Na hora da virada

Angie Thomas · Capítulo 14 de 40

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Na hora da virada

Parte Dois | Era de Ouro

Baixa a bola, cara, pode se ajoelhar.

Você tem gás, mas eu tenho mais,

Pergunte aos amigos, conhecidos, Supreme sabe bem. O Garden chora, pessoas queridas perdidas pro além, Suas desculpas que morram, sou forte agora,

E o seu rosto nos cartazes de procura-se lá fora. Você sumiu do mapa, e agora passa mal

Mas hoje é seu dia, toma aqui teu juízo final...

 

Eu paro. A multidão está surtando. S-u-r-t-a-n-d-o.

— O quê? — grita Hype. — O quê?

Até os caras com jeito de durões estão quicando com os punhos na boca gritando:

— Ahhhhh!

— O quê? — grita Hype de novo, e toca uma sirene. A sirene. A que ele usa quando um MC solta uma coisa insana.

Eu, Brianna Marie Jackson, ganhei a sirene.

Puta merda.

— Ela conseguiu o flow com jogo de palavras! — diz Hype. — Alguém traz uma mangueira! Não está dando pra aguentar o calor! Não está dando pra aguentar!

Isso é mágico. Eu achava que as reações que recebia quando fazia improviso para as amigas da tia Pooh eram incríveis. Mas isso é outra coisa, como quando o Luke deixou de ser só o Luke para virar o Luke Jedi.

— Milez, foi mal, mas ela trucidou você depois de uns poucos versos — diz Hype. — Chamem o promotor! Isso aqui é uma cena de crime! Juízes, o que vocês acham?

Todos mostram placas com meu nome.

A plateia vai à loucura.

— Bri ganhou! — diz Hype.

Milez esfrega com nervosismo os pelos ralinhos que tem no queixo.

Eu sorrio. Peguei ele.

— Vamos pra rodada final — diz Hype. — Estamos empatados, e quem vencer agora vence tudo. Bri, quem vai primeiro?

— Ele — eu respondo. — Vamos deixar que ele tire logo o lixo dele do caminho.

Um monte de oohs ecoam à nossa volta. É, eu disse isso.

— Milez, é melhor você mandar bem — diz Hype. — Vamos nessa!

A batida começa: “Shook Ones”, de Mobb Deep. É mais lenta do que “Deep Cover”, mas é perfeita para improviso. Em todas as batalhas a que assisti no YouTube, a coisa ficou boa quando essa batida começou.

Milez me olha de cara feia enquanto canta. Fica falando de quanto dinheiro tem, quantas garotas gostam dele, as roupas, as joias, a vida de gangue que ele vive. Repetitivo. Sem graça. Escrito com antecedência.

Eu tenho que partir para matar.

Aqui estou eu, partindo pra cima dele como se não tivesse educação. Educação. Muitas palavras rimam com isso se eu as enunciar certo. Multidão. Canção. Bajulação. Lixão. Pá. Martelo... Hammer. MC Hammer. Vanilla Ice. Os grandes do hip-hop os consideram astros do pop, não rappers de verdade. Posso compará-lo a eles.

Tenho que inserir o verso que é a minha marca: só se pode escrever brilhante começando com Bri. Tia Pooh observou isso uma vez antes de pegar no meu pé por ser tão perfeccionista.

Perfeição. Posso usar isso. Perfeição, proteção, eleição. Eleição... presidentes. Presidentes são chefes. chefe. Blefe. Ether, a música em que Nas caiu em cima do Jay-Z.

Preciso enfiar alguma coisa relacionada ao nome dele. Milez. Milhas por hora. Velocidade. Velocidade da luz. E preciso terminar com alguma coisa sobre mim.

Milez abaixa o microfone. Há alguns aplausos e gritos. Supreme aplaude, mas seu rosto está rígido.

— Maravilha, foi demais, Milez! — diz Hype. — Bri, é melhor você vir fervendo!

O instrumental recomeça. Tia Pooh disse que só tenho uma chance de contar pra Deus e o mundo quem eu sou.

Então, eu aproveito.

 

Peço desculpas, esqueci minha educação.

O microfone é minha vida. E você é um cuzão.

Você é popstar. Vanilla Ice ou Hammer, rap é que não dá. Estão ouvindo essa bosta? Precisa ir pro lixão.

E uma coroa pra mim. Pois todos sabem de mim. Só se escreve brilhante começando com Bri.

Foi pra isso que eu vim, comigo só perfeição.

Chama logo um guarda-costas pra te dar proteção. Aqui nessa eleição a multidão aponta o chefe.

Tu usou ghostwriter, tua carreira é um blefe.