Na hora da virada
Quinze
QUATRO
Horas depois da minha batalha, eu tenho um pesadelo.
Tenho 5 anos e estou entrando no Lexus velho da minha mãe. Meu pai já foi para o céu há quase um ano agora. Tia Pooh se mudou há uns dois meses. Ela foi morar com a tia dela no conjunto habitacional.
Prendo o cinto de segurança, e minha mãe me entrega a mochila lotada. O braço dela está cheio de marcas escuras. Ela me disse uma vez que ficou com aquelas marcas porque não estava se sentindo bem.
— Você ainda está doente, mãe? — eu pergunto.
Ela segue meu olhar e desenrola a manga.
— Estou, flor — sussurra ela.
Meu irmão entra no carro ao meu lado, e a mamãe diz que vamos fazer um passeio para um lugar especial. Nós vamos parar na porta da casa dos meus avós.
De repente, Trey arregala os olhos. Ele implora para ela não fazer isso. Vê-lo chorar me faz chorar.
Mamãe diz para ele me levar para dentro de casa, mas ele não quer. Ela sai, vai até ele, solta o cinto de segurança e tenta tirá-lo do carro, mas ele enfia os pés no banco.
Ela segura os ombros dele.
— Trey! Preciso que você seja meu homenzinho — diz ela, a voz falhando. — Pelo bem da sua irmã. Tá bom?
Ele olha para mim e limpa o rosto rapidamente.
— Eu... eu... eu estou bem, Li’l Bit — diz ele, mas o choro seco parte suas palavras. — Está tudo bem.
Ele solta meu cinto de segurança, segura minha mão e me ajuda a sair do carro.
Mamãe nos entrega nossas mochilas.
— Sejam bonzinhos, tá? — diz ela. — Façam o que seus avós mandarem.
— Quando você vai voltar? — eu pergunto.
Ela se ajoelha na minha frente. Os dedos trêmulos roçam meu cabelo e aninham minha bochecha.
— Volto mais tarde. Eu prometo.
— Mais tarde quando?
— Mais tarde. Eu te amo, tá?
Ela encosta os lábios na minha testa e fica assim por um tempo. Faz o mesmo com Trey e se levanta.
— Mamãe, quando você vai voltar? — eu pergunto mais uma vez.
Ela entra no carro sem responder e o liga. Tem lágrimas escorrendo por suas bochechas. Mesmo tendo apenas 5 anos, eu já sei que ela vai demorar para voltar.
Largo a mochila e corro atrás do carro.
— Mamãe, não me deixa!
O carro segue pela rua, e eu não posso ir para a rua.
— Mamãe! — eu grito. O carro dela vai, vai, e logo some. — Mamãe! Mãe...
— Brianna!
Eu acordo com um sobressalto.
Jay está sentada na lateral da minha cama.
— Flor, você está bem?
Eu tento recuperar o fôlego enquanto seco a umidade dos olhos.
— Estou.
— Teve um pesadelo?
Um pesadelo que é uma lembrança. Jay realmente me deixou junto com o Trey na casa dos nossos avós. Ela não podia cuidar de nós e do vício das drogas ao mesmo tempo. Foi nessa ocasião que eu aprendi que, quando as pessoas morrem, elas às vezes levam os vivos junto.
Eu a vi no parque alguns meses depois, mais parecida com um dragão com escamas e olhos vermelhos do que com a minha mãe. Foi quando comecei a chamá-la de Jay; não tinha mais como ela ser minha mãe. Virou um hábito meu, difícil de largar. Ainda é.
Ela levou pouco mais de três anos para voltar de reabilitação. Apesar de estar limpa, um juiz decidiu que ela só podia ficar comigo e com o Trey em fins de semana intercalados e em alguns feriados. Jay só recuperou nossa guarda integral cinco anos atrás, depois que arrumou um emprego e alugou essa casa.
Já estou há cinco anos com ela, mas ainda sonho com o dia em que nos abandonou. Acontece do nada às vezes. Mas Jay não pode saber que eu sonho com isso. Ela só vai se sentir culpada, e aí eu também vou me sentir culpada por fazê-la se sentir mal.