Na hora da virada

Angie Thomas · Capítulo 10 de 40

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Na hora da virada

Dez

Ela ganha as primeiras duas batalhas sem dificuldade.

— É isso aí, minha gente — diz Hype. — Está na hora do Calouro Royale! Dois calouros vão batalhar pela primeira vez no Ringue.

Tia Pooh dá pulinhos.

— Ééééé!

De repente, meus joelhos ficam bambos.

— Dois nomes foram escolhidos — diz Hype —, então, sem mais delongas, nosso primeiro MC é...

Ele toca um som de tambores. As pessoas batem os pés, fazendo o chão tremer, e não tenho total certeza se minhas pernas estão tremendo tanto quanto eu sinto.

— Milez! — diz Hype.

Soam gritos do outro lado do ginásio. A plateia se abre, e um garoto de pele marrom com o cabelo em fade zigue-zague segue na direção do Ringue. Ele parece ter a minha idade. Tem um pingente de cruz enorme em uma corrente no pescoço.

Eu o conheço, mas não conheço, se é que isso faz sentido. Já o vi em algum lugar.

Um cara magro de conjunto esportivo preto e branco vai atrás. Óculos escuros escondem seus olhos, apesar de o sol já ter se posto. Ele diz alguma coisa para o garoto, e dois dentes dourados brilham em sua boca.

Eu cutuco a tia Pooh.

— É o Supreme.

— Quem? — diz ela com o pirulito na boca.

— Supreme! — eu digo, como se ela tivesse que saber. Ela devia. — O antigo agente do meu pai.

— Ah, é. Eu me lembro dele.

Eu não me lembro dele. Eu era bebê quando ele conviveu com a gente, mas decorei a história do meu pai como se fosse uma música. Ele gravou sua primeira demo com 16 anos. As pessoas ainda usavam CD na época, e ele fez cópias e distribuiu pelo bairro. Supreme recebeu uma e ficou tão impressionado que implorou ao meu pai para deixar que ele agenciasse a sua carreira. Meu pai concordou. A partir dali, meu pai se tornou uma lenda underground, e Supreme se tornou um empresário lendário.

Meu pai despediu o Supreme pouco antes de morrer. Jay alega que eles tiveram “divergências criativas”.

O garoto que está com Supreme sobe no Ringue. Assim que Hype entrega o microfone para ele, diz:

— É seu garoto Milez com z, o príncipe Chocrível!

Os gritos são altos.

— Ah, é ele, o daquela música imbecil — diz a tia Pooh.

É por isso que eu conheço ele. A música se chama “Chocrível”, e juro por Deus, é a música mais estúpida do mundo. Não consigo nem andar pelo bairro sem ouvir a voz dele cantar “Chocrível, me chame de incrível. Choc-rível. Choc-rível. Choc, choc, choc...”

Tem uma dancinha que acompanha a música, chamada “Wipe Me Down”. As criancinhas adoram. O vídeo tem um milhão de visualizações.

— Palmas pro meu pai: Supreme! — diz Milez, apontando para ele.

Supreme assente enquanto as pessoas aplaudem.

— Puta merda — diz tia Pooh. — Você vai batalhar contra o filho do gerente do seu pai.

Droga, é o que parece. Não só isso, mas vou ter que batalhar contra alguém. Por mais idiota que a música seja, todo mundo conhece o Milez e as pessoas já estão torcendo por ele. Eu não sou ninguém em comparação.

Mas sou uma ninguém que sabe fazer rap. “Chocrível” tem versos como: “A vida não é justa, mas não me assusta. Não me assusta. Eu tenho grana no bolso. Tenho grana, tenho grana, tenho grana...”

Hum. É. Não vai ser difícil. Mas também quer dizer que perder não é uma opção. Eu nunca sobreviveria a isso.

Hype toca o som de tambores de novo.

— Nossa outra MC é... — diz ele, e algumas pessoas gritam os próprios nomes, como se isso fosse fazer com que ele as chamasse. — Bri!

Tia Pooh levanta meu braço bem alto e me leva até o Ringue.

— A campeã chegou! — grita ela, como se eu fosse Muhammad Ali. Eu não sou Ali. Estou morrendo de medo.

Mas subo no Ringue mesmo assim. O holofote ilumina a minha cara. Centenas de rostos me olham e celulares se viram na minha direção.

Hype me dá um microfone.

— Se apresente — diz ele.

Eu tenho que me promover, mas só consigo dizer:

— Sou Bri.

Algumas pessoas da plateia dão risadinhas.

Hype ri.

— Beleza, Bri. Você não é a filha do Law?

O que isso tem a ver?

— Sou.

— Ah, caramba! Se a garotinha for parecida com o papai, a briga vai ser boa!

A plateia berra.

Não posso mentir, estou um pouco irritada por ele ter falado do meu pai. Entendo por quê, mas, caramba. O fato de eu ser boa não deveria ter nada a ver com ele. Ele não me ensinou a fazer rap. Eu aprendi sozinha. Então por que ele leva o crédito?

— Hora de jogar a moeda — diz Hype. — Bri, seu nome foi escolhido primeiro, então você escolhe.

— Coroa — eu murmuro.

Hype joga a moeda e a pega com as costas da mão.

— Coroa. Quem vai primeiro?

Eu indico o Milez com um movimento de cabeça. Mal consigo falar. Não vou primeiro de jeito nenhum.

— Tudo bem. Estão todos prontos?

Para a plateia, a resposta é basicamente um sim. Já eu? Não mesmo.

Mas não tenho escolha.