Dom Quixote - Parte II

Miguel de Cervantes · Capítulo 70 de 84

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Dom Quixote - Parte II

Capítulo LX

Do que sucedeu a D. Quixote no caminho de Barcelona.

 

Era fresca a manhã, e dava mostras de o ser também o dia em que D. Quixote saiu da venda, informando-se primeiro de qual

era o caminho mais direito, para ir para Barcelona sem tocar em

Saragoça: tal era o desejo que tinha de pôr por mentiroso aquele novo autor, que tanto diziam que o vituperava. Não lhe aconteceu coisa digna de se escrever em mais de seis dias, ao cabo dos quais, indo fora do caminho ou carreira, apanhou-o a noite num espesso carvalhal ou sobreiral. Apearam-se das suas

cavalgaduras o amo e o criado, e, encostando-se aos troncos

das árvores, Sancho, que naquele dia merendara, entrou logo a

dormir; mas D. Quixote, a quem conservavam desperto ainda

muito mais as suas imaginações do que a fome, não podia

pregar olho, antes ia e vinha com o pensamento por mil

gêneros de lugares. Ora lhe parecia achar-se na cova de

Montesinos; ora ver brincar e montar na sua burrica a

Dulcinéia, convertida em lavradeira; ora que lhe soavam aos

ouvidos as palavras do sábio Merlin, referindo-lhe as condições

e diligências, com que se conseguiria o desencantamento de

Dulcinéia. Desesperava-se ao ver a frouxidão e a falta de

caridade de Sancho; porque lhe parecia que apenas dera cinco

açoites em si próprio, número desproporcionado e pequeno

para os infinitos que lhe faltavam; e com isto se afligiu tanto,

que fez consigo o seguinte discurso:

“Se Alexandre Magno cortou o nó górdio, dizendo: “Tanto

monta cortar como desatar”, e por isso não deixou de ser o

senhor universal de toda a Ásia, nem mais nem menos podia

suceder agora com o desencantamento de Dulcinéia, se eu

açoitasse Sancho contra vontade dele; porque, se a condição

deste remédio está em receber Sancho os três mil e tantos açoites, que se me dá a mim que os dê ele, ou que lhos dê

outro? o essencial é que ele os receba, venham donde vierem!”

Pensando nisto, aproximou-se de Sancho, tendo primeiro agarrado nas rédeas de Rocinante; e, juntando-as de modo que

pudesse açoitá-lo com elas, principiou a tirar-lhe a cinta; mas,

apenas o começou a desapertar, acordou Sancho e disse:

— Que é isto? quem me toca e me desaperta?

— Sou eu — respondeu D. Quixote — que venho suprir as tuas

faltas, e remediar meus trabalhos; venho-te açoitar, Sancho, e

descarregar em parte a dívida a que te obrigaste. Dulcinéia

perece, tu vives descuidado, eu morro de desejos; e, assim,

desataca-te por vontade, que a minha é dar-te nesta solidão

pelo menos dois mil açoites.

— Isso não — tornou Sancho; — Vossa Mercê faça favor de

estar quieto, senão os surdos nos hão-de ouvir; os açoites a

que me obriguei hão-de ser dados voluntariamente, e não à

força; agora não tenho vontade de me açoitar; basta que eu dê

a minha palavra a Vossa Mercê, que me fustigo e sacudo as

moscas do meu corpo, assim que me apetecer.

— Não quero deixá-lo à tua cortesia, Sancho — disse D.

Quixote — porque és duro de coração e tenro de carnes.

E procurava à viva força desapertá-lo. Vendo isto, Sancho levantou-se e, arremetendo a seu amo, abraçou-o e, passando-

lhe o pé, deu com ele no chão, de cara virada para cima; pôs-

lhe um joelho no peito e, segurando-lhe nas mãos, não o

deixava mexer nem respirar.

— Como, traidor, pois desmandas-te contra teu amo e senhor

natural? atreves-te contra quem te dá o pão?

