Dom Quixote - Parte II

Miguel de Cervantes · Capítulo 19 de 84

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Dom Quixote - Parte II

Capítulo IX

Onde se conta o que nele se verá.

 

Era meia-noite, pouco mais ou menos, quando D. Quixote e

Sancho saíram do monte e entraram em Toboso. Estava o povo

em sossegado silêncio, porque todos os seus vizinhos

dormiam e repousavam de perna estendida, como se costuma

dizer. A noite não era muito clara, mas desejaria Sancho que

fosse escuríssima, para achar nas trevas uma desculpa para a sua ignorância. Não se ouviam em todo o lugar senão ladridos

de cães, que ensurdeciam D. Quixote e turbavam Sancho. De

quando em quando zurrava um jumento, miavam gatos,

grunhiam porcos; esses sons pareciam ampliar-se com o

silêncio da noite, e tudo isso considerou como de mau agouro

o enamorado cavaleiro, mas sempre foi dizendo:

— Sancho filho, guia-me ao palácio de Dulcinéia, que é possível

que a encontremos acordada.

— Como o hei-de guiar a um palácio, corpo de tal — retrucou

ancho — se a casa em que eu vi Sua Grandeza era

pequeníssima?

— Sinal é de que estava muito retirada — acudiu D. Quixote —

consolando-se a sós, nalgum pequeno aposento do seu alcáçar, como é costume de altas senhoras e princesas.

— Senhor — disse Sancho — já que Vossa Mercê quer à viva

força que seja alcáçar a casa da minha senhora Dulcinéia, seja

muito embora; mas isto são horas de se encontrar a porta

aberta? Havemos de começar às aldrabadas, para que nos

ouçam e nos façam entrar, pondo em alvoroto e barulho toda a

gente? Aquilo é casa de barregã, aonde se bate e se entra, a

qualquer hora que seja?

— Vamos nós a ver se damos com o alcáçar — disse D. Quixote

— que depois te direi o que havemos de fazer; e repara,

Sancho, que ou eu vejo pouco ou aquela grande sombra que

daqui se descobre é do palácio de Dulcinéia.

— Pois então guie-me Vossa Mercê — respondeu Sancho — e

pode ser que assim seja, que eu hei-de vê-lo com os olhos e

tocá-lo com as mãos, e acreditar tanto que é ele, como acredito

que é dia agora.

Seguiu D. Quixote para diante, e, tendo andado coisa de

duzentos passos, deu com o vulto que fazia a sombra, viu uma

grande torre, logo conheceu que o edifício não era alcáçar, mas

sim a igreja principal da povoação, e disse:

— Demos com a igreja, Sancho.

— Bem vejo — respondeu Sancho — e praza a Deus que não

demos com a nossa sepultura, que não é de bom agouro andar

pelos cemitérios a estas horas, de mais a mais tendo eu dito a

Vossa Mercê, se bem me lembro, que a casa dessa senhora há-

de estar num beco sem saída.

— Amaldiçoado sejas, mentecapto! — respondeu D. Quixote —

onde é que tu viste que os alcáçares e paços reais fiquem em

becos sem saída?

— Meu senhor — tornou Sancho — cada terra com seu uso; talvez se

use aqui no Toboso edificar nos becos os palácios e casas

grandes; e assim, peço a Vossa Mercê que me deixe procurar

por estas vielas e travessas, que talvez tope aí nalgum canto

esse alcáçar de uma figa, que tão corridos e empandeirados

nos traz.

— Fala com respeito, Sancho — disse D. Quixote — do que à

minha dama se refere; vamos com a festa em paz, e não demos

por paus e por pedras.

— Eu terei conta em mim — respondeu Sancho — mas como

posso aturar o querer Vossa Mercê que eu, que só vi uma vez a

casa da nossa ama, dê com ela à meia-noite, não a encontrando

Vossa Mercê, que a deve ter visto milhares de vezes?

— Fazes-me desesperar, Sancho — tornou D. Quixote — vem

cá, herege: não te tenho dito mil vezes que em todos os dias da

minha vida nunca vi a sem par Dulcinéia, e nunca franqueei os umbrais do seu palácio, e que só estou enamorado de outiva e

da grande fama que tem de formosa e discreta?

