Dom Quixote - Parte II

Miguel de Cervantes · Capítulo 55 de 84

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Dom Quixote - Parte II

Capítulo XLV

 

De como Sancho Pança tomou posse da sua ilha, e do modo como principiou a governá-la.

 

Ó perpétuo descobridor dos antípodas, facho do mundo, olho

do céu, causador do balanço das bilhas de água, Tímbrio aqui,

Febo ali, atirador além, médico acolá, pai da poesia, inventor da

música; tu, que sempre nasces e nunca morres, ainda que o

pareces, digo-te, ó Sol, cujo auxílio é indispensável para a

perpetuidade da espécie humana, digo-te e peço-te que me

favoreças e alumies a escuridão do meu engenho, para que

possa discorrer com acerto e minúcia na narração do governo

de Sancho Pança, que sem ti me sinto tíbio, descoroçoado e

confuso!

Digo pois que, com todo o seu acompanhamento, chegou Sancho a um lugar quase de mil vizinhos, que era dos melhores

que o duque possuía. Disseram-lhe que se chamava a ilha Barataria, ou porque o lugar tinha o nome de Barataria, ou pela

barateza com que se lhe dera o governo. Ao chegar às portas

da vila, que era cercada de muros, saíram os alcaides do povo a

recebê-lo, tocaram os sinos e todos os vizinhos deram mostras de geral alegria, e com muita pompa o levaram à igreja matriz a

dar graças a Deus, e em seguida, com algumas ridículas

cerimônias, lhe entregaram as chaves da vila e o admitiram

como governador perpétuo da ilha Barataria. O trajo, as barbas, a gordura e a pequenez do novo governador traziam pasmados todos os que não sabiam o segredo do negócio e até aos que o

sabiam, que eram muitos. Finalmente, fazendo-o sair da igreja,

levaram-no à cadeira do tribunal e ali o sentaram; e o mordomo

do duque disse-lhe:

— É costume antigo aqui, senhor governador, que o que vem

tomar posse desta ilha famosa seja obrigado a responder a

uma pergunta que se lhe faça, intrincada e dificultosa, e pela

resposta que dá, toma o povo o pulso ao engenho do seu novo

governador; e assim se alegra, ou se entristece com a sua

vinda.

Enquanto o mordomo dizia isto a Sancho, estava ele olhando

para umas grandes e numerosas letras, que ornavam a parede

defronte da sua cadeira. Como não sabia ler, perguntou o que

eram as pinturas que havia naquela parede. Responderam-lhe o

seguinte:

— Senhor, está ali escrito e notado o dia em que Vossa

Senhoria tomou posse desta ilha, e diz assim o epitáfio: “Hoje,

dia tantos de tal mês e de tal ano, tomou posse desta ilha o

senhor D. Sancho Pança, que por muitos anos a goze.”

— E a quem é que chamam D. Sancho Pança? — perguntou

Sancho.

— A Vossa Senhoria — respondeu o mordomo — que nesta ilha

nunca entrou outro Sancho Pança, a não ser o que está

sentado nessa cadeira.

— Pois ficai sabendo, irmão — redarguiu Sancho — que eu não

tenho Dom, nem nunca o houve em toda a minha linhagem.

Chamo-me Sancho Pança, sem nada mais, e Sancho se chamou

meu pai, e Sancho meu avô; todos foram Panças, sem dons

nem donas, e parece-me que nesta ilha deve haver mais dons do que pedras; mas basta, que Deus bem me entende, e pode

ser que, se o meu governo durar quatro dias, eu carde esses

dons, que pela multidão devem enfadar tanto como os

mosquitos. Venha de lá agora com a sua pergunta o senhor

mordomo, que eu responderei o melhor que puder, quer se

entristeça o povo, quer se não entristeça.

Neste momento entraram no tribunal dois homens: um vestido de lavrador e o outro de alfaiate, porque trazia uma tesoura na

mão; e o alfaiate disse:

— Senhor governador, eu e este lavrador que aqui estamos,

vimos à presença de Vossa Mercê, porque este bom homem

entrou ontem na minha loja — que eu, com perdão de quem

está presente, sou alfaiate examinado, graças a Deus — e

pondo-me nas mãos um pedaço de pano, perguntou-me:

Senhor, este pano chega para me fazerem uma carapuça? Eu

medi o pano, e respondi que sim. Ele imaginou, penso, que eu lhe queria furtar algum pedaço de pano, fundando-se talvez no

seu mau costume e na má opinião que têm os alfaiates, e

replicou-me que visse se chegaria para duas. Adivinhei-lhe o

pensamento e tornei-lhe a dizer que sim; e, teimoso na sua

demanda e primeira tenção, foi aumentando o número das

carapuças, e eu respondendo sempre que sim, até que

chegamos à conta de cinco, e agora acaba de as ir buscar; eu dou-lhas, não me quer pagar o feitio, e pelo contrário me pede

que lhe pague ou lhe dê o pano.

— É tudo isto assim, irmão? — perguntou Sancho.

— É, sim senhor — respondeu o outro — mas diga-lhe Vossa

Mercê que mostre as cinco carapuças que me fez.

