Na hora da virada
Parte Um | Das Antigas
PARTE UM
DAS ANTIGAS
UM
Eu talvez tenha que matar uma pessoa hoje.
Talvez seja alguém que eu conheça. Talvez seja um estranho. Talvez seja alguém que nunca batalhou antes. Talvez seja alguém que é profissa. Não importa quantos versos de efeito a pessoa solte e se o flow é bom. Eu vou ter que matar.
Primeiro, tenho que receber a ligação. E quando receber a ligação, tenho que sair da aula da professora Murray.
No meu laptop, as perguntas de múltipla escolha ocupam quase toda a tela, mas o relógio... O relógio é o que chama minha atenção. Ele marca 16h20, e de acordo com a tia Pooh, que conhece uma pessoa que conhece uma pessoa, o DJ Hype liga entre 16h30 e 17h30. Juro que, se eu perder a ligação...
Não vou fazer porra nenhuma porque a professora Murray está com o meu telefone, e a professora Murray não é pra brincadeira.
Só vejo o alto dos sisterlocks dela. O resto está escondido atrás do livro de Nikki Giovanni. De vez em quando, ela faz “Humm” para alguma frase do mesmo jeito que a minha avó faz durante a pregação na igreja. Poesia é a religião da professora Murray.
Quase todo mundo foi embora da Escola de Artes Midtown há quase uma hora, menos os alunos do segundo ano do ensino médio, cujos pais ou responsáveis inscreveram no preparatório para o exame ACT. Não é garantia de tirar trinta e seis, a nota máxima, mas Jay disse que é melhor eu chegar perto disso, porque ela “pagou o equivalente a uma conta de luz” por essa aula. Todas as terças e quintas à tarde, eu me arrasto para essa sala de aula e entrego meu celular para a professora Murray.
Normalmente, fico bem por passar uma hora inteira sem saber o que o presidente tuitou. Sem receber mensagens de texto do Sonny e do Malik (normalmente sobre alguma merda que o presidente tuitou). Mas hoje eu quero ir até aquela mesa, pegar meu celular da pilha e sair correndo.
— Psst! Brianna — alguém sussurra.
Malik está atrás de mim, e atrás dele Sonny diz com movimentos labiais: Alguma coisa?
Eu inclino a cabeça e levanto a sobrancelha com uma expressão de Como é que eu posso saber, não estou com meu celular! Eu sei, é coisa demais para esperar que ele entenda, mas eu, Sonny e Malik somos muito amigos desde o útero. Nossas mães são melhores amigas, e as três ficaram grávidas de nós ao mesmo tempo. Elas nos chamam de “Profaníssima Trindade” porque alegam que chutávamos na barriga sempre que elas se juntavam. Por isso mesmo, comunicação não verbal não é novidade nenhuma.
Sonny dá de ombros como quem diz Sei lá, só estou perguntando , junto com um Droga, não precisa reagir desse jeito.
Aperto os olhos para a cara de hobbit de pele clara; ele tem o cabelo encaracolado e as orelhas grandes. Não estou reagindo de jeito nenhum. Você fez uma pergunta idiota.
Eu me viro. A professora Murray nos olha por cima do livro, se comunicando de forma não verbal também. Vocês não podem ficar conversando na minha aula.
Tecnicamente, nós não estamos conversando , mas como é que eu vou dizer isso pra ela, verbalmente ou não?
16h27.
Três minutos e aquele celular vai estar na minha mão.
16h28.
Dois minutos.
16h29.
Um.
A professora Murray fecha o livro.
— Acabou a aula. Entreguem seus simulados como estiverem.
Merda. O simulado.
Para mim, “como estiverem” significa sem nenhuma pergunta respondida. Felizmente, é múltipla escolha. Como há quatro opções por pergunta, existe uma chance de 25 por cento de eu escolher aleatoriamente a certa. Começo a clicar nas respostas enquanto as outras pessoas pegam seus celulares.
Todo mundo, menos Malik. Ele para ao meu lado enquanto veste a jaqueta jeans por cima do moletom. Nos últimos dois anos, ele foi de mais baixo do que eu a tão alto que tem que se inclinar para me abraçar. O cabelo alto no estilo fade o deixa ainda mais alto.
— Caramba, Bri — diz Malik. — Você fez alguma das...
— Shhh! — Envio minhas respostas e penduro a mochila no ombro. — Eu fiz o simulado.