Na hora da virada
Trinta e três
Trey passa a mão no rosto com cansaço.
— Você não pode...
Gargalhadas altas explodem do outro lado do pátio, vindas dos GDs. Todos estão olhando para o Trey.
Trey olha para eles com cara de Algum problema?
Tia Pooh se aproxima também com um sorrisinho.
— Meu camarada — diz ela enquanto enfia dinheiro no bolso. — O que está fazendo?
— Vim buscar a minha irmãzinha.
— Não, mano. — Ela olha para ele da cabeça aos pés. — Estou falando dessa merda! Você é o cara da pizza? Caramba, Trey. É sério?
Scrap cai na gargalhada.
Mas não vejo nada de engraçado. Meu irmão demorou uma vida pra encontrar trabalho e fazer pizza não é um “objetivo”, mas ele está tentando.
— O que estou dizendo é: caramba — diz tia Pooh. — Você passou tanto tempo na faculdade, sendo o Cara do Campus com boas notas e aquela merda toda, e o resultado é esse ?
O maxilar de Trey treme. Não precisa de muito pra esses dois se estranharem. E Trey normalmente não se segura. Tia Pooh não é muito mais velha do que ele, então aquela história de “respeitar os mais velhos” não funciona.
Mas, hoje, ele diz:
— Quer saber? Não tenho tempo pra gente imatura e insegura. Vem, Bri.
— Imatura? Insegura? — Tia Pooh diz as palavras como se fossem sujas. — De que porra você está falando?
Trey me puxa para o estacionamento.
Nós passamos pelos GDs.
— Como ele pode ser o filho do grande sujeito e fazer pizzas? — diz um.
— Law deve estar rolando no túmulo com essa merda — diz outro, balançando a cabeça. — Que bom que a pequena está seguindo os passos dele.
Trey também não responde. Ele sempre foi “nerd demais para ser filho de Law”. Sensível demais, nunca malandro o suficiente, nunca do gueto o suficiente. Mas acho que ele não liga.
Nós entramos no carro dele. Tem papéis de balas e chocolates, notas fiscais, sacos de fast-food e papéis para todo lado. Trey é muito bagunceiro. Quando fecho o cinto de segurança, Trey sai com o carro.
Ele solta um suspiro profundo.
— Desculpa se pareceu que eu estava pegando no seu pé, Li’l Bit.
Trey foi a primeira pessoa na família a me chamar assim. Dizem que ele não entendia por que todo mundo era tão louco por mim quando meus pais me levaram para casa, porque eu era “a little bit”, “um pouquinho fofa, não muito”. Pegou.
Para deixar registrado, eu era muito fofa.
— Você nos deixou preocupados — continua ele. — Mamãe ia pedir à vovó e ao vovô para procurarem você. Você sabe como é ruim ela estar prestes a fazer isso.
— É sério?
A vovó nunca deixaria isso passar em branco. Falando sério, eu poderia ser adulta e com filhos e a vovó poderia estar a um fio da morte, mas diria para Jay: “Lembra aquela vez que você não conseguiu encontrar a minha netinha e pediu a minha ajuda?”
A mesquinharia é forte nela.
— É sério — diz Trey. — Além do mais, você não precisa ir para o conjunto habitacional.
— Não é tão ruim lá.
— Escuta só o que você está dizendo. Não é tão ruim. É bem ruim. Não ajuda você estar andando com a Pooh, considerando tudo em que ela está metida.
— Ela não deixaria nada acontecer comigo.
— Bri, ela não é capaz de impedir que coisas aconteçam com ela mesma — diz ele.
— Me desculpe pelas coisas que ela disse.
— Não me incomodou — diz ele. — Ela é insegura pela situação dela e implica comigo para se sentir melhor.
Graças àquele diploma de psicologia, meu irmão consegue ler as pessoas como um profissional.
— Continua não sendo certo.
— É o que é. Mas quero falar sobre você, não sobre mim. Mamãe me contou o que aconteceu na escola. Como está se sentindo?
Se eu fechar bem os olhos, ainda consigo ver o Long e o Tate me prendendo no chão. Ainda consigo ouvir aquela palavra. Marginal.
Uma porcaria de palavra e parece que ela tem todo o poder sobre mim. Mas eu digo a Trey:
— Estou bem.
— É, e Denzel Washington é meu pai.
— Caramba, é mesmo? Os genes bons pularam você, né?
Ele me olha de soslaio. Eu sorrio. Implicar com ele é meu hobby.
— Babaca — diz ele. — Mas, falando sério, fala comigo, Bri. Como você está se sentindo?