— Da melhor vontade — tornou o alfaiate, tirando

imediatamente a mão de baixo do capote.

Mostrou cinco carapuças, postas nas cinco cabeças dos dedos

da mão, e disse:

— Aqui estão as cinco carapuças, que este homem me pede, e juro por Deus e pela minha consciência que não me ficou nem

um só pedaço de pano, como podem julgar os peritos do ofício.

Todos os presentes se riram da multidão das carapuças e do

novo pleito. Sancho pôs-se a considerar um pouco, e disse:

— Parece-me que neste pleito não deve haver largas dilações, mas julgar-se logo por juízo do homem bom; e assim, dou por

sentença que o alfaiate perca o feitio, o lavrador o pano e se

dêem as carapuças aos presos da cadeia, e acabou-se.

Esta sentença excitou o riso dos circunstantes; mas fez-se

enfim o que o governador mandou; e vieram logo em seguida

dois homens anciãos, um encostado a uma cana e o outro sem

bordão de espécie alguma, que disse assim:

— Senhor, há dias que emprestei a este homem dez escudos de

ouro em ouro para lhe ser agradável e para o obsequiar, com a

condição de que mos restituiria quando eu lhos reclamasse;

passaram-se muitos dias sem lho pedir, para não atrapalhar a

sua vida; mas, como me pareceu que se ia descuidando na

paga, falei-lhe neles uma e muitas vezes, e não só mos não

restitui, mas nega-mos e diz que nunca lhe emprestei tais dez

escudos, ou que, se lhos emprestei, já mos restituiu; eu não

tenho testemunhas, e muito menos de que mos deu, porque foi coisa que ele nunca fez; quereria que Vossa Mercê lhe tomasse juramento e, se jurar que mos pagou, perdoo-lhos aqui e diante

de Deus.

— Que dizeis a isto, bom velho do bordão? — perguntou

Sancho.

— Eu, senhor — respondeu o velho — confesso que mos

emprestou; abaixe Vossa Mercê essa vara, e já que ele confia

no meu juramento, eu jurarei que lhos restitui real e

verdadeiramente.

Abaixou o governador a vara, e entretanto o velho deu a cana ao outro, pedindo-lhe que lha segurasse, enquanto ele jurava,

como se o embaraçasse muito, e logo em seguida pôs a mão na

cruz da vara e disse que era verdade que lhe tinham

emprestado aqueles dez escudos que lhe pediam, mas que os

restituíra de mão em mão, e que decerto o credor não reparara nesse pagamento, pois que lhos tornava a reclamar de quando

em quando.

Vendo isto, o grande Sancho perguntou ao credor o que

respondia ele ao que dizia o seu contrário, e alegou este que

sem dúvida alguma o seu devedor falaria verdade, porque o

tinha por homem de bem e bom cristão, e que decerto fora ele que se esquecera de como e de quando lhos restituíra; que dali por diante nunca mais lhe pediria coisa alguma. Tornou a pegar

na cana o devedor e, abaixando a cabeça, saiu do tribunal. E

Sancho, vendo isto, notando que se ia embora, sem mais nem

mais, e observando também a paciência do queixoso, inclinou a

cabeça sobre a mão e, pondo o dedo indicador no nariz e nos

olhos, esteve como que pensativo um pequeno espaço, e logo

se endireitou, e mandou que lhe chamassem o velho do bordão,

que já se fora embora. Trouxeram-lho e, ao vê-lo, disse-lhe

Sancho:

— Dai-me esse bordão, que preciso dele.

— Com a melhor vontade — respondeu o velho — aqui está,

senhor.

E pôs-lho na mão.

Pegou-lhe Sancho e, dando-o ao outro velho, continuou:

— Ide com Deus, que já estais pago.

— Eu, senhor! — respondeu o velho — pois esta cana vale dez

escudos de ouro?

— Vale, sim, ou sou eu o maior asno do mundo; e agora se verá

se tenho ou não cachimônia para governar um reino inteiro.

Mandou que ali diante de todos se quebrasse e abrisse a cana.

Fez-se assim, e dentro dela acharam dez escudos em ouro.

Ficaram todos admirados e tiveram o seu governador por um

novo Salomão. Perguntaram-lhe como é que coligiu que

estavam na cana aqueles dez escudos; e ele respondeu que

tendo visto o velho dar o bordão ao seu contrário, enquanto

fazia o juramento de que lhos dera real e verdadeiramente, e

tornar-lho a pedir logo que acabou de jurar, acudiu-lhe à

imaginação que estava dentro dele a paga do que se pedia.

Donde se pode concluir que os que governam, ainda que sejam

uns tolos, às vezes encaminha-os Deus em seus juízos; tanto

mais que ele ouvira contar um caso assim ao cura da sua terra,

e tinha tanta memória que, se não se esquecesse de tudo de

quanto se queria lembrar, não haveria memória assim em toda a

ilha. Finalmente, um dos velhos corrido e o outro pago, foram-se ambos, e os presentes ficaram admirados, e o que escrevia

as palavras, feitos e gestos de Sancho, não sabia se o havia de

classificar como tolo se como discreto.

