Dom Quixote - Parte II

Miguel de Cervantes · Capítulo 76 de 84

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Dom Quixote - Parte II

Capítulo LXVI

Que trata do que verá quem o ler, ou do que ouvirá quem o ouvir ler.

 

Ao sair de Barcelona, voltou D. Quixote os olhos para o sítio

onde caíra, e disse:

— Aqui foi Tróia; aqui a minha desgraça, e não a minha

covardia, me tirou as glórias que eu alcançara; aqui usou a

fortuna comigo das suas voltas; aqui se escureceram as

minhas façanhas; aqui, enfim, caiu a minha ventura, para nunca

mais se levantar.

Ouvindo isto, disse Sancho:

— É tanto de valentes corações o serem sofridos nas

desgraças, como alegres nas prosperidades, meu senhor; e

isto julgo eu por mim porque, se estava alegre no tempo em

que era governador, agora, que sou escudeiro a pé, não estou

triste, que tenho ouvido dizer que essa a que por aí chamam

fortuna é uma mulher bêbeda e caprichosa e, sobretudo, cega,

e por isso não vê o que faz, nem sabe quem derriba, nem quem

levanta.

— Estás um filósofo, Sancho — respondeu D. Quixote; — falas

mui discretamente; não sei quem to ensina. O que te posso

dizer é que não há fortuna no mundo, nem as coisas que

sucedem, boas ou más, sucedem por acaso, mas sim por especial providência dos céus; e por isso costuma-se dizer que

cada qual é artífice da sua ventura, e eu o fui da minha, mas

não com a prudência necessária, que assim subiram ao galarim

as minhas presunções, pois devia ter pensado que à grandeza

e à força do cavalo do da Branca Lua não podia resistir a

fraqueza de Rocinante. Atrevi-me, enfim, fiz o que pude,

derribaram-me, e, ainda que perdi a honra, não perdi nem

posso perder a virtude de cumprir a minha palavra. Quando era

cavaleiro andante, atrevido e valente, com as minhas obras e as

minhas mãos honrava os meus feitos; e agora, que sou

escudeiro pedestre, honrarei a minha palavra, cumprirei a minha promessa. Caminha, pois, amigo Sancho, e vamos ter na

nossa aldeia o ano de noviciado e, terminado ele, voltaremos

com virtude nova ao nunca olvidado exercício das armas.

— Senhor — respondeu Sancho — não é tão agradável

caminhar a pé, que me incite e mova a fazer grandes jornadas.

Deixemos estas armas penduradas nalguma árvore e, saltando eu para as costas do ruço, levantando os pés do chão, faremos

as jornadas como Vossa Mercê as pedir e medir: que, pensar

que hei-de ir a pé, a fazer jornadas grandes, é escusado.

— Disseste bem, Sancho; penduram-se as minhas armas em

troféu e em torno delas gravaremos em duas árvores o que

estava escrito no troféu das armas de Roldão:

Ninguém lhes ponha mão,

se não puder medir-se com Roldão.

— Excelente idéia! — respondeu Sancho — e, se não fosse a

falta que nos faria Rocinante, também me parecia bom pendurá-

lo.

— Pois não quero, nem pendurá-lo a ele, nem pendurar as

armas — replicou D. Quixote — para que se não possa dizer

que teve mau pago o bom serviço.

— Diz muito bem Vossa Mercê — respondeu Sancho; —

segundo a opinião de alguns discretos, não há-de pagar a

albarda as culpas do burro; e pois deste sucesso é Vossa

Mercê que tem a culpa, castigue-se a si mesmo e não rebentem

as suas iras pelas suas rotas e sanguinolentas armas, nem

pelas mansidões de Rocinante, nem pelo tenro dos meus pés,

querendo que eles andem mais do que é justo.

Nestas práticas e arrazoados passaram todo aquele dia e ainda

mais quatro, sem lhes suceder coisa que lhes estorvasse o

caminho; e ao quinto dia, à entrada de uma aldeia, encontraram à porta de uma estalagem muita gente que, por ser dia de festa,

se estava ali divertindo.

Quando o nosso D. Quixote de la Mancha se aproximava,

ergueu a voz um lavrador, dizendo:

— Algum destes dois senhores, que aqui vêm, e que não

conhecem as partes, dirão como se há-de resolver a nossa

aposta.

— Digo, decerto — respondeu D. Quixote — com toda a retidão,

se conseguir entender o caso.

— O caso é o seguinte — disse o lavrador: — um vizinho deste lugar, tão gordo que pesa onze arrobas, desafiou a correr outro

seu vizinho, que só pesa cinco. A condição ajustada foi que

haviam de correr cem passos com pesos iguais; e, tendo

perguntado ao desafiante como se havia de igualar o peso,

disse ele que se pusessem às costas do desafiado seis arrobas de ferro, igualando-se assim as cinco arrobas do magro com as

onze do gordo.

— Isso não — interrompeu Sancho, antes de D. Quixote

responder — a mim, que há poucos dias saí de ser governador

e juiz, como toda a gente sabe, é que toca averiguar estas

dúvidas e dar parecer em qualquer pleito.

— Responde, responde, Sancho amigo — disse D. Quixote —

que eu não estou nem para dar migas a um gato — tão

transtornado e alvorotado trago o juízo.

