Dom Quixote - Parte II

Miguel de Cervantes · Capítulo 75 de 84

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Dom Quixote - Parte II

Capítulo LXV

Em que se dá notícia de quem era o cavaleiro da Branca Lua, com a liberdade de D. Gregório e outros sucessos.

 

Seguiu D. Antônio Moreno o cavaleiro da Branca Lua, e seguiram-no também, ou antes, perseguiram-no muitos

garotos, até que entrou numa estalagem da cidade. Entrou

atrás dele D. Antônio, com desejo de o conhecer; saiu a recebê-lo e a desarmá-lo um escudeiro; passaram para uma sala baixa,

e fez o mesmo D. Antônio, que não descansava enquanto não

soubesse quem ele era. Vendo, pois, o da Branca Lua, que

aquele cavalheiro não o largava, disse-lhe:

— Bem sei, senhor, o que aqui vos traz: quereis saber quem

sou; e, como não tenho motivos para o esconder, enquanto

este meu criado me desarma eu vo-lo direi, sem faltar em nada

à verdade. Sabei, senhor, que me chamo o bacharel Sansão

Carrasco; sou da mesma terra de D. Quixote de la Mancha, cuja

loucura e sandice faz com que tenhamos pena dele todos os

que o conhecemos, e um dos que mais se compadeceram fui

eu; e, convencido de que a sua salvação há-de ser o descanso,

e o estar na sua terra e na sua casa, procurei modo de

conseguir que para lá voltasse; e assim, haverá três meses, saí-

lhe ao caminho como cavaleiro andante, chamando-me o

cavaleiro dos Espelhos, com tenção de pelejar com ele e vencê-

lo, sem lhe fazer mal, pondo, como condição da nossa peleja,

que o vencido ficasse à discrição do vencedor; e o que

tencionava pedir-lhe, porque já o tinha por vencido, era que

tornasse para a sua terra e que não saísse de lá um ano a fio; e,

durante esse tempo, esperava que se curasse; mas a sorte

decidiu outra coisa, porque foi ele que me venceu e me

derribou do cavalo; e assim, não se pôde realizar o que eu

queria: seguiu o seu caminho e eu voltei para trás, vencido, corrido e moído da queda, que foi bastante perigosa; mas, nem assim perdi a vontade de procurá-lo de novo e, vencê-lo, o que

hoje fiz. E, como ele é pontual em guardar as ordens da

cavalaria andante, sem dúvida alguma guardará a que lhe dei,

em cumprimento da sua palavra. Eis, senhor, o que se passa, e nada tenho a acrescentar. Suplico-vos que me não descubrais,

nem digais a D. Quixote quem sou, para que tenham efeito os

meus bons pensamentos e volte a cobrar a razão um homem

que a tem excelente, contanto que o larguem as sandices da

cavalaria.

— Ó senhor — disse D. Antônio — Deus vos perdoe o agravo

que fizestes a todo o mundo, querendo pôr em seu juízo o doido mais engraçado que existe. Não vedes, senhor, que não pode chegar o proveito do siso de D. Quixote ao gosto que dão os seus desvarios? Mas imagino que toda a indústria do senhor

bacharel não será capaz de tornar ajuizado um homem tão

rematadamente louco; e, se não fosse contra a caridade,

desejaria que nunca sarasse D. Quixote, porque, com a sua

saúde, não só lhe perdemos as graças, mas também as de

Sancho Pança, seu escudeiro, que, umas ou outras, são capazes de alegrar a própria melancolia. Com tudo isso,

sempre me calarei, para ver se com razão desconfio que não

terá efeito a diligência feita pelo senhor Carrasco.

