Dom Quixote - Parte II

Miguel de Cervantes · Capítulo 16 de 84

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Dom Quixote - Parte II

Capítulo VI

Do que passou D. Quixote com a sua sobrinha e a sua ama, capítulo dos mais importantes desta história toda.

 

Enquanto Sancho Pança e sua mulher Teresa Pança estiveram

na prática impertinente que referimos, não estavam ociosas a

sobrinha e a ama, que por mil sinais iam coligindo que D.

Quixote queria desgarrar-se pela terceira vez, e voltar ao

exercício da sua, para elas mal-andante, cavalaria. Procuravam,

por todos os modos possíveis, apartá-lo de tão mau

pensamento, mas tudo era pregar no deserto e malhar em ferro

frio: com tudo isso, entre outras muitas razões que com ele

tiveram, disse-lhe a ama:

— Na verdade, meu senhor, se Vossa Mercê não fica de quedo

em sua casa, e não se deixa de andar por montes e vales como

alma penada, procurando essas que diz que se chamam

aventuras, e a que eu antes chamarei desgraças, tenho de me queixar, voz em grita, a Deus e a El-Rei, que dê remédio a isto.

E D. Quixote respondeu-lhe:

— Ama, o que Deus responderá às tuas queixas não sei; e ainda menos o que dirá Sua Majestade; e sei apenas que, se eu

fosse rei, me dispensaria de responder a tanta infinidade de

memórias impertinentes, como os que todos os dias lhe dão;

que um dos maiores trabalhos que os reis têm, entre outros

muitos, é o de estarem obrigados a escutar a todos, e a todos

responder; e assim não desejaria eu que coisas minhas o

molestassem.

A isto respondeu a ama:

— Diga-me, senhor: na corte de Sua Majestade não há

cavaleiros?

— De certo que há — respondeu D. Quixote — e muitos, e é de

razão que os haja, para adorno da grandeza dos príncipes e

ostentação da majestade real.

— Por que não há-de ser Vossa Mercê — replicou ela — um dos

que a pé quedo servem ao seu rei e senhor, estando na corte?

— Olha, amiga minha — respondeu D. Quixote — nem todos os

cavaleiros podem ser cortesãos, nem todos os cortesãos

podem nem devem ser cavaleiros: de tudo tem de haver no

mundo; cavaleiros todos somos, mas vai muita diferença de

uns a outros; porque os cortesãos, sem sair dos seus

aposentos, nem dos umbrais da corte, passeiam por todo o

mundo, olhando para um mapa, sem lhes custar mealha, nem

padecer calor, nem frio, nem fome, nem sede; mas nós outros,

os cavaleiros andantes verdadeiros, ao sol, ao frio, ao ar, às

inclemências do céu, de noite e de dia, a pé e a cavalo,

lustramos toda a terra; e não conhecemos só os inimigos pintados, conhecemo-los no seu próprio ser, e a todo o transe e

em todas as ocasiões os acometemos, sem olhar a ninharias

nem a leis de desafios, se tem ou não tem mais curta a lança ou a espada, se traz consigo relíquias ou algum engano encoberto,

como outras cerimônias deste jaez, que se usam nos desafios

particulares, que tu não sabes e eu sei; e o bom cavaleiro andante, ainda que veja dez gigantes, que com as cabeças não

só toquem nas nuvens, mas passem para cima delas, e que a

cada um lhe sirvam de pernas duas enormes torres, e que os

braços semelhem mastros de grandes e alterosos navios, com

cada olho como uma grande roda de moinho e mais ardente

que um forno de vidraça, não tem por isso que se espantar;

antes com gentil porte e intrépido coração os deve acometer e

investir; e, se for possível, vencê-los e desbaratá-los num breve

momento, ainda que venham armados de umas conchas que

dizem que são mais duras que os diamantes, e em vez de

espadas tragam cutelos de aço damasquino, ou cacetes

ferrados com ponteiras de aço também, como eu vi mais de

duas vezes. Tudo isto disse, ama, para que vejas a diferença

que vai entre uns e outros cavaleiros; e seria razão que não houvesse príncipe que não estimasse em mais esta segunda,