— Não tiro rei, nem ponho rei — respondeu Sancho — mas

ajudo-me a mim, que sou meu senhor; prometa-me Vossa Mercê que estará quieto, e não tratará agora de me açoitar, que

eu o deixarei livre e desembaraçado, senão

Aqui morrerás, traidor,

imigo de Dona Sancha.

Prometeu D. Quixote e jurou por vida dos seus pensamentos

não lhe tocar na roupa, e deixá-lo açoitar-se quando quisesse, por sua livre vontade e alvedrio. Ergueu-se Sancho e desviou-

se daquele sítio um bom pedaço e, indo arrimar-se a um tronco

de árvore, sentiu que lhe tocavam na cabeça e, levantando as

mãos, topou dois pés de gente, com sapatos e calças. Tremeu

de medo, procurou outra árvore, e aconteceu-lhe o mesmo; deu

brados, chamando D. Quixote que lhe acudisse. Correu seu

amo, e, perguntando-lhe o que é que sucedera, e de que é que tinha medo, respondeu-lhe Sancho que todas aquelas árvores

estavam cheias de pernas e de pés humanos. Apalpou-os D.

Quixote e logo percebeu o que seria, e disse a Sancho:

— Não tenhas medo, porque estes pés e pernas, que apalpas e

não vês, decerto são de alguns foragidos e bandoleiros,

enforcados nestas árvores, que por estes sítios os costuma

enforcar a justiça quando os apanha, de vinte a vinte, e de trinta

a trinta árvores, e por isso percebo que devo estar ao pé de

Barcelona.

E era, efetivamente, assim.

Ao amanhecer, levantaram os olhos e viram os cachos

daquelas árvores, que eram corpos de bandoleiros. Já nisto

vinha amanhecendo, e, se os mortos os tinham espantado,

também os atribularam mais de quarenta bandoleiros vivos,

que de improviso os rodearam, dizendo-lhes, em língua catalã, que estivessem quedos e esperassem pelo capitão. Achava-se

D. Quixote a pé, com o cavalo sem freio, com a lança arrimada a

uma árvore, e, finalmente, sem defesa alguma; e, assim, não

teve remédio senão cruzar as mãos e inclinar a cabeça,

guardando-se para melhor ocasião e conjuntura. Correram os

bandoleiros a espoliar o ruço, não deixando coisa alguma do

que vinha nos alforjes e na maleta, e por felicidade Sancho

trazia os escudos do duque, e os que trouxera da terra, metidos

numa algibeira do alçapão; mas, ainda assim, aquela boa gente

o revistaria, e lhe tiraria até o que tivesse escondido por baixo

da pele, se não chegasse nesse momento o seu capitão, que

mostrava ser homem de trinta e quatro anos, robusto, bem

proporcionado, mais alto que baixo, de olhar grave, e de cor

morena. Vinha montado num poderoso cavalo, com uma cota

de malha de aço e quatro pistolas, a que se chamam na

Catalunha pedernales, metidas no cinto. Viu que os seus

escudeiros (que assim chamam aos que andam naquele

exercício) iam despojar Sancho Pança; ordenou-lhes que o não

fizessem, e foi logo obedecido; e, assim, escapou o cinto.

Admirou-se de ver uma lança arrimada a uma árvore, um

escudo no chão e D. Quixote armado e pensativo, com a mais

triste e melancólica fisionomia que a própria tristeza podia ter.

Chegou-se a ele dizendo:

— Não estejais tão triste, bom homem, porque não caístes nas

mãos de algum cruel Osíris, mas sim nas de Roque Guinart,

que têm mais de compassivas que de rigorosas.

— Não estou triste — respondeu D. Quixote — por ter caído em

teu poder, Roque valoroso, para cuja fama não se encontram

limites na terra, mas sim por ter sido tal o meu descuido, que

me apanharam os teus soldados sem freio no cavalo, sendo eu obrigado, pela regra da cavalaria andante que professo, a viver

sempre alerta, sentinela a toda a hora de mim mesmo; e quero

que saibas, grande Roque, que se me achasse montado no

cavalo, com a minha lança e com o meu escudo, não lhes seria fácil renderem-me, porque sou D. Quixote de la Mancha, aquele

que enche todo o orbe com as suas façanhas.

