Na hora da virada

Angie Thomas · Capítulo 26 de 40

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Na hora da virada

Vinte e quatro

Olho o que sobrou do Garden. Estamos na rua Clover, que era uma das ruas mais movimentadas em Garden Heights, mas desde as manifestações, só tem um monte de escombros queimados e prédios fechados com tapumes. A loja Mega Dollar foi uma das primeiras a sofrer. A Cellular Express foi saqueada primeiro e depois queimada. A Shop ‘n Save queimou até o topo, e agora temos que ir ao Walmart no limite do Garden ou até o mercadinho no lado oeste se quisermos comprar comida.

Sou uma marginal, um monte de nada.

— Duvido que consertem essa sujeira — diz Jay. — Parece que querem que a gente lembre do que acontece quando a gente sai da linha. — Ela olha para mim. — Tudo bem, Bookie?

De acordo com meu avô, os Jacksons não choram; a gente engole o choro e aguenta. Não importa o quanto meus olhos ardam.

— Eu não fiz nada errado.

— Não fez, não — diz Jay. — Você tinha todo o direito de ficar com a sua mochila. Mas, Bri... Me prometa, se isso acontecer de novo, você vai fazer o que mandarem.

— O quê?

— Coisas ruins podem acontecer, flor. Gente assim às vezes abusa do poder.

— Então eu não tenho poder nenhum?

— Você tem mais do que pensa. Mas nesses momentos, eu... — Ela engole em seco. — Eu preciso que você aja como se não tivesse nenhum. Quando você estiver fora da situação, em segurança, aí a gente resolve. Mas preciso que você saia da situação em segurança primeiro. Tudo bem?

Isso parece a conversa que tivemos sobre a polícia. Faça o que eles mandarem, ela disse. Não faça pensarem que você é uma ameaça. Basicamente, eu tenho que me enfraquecer e aguentar o que vier para sobreviver ao momento.

Estou começando a achar que não importa o que eu faça. Sempre vou ser o que as pessoas acham que sou.

— Estão sempre no meu pé naquela escola.

— Eu sei — diz Jay. — E não é justo. Mas você só vai precisar aguentar mais um ano, flor. Esses incidentes... não podemos correr o risco de você ser expulsa, Bri. Se isso significa que você tem que ficar com a boca calada, preciso que fique.

— Não posso me defender?

— Você pode escolher suas batalhas — diz ela. — Nem tudo merece um comentário, um revirar de olhos ou uma atitude...

— Eu não sou a única que faz essas coisas!

— Não, mas as garotas como você são as únicas que recebem anotações no registro permanente!

O carro fica em silêncio.

Jay suspira pelo nariz.

— Às vezes, as regras são diferentes pras pessoas negras, flor — diz ela. — Droga, às vezes eles estão jogando damas enquanto nós estamos metidos em um jogo de xadrez complexo. É um fato horrível da vida, mas é um fato. Midtown infelizmente é um desses lugares em que você não só precisa jogar xadrez, mas precisa jogar seguindo regras diferentes.

Odeio essa merda.

— Não quero voltar pra lá.

— Eu entendo, mas não temos alternativas.

— Por que eu não posso estudar em Garden High?

— Porque seu pai e eu juramos que você e o Trey nunca botariam o pé naquela escola. Você acha os guardas ruins na Midtown? Em Garden High tem polícia de verdade, Bri. Aquela escola é tratada como prisão. Eles não preparam ninguém para o sucesso. Pode dizer o que quiser de Midtown, mas você tem mais chances lá.

— Mais chances de quê? De ser jogada no chão como uma boneca de pano?

— Mais chances de ter um futuro! — Ela fala mais alto do que eu. Depois respira fundo. — Você vai enfrentar muitos Longs e Tates na sua vida, flor, mais do que eu gostaria. Mas nunca deixe que as ações deles determinem o que você vai fazer. Assim que fizer isso, está dando poder a eles. Entendeu?

Entendi, mas ela me entendeu? Nenhuma de nós fala por um tempão.

— Eu queria... queria poder te dar mais opções, flor. Queria mesmo. Mas nós não temos. Ainda mais agora.

Ainda mais agora. Eu olho para ela.

— Aconteceu alguma coisa?

Ela se mexe no banco.

— Por que você diz isso?

— A sra. Clark ligou pra igreja. Disseram que você não trabalha mais lá.

— Brianna, não vamos falar...

Ah, Deus.

— Você perdeu o emprego?

— É temporário, tá?

— Você perdeu o emprego?

Ela engole em seco.

— Perdi.

Ah, não.

Não.