ou para melhor dizer, primeira espécie de cavaleiros, que houve

tal, entre eles, que foi a salvação não só de um reino, mas de

muitos,

— Ah! senhor meu — acudiu a sobrinha — repare Vossa Mercê

que tudo isso que diz dos cavaleiros andantes é fábula e

mentira, e as suas histórias, a não serem queimadas, mereciam

que se lhe pusesse a cada uma um sambenito, ou algum outro

sinal, para que fosse conhecida por infame e destruidora dos

bons costumes.

— Pelo Deus que me sustenta — disse D. Quixote — se não

fosses minha sobrinha direita, como filha de minha própria

irmã, havia de fazer em ti tal castigo, pela blasfêmia que

disseste, que soaria em todo o mundo. Pois quê! é possível que

uma rapariga, que apenas sabe mexer uns bilros, se atreva a

pôr a boca nas histórias dos cavaleiros andantes, e a censurá-las? O que diria o senhor Amadis, se tal ouvisse? com certeza

te perdoaria, porque foi o mais humilde e cortês cavaleiro do

seu tempo, e sobretudo grande amparo de donzelas; mas

poderia outro ouvir-te que não te tratasse com a mesma

brandura, porque nem todos são corteses e bem assombrados;

alguns há descomedidos e refeces; nem todos os que se

chamam cavaleiros o são deveras, porque os há de ouro e de

pechisbeque; muitos que parecem verdadeiros, e não podem ir

seguros ao toque da pedra da verdade: há homens de baixa

condição que estouram por parecer cavaleiros, há outros

nobilíssimos que morrem por parecer gente baixa; àqueles

levanta-os ou a ambição, ou a virtude; a estes rebaixa-os ou a

frouxidão ou o vício; e é mister aproveitarmo-nos do

conhecimento discreto para distinguir estas duas espécies de

cavaleiros, tão parecidos nos nomes, e tão distantes nas ações.

— Valha-me Deus! — disse a sobrinha — saber Vossa Mercê

tanto, que, se fosse mister, podia numa urgência subir ao

púlpito ou ir a pregar por essas ruas, e com tudo isso cair numa

insensatez tão óbvia, que dê a entender que é valente, sendo velho, que tem forças, estando enfermo, e que endireita tortos, estando derreado pela idade, e sobretudo que é cavaleiro, não o sendo, porque, ainda que o possam ser os fidalgos, nunca o

são os pobres!

— Tens muita razão, sobrinha — respondeu D. Quixote — e a

respeito de linhagens, poderia eu dizer-te coisas que te fariam

espanto; mas, para não misturar o divino com o profano, não as

digo. Olhai, queridas, a quatro espécies de linhagens (atendei

bem) se podem reduzir todas as que há no mundo, e vem a ser:

umas, que tiveram humildes princípios, e se foram estendendo

e ampliando até chegar à suma grandeza; outras, que tiveram

princípios grandes, e os foram conservando, e conservam e

mantêm no mesmo pé em que começaram; outras, apesar de

haverem tido grandes princípios, acabaram em ponta, como

uma pirâmide, que, em comparação da base, nada é; outras há,

e são estas as mais numerosas, que nem tiveram bom

princípio, nem meio razoável, e terão dessa forma o fim sem

brilho, como a linhagem de gente plebéia e ordinária. Das

primeiras, que tiveram princípios humildes e subiram à

grandeza que conservam agora, sirva de exemplo a casa

otomana, que de um humilde pastor, que lhe deu origem, está

no auge em que a vemos; da segunda, que teve princípio em

grandeza e a conserva sem a aumentar, dou para exemplo

muitos príncipes, que o são por herança, e a conservam,

contendo-se pacificamente nos limites dos seus estados; e dos

que principiaram grandes e acabaram em ponta, há inúmeros

exemplos, porque todos os Faraós e Ptolomeus do Egito, os

Césares de Roma, com toda a caterva (se assim se lhe pode

chamar) de infinitos príncipes, monarcas, senhores, medos,

assírios, gregos e bárbaros, todas estas linhagens e todos

estes senhores se aniquilaram, porque não será possível

encontrar agora nenhum dos seus descendentes, e, se os encontrássemos, seria em baixo e humilde estado. Da linhagem

plebéia não tenho que dizer, senão que serve unicamente para acrescentar o número dos que vivem, sem que mereçam outra

fama nem outro elogio as suas grandezas. De tudo isto quero

que infirais, minhas tolas, que há muita confusão entre as

linhagens, e que só parecem grandes e ilustres as que o

mostram ser na virtude, na riqueza e liberalidade dos seus representantes. Disse virtudes, riquezas e liberalidades, porque

o grande que for vicioso será um grande vicioso, e o opulento

não liberal será um avarento mendigo, que ao possuidor das

riquezas não o faz feliz o possuí-las, mas sim despendê-las, e não o gastá-las como quiser, mas saber empregá-las bem. Ao

cavaleiro pobre não lhe fica outro caminho para mostrar que é

cavaleiro, senão o da virtude, sendo afável, cortês, comedido e

serviçal, não soberbo, nem murmurador, nem arrogante, e,

sobretudo, caritativo, que com dois maravedis que ele dê, com

ânimo alegre, se mostrará tão liberal, como o que dá esmola

com toque de sinos, e não haverá quem o veja adornado das

referidas virtudes, que, ainda que o não conheça, deixe de o

considerar homem de boa casta, e sempre o louvor foi prêmio

da virtude. Há dois caminhos, por onde os homens podem chegar a ser ricos e considerados: um é o das letras, o outro o

das armas. Eu, pela inclinação que tenho para as armas, vejo

que nasci debaixo do influxo do planeta Marte, de forma que me

é forçoso seguir por esse caminho; por ele hei-de ir, mau grado

a toda a gente, e debalde vos cansareis em persuadir-me a que

não queira o que os céus querem, o que a fortuna ordena, o que

pede a razão, e, sobretudo, o que a minha vontade deseja; pois

sabendo, como sei, os inúmeros trabalhos que tem a cavalaria

andante, sei também os bens infinitos que com ela se

alcançam, e sei que a senda da virtude é muito estreita, e o

caminho do vício largo e espaçoso, que os seus fins e

paradeiros são diferentes, porque o do vício, dilatado e

espaçoso, acaba na morte, e o da virtude, apertado e íngreme,

acaba em vida, e não em vida que tenha termo, mas na vida

eterna, e sei como disse o nosso grande poeta castelhano:

Conduz-nos esta aspérrima vereda

da imortalidade ao alto assento,

aonde não chega quem dali se arreda.

— Ai! desditosa de mim — disse a sobrinha — que também

meu tio é poeta; tudo sabe e tudo alcança, e aposto que, se

imaginar ser alvenel, fabricará uma casa como ninguém.

— Juro-te, sobrinha — respondeu D. Quixote — que se estes

pensamentos cavalheirescos me não arrebatassem os sentidos

todos, não haveria coisa que eu não fizesse, nem curiosidade

que me não saísse das mãos.

A este tempo bateram à porta, e, perguntando-se quem era,

respondeu Sancho Pança; apenas a ama o conheceu, tratou de

se ir embora, para o não ver, tal era o ódio que lhe votara.

Foi abrir a sobrinha, saiu a recebê-lo de braços abertos seu

amo D. Quixote, e encerraram-se ambos no seu aposento, onde

tiveram outro colóquio, não menos interessante que o anterior.