E o bacharel respondeu que era negócio que estava muito bem parado e de que esperava o mais feliz sucesso; e, depois de se pôr à disposição de D. Antônio para tudo o que ele desejasse e

de ter mandado amarrar as suas armas em cima dum macho,

montou no seu cavalo, saiu da cidade naquele mesmo dia e

voltou para sua pátria, sem lhe suceder coisa que mereça ser contada nesta verdadeira história. Contou D. Antônio ao vice-

rei tudo o que Carrasco lhe dissera, não ficando o vice-rei muito contente, porque no recolhimento de D. Quixote se perdia

o divertimento de todos os que das suas loucuras tivessem

notícia.

Seis dias esteve D. Quixote de cama, triste, pensativo, aflito e

incomodado, não cessando de matutar no desgraçado sucesso

do seu vencimento. Consolava-o Sancho, e disse-lhe, entre

outras coisas:

— Meu senhor, levante Vossa Mercê a cabeça, alegre-se e dê

graças ao céu, que, apesar de o derribar, não lhe quebrou nenhuma costela; e como sabe que onde se fazem aí se pagam,

e que nem sempre se vende o vinho onde se põe o ramo, faça

uma figa ao médico, porque não precisa dele para se curar

desta enfermidade. Voltemos para a nossa casa e deixemo-nos

de andar procurando aventuras por terras e lugares que não

conhecemos; e, se bem se considera, sou eu quem mais perde

nisto, apesar de ser Vossa Mercê o mais maltratado. Eu, que

deixei com o governo os desejos de ser governador, não

larguei a vontade de ser conde — que nunca terá efeito se

Vossa Mercê não chegar a rei, largando o exercício da sua

cavalaria; e assim, lá se vão em fumo as minhas esperanças.

— Cala-te, Sancho: bem sabes que a minha reclusão e retiro

não hão-de exceder um ano, e que voltarei logo depois aos

meus honrados exercícios; e não me faltarão reinos para

ganhar e condados para te dar.

— Deus o ouça e o diabo seja surdo! que sempre ouvi dizer que

mais vale boa esperança que ruim posse.

Estavam nisto, quando entrou D. Antônio, dizendo, com sinais

de grandíssimo contentamento:

— Alvíssaras, senhor D. Quixote, que D. Gregório e o renegado

que foi por ele estão na praia! na praia, digo eu? estão já em

casa do vice-rei e não tardam por aí.

Alegrou-se um pouco D. Quixote e exclamou:

— Em verdade, estou quase em dizer que gostaria que tudo

corresse às avessas, porque isso me obrigaria a passar a Argel,

onde, com a força do meu braço, daria liberdade, não só a D.

Gregório, mas a quantos cativos há na Berberia. Porém, ai,

mísero! que digo? Não sou eu o vencido? não sou eu o

derribado? não sou eu que não posso pegar em armas durante

um ano? Então que prometo? de que me gabo, se devo antes

usar de cruz, que de espada?

— Deixe-se disso, senhor — respondeu Sancho; — viva a

galinha com a sua pevide, e hoje por mim, amanhã por ti; e,

nestas coisas de recontros e bordoadas, não vale a pena fazer

caso, porque, quem hoje cai, amanhã se levanta, a não querer

ficar na cama, quero dizer, a não desmaiar sem cobrar novos

brios para pendências novas; e levante-se Vossa Mercê agora

para receber D. Gregório, que me parece que anda a gente

alvoroçada, e aquilo é coisa que ele já está em casa.

E era verdade, porque, logo que D. Gregório e o renegado deram conta ao vice-rei da sua ida e da sua volta, D. Gregório,

desejoso de ver Ana Félix, foi com o renegado a casa de D.

Antônio; e, ainda que D. Gregório, quando o tiraram de Argel,

vinha vestido de mulher, trocou esse fato, no banco da galé,

pelo dum cativo que saiu com ele; mas, de qualquer modo que

viesse trajado, sempre todos cobiçariam servi-lo e estimá-lo,

porque era extremamente formoso e de idade de dezessete ou

dezoito anos, pouco mais ou menos.