Logo Roque Guinart conheceu que a enfermidade de D. Quixote

estava mais próxima da loucura que da valentia; e, ainda que algumas vezes o ouvira nomear, nunca julgou verdadeiros os

seus feitos, nem se pôde persuadir de que tivesse semelhantes disposições o coração dum homem; alegrou-se em extremo por

tê-lo encontrado, para tocar de perto o que de longe ouvira a

respeito dele; e assim, disse-lhe:

— Valoroso cavaleiro, não vos despeiteis, nem considereis

como fortuna esquerda esta em que vos encontrais, porque

pode ser que nestes tropeços se endireitasse a vossa torcida

sorte; que o céu, por estranhos e nunca vistos rodeios, nunca

imaginados pelos homens, costuma levantar os caídos e

enriquecer os pobres.

Já D. Quixote lhe ia agradecer, quando sentiu pela retaguarda um ruído, semelhante a tropel de cavalos; mas era um só, em que vinha montado, correndo a galope, um moço que parecia

ter os seus vinte anos, vestido de damasco verde, com

alamares de ouro, bragas, chapéu revirado à walona, botas

envernizadas e justas, esporas, adaga e espada dourada, uma

pequena escopeta nas mãos e duas pistolas na cinta. Ouvindo

o ruído, voltou a cabeça Roque e viu esta gentil figura que, ao

aproximar-se dele, disse-lhe:

— Vinha à tua procura, valoroso Roque, para encontrar em ti,

senão remédio, pelo menos alívio na minha desdita; e para que

não estejas suspenso, porque vejo que me não conheceste,

quero dizer-te quem sou: sou Cláudia Jerônima, filha de Simão Forte, teu amigo particular e inimigo de Clauquel Torrellas, que também é inimigo teu, por ser do bando contrário; e sabes que

este Torrellas tem um filho, que se chama D. Vicente Torrellas,

ou que pelo menos assim se chamava ainda há menos de duas

horas. Este, pois, para encurtar razões, viu-me, enamorou-se de

mim, escutei-o e enamorei-me também, às escondidas de meu

pai; que não há mulher, por mais retirada que esteja, e por mais

recatada que seja, a quem não sobre tempo para pôr em

execução e efeito os seus atropelados desejos. Finalmente,

prometeu ele ser meu esposo e eu dei-lhe palavra de ser sua,

sem que em obras fôssemos adiante. Soube ontem que ele,

esquecido do que me devia, ia casar com outra e que esta

manhã a desposava, notícia que me turbou os sentidos e me

deu cabo da paciência; e por meu pai não estar no lugar, tive eu

de me vestir com este fato, e, metendo o cavalo a galope,

alcancei D. Vicente daqui a coisa duma légua e, sem começar a

fazer queixas nem a ouvir desculpas, disparei sobre ele esta

escopeta e mais estas duas pistolas, e parece-me que lhe meti

mais de duas balas no corpo, abrindo-lhe portas por onde saísse a minha honra, envolta no seu sangue. Ali o deixei nas

mãos de seus criados, que não ousaram nem puderam

defendê-lo, e venho rogar-te que me passes para França, onde tenho parentes com que viva, e também pedir-te que defendas

meu pai, para que os muitos parentes de D. Vicente se não

atrevam a tirar dele vingança.

Roque, admirado da galhardia, boa figura e aventurosa índole

da formosíssima Cláudia, disse-lhe:

— Vinde, senhora; vamos ver se morreu o teu inimigo e depois

veremos o que mais vos convirá.

D. Quixote, que escutara o que Cláudia dissera e o que Roque

respondera, observou:

— Não precisa de se incomodar em defender esta senhora, que

tomo eu isso a meu cargo: dê-me o meu cavalo e as minhas

armas, que eu irei em busca desse cavalheiro, e, morto ou vivo,

o obrigarei a cumprir a promessa que fez a tanta formosura.

