Dom Quixote - Parte II

Miguel de Cervantes · Capítulo 39 de 84

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Dom Quixote - Parte II

Capítulo XXIX

Da famosa aventura do barco encantado.

 

Dois dias depois de saírem da alameda, chegaram D. Quixote e

Sancho ao rio Ebro, e o vê-lo foi uma coisa que deu grande

gosto a D. Quixote, porque contemplou a amenidade das suas

margens, a lucidez das suas águas, o sossego da sua corrente

e a abundância dos seus líquidos cristais, cuja alegre vista

renovou na sua memória mil amorosos pensamentos;

especialmente, cismou no que vira na cova de Montesinos; que,

ainda que o macaco de mestre Pedro lhe dissera que parte

daquelas coisas eram verdade, e parte mentira, ele contentava-

se com o dizer-se-lhe que algumas eram verdadeiras, para as

considerar todas assim, às avessas de Sancho, que as tinha a

todas por igual patranha. Caminhando, pois, deste modo,

ofereceu-se-lhe à vista uma pequena barca, sem remos nem

velas, que estava amarrada na praia a um tronco de uma árvore.

Olhou D. Quixote para todos os lados e não viu pessoa alguma, e logo sem mais nem menos apeou-se de Rocinante, e mandou

a Sancho que fizesse o mesmo ao ruço, e que a ambos os animais os amarrasse, muito bem amarrados, ao tronco de um

álamo ou salgueiro que ali estava.

Perguntou-lhe Sancho o motivo daquele súbito apear e de

semelhante amarração. Respondeu-lhe D. Quixote:

— Hás-de saber, Sancho, que este barco que aqui está não tem outro fim senão chamar-me e convidar-me a que entre nele e vá

socorrer algum cavaleiro ou outra pessoa principal e

necessitada, que deve de estar posta nalguma grande aflição; porque este é o estilo dos livros das histórias cavaleirescas e

dos mgromantes que nelas se intrometem; e, quando algum

cavaleiro está metido nalguns trabalhos que não possa ser libertado deles senão por mão de outro cavaleiro, ainda que os separem duas ou três mil léguas, ou ainda mais, costumam, ou

arrebatá-lo numa nuvem, ou deparar-lhe um barco em que se

meta, e em menos de um abrir e fechar de olhos, levam-no, ou pelos ares, ou pelo mar, aonde querem e aonde é necessário o

seu auxílio; de forma que, ó Sancho, este barco está posto aqui

para o mesmo efeito; e isto é tão verdade, como ser agora dia, e

antes que o dia acabe prende juntos o ruço e Rocinante, e a

mão de Deus nos proteja, que não deixarei de embarcar-me,

nem que mo peçam frades descalços.

— Pois se assim é, e se Vossa Mercê quer cair a cada passo

nestes que não sei se lhes chame disparates, não tenho

remédio, senão obedecer e abaixar a cabeça, atendendo ao

rifão, que diz: Faze o que manda teu amo, e senta-te com ele à mesa; mas,

com tudo isso, pelo que toca ao descargo da minha

consciência, quero advertir a Vossa Mercê que me parece que

este barco não é dos encantados, mas de alguns pescadores

deste rio, porque nele se pescam as melhores bogas do mundo.

Isto dizia Sancho, enquanto prendia os animais, deixando-os

entregues à proteção dos nigromantes, com grande dor da sua alma. Disse-lhe D. Quixote que não tivesse pena do desamparo

dos animais, que aquele que a eles os levasse por tão

longínquos caminhos e regiões, trataria de os sustentar.

— Não entendo isso de lógicos — disse Sancho — e nunca ouvi

esse vocábulo em todos os dias da minha vida.

— Longínquos — respondeu D. Quixote — quer dizer

apartados, e não é maravilha que o não entendas, porque não

és obrigado a saber latim, como alguns que presumem sabê-lo

e afinal o ignoram.

— Já estão amarrados — respondeu Sancho — agora que

havemos de fazer?

— O que? — respondeu D. Quixote — benzer-nos e levantar

ferro; quero dizer, embarcar e soltar a amarra que prende este

barco à terra.

E, dando um pulo para dentro dele, e seguindo-o Sancho, cortou o cordel, e o barco foi-se apartando a pouco e pouco da

praia; e, quando Sancho se viu a obra de duas varas pelo rio

dentro, começou a tremer, receando ver-se perdido; mas nada

lhe deu mais pena do que ouvir ornear o ruço, e ver que

Rocinante procurava soltar-se: e disse para seu amo:

— O ruço zurra, condoído da nossa ausência, e Rocinante

procura soltar-se, para correr atrás de nós. Ó caríssimos

amigos, ficai-vos em paz, e a loucura, que nos aparta de vós

outros, convertida em desengano nos volva à vossa presença.

