Na hora da virada
Onze
TRÊS
A batida começa: “Niggas in Paris”, de Jay-Z e Kanye.
Meu coração bate mais forte do que o baixo na música. Milez se aproxima de mim, chega perto demaaaais . Tenho a oportunidade de avaliá-lo. Ele é muito garganta, mas, cara, tem medo nos olhos dele.
Ele começa o rap.
Sou tão insano, você queria ser eu.
Queria um Nike como o meu.
Gasto 100K num dia,
O garoto é só alegria,
Grana não faltaria.
Tão insano, essa vida é de arrasar.
Mas sou do comando, da gangue, não me espanto. A Ferrari tá pronta, a Glock nas costas.
Pronto pra vazar se os paparazzi
estiverem nas portas.
Ele está de parabéns. Esses versos foram melhores do que qualquer coisa da letra de “Chocrível”, mas esse garoto não pode estar falando sério. Ele não é figurão da gangue, nem figura pequena da gangue, nem nada na gangue, então por que está dizendo que leva essa vida? Ele nem mora no bairro. Todo mundo sabe que o Supreme mora no subúrbio agora. Mas o filho dele está tirando onda com essa vida?
Ah, não.
Eu tenho que dar um puxão de orelha nele. Talvez dizer alguma coisa tipo: “Sabe sua carreira? Acaba logo com ela. Seu status de membro de gangue é tão autêntico quanto essas pedras no seu pingente.”
Rá! Essa é boa.
Ele ainda está cantando sobre ser da gangue. Dou um sorrisinho e espero minha vez. Até que...
Sou tão insano, olha o meu lacre.
Isso não é batalha, é massacre.
Vou trucidar a garota a sangue-frio,
Como fizeram com seu papaizinho imbecil.
Puta.
Que.
Pariu.
Eu parto para cima do Milez.
— Que foi que você disse?
Hype interrompe a música, e escuto “Opa, opa, opa” enquanto duas pessoas correm para o Ringue. A tia Pooh me puxa para trás.
— Seu babaquinha! — eu grito. — Fala isso de novo!
Tia Pooh me puxa para o canto.
— Qual é o seu problema?
— Você ouviu aquela merda?
— Ouvi, mas você tem que enfrentar ele na música, não no braço! Quer ser desqualificada antes de começar?
Eu respiro muito fundo.
— Aquele verso...
— Afetou você como ele queria!
Ela está certa. Droga, ela está certa.
A plateia vaia. Eles também não aceitam insultos ao meu pai.
— Ei! Todo mundo conhece as regras. Não tem limites — diz Hype. — Até falar do Law é jogo limpo no Ringue.
Mais vaias.
— Beleza, beleza! — Hype tenta acalmar todo mundo. — Milez, aquilo foi golpe baixo, mano. Já chega.
— Foi mal — lamenta Milez no microfone, mas com um sorrisinho debochado.
Estou tremendo de tanto que quero dar na cara dele. A coisa só piora porque minha garganta fica apertada e agora estou quase com tanta raiva de mim mesma quanto do Milez.