Dom Quixote - Parte II

Miguel de Cervantes · Capítulo 65 de 84

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Dom Quixote - Parte II

Capítulo LV

De coisas sucedidas a Sancho, e outras que não há mais que ver.

 

A demora, que Sancho teve no caminho, não lhe deu lugar a

que nesse dia chegasse ao castelo do duque; e, quando estava

a meia légua de distância, apanhou-o a noite, um pouco cerrada

e escura; mas, como era de verão, não se afligiu, e desviou-se

com tenção de esperar que rompesse a manhã; e quis a sua

pouca ventura que, andando à busca de sítio onde melhor se

acomodasse, caíram ele e o ruço numa funda e escuríssima

cova que estava entre uns edifícios muito antigos, e, quando

caiu encomendou-se a Deus de todo o coração, pensando que

iria parar às profundas dos abismos; não foi assim, porque, a

pouco mais de quatro toesas, deu fundo o ruço e Sancho ficou

montado nele, sem lesão nem dano algum. Apalpou o corpo

todo e respirou com força, para ver se estava são ou

escalavrado nalgum sítio; e, sentindo-se bom, inteiro e católico

de saúde, não se fartava de dar graças a Deus Nosso Senhor

pela mercê que lhe fizera, porque, primeiro, supôs que ficara

em mil pedaços. Apalpou também, com as mãos, as paredes da

cova, para ver se seria possível sair dela sem ajuda de

ninguém, mas achou-as todas lisas e sem relevo algum, e com

isso muito se afligiu, principalmente ouvindo o ruço queixar-se

terna e dolorosamente; e não se queixava o burro por vício,

que, na verdade, não estava muito bem parado.

— Ai! — disse então Sancho Pança — que sucessos não

pensados costumam acontecer, a cada passo, aos que vivem neste miserável mundo! Quem diria que aquele que ontem se

viu entronizado governador de uma ilha, mandando os seus

servos e os seus vassalos, hoje se havia de ver sepultado

numa cova, sem haver quem o remedeie, nem criado, nem vassalo, que acuda em seu socorro! Aqui teremos de morrer à

fome eu e o meu jumento, se não morrermos antes, ele de moído e quebrantado, e eu de pesaroso; pelo menos, não serei

tão feliz como foi o meu amo D. Quixote de la Mancha, quando desceu à caverna daquele encantado Montesinos, onde achou quem o regalasse melhor do que em sua casa, que não parece

senão que esteve lá de cama e mesa. Ali viu ele visões

formosas e aprazíveis, e aqui verei, creio eu, sapos e cobras.

Desditoso de mim: em que vieram a parar as minhas loucuras e

fantasias! Daqui tirarão os meus ossos, quando o céu for

servido que me descubram, descarnados, brancos e

empedernidos, e com eles os do meu bom ruço, por onde talvez

conhecerão quem nós somos, pelo menos os que tiverem notícia de que nunca Sancho Pança se apartou do seu jumento,

nem o ruço de Sancho Pança. Outra vez digo: míseros de nós

outros! que não quis a nossa triste sorte que morrêssemos na

nossa pátria e entre os nossos, onde, ainda que não

encontrasse remédio a nossa desgraça, não faltaria quem dela

se doesse, e, na hora última do nosso pensamento, nos cerrasse

os olhos! Ó companheiro e amigo meu, que mau pago te dei

dos teus bons serviços! Perdoa-me e pede à fortuna, do melhor modo que souberes, que nos tire deste mísero trabalho, em que

ambos estamos metidos, que eu prometo pôr-te um laurel na

cabeça, que não pareças senão um poeta laureado, e dar-te as

rações dobradas.