— Agora o fico sabendo — respondeu Sancho — e digo que, se

Vossa Mercê nunca a viu, eu ainda menos.

— Não pode ser — redarguiu D. Quixote — pelo menos

disseste-me tu que a viste peneirando trigo, quando me

trouxeste a resposta da carta que por ti lhe enviei.

— Não quebre a cabeça com isso, meu senhor — tornou

Sancho — porque lhe faço saber que lá o eu vê-la e trazer-lhe a

resposta foi também tudo de outiva, que tanto sei quem é a

senhora Dulcinéia, como sei dar murros no céu.

— Sancho, Sancho — acudiu D. Quixote — há tempo para

brincar, e tempo em que não caem bem os brinquedos; lá porque eu digo que nunca vi nem conversei a senhora da

minha alma, não hás-de tu dizer também que nunca a viste nem

lhe falaste, quando sabes que é exatamente o contrário.

Estando eles nestas práticas, sentiram o ruído de um arado, e

viram um lavrador com duas mulas, que madrugava para ir para

a lavoura, e vinha cantando o romance que diz:

Mal vos saístes, franceses,

da caça de Roncesvales.

— Aposto a vida, Sancho — disse D. Quixote — que nos não

pode suceder coisa boa esta noite. Não ouves o que este vilão

canta?

— Ouço — respondeu Sancho — mas que tem com o nosso

propósito a caçada de Roncesvales? Podia cantar o romance

de Calaínos, que vinha a dar na mesma, e daí nos não resultaria

nem bem nem mal.

Nisto chegou o lavrador, a quem D. Quixote disse:

— Sabereis dizer-me, bom amigo, boa ventura vos dê Deus,

onde são por aqui os paços da incomparável princesa D.

Dulcinéia del Toboso?

— Senhor — respondeu o moço — eu sou forasteiro, e há poucos dias que estou nesta povoação, servindo na lavra dos campos um rico fazendeiro; mas nessa casa, aí defronte, vivem o cura e o sacristão da freguesia, e qualquer deles saberá dar a Vossa Mercê notícia dessa senhora princesa, porque têm a lista

de todos os vizinhos de Toboso, ainda que eu estou em dizer

que em todo o lugar não vive princesa alguma, a não querer

chamar assim a muitas senhoras principais, que cada uma

delas é princesa em sua casa.

— Pois alguma dessas — disse D. Quixote — há-de ser a que

eu procuro.

— Pode ser — respondeu o moço — e adeus, que vem aí o

romper de alva.

E, fustigando as mulas, não atendeu a mais perguntas.

Sancho, que viu seu amo suspenso e descontente, disse-lhe:

— Meu senhor, o dia não tarda por aí, e não é bom que nos

encontre o sol na rua; será melhor que saiamos para fora da

cidade, e que Vossa Mercê se embosque nalguma floresta aqui

próxima, e eu voltarei de dia e não deixarei recanto no lugar,

onde não procure a casa, alcáçar ou palácio da minha senhora,

e muito desgraçado havia de ser se o não encontrasse, e

encontrando-o falarei com a senhora Dulcinéia, e dir-lhe-ei

onde Vossa Mercê fica esperando, que ela lhe dê traça para se

poderem ver, sem menoscabo da sua honra e fama.

— Disseste, Sancho — observou D. Quixote — mil sentenças, encerradas no círculo de breves palavras; o conselho que me

deste agora, aplaudo-o e recebo-o de boníssima vontade; anda

cá, filho, e vamos saber onde me hei-de emboscar, e depois tu

irás, como dizes, ver se encontras a minha senhora, de cuja

discrição e cortesia espero mais do que milagrosos favores.

Ardia Sancho por tirar seu amo da povoação, para que não

averiguasse o caso da resposta que da parte de Dulcinéia lhe

levara à Serra Morena, e assim deu pressa à saída, que foi logo,

e a duas milhas do lugar encontraram uma floresta, onde D.

Quixote se emboscou, enquanto Sancho voltava à cidade a

falar a Dulcinéia, embaixada em que lhe sucederam coisas que

pedem novo capítulo.