Dom Quixote - Parte II

Miguel de Cervantes · Capítulo 28 de 84

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Dom Quixote - Parte II

Capítulo XVIII

Do que sucedeu a D. Quixote no castelo ou casa do cavaleiro do Verde Gabão, com outras coisas extravagantes.

 

A casa de D. Diogo de Miranda era vasta, como são sempre as

casas da aldeia, com armas esculpidas por cima da porta da

rua; a adega era no pátio, e havia muitos cântaros que, por

serem de Toboso, acordaram em D. Quixote a memória da

encantada e transformada Dulcinéia; e, suspirando, sem

atender ao que dizia nem ver diante de quem estava, exclamou:

— Ó doces prendas, por meu mal achadas,

doces e alegres quando Deus queria.

Ó cântaros tobosinos, que me trouxestes à memória a doce

prenda da minha maior amargura!

Ouviu-lhe dizer isto o estudante poeta, filho de D. Diogo, que

com sua mãe saíra a recebê-lo, e mãe e filho ficaram suspensos

de ver a estranha figura de D. Quixote, que, apeando-se de

Rocinante, se dirigiu com muita cortesia à dona da casa a

pedir-lhe as mãos para lhas beijar, e D. Diogo disse:

— Recebei, senhora, com o vosso habitual agrado, o senhor D.

Quixote de la Mancha, que é esse que aí tendes diante de vós,

cavaleiro andante e o mais valente e discreto que o mundo tem.

A senhora, que se chamava D. Cristina, recebeu-o com

demonstrações de muito afeto e cortesia, e D. Quixote lhe fez

os seus cumprimentos, com razões comedidas e acertadas.

Passou-se quase o mesmo com o estudante, a quem D.

Quixote, ouvindo-o falar, teve logo por discreto e agudo. Aqui

descreve o autor todas as circunstâncias da casa de D. Diogo,

pintando-nos o que encerra uma casa de cavaleiro lavrador e

rico; mas o tradutor da história entendeu que devia passar em

silêncio estas e outras minudências porque não diziam bem

com o propósito principal da história, que mais tira a sua força

da verdade que das frias digressões. Introduziram D. Quixote

numa sala, desarmou-o Sancho, e o nosso herói ficou de calças à walona e gibão de camurça todo besuntado com a ferrugem das

suas armas velhas; cabeção singelo à moda dos estudantes,

borzeguins amarelos e sapatos engraxados. Cingiu a sua boa

espada, que lhe pendia de um talim de pele de lobo marinho, e

pôs aos ombros uma capa de bom pano pardo; mas, antes de

tudo, lavou-se em cinco ou seis alguidares de água, e a última ainda ficou da cor do soro, graças à guloseima de Sancho, e à

compra dos seus negros requeijões, que tão branco puseram a

seu amo. Com os referidos atavios, e com gentil donaire e presença, saiu D. Quixote para a sala onde o estudante o estava

esperando para o entreter, enquanto se punha a mesa; que,

pela vinda de tão nobre hóspede, queria a senhora D. Cristina

mostrar que sabia e podia regalar os que entrassem em sua

casa. Enquanto D. Quixote se esteve desarmando, teve D. Lourenço (que assim se chamava o filho de D. Diogo) ocasião

de perguntar a seu pai:

— Quem é este cavaleiro, senhor, que Vossa Mercê nos trouxe a

casa, que o nome, a figura, e o dizer que é cavaleiro andante,

nos tem suspensos a minha mãe e a mim?

— Não sei como te responda, filho — redarguiu D. Diogo; — o

que te sei dizer é que o vi fazer grandes coisas de grande

doido, e dizer coisas tão discretas que apagam e destroem os seus atos; fala-lhe tu e toma o pulso ao que sabe, e, já que és

discreto, avalia a sua discrição ou a sua loucura, que eu, a dizer

a verdade, mais o tenho na conta de doido que de ajuizado.

Com isto, foi D. Lourenço entreter D. Quixote, como já se disse,

e entre outras práticas que os dois tiveram, disse D. Quixote

para D. Lourenço:

— O senhor D. Diogo de Miranda, pai de Vossa Mercê, deu-me

notícia da rara habilidade e sutil engenho que Vossa Mercê tem;

e, sobretudo, de que é um grande poeta.

