e bebido menos; e, chamando

Ricote a Sancho de parte, sentaram-se ao pé de uma faia,

deixando os peregrinos sepultados em doce sono; e Ricote,

sem tropeçar nada na sua língua mourisca, em puro castelhano

lhe contou o seguinte:

— Bem sabes, ó Sancho Pança, vizinho e amigo meu, como o

pregão e bando que Sua Majestade mandou publicar contra os

da minha nação, pôs terror e espanto em todos nós; pelo

menos a mim, tal susto me infundiu, que me parece que, ainda

antes do prazo que se nos concedia para nos ausentarmos de

Espanha, já eu tinha executado o rigor da minha pena na minha

pessoa e na dos meus filhos. Tratei, pois, e, no meu entender,

como prudente (da mesma forma que uma pessoa que sabe

que daí a tempos lhe hão-de tirar a casa em que vive, e arranja

outra para onde se mude), tratei, digo, de sair eu sozinho sem a

minha família, do meu povo, e de ir procurar sítio para onde a

levasse comodamente, e sem a pressa com que os outros saíram, porque bem vi, e viram todos os nossos anciãos, que

aqueles pregões não eram só ameaças, como alguns diziam,

mas leis verdadeiras, que tinham de se pôr em execução a seu

tempo; e forçaram-me a acreditar nesta verdade os ruins e disparatados intentos dos nossos, tais que me parece que foi

inspiração divina que moveu Sua Majestade a pôr em prática

tão galharda resolução, não porque todos fôssemos culpados,

que alguns havia cristãos firmes e verdadeiros; mas eram tão

poucos, que se não podiam opor aos que o não eram, e seria

inprudente aquecer a serpe no seio, tendo os inimigos dentro de casa. Finalmente, com justa razão fomos castigados com a

pena de desterro, branda e suave, no entender de alguns, mas,

no nosso, a mais terrível que se nos podia dar. Onde quer que

estamos, choramos pela Espanha, porque, enfim, aqui

nascemos, e é a nossa pátria natural; em parte nenhuma

achamos o acolhimento que a nossa desventura deseja; e na

Berberia, e em todas as partes da África, onde esperávamos ser

recebidos, acolhidos e regalados, é onde mais nos ofendem e

maltratam. Não conhecemos o bem, enquanto o não perdemos;

e é tamanho o desejo que alimentam, quase todos, de voltar a

Espanha, que a maior parte daqueles, e são muitos, que sabem

a língua como eu a sei, voltam e deixam suas mulheres e seus

filhos desamparados: tanto é o amor que lhe têm; e agora conheço e experimento o que costuma dizer-se: que é doce o

amor da pátria. Saí, como digo, da nossa terra, entrei em

França, onde nos faziam bom acolhimento, e quis ver tudo.

Passei a Itália, cheguei à Alemanha, e ali me pareceu que se

podia viver com mais liberdade, porque os seus habitantes não olham a muitas delicadezas; cada um vive como quer, porque a

maior parte deles tem liberdade de consciência. Arranjei casa

num lugar junto de Augsburgo, liguei-me a estes peregrinos,

que têm por costume vir todos os anos visitar os santuários de

Espanha, que consideram as suas Índias, de granjeio

certíssimo e conhecido lucro. Percorrem-na quase toda, e não

há povo donde não saiam comidos e bebidos, como se

costuma dizer, e com um real, pelo menos, em dinheiro; e, ao

cabo de sua viagem, vão-se embora, com mais de cem escudos

de sobras, que, trocados em ouro, ou metidos nos bordões, ou

nos remendos das esclavinas, ou com a indústria que podem,

tiram do reino e passam para as suas terras, apesar das

guardas dos portos, e postos em que se registram. Agora é

meu intento, Sancho, levar o tesouro que enterrei, o que

poderei fazer sem perigo, por estar fora do povoado, e escrever de Valência a minha filha e minha mulher, que sei que estão em

Argel, e ver como as hei-de levar a algum porto de França, e

dali à Alemanha, onde esperaremos o que Deus de nós outros

quiser fazer: que enfim, Sancho, eu sei com certeza que Ana

Ricota minha filha e Francisca Ricota minha mulher são

católicas cristãs; e, ainda que eu não o serei tanto, sempre sou

mais cristão que mouro, e rogo todos os dias a Deus que me

abra os olhos do entendimento, e me faça conhecer como o

devo servir; e o que me admira é não saber por que foram minha mulher e minha filha para a Berberia, antes do que para

França, onde podiam viver como católicas.

E Sancho respondeu:

— Olha, Ricote: isso não esteve, decerto, na sua mão; porque as levou João Tiopeio, irmão de tua mulher; e, como ele há-de

ser fino mouro, foi logo ao mais bem parado; e outra coisa te

sei dizer: é que me parece que vais debalde procurar o que

enterraste, porque tivemos notícias de que tiraram a teu

cunhado e a tua mulher muitas pérolas e muito dinheiro em

ouro, que levavam sem o ter registrado.

