Dom Quixote - Parte II

Miguel de Cervantes · Capítulo 66 de 84

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Dom Quixote - Parte II

Capítulo LVI

Da descomunal e nunca vista batalha que houve entre D. Quixote de la Mancha e o lacaio Tosilos, em defesa da filha da

dona da duquesa, Dona Rodríguez.

 

Não ficaram arrependidos os duques da burla feita a Sancho

Pança, com o governo que lhe deram; tanto mais que, naquele

mesmo dia, chegou o mordomo e lhes contou, ponto por ponto, quase todas as palavras e ações que Sancho dissera e fizera, e,

finalmente encareceu-lhes o assalto da ilha, e o medo de

Sancho, e a sua saída, com o que muito se divertiram. Depois

disto, conta a história que chegou o dia da batalha aprazada; e,

tendo o duque uma e muitas vezes ensinado ao seu lacaio Tosilos como se havia de haver com D. Quixote para o vencer, sem o ferir nem o matar, ordenou que se tirassem os ferros das lanças, dizendo a D. Quixote que não permitiam os sentimentos cristãos, de que se prezava, que aquela batalha fosse com tanto

risco e perigo das vidas, e que se contentasse com o dar-lhe

ele campo franco em suas terras, apesar de ir contra o decreto do santo concílio, que proíbe tais desafios, e que não quisesse levar com todo o rigor aquele transe tão forte. D. Quixote disse que dispusesse Sua Excelência esse negócio como mais fosse

servido, que ele lhe obedeceria em tudo. Chegado, pois, o temeroso dia, e tendo o duque ordenado que diante do terreiro

do castelo se armasse um espaçoso palanque, onde

estivessem os juízes do campo e as donas mãe e filha,

queixosas, acudiu de todos os lugares e aldeias circunvizinhas

infinita gente, a ver a novidade daquela batalha, que nunca

tinham visto nem ouvido falar de outra assim naquela terra,

nem os que viviam, nem os que já tinham morrido. O primeiro

que entrou na estacada foi o mestre de cerimônias, que

examinou o campo e passeou por ele todo, para que não

houvesse engano algum, nem coisa encoberta em que se tropeçasse e caísse; logo entraram as donas e sentaram-se nos

seus lugares, cobertas com os mantos até aos olhos, ou antes

até aos peitos, com mostras de não pequeno sentimento,

estando já D. Quixote presente na estacada. Daí a pouco,

acompanhado por muitas trombetas, apareceu por um lado da

praça, montado num poderoso cavalo, o lacaio Tosilos, alto e

forte, de viseira calada, e todo revestido de uma rija e luzente

armadura. O cavalo mostrava ser frisão, era grande e baio, que, a cada patada, fazia tremer a terra. O duque, seu amo, ordenara

ao valoroso cavaleiro que, para não matar D. Quixote, evitasse

o primeiro encontro, porque era certa a morte do pobre fidalgo,

se ele o topasse em cheio. Percorreu a arena e, ao chegar ao

sítio onde estavam as donas, pôs-se a mirar um pedaço a que o

pedia por esposo; o mestre do campo chamou D. Quixote, e,

junto com Tosilos, falou às donas, perguntando-lhes se

consentiam que pugnasse pelo seu direito D. Quixote de la

Mancha. Disseram-lhe que sim e que tudo quanto fizesse, naquele caso, o davam por bem feito e por firme e valioso. Já a

este tempo estavam o duque e a duquesa sentados numa galeria que deitava para a estacada, e onde se apinhava imensa

gente, que vinha ver o rigoroso transe nunca visto. Foi

condição do combate que, se D. Quixote vencesse, o seu

contrário havia de casar com a filha de dona Rodríguez, e, se

fosse vencido, ficava livre o seu contendor da palavra que se

lhe pedia, sem dar mais satisfação alguma. Repartiu-lhes o sol

o mestre de cerimônias, e pôs cada um dos dois no posto em

que havia de estar. Soaram os tambores, encheu os ares o

clangor das trombetas, tremia a terra debaixo dos pés; estavam

suspensos os corações da turba espectadora, receando uns e

esperando outros o bom ou mau sucesso daquele caso.

Finalmente, D. Quixote, encomendando-se de todo o coração a

Deus Nosso Senhor, e à sua dama Dulcinéia del Toboso, estava aguardando que se lhe desse o sinal de arremetida, enquanto o

nosso lacaio pensava no seguinte: Parece que, quando esteve

contemplando a sua inimiga, achou que era ela a mais formosa

mulher que vira em toda a sua vida; e o cego deus travesso,

que por essas ruas chamam habitualmente amor, não quis

perder a ocasião que se lhe ofereceu de triunfar de uma alma

lacaiesca, e de a pôr na lista dos seus troféus; e assim,

chegando-se a ele sem que ninguém o visse, despejou no

pobre lacaio, pelo lado esquerdo, uma seta de duas varas, e

traspassou-lhe o coração de parte a parte; e pôde-o fazer a são

e salvo, porque o amor é invisível; entra e sai por onde quer,

sem que ninguém lhe peça conta das suas ações. Digo, pois,

que, quando deram o sinal da arremetida, estava o nosso lacaio

transportado, pensando na formosura daquela que já fizera

senhora da sua liberdade; e assim, não atendeu ao som da

trombeta, como fez D. Quixote, que, apenas o ouviu, arremeteu

logo, correndo com toda a velocidade que Rocinante podia dar;

e, vendo-o partir o seu escudeiro Sancho, disse com grandes

brados:

— Deus te guie, flor e nata dos cavaleiros andantes! Deus te dê

a vitória, pois levas a razão pela tua parte!