— Ninguém duvide disto — disse Sancho — porque meu amo

tem muita boa mão para casamenteiro; ainda não há muitos

dias que obrigou a casar um, que também faltou à palavra que a

outra donzela dera; e, se não fossem os nigromantes terem

mudado a verdadeira figura do moço na dum lacaio, já a estas

horas a tal donzela o não seria.

Roque Guinart, que mais cuidava no sucesso da formosa Cláudia do que nos discursos do amo e do criado, não os

entendeu e, ordenando aos seus escudeiros que restituíssem a

Sancho tudo o que tinham tirado do ruço, ordenou-lhes também

que se retirassem para o sítio onde tinham estado nessa noite

alojados, e logo partiu com Cláudia a toda a brida, à procura do

ferido ou morto D. Vicente. Chegaram ao sítio onde Cláudia o encontrou, e não viram ali senão sangue derramado de fresco; mas, percorrendo com a vista aqueles contornos, descobriram

por um monte acima alguma gente e perceberam que seria D.

Vicente, que os seus criados levavam, ou morto ou vivo, ou

para o curar, ou para o enterrar. Correram a apanhá-los, o que

facilmente conseguiram, porque o cortejo ia vagarosamente.

Encontraram D. Vicente nos braços dos seus servos, a quem

pedia, com voz cansada e débil, que o deixassem ali morrer,

porque a dor das feridas não consentia que fosse mais adiante. Saltaram dos cavalos abaixo, chegaram-se a eles; tremeram os

criados com a presença de Roque e turbou-se Cláudia com a de D. Vicente; e meia enternecida e meia rigorosa, chegou-se a ele,

travando-lhe das mãos e disse-lhe:

— Se tu me desses estas mãos, conforme o que

combináramos, não te verias nunca neste transe.

Abriu o ferido cavalheiro os olhos semicerrados e, conhecendo

Cláudia, disse-lhe:

— Bem vejo, formosa e iludida senhora, que foste tu que me

mataste, castigo não merecido nem devido a meus desejos,

porque nunca, nem com desejos nem com obras, te quis

ofender.

— Então, não .é verdade — disse Cláudia — que ias esta manhã

desposar Leonora, a filha do rico Balvastro?

— Não, decerto — respondeu D. Vicente. — Foi a minha má

fortuna que te levou essa notícia, para que por zelos me

tirasses a vida; mas, deixando-a nas tuas mãos e nos teus

braços, ainda me considero venturoso; e, para te assegurares

desta verdade, aperta-me a mão e recebe-me por esposo, se

quiseres, que não tenho maior satisfação a dar-te do agravo

que de mim recebeste.

Apertou-lhe a mão Cláudia e apertou-se-lhe o coração de

maneira que desmaiou em cima do peito ensangüentado de D. Vicente, e este foi acometido por um paroxismo mortal. Estava

confuso Roque e não sabia o que havia de fazer. Correram os criados a buscar água para a deitarem no rosto de seu amo e

trouxeram bastante para banhar os rostos de Vicente e de

Cláudia. Acordou esta do seu desmaio, mas não do seu

paroxismo D. Vicente, porque lhe acabou a vida; e, vendo isto

Cláudia, e reconhecendo que já o seu doce esposo não vivia,

feriu os ares com suspiros e o céu com as suas queixas;

maltratou os cabelos, soltando-os ao vento, rasgou a cara com

as suas próprias mãos, com todos os sinais de dor e de

sentimento, que podem indicar a angústia que punge um

coração. “Ó cruel e inconsiderada mulher! — dizia ela — com

que facilidade puseste em execução tão mau pensamento! Ó

raivosa força dos zelos, a que desesperado fim conduziste a

quem vos deu acolhimento no peito! Ó meu esposo, cuja

desditosa sorte, por ser prenda minha, te levou do tálamo à

sepultura!”