Deste modo se lamentava Sancho Pança, e o seu jumento ouvia-o, sem lhe responder palavra — tais eram o seu aperto e

a sua angústia. Finalmente, tendo passado aquela noite toda

em míseras queixas e lamentações, rompeu o dia, e, com a sua

claridade e resplendor, viu Sancho que era completamente

impossível sair daquele pouso sem o ajudarem, e principiou a

lamentar-se e a dar brados, para ver se alguém o ouvia; mas,

tudo era clamar no deserto, porque, em todos aqueles

contornos, não havia pessoa que o pudesse ouvir; e então

acabou de se dar por morto. Estava o ruço de focinho

levantado e Sancho Pança conseguiu-o pô-lo em pé; mas ele

mal se podia suster: e Sancho, tirando dos alforjes, que

também tinham caído, um pedaço de pão, deu-o ao seu jumento

e parece que lhe não soube mal; e disse-lhe Sancho, como se

ele o entendesse:

— Lágrimas com pão, passageiras são.

Nisto, descobriu a um lado da cova uma abertura, por onde

cabia uma pessoa, se se encolhesse muito. Correu para lá

Sancho Pança, e, agachando-se, entrou e viu que por dentro

era espaçosa e larga, e pôde-a ver bem, porque, pelo sítio que se podia chamar teto, entrava um raio de sol, que a descobria

toda. Viu também que se dilatava e alargava por outra

concavidade espaçosa, e então voltou ao sítio onde estava o

jumento, e, com uma pedra, principiou a desmoronar a terra da

abertura, de modo que, em pouco tempo, abriu espaço por

onde o jumento pôde entrar com toda a facilidade, e,

agarrando-lhe pelo cabresto, principiou a caminhar por aquela

gruta adiante, para ver se achava, por outro lado, alguma saída;

e umas vezes ia às escuras, outras vezes com luz, mas nunca

sem medo.

— Valha-me Deus todo-poderoso! — dizia entre si — isto que

para mim é desventura, melhor fora aventura para meu amo D.

Quixote. Ele sim, que tomaria estas profundidades e

masmorras por jardins vistosos e palácios de Galatéia, e

esperaria sair desta escuridão e estreiteza para algum florido

prado; mas eu, sem ventura, falto de conselho e menoscabado

de ânimo, a cada passo imagino que, debaixo dos pés, se me

há-de abrir de improviso outra cova mais profunda que a

primeira, que acabe de me tragar, porque um mal nunca vem

só.

Deste modo, e com estes pensamentos, lhe pareceu que teria

caminhado pouco mais de meia légua, ao cabo da qual

descobriu uma confusa claridade, que supôs ser já a do dia, e

que entrava por algum lado, o que dava indício de ter saída e

fim aquele caminho, que se diria ser o da outra vida.

Aqui o deixa Cid Hamete Benengeli e volta a tratar de D.

Quixote, que, alvoroçado e contente, esperava que chegasse o

dia da batalha que havia de travar com o sedutor da filha da

dona Rodríguez, a quem tencionava desfazer o agravo que

maldosamente lhe tinham feito. Sucedeu, pois, que, saindo uma

manhã a ensaiar-se no que havia de fazer nesse lance, dando

um repelão ou arremetida a Rocinante, chegou este a pôr os

pés tanto à beira duma cova que, se D. Quixote não puxasse

fortemente as rédeas ser-lhe-ia impossível não cair para dentro.

Enfim, susteve-se e não caiu; e, chegando-se um pouco mais

ao pé, sem se apear, mirou aquela profundeza, e, quando a

estava mirando, ouviu grandes brados lá dentro, e, escutando

atentamente, pôde perceber as seguintes palavras:

— Olá de riba! há aí algum cristão que me escuta? ou algum

cavaleiro caritativo que se compadeça de um pecador

enterrado em vida? de um desditoso governador

desgovernado?

Pareceu a D. Quixote que aquela voz era a de Sancho Pança, e ficou assombrado e suspenso; e, levantando a voz o mais que

pôde, disse:

— Quem está lá em baixo? quem se queixa?

