Na hora da virada
Trinta e quatro
Eu apoio a cabeça no encosto. Tem dois motivos para o meu irmão ter se formado em psicologia. Um, ele diz que quer impedir alguém de acabar como a nossa mãe. Trey jura que se Jay tivesse feito terapia depois de ver o papai morrer, ela não teria corrido para as drogas para lidar com o trauma. Dois, ele sempre está falando sobre os sentimentos dos outros. Sempre. E agora, tem um diploma para certificar a xeretice.
— Estou de saco cheio daquela escola — eu digo. — Eles sempre me segregam, Trey.
— Já pensou que talvez você devesse parar de dar motivo para eles te segregarem?
— Espera aí, você devia estar do meu lado!
— E estou, Bri. É um saco eles sempre mandarem você pra sala da diretora. Mas você também tem que relaxar um pouco. Você é um caso clássico de transtorno desafiador de oposição.
O dr. Trey chegou.
— Para de tentar me diagnosticar.
— Só estou declarando os fatos — diz ele. — Você tem a tendência de ser argumentativa, desafiadora, fala com impulsividade, fica irritada com facilidade...
— Não fico! Retire o que disse!
Os lábios dele se apertam.
— Como falei, TDO.
Eu me encosto no banco e cruzo os braços.
— Não enche.
Trey cai na gargalhada.
— Você é tão previsível. Mas parece que o TDO ajudou ontem à noite. Parabéns pela vitória no Ringue. — Ele levanta o punho para mim.
Eu bato com o meu no dele.
— Já viu a batalha?
— Ainda não tive tempo. Kayla mandou uma mensagem.
— Quem?
Ele revira os olhos.
— Ms. Tique.
— Ahhhh. — Eu tinha esquecido que ela tem um nome real. — É tão legal você trabalhar com ela. — Se bem que é meio triste que alguém tão irada quanto a Ms. Tique tenha que fazer pizzas para pagar as contas. — Eu ficaria sem fala perto dela.
Trey ri.
— Você age como se ela fosse a Beyoncé.
— Ela é! Ela é a Beyoncé do Ringue.
— Ela é incrível mesmo.
Ele provavelmente não percebe que está todo covinhas no momento.
Eu inclino a cabeça para trás de leve com as sobrancelhas erguidas.
Trey repara que estou olhando.
— O quê?
— Você está tentando ser o Jay-Z dela?
Ele ri.
— Cala a boca. A gente tem que falar de você . — Ele cutuca meu braço. — Mamãe me contou que ela deu a notícia sobre o emprego antes de você fugir. O que está achando disso?
Ainda estamos na sessão de terapia do dr. Trey.
— Estou com medo — admito. — Nós já estávamos com dificuldade. Agora, só vai piorar.
— Vai — concorda ele. — Não posso mentir, contando meus empréstimos estudantis e o carro, parece que meu salário já acabou. As coisas vão ficar muito apertadas até a mamãe conseguir um emprego ou eu arrumar um melhor.
— Como está sua procura por emprego? — Ele está procurando uma coisa melhor desde o primeiro dia no Sal’s.
Ele passa os dedos pelo cabelo. Está precisando muito de um corte.
— Está bem. Só demorando um pouco. Pensei em voltar a estudar pra fazer mestrado. Isso abriria muitas portas, mas...
— Mas o quê?
— Tiraria horas em que eu poderia estar trabalhando. Mas tudo bem.
Não está tudo bem.
— Mas prometo o seguinte — diz ele —, aconteça o que acontecer, vai ficar tudo bem. Seu irmão mais velho todo poderoso e sábio vai cuidar disso.
— Eu não sabia que eu tinha outro irmão mais velho.
— Você é tão implicante! — Ele ri. — Mas vai ficar tudo bem. Tá? — Ele leva o punho ao meu de novo.
Eu bato no dele. As coisas nunca podem dar errado com o dr. Trey vigiando.
Mas ele não deveria ter que resolver isso. Não deveria ter tido que voltar para Garden Heights. Na Markham State, ele era o rei. Literalmente, foi o rei do baile. Todo mundo o conhecia, por estrelar em produções do campus e por ser o líder da banda. Ele se formou com honras. Estudou como louco para entrar lá e agora teve que voltar para o gueto e precisa trabalhar na pizzaria.
É horrível e me assusta, porque se o Trey não consegue depois de fazer tudo “certo”, quem consegue?