Na hora da virada
Dezesseis
— Não foi nada — respondo.
Ela suspira e se levanta da cama.
— Tudo bem. Pode se levantar. Nós temos que ter uma conversinha antes de você ir pra escola.
— Sobre o quê?
— Como você pôde me contar que venceu no Ringue, mas não pôde me contar que suas notas estão caindo mais rápido do que a calça frouxa da Pooh?
— Hã?
— Hã? — Ela me imita e me mostra o celular. — Recebi um e-mail da sua professora de poesia.
A professora Murray.
A conversa no preparatório para o ACT.
Ah, droga.
Sinceramente? Eu esqueci. Estava no ar depois da batalha, de verdade. Aquela sensação de quando a plateia fez festa para mim deve ser igual a ficar doidona, e estou viciada.
Não sei o que dizer para a minha mãe.
— Desculpa.
— Desculpa nada! Qual é sua maior responsabilidade, Bri?
— O estudo acima de tudo — eu resmungo.
— Exatamente. O estudo acima de tudo, inclusive acima do rap. Achei que tivesse deixado isso claro.
— Mas não é nada de mais, caramba!
Jay levanta as sobrancelhas.
— Garota — diz ela com aquele jeito lento que é um aviso. — É melhor você se controlar.
— Só estou dizendo que os outros pais não fariam tempestade em copo d’água por isso.
— Ora, veja só, não sou os outros! Você pode ir melhor, você já foi melhor, então melhore. O único cinco que eu quero ver aqui são seus cinco dedos segurando o lápis pra estudar. E o único dois que quero ver são seus dois olhos grudados nos livros. Entendeu?
Ela é tão rigorosa comigo.
— Sim, senhora.
— Obrigada. Se arrume pra escola.
Ela sai.