Tais eram os tristes queixumes de Cláudia, que arrancaram

lágrimas dos olhos de Roque, não costumados a derramá-las.

Choravam os criados, a cada passo desmaiava Cláudia, e todo

aquele circuito parecia campo de tristeza e lugar de desgraças.

Finalmente, Roque Guinart ordenou aos criados de D. Vicente

que levassem o corpo dele para a aldeia de seu pai, que ficava ali perto, para lhe darem sepultura. Cláudia disse a Roque que queria ir para um mosteiro, de que era abadessa uma tia sua e

onde tencionava acabar a vida, acompanhada por outro melhor

e mais eterno esposo. Louvou-lhe Roque o seu bom propósito e

ofereceu-se para a acompanhar até onde ela quisesse, e para

defender seu pai contra os parentes de D. Vicente e contra todos os que quisessem molestá-lo. Não aceitou Cláudia a sua

companhia e, agradecendo os seus oferecimentos com as melhores palavras, despediu-se dele chorando. Os criados de D. Vicente levaram-lhe o corpo, e Roque voltou para os seus: e

este fim tiveram os amores de Cláudia Jerônima. Mas que admira, se teceram o trama da sua lamentável história as forças

invencíveis e rigorosas dos zelos?

Achou Roque Guinart os seus escudeiros no sítio para onde os

mandara, e D. Quixote com eles, montado em Rocinante,

fazendo-lhes uma prática, em que lhes persuadia que

deixassem aquele modo de vida, tão perigoso, tanto para a

alma como para o corpo; mas, como a maior parte deles eram

gascões, gente rústica e fera, não lhes entrava bem na cabeça a

prática de D. Quixote. Apenas Roque chegou, perguntou a

Sancho se lhe haviam restituído o que lhe tinham tirado do

ruço. Respondeu Sancho que sim, mas que só lhe faltavam três

lenços, que valiam três cidades.

— Que dizes tu, homem? — acudiu um dos que estavam

presentes — sou eu que os tenho, e não valem três reais.

— É verdade — disse D. Quixote — mas avalia-os o meu

escudeiro no que diz, por mos ter dado quem mos deu.

Mandou-os Roque Guinart restituir imediatamente, e mandando

pôr os seus em fileira, ordenou que trouxessem para ali fatos,

jóias, dinheiro, tudo, enfim, quanto fora roubado desde a última repartição; e, fazendo rapidamente a conta, trocando a dinheiro

o que não era divisível, repartiu tudo pela companhia, com

tanta igualdade e prudência, que a ninguém favoreceu nem

defraudou. Feito isto, e ficando todos satisfeitos, contentes e

pagos, disse Roque para D. Quixote:

— Se não se guardasse esta pontualidade, não se podia viver

com eles.

— Pelo que vejo — disse Sancho — é tão boa coisa a justiça,

que é necessária até entre os ladrões.

Ouviu-o um escudeiro e, levantando o arcabuz pelo cano, ia

decerto abrir a cabeça a Sancho, se Roque Guinart lhe não

bradasse que se detivesse. Ficou Sancho pasmado e resolveu

não tornar a abrir a boca, enquanto estivesse com aquela

gente. Nisto, chegaram uns escudeiros, que estavam de

sentinela lá fora, e disseram:

— Senhor, não longe daqui, pela estrada de Barcelona, vem um

tropel de gente.

— Viste se são dos que nos buscam, ou se são dos que

buscamos? — perguntou Roque.

— São dos que buscamos — respondeu o escudeiro.

— Pois saí todos — tornou Roque — e trazei-mos, sem que

escape um só.

Obedeceram-lhe; e, ficando sozinhos D. Quixote, Sancho e o

capitão, estiveram à espera de ver os que os escudeiros

traziam; e entretanto disse Roque para D. Quixote:

— Há-de parecer o nosso modo de vida novo para o senhor D.