— Quem há-de estar aqui, e quem se há-de queixar —

responderam — senão o asno de Sancho Pança, governador,

por seus pecados e por sua má fortuna, da ilha Barataria;

escudeiro, que foi, do famoso cavaleiro D. Quixote de la

Mancha?

Ouvindo isto, duplicou a admiração de D. Quixote, e

acrescentou-se-lhe o pasmo, acudindo-lhe ao pensamento que

Sancho Pança devia de ter morrido, e que era a sua alma que

estava ali penando; e, levado por esta imaginação, disse:

— Esconjuro-te por tudo quanto posso esconjurar-te como

cristão católico, para que me digas quem és; e, se fores alma

penada, dize-me o que queres que por ti faça, que a minha profissão é favorecer e socorrer os necessitados deste mundo,

e também os do outro que não podem ajudar-se a si próprios.

— De maneira — responderam — que Vossa Mercê, que me fala, deve de ser meu amo D. Quixote de la Mancha, e a mesma voz o

está dizendo.

— D. Quixote sou, que tenho por profissão socorrer e ajudar os

necessitados vivos e mortos: por isso, dize-me quem és, que

me tens atônito; porque, se és o meu escudeiro Sancho Pança,

e morreste, logo que te não levassem os diabos, e estejas, por

misericórdia de Deus, no purgatório, sufrágios bastantes tem a

nossa Madre Igreja Católica Romana, para te tirar das penas

que padeces, e eu, pela minha parte, com ela o solicitarei, até

onde chegar a minha fazenda; por isso, acaba de te declarar, e

dize quem és.

— Voto a tal — responderam — e juro, pelo nascimento de quem Vossa Mercê quiser, senhor D. Quixote de la Mancha, que sou o seu escudeiro Sancho Pança, e que nunca morri nos dias da minha vida; mas, tendo deixado o meu governo, por coisas e

lousas, que só com mais vagar se podem dizer, caí esta noite

na cova onde estou jazendo, e o ruço comigo, que me não deixará mentir, porque, por mais sinal, está aqui ao pé de mim.

E, o que é melhor, é que parece que o jumento entendeu o que Sancho disse, porque logo principiou a zurrar com tanta força,

que toda a cova retumbava.

— Famosa testemunha — disse D. Quixote; — conheço o

zurrar, como se eu o tivesse dado à luz, e ouço a tua voz, meu

Sancho; espera-me, que eu vou ao castelo do duque, que é

daqui muito perto, e trago quem te tire dessa cova, onde, sem

dúvida, os teus pecados te meteram.

— Vá Vossa Mercê — disse Sancho — e volte depressa, por

amor de Deus, que já não posso suportar o ver-me aqui

enterrado em vida, e estou morrendo de medo.

Deixou-o D. Quixote, e foi ao castelo contar aos duques o que

sucedera a Sancho Pança, de que não pouco se maravilharam,

ainda que bem perceberam que devia ter caído pela outra

abertura da gruta, que ali estava feita desde tempos

imemoriais; mas, não podiam imaginar como ele deixara o

governo, sem serem avisados da sua vinda. Finalmente,

levaram cordas e maromas, e, com muita gente e muito

trabalho, tiraram o ruço e Sancho Pança daquelas trevas, para a

luz do sol.

Viu-o um estudante e disse:

— Deste modo haviam de sair, dos seus governos, todos os

governadores, como sai este pecador das profundas dos

abismos, morto de fome, descorado e sem mealha, segundo me

parece.

Ouviu-o Sancho e disse:

— Há oito dias ou dez, irmão murmurador, que entrei a

governar a ilha que me deram, onde não tive uma só hora em

que estivesse farto de pão: durante esse tempo, médicos me

perseguiram e inimigos me amolgaram os ossos: não cobrei

nem mealha; e, sendo isto assim, parece-me que não merecia

sair deste modo; mas o homem põe e Deus dispõe, e o que

Deus faz é sempre pelo melhor; e quando venta molha a vela; e

ninguém diga: desta água não beberei; e muitos vão buscar lã e

vêm tosquiados; e eu cá me entendo, e basta; e não digo mais,

ainda que o poderia.

