Na hora da virada
Vinte e dois
— Absoluta — diz a sra. Clark. — O celular ou o fixo de casa?
Meu coração quase para.
O Popkenchurch.
Jay só compra quando acontece alguma coisa ruim.
Ela... ela perdeu o emprego?
Não é possível. A sra. Clark errou. Deve ter ligado para o lugar errado e não se deu conta.
É. É isso.
Eu digo para a sra. Clark tentar o celular da Jay. Uns quinze minutos depois, a porta da sala se abre e Jay entra como um furacão. Ela está com roupa de trabalho, então deve ter vindo de lá.
— Brianna, o que foi que aconteceu?
Ela se ajoelha na minha frente e me examina, quase do mesmo jeito de quando voltou da reabilitação. Os olhos pareciam não se cansar de mim. Agora, eles examinam cada centímetro do meu corpo... menos as minhas mãos. Ela se vira para a secretária.
— Por que motivo a minha filha está algemada?
A dra. Rhodes aparece na porta. Os óculos ocupam boa parte do rosto e o cabelo ruivo encaracolado está preso em um coque. Ela também era diretora na época do Trey. Eu a conheci na noite de boas-vindas de quando ele entrou no nono ano. Ela abriu um sorriso doce para mim e disse: “Espero que você se junte a nós em alguns anos.”
Ela não disse que haveria um segurança falando sem parar na sala dela sobre “aqueles garotos” que trazem “aquelas coisas” para “essa escola”. A porta estava fechada, mas eu o ouvi.
Aqueles garotos. Essa escola. Como se o lugar de uns não fosse na outra.
— Sra. Jackson — diz a sra. Rhodes —, podemos conversar na minha sala?
— Não enquanto minha filha não for solta.
A sra. Rhodes olha para trás.
— Sr. Long, pode soltar Brianna?
Ele sai da sala e pega a tesoura que carrega na cintura. E resmunga:
— Fica de pé.
Eu fico, e com um cortezinho minhas mãos estão soltas.
Jay bota as mãos nas minhas bochechas na mesma hora.
— Você está bem, flor?
— Sra. Jackson, minha sala, por favor — diz a dra. Rhodes. — Você também, Brianna.
Nós vamos atrás dela. O olhar que ela lança para Long diz para ele esperar do lado de fora.
Minha mochila está em cima da mesa dela. Está aberta e revela todos os pacotes de doces que eu tinha.
A dra. Rhodes aponta para as duas cadeiras à frente.
— Por favor, sentem-se.
Nós nos sentamos.
— Você vai me dizer por que a minha filha estava algemada? — pergunta Jay.
— Houve um incidente...
— Obviamente.
— Vou ser a primeira a admitir que os guardas usaram força excessiva. Eles botaram Brianna no chão.
— Jogaram — eu murmuro. — Eles me jogaram no chão.
Jay arregala os olhos.
— Como é?
— Nós tivemos problemas de alunos que trouxeram drogas ilícitas...
— Isso não explica por que eles foram agressivos com a minha filha! — diz Jay.
— Brianna não cooperou no começo.
— Continua não explicando!
A dra. Rhodes respira fundo.
— Não vai acontecer de novo, sra. Jackson. Garanto que vai haver uma investigação e ações disciplinares serão tomadas se a administração achar cabível. No entanto, Brianna talvez tenha que encarar ações disciplinares também. — Ela se vira para mim. — Brianna, você vende doces no campus?
Eu cruzo os braços. Não vou responder essa merda. E deixar que ela vire isso contra mim? De jeito nenhum.
— Responde — ordena Jay.
— São só doces — eu murmuro.
— Pode ser — diz a dra. Rhodes —, mas é contra a política da escola vender contrabando no campus.
Contrabando?
— O único motivo pra terem descoberto isso é porque Long e Tate gostam de pegar no pé dos alunos pretos e latinos!
— Brianna — diz Jay. Não é um aviso. É um “deixa comigo”. Ela se vira para Rhodes. — Desde quando doce é contrabando? Por que foram atrás da minha filha?
— Os seguranças têm o direito de fazer revistas aleatórias. Posso garantir que Brianna não foi “alvo”.
— Mentira! — Eu nem mordo a língua. — Eles são sempre abusivos com a gente.