— Poeta pode ser — respondeu D. Lourenço — mas grande

nem por pensamentos: é verdade que sou um pouco afeiçoado

à poesia e a ler os bons autores; mas não se me pode dar o

epíteto de grande.

— Parece-me bem essa modéstia — respondeu D. Quixote —

porque é raro o poeta que não seja arrogante e que se não

suponha o maior do mundo.

— Não há regra sem exceção — tornou D. Lourenço — e algum

haverá que o seja e o não pense.

— Poucos — respondeu D. Quixote; — mas diga-me Vossa

Mercê: que versos traz agora entre mãos, que me disse o

senhor seu pai que o vê preocupado e pensativo? E se é

alguma glosa, eu em glosas sou um pouco entendido, e folgarei

de os saber; e, se são de justa literária, procure Vossa Mercê

alcançar o segundo prêmio, porque o primeiro sempre o conquistam os empenhos e a posição do concorrente; o

segundo, esse dá-o simplesmente a justiça; e o terceiro, vem a

ser segundo, de forma que o primeiro passa a ser terceiro,

como sucede nas universidades com as cartas de licenciado.

— Até agora — disse consigo D. Lourenço — não te posso ter

por doido; vamos adiante.

E disse-lhe:

— Parece que Vossa Mercê cursou as escolas? que ciências

estudou?

— A da cavalaria andante — respondeu D. Quixote — que é tão

boa como a da poesia, e ainda uns deditos mais.

— Não sei que ciência é essa — replicou D. Lourenço — e não

tenho notícia dela.

— É uma ciência — tornou D. Quixote — que encerra em si

todas ou a maior parte das ciências do mundo, porque aquele

que a professa há-de ser jurisperito e conhecer as leis da justiça distributiva e comutativa, para dar a cada qual o que é

seu e o que lhe pertence; há-de ser teólogo, para saber dar

razão da lei cristã que professa, clara e distintamente, sempre

que lha pedirem; tem de ser médico, e principalmente

ervanário, para conhecer, no meio dos despovoados e

desertos, as ervas que têm a virtude de sarar as feridas, que

não há-de estar o cavaleiro andante a cada arranhadura a

procurar quem lha cure; tem de ser astrólogo, para ver, pelas

estrelas, quantas horas da noite passaram, e em que parte do

mundo está; tem de saber matemática, porque a cada instante

se lhe oferecerá ensejo de lhe ser necessária; e pondo de parte

o precisar de ser adornado de todas as virtudes teologais e

cardeais, descendo a outras minudências, deve saber nadar,

como dizem que nadava o peixe Nicolau; tem de saber ferrar

um cavalo e consertar a sela ou o freio; além disso, falando em

coisas mais altas, há-de guardar fidelidade a Deus e à sua dama; deve ser casto nos pensamentos, honesto nas palavras,

liberal nas obras, valente nos feitos, sofrido nos trabalhos,

caritativo com os necessitados e, finalmente, mantenedor da

verdade, ainda que o defendê-la custe a vida. De todas estas

grandes e mínimas partes se compõe um cavaleiro andante; e

veja Vossa Mercê, senhor D. Lourenço, que importante ciência é

a que eles estudam, e se se lhe podem comparar as mais

estimadas que se aprendem nos ginásios ou nas escolas.

— Se assim é — replicou D. Lourenço — digo que essa ciência

a todas se avantaja.

— Se assim é?! — perguntou D. Quixote.

— Quero dizer — tornou D. Lourenço — que duvido de que

houvesse e de que haja agora cavaleiros andantes adornados

de tantas virtudes.

— Muitas vezes disse — respondeu D. Quixote — o que torno a dizer agora: que a maior parte da gente imagina que não houve

cavaleiros andantes; e por me parecer que, se o céu lhes não

dá a entender milagrosamente que os houve e que os há,

qualquer trabalho que se faça será baldado; como muitas vezes a experiência mo demonstrou, não quero demorar-me agora em dissipar o seu erro, que é erro de outros muitos, e limito-me a

rogar ao céu que dele o tire e lhe mostre quão proveitosos e

necessários foram ao mundo os cavaleiros andantes, nos

séculos passados, e quão úteis seriam no presente, se se

usassem; mas triunfam agora, por pecado das gentes, a

preguiça, a ociosidade, a gula e os regalos.

