Dom Quixote - Parte II

Miguel de Cervantes · Capítulo 7 de 84

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Dom Quixote - Parte II

Aprovação

 

Por comissão do senhor doutor Gutierre de Cetina, vigário-

geral desta vila de Madrid, corte de Sua Majestade, vi este livro

da Segunda parte do engenhoso cavaleiro don Quixote de la

Mancha, por Miguel de Cervantes Saavedra, e não acho nele

coisa indigna de um zelo cristão, nem que destoe da decência

devida a bom exemplo, nem virtudes morais; antes, muita erudição e aproveitamento, assim na continência de seu bem seguido assunto para extirpar os vãos e mentirosos livros de

cavalarias, cujo contágio havia espalhado mais do que fora

justo, como na lisura da linguagem castelhana, não adulterada

com enfadonha e estudada afetação, vício com razão

aborrecido de homens cordatos; e na correção de vícios que

geralmente toca, ocasionado por seus agudos discursos,

guarda com tanta cordura as leis de repreensão cristã, que

aquele que fora tocado da enfermidade que pretende curar, na

doce e saboroso de suas medicinas gostosamente terá bebido,

quando menos o imagine, sem embaraço nem asco algum, o

proveitoso da detestação de seu vício, com que se achará, que

é mais difícil de se conseguir, satisfeito e repreendido. Houve

muitos que, por não ter sabido temperar nem mesclar a

propósito o útil com o prazeiroso, deram com todo seu molesto

trabalho por terra, pois não podendo imitar a Diógenes no

filósofo e douto, atrevida, para não dizer licenciosa e

deslumbradamente, o pretendem imitar no cínico, entregando-

se a maledicências, inventando casos que não aconteceram,

para tornar capaz o vício que tocam de sua áspera repreensão,

e por ventura descobrem caminhos para segui-lo, até então

ignorados, com que acabam por ficar, se não repreensores,

pelo menos, mestres dele. Fazem-se odiosos aos

conhecedores, com o povo perdem o crédito, se algum tiveram,

para admitir seus escritos e os vícios que arrojada e

impudentemente quiserem corrigir em muito pior estado que

antes, que nem todas as apostemas ao mesmo tempo estão

dispostas a admitir as receitas ou cautérios; antes, alguns

muito melhor recebem as brandas e suaves medicinas, com

cuja aplicação o atento e douto médico consegue por fim

resolvê-las, término que muitas vezes é melhor que o que se

alcança com o rigor do ferro.

Bem diferente sentiram dos escritos de Miguel de Cervantes,

assim nossa nação como as estrangeiras, pois como por

milagre desejam ver o autor de livros que com geral aplauso,

assim por seu decoro e decência como pela suavidade e

brandura de seus discursos, hão recebido Espanha, França,

Itália, Alemanha e Flandres. Certifico com verdade que em vinte e cinco de fevereiro deste ano de seiscentos e quinze, havendo

ido o ilustríssimo Senhor Dom Bernardo de Sandoval y Rojas,

cardeal-arcebispo de Toledo, meu senhor, a pagar a visita que a

Sua Ilustríssima fez o embaixador de França, que veio a tratar

coisas tocantes aos casamentos de seus príncipes e os de

Espanha, muitos cavaleiros franceses dos que vieram

acompanhando o embaixador, tão corteses como entendidos e amigos de boas letras, se chegaram a mim e a outros capelães

do cardeal meu senhor, desejosos de saber que livros de

engenho eram mais válidos; e, tocando acaso neste que eu

estava censurando, apenas ouviram o nome de Miguel de Cervantes, quando começaram a elogiar, encarecendo a estima em que, assim na França como nos reinos seus confinantes, se

tinham suas obras: a Galatéia, que algum deles tem quase de

memória a primeira parte desta e as Novelas. Foram tantos os

seus encarecimentos, que me ofereci para levá-los a ver o autor delas, que estimaram com mil demonstrações de vivos desejos.

Perguntaram-me mui pormenorizadamente sua idade, sua profissão, qualidade e quantidade. Achei-me obrigado a dizer

que era velho, soldado, fidalgo e pobre, a que um respondeu

com estas formais palavras: “Pois a um tal homem não tem a

Espanha muito rico e sustentado pelo erário público?” Acudiu outro daqueles cavalheiros com este pensamento e com muita

agudeza, e disse: “Se a necessidade o há de obrigar a escrever, praza a Deus que nunca tenha abundância, para que, com suas

obras, sendo ele pobre, faça rico a todo o mundo ”.

Bem creio que está, para censura, um pouco extensa; alguém

dirá que toca os limites do lisonjeiro elogio; mas a verdade do

que curtamente digo desfaz no crítico a suspeita e em mim o

cuidado; ademais que hoje em dia não se lisonjeia a quem não tem com que adoçar o bico do adulador, que, embora afetuosa

e falsamente diga brincando, pretende ser remunerado de

verdade.

Em Madrid, a vinte e sete de fevereiro de mil e seiscentos e

quinze.

O Licenciado Márquez Torres