Na hora da virada

Angie Thomas · Capítulo 38 de 40

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Na hora da virada

Agradecimentos

OITO

 

Quando acordo na manhã seguinte, meus fones de ouvido estão tortos e meio caídos da cabeça enquanto meu pai canta rap neles. Eu dormi o ouvindo. A voz dele é grave como a do vovô, meio rouca às vezes, e dura como as coisas sobre as quais ele fala. Para mim, é caloroso como um abraço. Sempre me faz dormir.

De acordo com meu celular, são 8h. Tia Pooh vai estar aqui em uma hora para me levar ao estúdio. Fiquei boa parte da noite mexendo no notebook, tentando decidir que música gravar. Tem a “Desarmados e perigosos”. Escrevi essa depois que o garoto foi morto, mas não sei se quero ser política desde o começo. Tem “Estado dos fatos”, que revela coisas pessoais demais... ainda não estou pronta para isso. Tem “Na cara e na coragem”, que tem potencial. Principalmente o gancho.

Mas não sei. Simplesmente não sei.

Gargalhadas soam em alguma parte da casa, seguidas rapidamente de um “Shhh! Não quero acordar meus bebês”.

Tiro os fones. É sábado de manhã e sei de quem são as gargalhadas.

Coloco as pantufas do Piu-Piu. Combinam com meu pijama. Sempre vou ser doida pelo Piu-Piu. Eu sigo as vozes na direção da cozinha.

Jay está à mesa, cercada de viciados em drogas em recuperação. Um sábado por mês, ela faz reuniões com pessoas que conheceu quando morou nas ruas. Ela chama as reuniões de checagem. O centro comunitário os abrigava, mas eles ficaram sem fundos e tiveram que fechar. Jay decidiu seguir em frente sozinha. Algumas daquelas pessoas se conhecem há muito tempo, como o sr. Daryl, que está limpo há seis anos e trabalha com construção agora. Tem a sra. Pat, que acabou de concluir o supletivo. Outros, como a sra. Sonja, aparecem de vez em quando. Jay diz que a vergonha da recaída faz com que ela fique longe.

As mães do Sonny e do Malik também estão aqui. Tia Gina está na bancada com um prato de panquecas. Tia ’Chelle já está começando a lavar os pratos na pia. Elas nunca usaram drogas, mas gostam de ajudar Jay a fazer o café da manhã e até preparam almoço para pessoas como a sra. Sonja, que talvez não consiga uma boa refeição de outra forma.

Às vezes, nós mal temos comida, mas Jay arruma um jeito de nos alimentar e também alimentar outras pessoas.

Não sei se isso me impressiona ou me irrita. Talvez as duas coisas.

— Estou dizendo, Pat — diz Jay —, sua mãe vai mudar de ideia e deixar você ver seus filhos. Continue se esforçando pra ganhar a confiança dela. Mas entendo a frustração. Senhor, como entendo. Depois que saí da reabilitação, meus sogros me fizeram passar o inferno quando o assunto eram meus bebês.

Não sei se era para eu ouvir isso.

— Estou falando de casos no tribunal, visitas supervisionadas... como é que pode um estranho me supervisionar enquanto passo um tempo com os meus bebês? Todas essas estrias são de trazer esses cabeçudos ao mundo e não confiam em mim com eles?

Os outros riem. Hum, minha cabeça tem tamanho normal, muito obrigada.

— Eu fiquei danada da vida — diz Jay. — Parecia que todo mundo jogava meus erros na minha cara. Ainda me sinto assim às vezes. Principalmente agora, que tenho que procurar emprego.

— Estão pegando no seu pé? — pergunta o sr. Daryl.

— As entrevistas começam bem — diz Jay. — Até que perguntam sobre meu período sem emprego. Eu falo a verdade e de repente sou uma drogada aos olhos dele. Não recebo resposta.

— Isso é um saco — diz tia ’Chelle, pegando o prato vazio da sra. Pat. Malik não é nem um pouco parecido com a mãe. Ela é baixa e gorducha, ele é alto e magro. Ela diz que ele é clone do pai. — Sabe quanta gente branca e rica tem que ir ao tribunal por posse de drogas?

— Um monte — diz Jay.

— Muitas mesmo — diz tia ’Chelle. — Todas levam um tapinha nas costas e voltam pra sociedade, como se tudo estivesse bem. Agora os negros e os pobres que se metem com drogas?

— Nossa vida acaba — diz Jay. — É isso mesmo.

— Você quer dizer que é coisa de branco — diz tia Gina, apontando com o garfo. Sonny é gêmeo da mãe dele, até o cabelo curto e cacheado.

— Aham. Mas o que eu posso fazer? — diz Jay. — É que eu odeio não saber o que vai acontec...

Ela me vê na porta. E limpa a garganta.

— Estão vendo? Vocês acordaram o meu bebê.

Eu entro na cozinha.

— Não acordaram, não.