— Pode isso muito bem ser — replicou Ricote — mas sei,

Sancho, que não tocaram no que eu tinha escondido, porque

não lhes disse onde estava, receoso de algum desmando; e

assim, Sancho, se queres vir comigo e ajudar-me a desenterrá-

lo e a encobri-lo, dou-te duzentos escudos, com que poderás

remediar as tuas necessidades, que bem sei que não tens

poucas.

— Não sou nada cobiçoso — respondeu Sancho; — se o fosse,

não largaria esta manhã das mãos um ofício, com o qual podia

ter feito de ouro as paredes da minha casa, e comer, antes de

seis meses, em pratos de prata; e por isso, e por me parecer

que faria traição ao meu rei, favorecendo os seus inimigos, não iria contigo nem que me desses aqui, de contado, quatrocentos

escudos, em vez de me prometeres duzentos.

— E que ofício foi esse que deixaste, Sancho? — perguntou

Ricote.

— Deixei de ser governador de uma ilha — tornou Sancho —

mas de uma ilha, entendes? como não há outra.

— E onde fica essa ilha?

— Onde? A duas léguas daqui e chama-se a ilha Barataria.

— Não digas tolices, Sancho — tornou Ricote; — as ilhas estão

dentro do mar, e não há ilhas na terra firme.

— Como não há? — replicou Sancho — digo-te, Ricote amigo,

que esta manhã de lá parti, e ontem estive eu nela governando

à minha vontade, como um frecheiro; mas, com tudo isso,

deixei-a, por me parecer que era ofício perigoso este dos

governadores.

— E que ganhaste tu no governo? — perguntou Ricote.

— Ganhei — respondeu Sancho — conhecer que não sirvo para governar, a não ser um rebanho de gado, e que as riquezas que

se ganham nos tais governos se alcançam à custa de perder o

descanso e o sono, e até o sustento, porque, nas ilhas, os

governadores devem comer pouco, principalmente se têm

médico que vigie pela sua saúde.

— Não te entendo, Sancho — observou Ricote; — e parece-me

que tudo quanto dizes é um disparate; quem te havia de dar a ti

ilha para governares? pois faltavam homens mais hábeis do

que tu, para governadores? Cala-te, Sancho, e volta a ti, e vê se

queres vir comigo ajudar-me a desenterrar o tesouro

escondido, que o dinheiro é tanto, que bem se pode chamar

tesouro, e eu te darei meios para viver.

— Já te disse que não quero, Ricote — respondeu Sancho —

contenta-te com saberes que não sou capaz de te descobrir;

segue o teu caminho em boa hora, e deixa-me seguir o meu,

que bem sei que o que bem se ganhou perde-se facilmente;

mas, o que mal se ganhou perde-se ele e perde-se a gente.

— Não quero teimar, Sancho — tornou Ricote — mas dize-me:

estavas na nossa terra, quando de lá partiram minha mulher,

minha filha e meu cunhado?

— Estava, sim — respondeu Sancho — e o que te sei dizer é

que a tua filha ia tão formosa, que saíram a vê-la quantas

pessoas estavam na povoação; e todos diziam que era a mais bela criatura do mundo. Ia chorando e abraçava todas as suas

amigas e conhecidas, e todos quantos se chegavam para a ver,

e a todos pedia que a encomendassem a Deus, e a Nossa

Senhora sua mãe; e isto com tanto sentimento, que me fez

chorar a mim, que não costumo ser muito chorão; e à fé que

muitos tiveram desejo de a esconder, e de sair a raptá-la no

caminho; quem principalmente se mostrou mais apaixonado foi

D. Pedro Gregório, aquele moço e rico morgado que tu

conheces, que dizem que lhe queria muito; e, depois que ela

partiu, nunca mais apareceu no nosso lugar, e todos pensamos

que foi atrás dela para a roubar; mas até agora nada se soube.

— Sempre tive desconfianças — disse Ricote — de que esse

sujeito namorava a minha filha; mas, fiado no valor da Ricota,

nem me afligiu o saber que ele lhe queria bem; pois terás ouvido dizer, Sancho, que as mouriscas poucas vezes ou

nenhumas se mesclaram por amores com cristãos-velhos; e

minha filha, que mais pensava em ser cristã, que em ser

enamorada, pouco se importaria com as solicitudes do senhor

morgado.

— Deus queira! — replicou Sancho — que a ambos lhes ficaria

mal; e deixa-me ir embora daqui, Ricote amigo, que ainda quero

chegar esta noite ao sítio onde está meu amo D. Quixote.

— Vai com Deus, Sancho mano, que também os meus

companheiros já se mexem, e são horas de prosseguirmos o

nosso caminho.

Abraçaram-se ambos, Sancho montou no ruço, Ricote animou-

se ao bordão, e apartaram-se.