Quixote, assim como lhe hão-de parecer novas as nossas aventuras, novos os nossos sucessos e todos perigosos; e não me espanto que assim pareça, porque, realmente, confesso que

não há modo de vida mais inquieto e mais sobressaltado do

que este. A mim trouxeram-me para ele não sei que desejos de

vingança que têm força de turbar os mais sossegados

corações; eu sou de índole compassiva e bem intencionada;

mas, como disse, o querer-me vingar dum agravo que se me

fez, deu em terra com todas as minhas boas inclinações, de

forma que persevero neste estado, apesar do que entendo; e,

como um abismo chama outro abismo e um pecado outro

pecado, encadearam-se as vinganças, de modo que me

encarrego não só das minhas, mas também das alheias; mas,

graças a Deus, ainda que me vejo no meio do labirinto das

minhas confusões, não perco a esperança de sair dele a

salvamento.

Ficou D. Quixote admirado de ouvir a Roque tão boas e

concertadas razões, porque pensava que entre os que tinham

estes ofícios de roubar, matar e assaltar, não podia haver quem

tivesse bom discorrer; e respondeu-lhe:

— Senhor Roque, o conhecimento da enfermidade e o querer

tomar o enfermo os remédios que o médico receita são o princípio da saúde: Vossa Mercê está enfermo, conhece a sua

doença, e o céu, ou Deus, para melhor dizer, que é o nosso

médico, lhe aplicará remédios que o sarem, remédios que

costumam curar a pouco e pouco, e não de repente e por

milagre; e, além disso, os pecadores discretos estão mais

próximos de emendar-se, do que os simples; e, como Vossa

Mercê mostrou no seu arrazoado a sua prudência, tenha ânimo e espere, que há-de melhorar da enfermidade da sua alma; e se

quiser poupar caminho e entrar com facilidade no da sua

salvação, venha comigo, que eu o ensinarei a ser cavaleiro

andante, profissão em que se passam tantos trabalhos e

desventuras, que, tornando-as por penitência, põem-no em

duas palhetadas no caminho do céu.

Riu-se Roque do conselho de D. Quixote, a quem, mudando de

conversação, contou o trágico sucesso de Cláudia Jerônima,

ficando muito pesaroso Sancho, a quem não tinha parecido mal

a beleza, desenvoltura e brio da moça. Nisto, chegaram os

escudeiros do roubo, trazendo consigo dois cavaleiros e dois peregrinos a pé, e um coche de mulheres, com seis criados a

pé e a cavalo, que as acompanhavam, e mais dois moços de

mulas, que os cavaleiros traziam. Meteram-nos no meio os

escudeiros, guardando vencidos e vencedores um grande silêncio, à espera que falasse o grande Roque Guinart, o qual

perguntou aos cavaleiros quem eram, para onde iam e que

dinheiro levavam.

Um deles respondeu:

— Senhor, somos dois capitães de infantaria espanhola, temos

as nossas companhias em Nápoles e vamos embarcar numas

galés, que se diz que estão em Barcelona, com ordem de passar à Sicília; levamos cerca de duzentos ou trezentos

escudos, com que, no nosso entender, vamos ricos e

satisfeitos, porque as habituais estreitezas dos soldados não

permitem maiores tesouros.

Perguntou Roque aos peregrinos o mesmo que aos capitães;

responderam-lhe que iam embarcar para passar a Roma, e que ambos levariam sessenta reais. Quis saber quem ia também no

coche e o dinheiro que levava; e um dos de cavalo disse:

— Vão no coche minha ama D. Guiomar de Quiñones, mulher

do regedor do vigariado de Nápoles, com uma filha pequena,

uma donzela e uma dona; acompanhamo-las seis criados, e o

dinheiro eleva-se a seiscentos escudos.

— De modo — disse Roque Guinart — que temos aqui a

novecentos escudos e sessenta reais: os meus soldados serão

sessenta, pouco mais ou menos: vejam quanto cabe a cada um,

que eu sou mau contador.