— Lá se nos escapou o nosso hóspede — pensou D. Lourenço

— mas, com tudo isso, é um louco esquisito.

Aqui deram fim à sua prática, porque os chamaram para jantar.

Perguntou D. Diogo a seu filho o que tirara a limpo do engenho

do seu hóspede.

— É um louco cheio de intervalos lúcidos — respondeu D.

Lourenço.

Foram para o jantar, que foi como D. Diogo dissera no caminho

que o costumava dar aos seus convidados: limpo, saboroso e

farto; mas o que mais encantou D. Quixote foi o maravilhoso

silêncio que havia em toda a casa, que não parecia senão um

convento de cartuxos. Levantada a mesa, dadas graças a Deus, e água às mãos, D. Quixote pediu afincadamente a D. Lourenço

que dissesse os versos da justa literária; ao que ele respondeu:

— Por não parecer que sou daqueles poetas que, quando lhes

pedem que recitem os seus versos os negam, e quando lhos

não pedem os vomitam, direi a minha glosa, de que não espero

prêmio algum, que só fiz para exercitar o meu engenho.

— Um discreto amigo — observou D. Quixote — era de opinião

que se não cansasse ninguém em glosar versos, e a razão dizia

ele que era que nunca podia a glosa chegar ao mote, e que a

maior parte das vezes ia a glosa fora da intenção e do propósito

do que pedia o que se glosava; e, além disso, que as leis da

glosa eram demasiadamente estreitas e que não sofriam

interrogações, nem dize nem direi, nem substantivar verbos, nem

mudar o sentido, com outros atilhos e enleios, que amarram o

que glosa, como Vossa Mercê deve saber.

— Realmente, senhor D. Quixote — acudiu D. Lourenço — quando julgo apanhar Vossa Mercê num mau latim continuado,

escorrega-me nas mãos como uma enguia.

— Não entendo — respondeu D. Quixote.

— Eu me explicarei; e por agora ouça Vossa Mercê o mote e a

glosa, que dizem desta maneira:

Se o meu “foi” tornasse a ser,

sem eu ter que esp’rar “será”,

ou viesse o tempo já

do que está p’ra acontecer...

GLOSA

Alfim, como tudo passa,

passou o bem que me deu

a fortuna nada escassa,

mas que nunca me volveu,

por mais que eu peça, ou que faça.

Fortuna, bem podes ver

que já é longo o meu sofrer;

faze-me outra vez ditoso,

que eu seria venturoso

se o meu “foi” tornasse a ser.

Só quero um gosto, uma glória,

uma palma, um vencimento,

um triunfo, uma vitória,

tornar ao contentamento

que me é pesar na memória.

Fortuna, leva-me lá,

e temperado estará

todo o rigor do teu fogo,

sobretudo sendo logo,

sem eu ter que esp’rar “será”.

Sei que sou indeferido,

pois tornar o tempo a ser,

depois de uma vez ter sido,

não há na terra poder

que a tanto se haja estendido.

Corre o tempo; leve dá

seu vôo, e não voltará,

e erraria quem pedisse,

ou que o tempo já partisse,

ou viesse o tempo já.

Viver em perplexa vida,

ora esperando, ora temendo,

é morte mui conhecida,

e é muito melhor morrendo

buscar para a dor saída.

Eu preferia morrer,

mas não o devo querer,

pois com discurso melhor

me dá a vida o temor

do que está p’ra acontecer.

Acabando D. Lourenço de dizer a sua glosa, D. Quixote ergueu-

se, e com um grande brado, travando da mão direita de D.

Lourenço, exclamou:

— Vivam os altos céus! Generoso mancebo, sois o melhor

poeta do orbe, e merecíeis ser laureado, não por Chipre ou

Gaeta, como disse um vate, benza-o Deus, mas pelas

academias de Atenas, se existissem, e pelas que hoje existem

de Paris, Bolonha e Estrasburgo. Praza ao céu que aos juízes

que vos tirarem o primeiro prêmio, Febo os asseteie, e as musas nunca lhes franqueiem os umbrais das casas! Dizei-me,

senhor, peço-vos, alguns versos maiores, que quero tomar de

todo em todo o pulso ao vosso admirável engenho.