Com esta licença, disse Sancho aos lavradores, que se

apinhavam em torno dele de boca aberta, esperando a sua

sentença:

— Irmãos, o que o gordo pede não tem caminho, nem sombra

de justiça; pois, se é verdade o que se diz, que o desafiado

pode escolher as armas, não deve escolhê-las tais que o

impeçam e o estorvem de sair vencedor; e entendo que ao

gordo desafiador se cortem, se arranquem, se tirem seis

arrobas de qualquer lado do corpo, do sítio que ele preferir e,

deste modo, ficando em cinco arrobas de peso, se igualará com

o seu contrário e poderão correr sem diferença.

— Voto a tal — disse um lavrador que escutara a sentença de

Sancho — este senhor falou como um abençoado e sentenciou

como um cônego; mas, com certeza, o gordo não quer tirar

nem uma onça da carne, quanto mais seis arrobas.

— O melhor é que não corram, para que o magro se não moa

com o peso, nem o gordo perca as suas carnes. Troque-se

metade da aposta em vinho e levemos estes senhores à

taverna, e eu fico por tudo.

— Agradeço-vos muito, meus senhores — disse D. Quixote — mas não posso demorar-me, porque pensamentos e sucessos

tristes me fazem parecer descortês e caminhar depressa.

E, picando as esporas a Rocinante, seguiu, deixando-os

verdadeiramente admirados da sua estranha figura e também

da discrição de Sancho Pança; e outro lavrador disse:

— Se o criado é tão esperto, que tal será o amo! Aposto que, se

fossem estudar a Salamanca, num abrir e fechar de olhos

estavam com toda a certeza alcaides da corte; que o que vale

neste mundo é estudar e mais estudar, e ter proteção e ventura e, quando mal se precata, acha-se um homem com uma vara de

juiz na mão, ou de mitra na cabeça.

Passaram aquela noite amo e criado no meio do campo ao

sereno e, ao outro dia, seguindo o seu caminho, viram que

vinha para eles um homem a pé, com uns alforjes no cachaço e

uma ascuma ou um chuço na mão, figura de correio a pé e,

quando se aproximou de D. Quixote de la Mancha, apressou o

passo e, meio correndo, chegou-se a ele e abraçando-o pela

coxa direita, porque não chegava mais acima, exclamou, com

mostras de muita alegria:

— Ó senhor D. Quixote de la Mancha, que grande

contentamento que há-de ter meu amo o senhor duque, em

sabendo que Vossa Mercê volta ao castelo, onde ele ainda está

com a senhora duquesal

— Não vos conheço, amigo, nem sei quem sois, se mo não

dizeis.

— Eu, senhor D. Quixote — respondeu o correio — sou Tosilos,

o lacaio do duque meu amo, aquele que não quis pelejar com Vossa Mercê na pendência do casamento com a filha de dona

Rodríguez.

— Valha-me Deus! — disse D. Quixote — é possível que sejais vós aquele que os nigromantes meus inimigos transformaram

nesse lacaio que dizeis, para me defraudar da honra daquela

batalha?

— Não diga isso, meu bom senhor — tornou o correio — não

houve encantamento, nem mudança de rosto; lacaio Tosilos

entrei na estacada, e lacaio Tosilos saí dela. Quis casar sem

pelejar, porque me pareceu bonita a moça, mas saiu-me tudo às

avessas do que eu pensava, porque, apenas Vossa Mercê se

ausentou do castelo, o duque meu amo mandou-me dar cem

bastonadas, por não ter cumprido as suas ordens, e a rapariga meteu-se freira e dona Rodríguez voltou para Castela, e eu vou agora a Barcelona levar um maço de cartas ao vice-rei, que lhe

envia meu amo. Se Vossa Mercê quer uma pinga, quente, é

verdade, mas pura, levo aqui uma cabaça cheia de vinho do

melhor, com umas fatias de queijo de Tronchon, que servirão

de chamariz e de despertador à sede.

— Aceito eu o convite — acudiu Sancho — e venha de lá o

vinho do bom Tosilos, apesar de quantos nigromantes houver

nas Índias.

— Enfim — disse D. Quixote — tu sempre hás-de ser, Sancho, o

maior glutão e o maior ignorante da terra, pois não te

persuades que este correio é encantado e este Tosilos fingido; fica-te com ele e farta-te, que eu vou andando devagar, à espera

que venhas.

Riu-se o lacaio, tirou a cabaça, sacou dos alforjes as fatias de

queijo e um pão pequeno, e ele e Sancho sentaram-se na verde

relva, e em boa paz e companhia deram cabo de tudo o que

vinha nos alforjes, com tanta gana, que até lamberam o maço

das cartas, só porque cheirava a queijo.

— Sem dúvida alguma este teu bom amo, Sancho amigo —

disse Tosilos — deve ser doido.

— Deve? — respondeu Sancho — não deve nada a ninguém,

principalmente se a moeda for loucura; isso vejo eu e digo-lho;

mas de que serve, principalmente agora, que vai louco

rematado, porque o venceu o cavaleiro da Branca Lua?

Rogou-lhe Tosilos que lhe contasse o que sucedera; mas

Sancho respondeu-lhe que era descortesia deixar seu amo a

esperar e que noutro dia lhe contaria tudo, se se encontrassem

e tivessem ocasião; e, levantando-se, depois de ter sacudido o

saio e as migalhas das barbas, enxotou o ruço adiante de si e,

dizendo adeus a Tosilos, deixou-o e foi apanhar seu amo, que o

estava esperando à sombra de uma árvore.