E nisto, começou a chorar tão amargamente, que D. Quixote,

mofino e colérico, lhe disse:

— De que tens tu medo, cobarde criatura? por que choras,

coração de manteiga? quem te persegue ou quem te acossa,

alma de rato caseiro? o que é que te falta, necessitado nas

entranhas da abundância? vais por acaso caminhando a pé e

descalço pelas montanhas Rífeas, ou vais sentado numa tábua como um arquiduque, deslizando pela tranqüila corrente deste plácido rio, donde em breve espaço sairemos para o mar alto?

Mas isso até já devemos ter saído, e devemos ter caminhado, pelo menos, setecentas ou oitocentas léguas; e, se eu tivesse

aqui um astrolábio para tomar a altura do pólo, eu te diria as

que andamos, ainda que, ou pouco sei, ou já passamos, ou

estaremos quase a passar a linha equinocial, que divide e corta

os dois contrapostos pólos em igual distância.

— E, quando chegarmos a essa lenha que Vossa Mercê diz —

perguntou Sancho — quanto teremos andado?

— Muito — replicou D. Quixote — porque, de trezentos e

sessenta graus que o globo contém de água e de terra,

segundo o cálculo de Ptolomeu, que foi o maior cosmógrafo,

teremos andado metade desses trezentos e sessenta graus, em

chegando à linha que eu te disse.

— Por Deus — disse Sancho — Vossa Mercê sempre traz para

testemunha uma fresca pessoa, a quem chama tolo meu, e de

quem diz que faz mofa!

Riu-se D. Quixote da interpretação que Sancho dera ao nome

de Ptolomeu e à designação de cosmógrafo, e disse-lhe:

— Saberás, Sancho, que os espanhóis e os que embarcam em Cádis para ir às Índias Ocidentais, um dos sinais que têm para saber que passaram a linha equinocial que eu te disse, é que a

todos que vão no navio morrem os piolhos, sem que fique um

só, que não se encontrará em todo o baixel, nem que se pese a

ouro, e assim podes, Sancho, verificar o caso. Se encontrares

coisa viva, sairemos com certeza desta dúvida.

— Não creio nada disso — respondeu Sancho; — contudo, farei

o que Vossa Mercê manda, ainda que não sei que necessidade

haja de se fazerem essas experiências, porque não nos

apartamos da margem nem cinco varas, nem nos afastamos

duas varas do sítio onde ficaram as alimárias; ainda vejo

perfeitamente Rocinante e o ruço no sítio onde os deixei, e

aposto que não andamos nem um passo de formiga.

— Faze a averiguação que eu te disse, Sancho, e não trates de

mais nada, porque tu não sabes o que são linhas, paralelos,

zodíacos, eclípticas, pólos, solstícios, equinócios, planetas,

signos, pontos, medidas de que se compõe a esfera celeste e

terrestre, que, se soubesses todas estas coisas ou parte delas,

verias claramente os paralelos que cortamos, que signos vimos e que imagens deixamos atrás de nós, e vamos deixando agora, e torno-te a dizer que te cates, que aposto que estás mais limpo

que um pedaço de papel liso e branco.

Catou-se Sancho e, pondo a mão na barriga da perna esquerda,

levantou a cabeça, olhou para seu amo e disse:

— Ou a experiência é falsa, ou ainda não chegamos aonde

Vossa Mercê diz, nem estamos a poucas léguas do tal sítio.

— Pois que! — perguntou D. Quixote — encontraste algum?

— Alguns, diga Vossa Mercê — respondeu Sancho.

E, sacudindo os dedos, lavou a mão toda no rio, por onde sossegadamente deslizava o barco, seguindo a corrente, sem

que o impelisse inteligência alguma secreta, ou qualquer

nigromante escondido, a não ser o próprio correr da água,

então brando e suave. Nisto, descobriram umas grandes

azenhas, que estavam no meio do rio, e apenas D. Quixote as

viu, bradou em alta voz para Sancho:

— Vês amigo, ali se descobre a cidade, castelo ou fortaleza,

onde deve de estar algum cavaleiro oprimido, ou alguma

rainha, infanta, ou princesa mal parada, para socorrer a qual

aqui sou chamado.

— Que diabo de cidade, fortaleza, ou castelo diz Vossa Mercê? — perguntou Sancho — pois não vê claramente que aquilo são

azenhas, que estão no rio, onde se mói o trigo?

— Cala-te, Sancho — disse D. Quixote — que, ainda que

parecem azenhas, não acredito que o sejam. Já te disse que

todas as coisas se mudam do seu ser natural com os

encantamentos. Não quero dizer que se mudam realmente, mas

que assim o parece, como o mostrou a experiência na transformação de Dulcinéia, único refúgio das minhas

esperanças.