Ouvindo isto, os salteadores levantaram a voz, bradando:

— Viva Roque Guinart muitos anos, mau grado aos patifes que

juraram perdê-lo.

Turbaram-se os capitães, afligiu-se a senhora regedora e não

ficaram nada satisfeitos os peregrinos, vendo a confiscação

dos seus bens. Teve-os assim Roque um pedaço suspensos,

mas não quis que fosse mais adiante a sua tristeza, que já claramente se revelava, e disse, voltando-se para os capitães:

— Emprestem-me Vossas Mercês, por favor, senhores capitães, sessenta escudos, e a senhora regedora oitenta, para contentar

esta minha esquadra, porque o abade janta do que canta; e

podem seguir depois o seu caminho, livre e

desembaraçadamente, com um salvo-conduto, que eu lhes

darei, para que, se toparem alguma outra das minhas

esquadras, que tenho divididas por estes contornos, elas lhes

não façam dano, que não é minha intenção agravar soldados,

nem mulher alguma, especialmente as que são principais.

Foram infinitas e bem expressas as razões com que os capitães

agradeceram a Roque a sua cortesia e liberalidade, que assim

consideraram o deixar-lhes o dinheiro que era deles. A senhora

D. Guiomar de Quiñones quis-se apear do coche para beijar os

pés e as mãos do grande Roque, mas ele não o consentiu de

modo algum, antes lhe pediu perdão do agravo que lhe fizera,

por se ver forçado a cumprir as obrigações do seu ofício. Mandou a senhora regedora a um dos seus criados que desse imediatamente os oitenta escudos que lhe tinham distribuído, e

já os capitães haviam desembolsado os sessenta. Iam os peregrinos entregar toda a sua mesquinha fazenda, mas Roque disse-lhes que estivessem quedos; e, voltando-se para os seus,

disse-lhes:

— Destes escudos cabem dois a cada um de vocês, e sobejam

vinte; dêem dez a estes peregrinos e outros dez a este honrado

escudeiro, para que possa dizer bem desta aventura.

E, tirando arranjos para escrever, de que sempre andava

munido, deu-lhes por escrito um salvo-conduto para os

maiorais das suas esquadras e, despedindo-se deles, deixou-os

ir livres e admirados da sua nobreza, do seu galhardo porte, do

seu estranho proceder, tendo-o por mais Alexandre Magno do

que por um ladrão conhecido.

Um dos escudeiros disse na sua língua, meia gascã, meia

catalã:

— Este nosso capitão serve mais para frade, que para

bandoleiro: se daqui por diante quiser mostrar-se liberal, que

seja com a sua fazenda e não com a nossa.

Não o disse tão devagar o desventurado, que Roque deixasse

de o ouvir, e este logo, lançando mão à espada, lhe abriu a

cabeça quase de meio a meio, dizendo-lhe:

— Assim castigo os desbocados e atrevidos.

Pasmaram todos, e nenhum se atreveu a dizer uma palavra:

tanta era a obediência que lhe tinham. Afastou-se Roque para o

lado e escreveu uma carta a um seu amigo de Barcelona,

avisando-o de que estava com ele o famoso D. Quixote de la

Mancha, aquele cavaleiro andante de quem tantas coisas se

diziam; e que lhe fazia saber que era o mais engraçado e mais

entendido homem do mundo: que daí a quatro dias, dia de S.

João Batista, iria pôr-se no meio da praça da cidade, armado

com todas as armas, montado no seu cavalo Rocinante,

acompanhado pelo seu escudeiro Sancho, montado num burro,

e que desse notícia disto aos Niarros seus amigos, para que

com ele se divertissem; que ele desejaria que não se

regalassem também com isto os Cadeils seus contrários, mas

que era impossível evitá-lo, porque as loucuras e discrições de

D. Quixote, e os donaires do seu escudeiro Sancho Pança não

podiam deixar de servir de passatempo geral a toda a gente.

Despachou esta carta por um dos seus escudeiros, que

mudando o trajo de bandoleiro no de lavrador, partiu para

Barcelona.