Mas Tosilos, apesar de ver vir contra si D. Quixote, não se arredou um passo do seu posto; antes, com grandes brados, chamou o mestre do campo; e, vindo este ver o que ele queria,

disse-lhe:

— Senhor, esta batalha não é para eu casar ou não casar com

aquela senhora?

— É, sim — responderam-lhe.

— Pois eu — tornou o lacaio — tenho medo da minha

consciência, e pesava-me muito se fosse por diante; e assim, digo que me dou por vencido, e que quero casar, já, já, com a

queixosa.

Pasmou o mestre do campo com o arrazoado de Tosilos, e,

como era um dos que estavam no segredo daquela máquina,

não soube o que havia de responder. Parou D. Quixote, vendo

que o seu inimigo o não acometia. O duque não percebia por que é que se interrompera a batalha; mas o mestre do campo

foi-lhe declarar o que Tosilos queria, com o que ficou suspenso

e extremamente colérico. Enquanto isto se passava, Tosilos

chegou ao sítio onde estava dona Rodríguez, e disse em

grandes brados:

— Eu, senhora, desejo casar com vossa filha, e não quero alcançar, por pleitos e contendas, o que posso alcançar em boa

paz e sem perigo de vida.

Ouviu isto o valoroso D. Quixote e disse:

— Pois, se assim é, fico livre e solto da minha promessa;

casem-se em boa hora, e, visto que Deus lha deu, S. Pedro a

abençoe.

O duque descera ao terreiro do castelo, e, chegando-se a

Tosilos, disse-lhe:

— É verdade, cavaleiro, que vos dais por vencido, e que,

instigado pela vossa medrosa consciência, quereis casar com

esta menina?

— É sim, senhor — respondeu Tosilos.

— E faz muito bem — acudiu Sancho — o que hás-de dar ao

rato, dá-o ao gato.

Ia, entretanto, Tosilos deslaçando a celada, e pedia que o

ajudassem depressa, porque já lhe faltava a respiração, e não

se podia ver encerrado tanto tempo na estreiteza daquele

aposento.

Tiraram-lha logo, e ficou descoberto e patente o seu rosto de

lacaio. Vendo isto, dona Rodríguez e sua filha deram grandes

brados, dizendo:

— É engano, é engano: puseram Tosilos, lacaio do duque meu senhor, no lugar do meu verdadeiro esposo; justiça de Deus e

del-rei contra tal malícia, para não dizer velhacaria!

— Não vos aflijais, senhoras — acudiu D. Quixote — que nem é

malícia, nem velhacaria; e se o é, não foi culpa do duque, mas

sim dos maus nigromantes que me perseguem, os quais,

invejosos de eu alcançar a glória deste vencimento, converteram o rosto do vosso esposo no do homem que dizeis

ser lacaio do duque; tomai o meu conselho, e, apesar da

malícia dos meus inimigos, casai-vos, pois podeis ter a certeza

que é o mesmo que desejais por esposo.

O duque, ao ouvir isto, esteve quase a desfazer toda a sua

cólera em riso e disse:

— São tão extraordinárias as coisas que sucedem ao senhor D.

Quixote, que estou em acreditar que este meu lacaio não o é;

mas usemos do seguinte ardil e manha: dilatemos o casamento

quinze dias, se quiserem, e encerremos este personagem que nos tem duvidosos, e pode ser que durante esses quinze dias

recupere a sua antiga cara, que não há-de durar tanto tempo o

rancor que os nigromantes têm ao senhor D. Quixote,

principalmente lucrando tão pouco em todos estes embelecos e

transformações.

— Ó senhor — observou Sancho — já é uso e costume destes

malandrinos mudar as coisas que tocam a meu amo. Um

cavaleiro, a que venceu nestes dias passados, chamado o

cavaleiro dos Espelhos, transformaram-no eles no bacharel

Sansão Carrasco, natural do nosso lugar, e grande amigo

nosso, e à minha senhora Dulcinéia del Toboso mudaram-na

numa rústica lavradeira; e por isso, imagino que este lacaio há-

de morrer e viver lacaio todos os dias da sua vida.

— Seja quem for o homem que me pede para esposa — disse a

filha de dona Rodríguez — agradeço-lho, que antes quero ser

mulher legítima de um lacaio, do que amiga escarnecida de um

cavaleiro, ainda que o não é o que me ludibriou.

Em conclusão, todos estes contos e sucessos terminaram em

se decidir que Tosilos se recolhesse, até ver em que parava a

sua transformação. Aclamaram os circunstantes a vitória de D.

Quixote, e a maior parte dos espectadores ficaram tristes e

melancólicos por não terem visto despedaçar-se os tão

esperados combatentes, como ficam tristes as crianças quando

não vai a enforcar o condenado que esperam, porque lhe

perdoou ou a parte ou a justiça. Foi-se embora a gente;

voltaram o duque e D. Quixote ao castelo; fecharam Tosilos, e

ficaram dona Rodríguez e sua filha contentíssimas, por ver que,

de um modo ou de outro, aquele caso havia de vir a parar em

matrimônio; e Tosilos também o não esperava menos.