Na hora da virada
Vinte e seis
SEIS
O conjunto habitacional Maple Grove é um mundo diferente.
Eu moro no lado leste de Garden, onde as casas são melhores, os donos são mais idosos e os tiros não são tão frequentes. O conjunto habitacional Maple Grove fica a uns quinze minutos andando, no lado oeste, ou, como a vovó diz: “naquele lado ruim”. Aparece mais no noticiário e muitas casas parecem não estar em condições de ser habitadas. Mas é como dizer que um lado da Estrela da Morte é mais seguro do que o outro. Ainda é a Estrela da Morte.
Em Maple Grove, seis prédios de três andares ficam tão perto da rodovia que a tia Pooh diz que tinha gente que ia para o terraço jogar pedras nos carros. Gente que se achava foda. Havia um sétimo prédio, mas houve um incêndio alguns anos atrás e, em vez de reformar, o governo o derrubou. Agora tem um gramado no lugar, onde as crianças brincam. O parquinho é dos drogados.
— E aí, Li’l Law — grita um cara de dentro de um carro velho quando atravesso o estacionamento. Eu nunca o vi na vida, mas aceno. Sempre serei a filha do meu pai.
Ele deveria estar aqui. Talvez assim eu não me perguntasse como vamos sobreviver agora que Jay está sem emprego.
Juro, as coisas nunca ficam “boas”. Sempre acontece alguma coisa. Ou a gente fica quase sem comida ou algum serviço é cortado. Sempre acontece alguma coisa.
E a gente não pode ter poder. Pensa bem. Tanta gente que não conheço tem bem mais controle sobre a minha vida do que eu. Se um Crown não tivesse matado meu pai, ele seria um grande astro do rap e o dinheiro não seria um problema. Se um drogado não tivesse vendido a primeira dose pra minha mãe, ela poderia já ter se formado e ter um emprego. Se aquele policial não tivesse matado aquele garoto, as pessoas não teriam feito as badernas, a creche não teria pegado fogo e a igreja não teria demitido a Jay.
Tantas pessoas que não conheço se tornaram deuses da minha vida. Agora, preciso tomar meu poder de volta.
Espero que tia Pooh saiba como.
Um garoto vem na minha direção em uma bicicleta suja. Ele está usando uma camisa do Celtics com um moletom por baixo. As trancinhas têm contas claras nas pontas. Ele aperta o freio a centímetros de mim. Centímetros.
— Garoto, se você tivesse me atropelado... — eu digo.
Jojo ri.
— Eu não ia atropelar você.
Jojo não deve ter mais de 10 anos. Ele mora com a mãe no apartamento em cima do da tia Pooh. Faz questão de falar comigo toda vez que eu venho. Tia Pooh acha que sou a crush dele, mas não. Acho que ele só quer falar com alguém. E também compra doces comigo. Como agora.
— Tem Skittles de tamanho grande, Bri? — pergunta ele.
— Tenho. Dois dólares.
— Dois dólares? Isso é caro pra caralho!
Esse garotinho está com um monte de dinheiro embolado debaixo da camisa (deve ser aniversário dele) e ainda tem coragem de reclamar do meu preço?
— Primeiro, olha a boca — eu digo. — Segundo, esse é o mesmo preço do mercado. Terceiro, por que você não está na escola?
Ele empina a bicicleta.
— Por que você não está na escola?
Ele tem razão. Eu tiro a mochila.
— Quer saber? Como é seu aniversário, vou contrariar minhas regras e vou deixar você levar um saquinho de graça.
Assim que entrego a bala para ele, ele abre o saco e vira um monte na boca.
Eu inclino a cabeça.
— E aí?
— Obrigado — diz ele, a boca cheia de Skittles.
— A gente tem que melhorar essa educação aí. De verdade.
Jojo me segue até o pátio. É quase todo tomado de terra, graças aos carros parados ali, como o carro onde a tia Pooh e o amigo dela, Scrap, estão sentados. O cabelo do Scrap é metade trançado e metade black power, como se ele tivesse saído sem terminar de fazer as tranças para fazer outra coisa. Conhecendo Scrap, deve ter sido isso mesmo. Ele está de meias e chinelo e enfia colheradas de cereal na boca, da tigela que tem na mão. Ele e a tia Pooh estão conversando com os outros GDs parados ao lado deles.
Tia Pooh me vê e desce do carro.
— Por que você não está na escola?
Scrap e os GDs acenam para mim, como se eu fosse um deles. Acontece muito.