Na hora da virada
Nove
— E aí, Bri? — diz o atarracado, Reggie. — Você finalmente vai lá pra cima hoje?
— Vai! E ela vai arrasar — diz a tia Pooh.
— Isso aí — diz o mais alto, Frank, passando o detector de metal em volta de nós. — Está carregando a tocha pro Law, é?
Não exatamente. Estou acendendo minha própria tocha. Mas digo “É” porque é o que tenho que dizer. Está no pacote de fazer parte da realeza.
Reggie faz sinal para entrarmos.
— Que a força leve você pra cima, Scotty. — Ele aponta para o meu moletom e faz a saudação vulcana.
Como alguém confunde Star Trek e Star Wars? Como? Infelizmente para algumas pessoas do Garden é “merda nerd” ou, como um idiota do bazar disse, “merda de branco”.
As pessoas precisam parar de confundir os filmes que se passam no espaço.
Entramos. Como sempre, a maioria é de homens, mas vejo algumas garotas também (o que é reflexo da pequena proporção de mulheres em relação aos homens no hip-hop, uma merda totalmente misógina, mas enfim...). Tem adolescentes que parecem saídos direto da Garden Heights High, gente que parece que já estava viva na época do Biggie e do Tupac, e gente velha que parece que vem ao Ringue desde a época dos bonés Kangol e dos tênis Adidas com a ponta em forma de uma concha. Tem fumaça de erva e de cigarro no ar, e todo mundo se reúne em volta do ringue de boxe.
Tia Pooh encontra um lugar pra nós ao lado do Ringue. “Kick in the Door”, do Notorious B.I.G., toca acima da falação. O grave faz o chão tremer como um terremoto, e a voz do B.I.G. parece ocupar todo o ginásio.
Alguns segundos do Biggie me fazem esquecer tudo.
— E esse flow !?
— Essa porra é irada — diz tia Pooh.
— Irada? Essa porra é lendária! Biggie prova sozinho que a performance é a chave. As rimas não são todas perfeitas, mas funcionam. Ele fez Jesus rimar com pênis! Olha isso! Jesus e pênis. — É verdade que é provável que seja ofensivo para Jesus, mas mesmo assim. Lendário.
— Isso aí, isso aí. — Tia Pooh ri. — Tô entendendo.
Eu balanço a cabeça e absorvo todos os versos. Tia Pooh me observa com um sorriso, o que faz a cicatriz na bochecha, de quando ela levou uma facada, parecer uma covinha. O hip-hop é viciante, e tia Pooh foi quem me viciou. Quando eu tinha 8 anos, ela botou o disco Illmatic , do Nas, para eu ouvir, e disse: “Esse cara vai mudar sua vida com alguns versos.”
Ele mudou mesmo. Nada ficou igual depois que o Nas me disse que o mundo era meu. Aquele disco já era antigo na época, mas foi como despertar depois de ter passado a vida dormindo. Foi quase espiritual.
Eu anseio por esse sentimento. É o motivo para eu fazer rap.
Há uma agitação perto das portas. Um cara com dreadlocks curtos abre caminho pela multidão e as pessoas batem punho enquanto ele passa. Dee-Nice, um dos rappers mais conhecidos do Ringue. Todas as batalhas dele viralizaram. Ele se aposentou recentemente das batalhas de rap. Engraçado ele se aposentar de qualquer coisa sendo tão jovem. Dee-Nice se formou na Midtown ano passado.
— Aí, você ficou sabendo? — pergunta tia Pooh. — O garotão conseguiu contrato pra gravar um disco.
— É sério?
— É. Sete dígitos de cara.
Caramba. Por isso ele se aposentou. Um contrato de um milhão de dólares? E não só isso, mas alguém do Garden assinou um contrato de um milhão de dólares?
A música acaba e as luzes escurecem. Um holofote aponta diretamente para o Hype e os gritos começam.
— Vamos nos preparar pras batalhas! — diz Hype, como se fosse mesmo uma luta de boxe. — Na nossa primeira batalha, deste lado, temos M-Dot!
Um cara baixo e tatuado sobe no Ringue em meio a uma mistura de gritos e vaias.
— E, deste lado, temos Ms. Tique! — diz Hype.
Eu grito alto quando uma garota de pele bem escura, com cabelo curto encaracolado e argolas sobe no Ringue. Ms. Tique tem a idade do Trey, mas fala palavrão como uma alma velha, como se tivesse vivido duas vidas e não tivesse gostado de nada do que passou.
Ela é um sonho em todos os sentidos.
Hype apresenta os juízes. Tem o próprio sr. Jimmy, Dee-Nice e CZ, um campeão do Ringue nunca derrotado.
Hype joga uma moeda e Ms. Tique ganha. Ela deixa M-Dot começar. A batida começa, “A Tale of Two Citiez”, do J. Cole.
O ginásio vai à loucura, mas eu? Eu observo o Ringue. M-Dot anda de um lado para o outro e Ms. Tique fica de olho nele como um predador analisando a presa. Mesmo quando M-Dot vai para cima dela, ela não se move, não reage, só o encara como se soubesse que vai acabar com ele.
É uma coisa linda.
Ele tem uns versos bons. O flow funciona. Mas quando chega a vez da Ms. Tique, ela usa frases de efeito que me dão arrepios. Todos os versos despertam reação da plateia.