Acabado este pleito, entrou no tribunal uma mulher, agarrada

fortemente ao braço dum homem vestido de rico pastor, a qual

vinha dando grandes brados, e dizendo:

— Justiça, senhor governador, justiça! e, se a não acho na

terra, irei buscá-la ao céu. Senhor governador, senhor

governador da minha alma, este mau homem agarrou-me no

meio desse campo e serviu-se do meu corpo, como se fosse

um trapo mal lavado, e, desgraçada de mim, levou-me o que eu

guardava há mais de vinte e três anos, defendendo-o de mouros e cristãos, naturais e estrangeiros, e eu sempre

resistindo, conservando-me intacta como a salamandra no

lume, ou como a lã nas sarças, para que este homem viesse

agora manchar-me com as suas mãos limpinhas!

— Isso é o que está ainda por averiguar, se esse galã tem ou

não tem as mãos limpinhas — disse Sancho.

E, voltando-se para o homem, perguntou-lhe o que tinha que

dizer ou responder à querela dessa mulher. O homem, todo

turbado, redarguiu:

— Senhores, eu sou um pobre porqueiro (com perdão seja

dito). Esta manhã saía eu deste lugar, de vender quatro dos

meus cevados, que me levaram de alcavalas quase o que eles

valiam. Voltava eu para a minha aldeia, quando encontrei no

caminho esta boa mulher; e o diabo, que sempre as arma, fez

com que folgássemos juntos; paguei-lhe bastante, e ela, não

satisfeita com a paga, agarrou-se a mim e não me deixou

enquanto me não trouxe aqui. Diz que a forcei, e mente, pelo

juramento que faço ou tenciono fazer; e é esta a verdade toda,

sem lhe faltar uma só migalha.

Então o governador perguntou-lhe se trazia consigo algum

dinheiro em prata; disse ele que tinha uns vinte ducados no

seio, numa bolsa de couro; mandou-lhe que a tirasse e a entregasse tal qual à queixosa, o que ele fez tremendo. A

mulher tomou-a, e fazendo mil mesuras a todos, e rogando a

Deus pela vida e saúde do senhor governador, que assim

olhava pelas órfãs necessitadas e donzelas, com isto saiu do

tribunal, levando a bolsa agarrada em ambas as mãos, ainda

que primeiro viu se era de prata a moeda que tinha dentro.

Apenas saiu, disse Sancho ao pastor, a quem já saltavam as

lágrimas dos olhos, e cujo coração ia atrás da bolsa:

— Bom homem, correi após aquela mulher e tirai-lhe a bolsa,

ainda que seja à força, e voltai com ela aqui.

E não o disse a um tolo, nem a um surdo, porque ele logo partiu

como um raio e foi aonde o mandavam. Todos os presentes

estavam suspensos, esperando o fim daquele pleito, e daí a

pouco voltavam o homem e a mulher, mais agarrados que da

primeira vez: ela de saia levantada e com a bolsa no colo, e o

homem trabalhando por lha tirar, mas sem poder, de tal forma

ela a defendia, bradando:

— Justiça de Deus e do mundo! veja Vossa Mercê, senhor

governador, a pouca vergonha e o pouco receio deste

desalmado, que no meio da povoação e no meio da rua, me

quis tirar a bolsa que Vossa Mercê me mandou dar.

— E tirou-lha? — perguntou o governador.

— Tirar-ma! Mais depressa me tirariam a vida do que a bolsa! Está na tinta! Outros gatos me hão-de deitar às barbas, e não

este desventurado e asqueroso: nem tenazes, nem martelos,

nem maças, nem escopros, seriam capazes de ma tirar, nem

garras de leões; antes me arrancariam a alma do meio das

carnes.

— Tem razão — disse o homem — dou-me por vencido e

confesso que não tenho força bastante para lha tirar.

E deixou-a.

Então o governador disse à mulher:

— Deixai cá ver, honrada e valente mulher, essa bolsa.

Logo ela lha deu, e o governador restituiu-a ao homem, e disse

à esforçada:

— Mana minha, se mostrásseis o mesmo alento e valor, que

mostrastes na defesa desta bolsa, ou só metade para defender

vosso corpo, nem as forças de Hércules vos violentariam. Ide

com Deus, e em má hora, e não pareis nem nesta ilha, nem em

seis léguas de contorno, sob pena de duzentos açoites: ide-vos

já, repito, desavergonhada e embaidora.

Espantou-se a mulher e foi-se embora, cabisbaixa e

descontente; e o governador disse para o homem:

— Ide-vos com Deus para o vosso lugar e com o vosso

dinheiro, e daqui por diante, se o não quereis perder, vede se

não vos dá na vontade o retouçar com ninguém.

O homem agradeceu-lhe como pôde e soube, e foi-se embora, e

os circunstantes ficaram admirados outra vez do juízo e das

sentenças do seu novo governador. Tudo isto, notado pelo seu

cronista, foi logo escrito ao duque, que com grande desejo o

estava esperando; e fique-se por aqui o bom Sancho, que temos pressa de voltar a seu amo, alvoroçado com a música de

Altisidora.