Nisto, o barco, entrado no meio da corrente do rio, começou a

caminhar menos vagarosamente do que até ali.

Os moleiros das azenhas, que viram vir aquele barco água

abaixo, e que se ia a meter no redemoinho das rodas, saíram

com presteza muitos deles com varas largas a demorá-lo.

Como vinham enfarinhados, apresentavam um estranho

aspecto, e davam grandes brados, dizendo:

— Demônios de homens, aonde ides? Vindes desesperados e

quereis afogar-vos e despedaçar-vos nestas rodas?

— Não te disse eu, Sancho — acudiu D. Quixote — que

tínhamos chegado a sítio onde hei-de mostrar até onde chega a Voltaram para os seus animalejos D. Quixote e Sancho, e este

força do meu braço? Vê quantos malandrinos me saem ao encontro; vê quantos vampiros se me opõem; vê que de feias

cataduras nos querem assustar. Pois agora vereis, velhacos.

E, pondo-se em pé no barco, principiou a ameaçar com grandes

brados os moleiros, dizendo-lhes:

— Canalha malvada e pior aconselhada, deixai na sua liberdade a pessoa que na vossa fortaleza ou prisão tendes oprimida, alta ou baixa, de qualquer categoria que seja, que eu sou D. Quixote

de la Mancha, denominado o cavaleiro dos Leões, a quem está

reservado, por ordem expressa dos altos céus, o dar termo feliz

a esta aventura.

E, dizendo isto, deitou mão à espada, e começou-a a esgrimir

no ar contra os moleiros, os quais, ouvindo e não entendendo

semelhantes sandices, puseram-se com as suas varas a

desviar o barco, que já ia entrando no redemoinho formado

pelas rodas. Pôs-se Sancho de joelhos, pedindo devotamente

ao céu que o livrasse de tão manifesto perigo, como

efetivamente o livrou pela indústria e presteza dos moleiros

que, opondo-se com as suas varas ao andamento do barco, o detiveram, mas não de modo que não virassem o batel, dando

com D. Quixote e com Sancho na água; serviu de muito a D.

Quixote o saber nadar como um pato, ainda que o peso das

armas por duas vezes o levou ao fundo; mas, se não fossem os

moleiros, que se deitaram à água e os salvaram a ambos, ali,

para eles, teria sido Tróia.

Tirados, pois, para terra, mais ensopados que mortos de sede,

o bom do Sancho, ajoelhado, de mãos postas e com os olhos

cravados no céu, pediu a Deus, em larga e mui devota oração,

que daí por diante o livrasse dos atrevidos cometimentos de

seu amo.

Nisto, chegaram os pescadores, donos do barco, que as rodas

da azenha tinham despedaçado, e vendo-o em fanicos,

principiaram a despir Sancho e a pedir a D. Quixote que lho

pagasse.

D. Quixote, com grande sossego, como se não se tivesse

passado nada de extraordinário, disse aos moleiros e

pescadores que pagaria o barco da melhor vontade, com a

condição de lhe entregarem livres completamente a pessoa ou

pessoas que naquele seu castelo estavam oprimidas.

— Que pessoas e que castelo são esses? — tornou um dos

moleiros — Homem sem juízo, queres levar por ventura os

fregueses que vêm moer trigo a esta azenha?

— Basta — disse consigo D. Quixote — aqui era o mesmo que

pregar no deserto querer reduzir esta canalha a praticar um ato

virtuoso, por pedidos; e nesta aventura devem ter-se

encontrado dois valentes nigromantes, um dos quais estorva o que o outro intenta: um deparou-me o barco, outro deu comigo na água; Deus o remedeie, que todo este mundo se compõe de máquinas e de traças contrárias umas às outras. Eu não posso

mais.

E, levantando a voz, prosseguiu, dizendo e olhando para a

azenha:

— Amigos, quem quer que sejais, que nessa prisão ficais

encerrados, perdoai-me, que, por minha desgraça, e por

desgraça vossa, não vos posso tirar dessa aflição. Para outro

cavaleiro deve de estar guardada e reservada esta aventura.

Dizendo isto, concertou-se com os pescadores e pagou pelo

barco cinqüenta reais, que Sancho entregou de muito má

vontade, dizendo:

— Com duas barcadas como esta, damos com todo o cabedal

no fundo.

Os pescadores e moleiros estavam admirados, contemplando

aquelas duas figuras tão estranhas, e não eram capazes de

perceber as perguntas de D. Quixote; e, tendo-os por loucos,

deixaram-nos, e recolheram-se os moleiros para a sua azenha,

e os pescadores para as suas choças.

fim teve a aventura do barco encantado.