Não é boa dizer o autor que muito folgou D. Lourenço com os

elogios de D. Quixote, apesar de o ter por louco? Ó força da

adulação, aonde te estendes, e que dilatados limites tem a tua

jurisdição agradável! Confirmou D. Lourenço esta verdade, pois

condescendeu com o desejo de D. Quixote, recitando-lhe um

soneto, feito à fábula ou história de Píramo e Tisbe.

SONETO

Rompe o muro a donzela tão formosa,

que abriu de Píramo o galhardo peito:

parte o Amor de Chipre, e vai direito

a ver a quebra estreita e prodigiosa,

Fala o silêncio ali, porque não ousa

entrar a voz em tão estreito estreito;

as almas sim, que amor sói com efeito

facilitar a mais difícil cousa.

Desvairou-se o desejo, e o amor tamanho

da imprudente virgem solicita

a morte por seu gosto: olhai que história!

Que a ambos num só ponto, ó caso estranho!

os mata, e os sepulta e os ressuscita

uma espada, um sepulcro, uma memória.

— Bendito seja Deus — disse D. Quixote, depois de ter ouvido

o soneto de D. Lourenço — que afinal vi, entre os infinitos poetas consumidos, que por aí há um poeta consumado, como

é Vossa Mercê, senhor meu, que assim mo revela o artifício

deste soneto.

Quatro dias esteve D. Quixote regaladíssimo em casa de D.

Diogo, ao fim dos quais lhe pediu licença para se ir embora,

dizendo-lhe que lhe agradecia a mercê e o bom tratamento que

em sua casa recebera; mas que, por não parecer bem darem os

cavaleiros andantes muitas horas ao ócio e ao regalo, queria ir

cumprir o seu ofício, procurando as aventuras em que

abundava, segundo lhe diziam, aquela terra; e assim esperava entreter o tempo até chegar o dia das justas de Saragoça, que era o seu rumo direito; e que primeiro havia de entrar na cova

de Montesinos, de que se contavam tantas e tão admiráveis

coisas por aqueles contornos, sabendo e inquirindo o

nascimento e verdadeiro manancial das sete lagoas, chamadas

vulgarmente de Ruidera. D. Diogo e seu filho louvaram-lhe a

honrosa determinação e disseram-lhe que levasse da sua casa

e fazenda o que lhe aprouvesse, que a isso os obrigava o seu

valor e honroso mister.

Chegou, enfim, o dia da partida, tão alegre para D. Quixote

como triste e aziago para Sancho Pança, que se dava muito

bem com a fartura da casa de D. Diogo, e recusava tornar para a fome que se usa nas florestas e despovoados, e à estreiteza

dos seus mal providos alforjes; com tudo isso, encheu-os e

atochou-os do mais necessário que lhe pareceu e, ao despedir-

se, disse D. Quixote a D. Lourenço:

— Não sei se lembrei já a Vossa Mercê, e se lembrei, torno-o a

lembrar que, quando Vossa Mercê quiser poupar caminhos e

trabalhos para chegar ao inacessível cume do templo da Fama,

não tem mais que fazer senão deixar de parte a senda da

poesia, um pouco estreita, e tomar a estreitíssima da cavalaria

andante, que basta para o elevar a imperador, enquanto o diabo

esfrega um olho.

Com estas razões acabou D. Quixote de fechar o processo da

sua loucura, e mais com as que juntou, dizendo:

— Sabe Deus se eu quereria levar comigo o senhor D.

Lourenço, para lhe mostrar como se perdoa aos humildes e se

derrubam e se flagelam os soberbos, virtudes inerentes à profissão que eu sigo; mas, visto que o não pede a sua pouca

idade, nem o consentem os seus louváveis exercícios, limito-

me a advertir a Vossa Mercê que, sendo poeta, poderá ser

famoso, se se guiar mais pelo parecer alheio do que pela

própria opinião; porque não há pai nem mãe a quem pareçam

feios os filhos, e nos que são filhos do entendimento ainda

mais corre este engano.

De novo se admiraram o pai e o filho dos contraditórios

discursos de D. Quixote, ora discretos, ora disparatados, e da

teima enérgica em que estava de ir procurar as suas

desventuradas aventuras, que considerava como alvo e fim dos

seus desejos. Reiteraram-se os oferecimentos, e tomada a

devida vênia à senhora do castelo, partiram D. Quixote e

Sancho, montados no Rocinante e no ruço.