Na hora da virada
Vinte e nove
Solto uma risada debochada.
— Pode acreditar, eu praticamente ando com uma capa da invisibilidade.
— Uma o quê? — pergunta Scrap.
Eu o encaro.
— Me diz que você está brincando.
— É coisa de nerd, Scrap — diz tia Pooh.
— Hã, com licença, mas Harry Potter é um fenômeno cultural.
— Ahhhh. Esse é aquele do carinha baixinho e do anel, né? Meu preciooooso — diz Scrap, em sua melhor imitação do Gollum.
Eu desisto.
— Como eu falei, é coisa de nerd — diz tia Pooh. — Mas para de se preocupar se os idiotas reparam em você na Midtown, Bri. Escuta. — Ela apoia o pé no para-choque do carro. — O ensino médio não é o fim nem o começo. Não é nem o meio. Você vai fazer coisas grandiosas, quer eles vejam ou não. Eu vejo. Todo mundo ontem à noite viu. O que importa é que você veja.
Às vezes, ela é minha personal Yoda. Se o Yoda fosse mulher e tivesse ouro nos dentes. Infelizmente, ela não sabe quem é o Yoda.
— É. Você está certa.
— Eu o quê? — Ela coloca a mão ao lado do ouvido. — Não ouvi direito. Eu o quê?
Dou uma risada.
— Você está certa, caramba!
Ela puxa meu capuz para a frente sobre os olhos.
— Foi o que pensei. Como você veio pra cá? Sua mãe te trouxe quando estava indo para o trabalho? Devia ter me dito que eu ia ter que ser babá dessa cabeça dura.
Ah.
Esqueci o motivo para ter ido lá. Olho para os meus não-Timberlands.
— Jay foi demitida.
— Ah, merda — diz tia Pooh. — É sério?
— É. A igreja despediu ela pra poder pagar os consertos na creche.
— Que merda, cara. — Tia Pooh esfrega o rosto. — Você está bem?
Jacksons não choram, mas falam a verdade.
— Não.
Tia Pooh me puxa num abraço. Por mais durona que minha tia seja, os abraços dela são os melhores. Eles dizem “eu te amo” e “faço qualquer coisa por você” ao mesmo tempo.
— Vai ficar tudo bem — murmura tia Pooh. — Eu vou ajudar, tá?
— Você sabe que a Jay não vai deixar.
Jay nunca aceita dinheiro da tia Pooh, pois ela sabe de onde vem. Eu entendo. Se as drogas quase tivessem me destruído, eu também não aceitaria o dinheiro delas.
— Aquela teimosa — resmunga tia Pooh. — Sei que essa merda deve estar apavorante agora, mas um dia você vai olhar pra trás e isso aqui vai parecer ter acontecido em outra vida. É um revés temporário antes da virada. E nós não vamos deixar que impeça a virada.
É isso que chamamos de nosso objetivo, a virada. É quando a gente finalmente fizer sucesso com o rap. Estou falando de sair do Garden e ter dinheiro suficiente para nunca mais nos preocuparmos com isso.
— Eu tenho que fazer alguma coisa, tia — digo. — Sei que Jay está procurando emprego e o Trey está trabalhando, mas não quero ser um peso morto.
— Do que você está falando? Você não é um peso morto.
Sou, sim. Minha mãe e meu irmão se arrebentam para eu poder comer e ter onde deitar a cabeça, e o que eu faço? Nada. Jay não quer que eu arrume um emprego; ela quer que eu me concentre nos estudos. Eu comecei a vender os doces. Achei que poderia ajudar se fizesse alguma coisa.
Mas tenho que fazer mais, e a única coisa que sei fazer é rap.
Só que tenho que ser realista: sei que nem todo rapper é rico. Muitos deles fingem para as câmeras, mas até os que fingem têm mais dinheiro do que eu. E tem também os caras como Dee-Nice, que não precisam fingir graças àquele contrato de milhões de dólares. Ele jogou as cartas do jeito certo e teve a própria virada.
— Nós temos que fazer essa coisa de rap acontecer — digo para a tia Pooh. — Agora!
— Deixa comigo, tá? Eu ia te ligar mesmo. Um monte de gente veio falar comigo por causa da batalha. Já fiz algumas coisas acontecerem pra você um tempinho atrás.
— De verdade?
— Aham. Primeiro, você vai voltar ao Ringue. Isso vai ajudar a fazer seu nome.
Nome?
— É, mas não vai me dar dinheiro.
— Confia em mim, tá? — diz ela. — Além do mais, essa não foi a única coisa que providenciei.
— O que mais?
Ela esfrega o queixo.
— Não sei se você está preparada pra isso agora.