Ricote e sua filha saíram a recebê-lo, o pai com lágrimas e a

filha com honestidade. Não se abraçaram porque onde há muito

amor não costuma haver demasiada desenvoltura. As duas

belezas juntas, de D. Gregório e de Ana Félix, causaram

especial admiração a todos os que se achavam presentes.

Falou ali o silêncio pelos dois amantes, e foram os olhos as

línguas que descobriram os seus alegres e honestos

pensamentos.

Contou o renegado a indústria e meio de que se serviu para

arrancar D. Gregório do cativeiro. Contou D. Gregório, em

breves palavras, os perigos e apertos em que se vira, com as

mulheres com quem ficara, mostrando ser mais discreto do que

os seus anos o permitiam.

Finalmente, Ricote pagou e satisfez liberalmente, tanto ao renegado, como aos remeiros, reincorporou-se o renegado na Igreja cristã, e de membro podre se tornou limpo e são, com a

penitência e o arrependimento.

Dali a dois dias tratou o vice-rei com D. Antônio de ver o modo de levantar o desterro a Ana Félix e a seu pai, entendendo que não tinha inconveniente algum que em Espanha ficassem filha

tão cristã e pai tão bem intencionado. Ofereceu-se D. Antônio

para tratar disso na corte, aonde tinha de ir forçosamente para

outros negócios, dando a entender que ali, com empenhos e

dádivas, muitas coisas difíceis se conseguem.

— Não — disse Ricote, que estava presente a esta prática —

não se deve esperar nada de empenhos nem de dádivas; com o

grande D. Bernardino de Velasco, conde de Salazar, que Sua

Majestade encarregou da nossa expulsão, de nada valem

rogos, nem promessas, nem dádivas, nem lástimas; porque,

ainda que combina a misericórdia com a justiça, como supõe

que todo o corpo da nossa nação está contaminado e perdido,

usa com ele, antes de cautérios abrasadores, que de unguentos

emolientes; e assim, com prudência, com sagacidade, com

diligência e com o medo que infunde, levou energicamente a

devida execução essa grande empresa, sem que as nossas

indústrias, solicitações, fraudes e estratagemas pudessem

ofuscar seus olhos de Argos, que tem de contínuo alerta, para que não fique nem se encubra nenhum dos nossos, que venha

depois com o tempo, como raiz maléfica, a brotar e a produzir frutos venenosos na Espanha, já limpa e desembaraçada dos

temores que a nossa multidão lhe inspirava. Heróica resolução

do grande Filipe III e inaudita prudência em ter confiado a sua

execução a D. Bernardino de Velasco!

— Eu farei todas as diligências — replicou D. Antônio — e o céu que ordene o que mais for servido: D. Gregório irá comigo, para

mitigar a pena que seus pais devem ter com a sua ausência:

Ana Félix ficará, ou em minha casa com minha mulher, ou num

mosteiro, e sei que o senhor vice-rei gostará de que fique em

sua casa Ricote, até ver o resultado das minhas diligências.

O vice-rei consentiu em tudo o que se propôs; mas D. Gregório,

sabendo do que se tratava, declarou que de nenhum modo

podia nem devia deixar D. Ana Félix; mas formando tencão de ver seus pais e de voltar logo a ter com ela, concordou com o

que se resolvera. Ficou Ana Félix com a mulher de D. Antônio, e

Ricote em casa do vice-rei.

Chegou o dia da partida de D. Antônio e, dois dias depois, o da

partida de D. Quixote e de Sancho, porque a queda não lhes

permitiu partirem mais cedo. Houve lágrimas, suspiros, desmaios e soluços, quando Ana Félix e D. Gregório se

despediram. Ofereceu Ricote a D. Gregório mil escudos, mas

ele só quis aceitar cinco, que D. Antônio lhe emprestou, ficando

de lhos pagar na corte.

Com isto partiram ambos e, como se disse, D. Quixote e

Sancho dois dias depois: D. Quixote, desarmado e a cavalo, e

Sancho a pé, porque o ruço ia carregado com as armas.