— Não te zangues, Sancho, nem te aflijas com o que ouvires,

que seria um não acabar nunca: vem tu com a consciência

segura, e deixa falar o mundo; querer amarrar as línguas aos

mal-dizentes é o mesmo que querer pôr portas ao campo. Se o governador sai rico do seu governo, dizem que foi ladrão, e, se

sai pobre, dizem que foi tolo.

— Com certeza — respondeu Sancho — que, desta vez, hão-de

ter-me antes por tolo, que por ladrão.

Nestas práticas chegaram, rodeados de rapazes e de muita

outra gente, ao castelo, onde já estavam nuns corredores o

duque e a duquesa esperando D. Quixote e Sancho, e este não

quis subir a ir ver o duque, sem meter primeiro o ruço na

cavalariça, alegando que ele passara muito má noite na sua

pousada; e depois subiu e, ajoelhando diante dos seus

senhores, disse:

— Senhores: porque assim o quis a vossa grandeza, sem

nenhum merecimento fui governar a vossa ilha Barataria, onde

entrei nu, e nu de lá saio, e não perco nem ganho. Se governei

bem ou mal, testemunhas tive de tudo, que dirão o que

quiserem. Aclarei dúvidas, sentenciei pleitos, e morri sempre

de fome, por assim o ter querido o doutor Pedro Récio, natural

de Tirteafuera, médico insulano e governadoresco.

Acometeram-nos inimigos de noite, e, tendo-nos posto em

grande aperto, afirmam os da ilha que ficaram livres e

vitoriosos, graças ao valor do meu braço: que tanta saúde lhes

dê Deus, como a verdade que eles dizem. Enfim, neste tempo

todo, pude tentear os encargos e as obrigações que o governar traz consigo, e entendi que os meus ombros não podiam com a

carga, nem eram peso para as minhas costelas, nem frechas

para a minha aljava; e assim, antes que o governo desse em

terra comigo, dei eu com o governo em terra, e ontem pela

manhã deixei a ilha como a encontrei, com as mesmas ruas,

casas e telhados que tinha à minha chegada. Não pedi dinheiro emprestado a ninguém, nem me meti em negócios rendosos; e,

ainda que tencionava fazer algumas ordenações proveitosas,

não fiz nenhuma, receoso de que se não guardassem, que, para

isso, tanto monta fazê-las como não as fazer. Saí, como digo,

da ilha, sem mais acompanhamento que o do meu ruço: caí

numa cova; vim por ela adiante, até que esta manhã, com a luz

do sol, vi a saída, mas tão difícil, que, a não me deparar o céu o

senhor D. Quixote, ali ficaria até ao fim do mundo. Assim,

portanto, duque e duquesa meus senhores, aqui está o vosso

governador Sancho Pança, que, nestes dez dias de governo, só

lucrou o ficar sabendo que não serve de nada ser governador de uma ilha, nem governador do mundo inteiro; e com isto os não enfado mais, e, beijando os pés a Vossas Mercês, dou um

pulo do governo abaixo, e passo para o serviço de meu amo D.

Quixote, que enfim, com ele, ainda que coma o pão com sobressalto, ao menos sempre me farto; e eu cá, em me

fartando, pouco me importo que seja com feijões ou que seja

com perdizes.

Com isto deu fim Sancho Pança à sua larga prática, temendo

sempre D. Quixote que ele dissesse milhares de disparates; e,

quando o viu acabar com tão poucos, deu do fundo do coração

graças aos céus; e o duque abraçou Sancho e disse-lhe que lhe

pesava no íntimo da alma ter ele deixado o governo tão

depressa; mas que veria se lhe podia dar, no seu estado, outro

ofício de menos encargo e de mais proveito. Abraçou-o a

duquesa também e deu ordem que o regalassem, porque dava

sinais de vir muito moído e em muito maus lençóis.