Na hora da virada
Vinte e quatro
Olho o que sobrou do Garden. Estamos na rua Clover, que era uma das ruas mais movimentadas em Garden Heights, mas desde as manifestações, só tem um monte de escombros queimados e prédios fechados com tapumes. A loja Mega Dollar foi uma das primeiras a sofrer. A Cellular Express foi saqueada primeiro e depois queimada. A Shop ‘n Save queimou até o topo, e agora temos que ir ao Walmart no limite do Garden ou até o mercadinho no lado oeste se quisermos comprar comida.
Sou uma marginal, um monte de nada.
— Duvido que consertem essa sujeira — diz Jay. — Parece que querem que a gente lembre do que acontece quando a gente sai da linha. — Ela olha para mim. — Tudo bem, Bookie?
De acordo com meu avô, os Jacksons não choram; a gente engole o choro e aguenta. Não importa o quanto meus olhos ardam.
— Eu não fiz nada errado.
— Não fez, não — diz Jay. — Você tinha todo o direito de ficar com a sua mochila. Mas, Bri... Me prometa, se isso acontecer de novo, você vai fazer o que mandarem.
— O quê?
— Coisas ruins podem acontecer, flor. Gente assim às vezes abusa do poder.
— Então eu não tenho poder nenhum?
— Você tem mais do que pensa. Mas nesses momentos, eu... — Ela engole em seco. — Eu preciso que você aja como se não tivesse nenhum. Quando você estiver fora da situação, em segurança, aí a gente resolve. Mas preciso que você saia da situação em segurança primeiro. Tudo bem?
Isso parece a conversa que tivemos sobre a polícia. Faça o que eles mandarem, ela disse. Não faça pensarem que você é uma ameaça. Basicamente, eu tenho que me enfraquecer e aguentar o que vier para sobreviver ao momento.
Estou começando a achar que não importa o que eu faça. Sempre vou ser o que as pessoas acham que sou.
— Estão sempre no meu pé naquela escola.
— Eu sei — diz Jay. — E não é justo. Mas você só vai precisar aguentar mais um ano, flor. Esses incidentes... não podemos correr o risco de você ser expulsa, Bri. Se isso significa que você tem que ficar com a boca calada, preciso que fique.
— Não posso me defender?
— Você pode escolher suas batalhas — diz ela. — Nem tudo merece um comentário, um revirar de olhos ou uma atitude...
— Eu não sou a única que faz essas coisas!
— Não, mas as garotas como você são as únicas que recebem anotações no registro permanente!
O carro fica em silêncio.
Jay suspira pelo nariz.
— Às vezes, as regras são diferentes pras pessoas negras, flor — diz ela. — Droga, às vezes eles estão jogando damas enquanto nós estamos metidos em um jogo de xadrez complexo. É um fato horrível da vida, mas é um fato. Midtown infelizmente é um desses lugares em que você não só precisa jogar xadrez, mas precisa jogar seguindo regras diferentes.
Odeio essa merda.
— Não quero voltar pra lá.
— Eu entendo, mas não temos alternativas.
— Por que eu não posso estudar em Garden High?
— Porque seu pai e eu juramos que você e o Trey nunca botariam o pé naquela escola. Você acha os guardas ruins na Midtown? Em Garden High tem polícia de verdade, Bri. Aquela escola é tratada como prisão. Eles não preparam ninguém para o sucesso. Pode dizer o que quiser de Midtown, mas você tem mais chances lá.
— Mais chances de quê? De ser jogada no chão como uma boneca de pano?
— Mais chances de ter um futuro! — Ela fala mais alto do que eu. Depois respira fundo. — Você vai enfrentar muitos Longs e Tates na sua vida, flor, mais do que eu gostaria. Mas nunca deixe que as ações deles determinem o que você vai fazer. Assim que fizer isso, está dando poder a eles. Entendeu?
Entendi, mas ela me entendeu? Nenhuma de nós fala por um tempão.
— Eu queria... queria poder te dar mais opções, flor. Queria mesmo. Mas nós não temos. Ainda mais agora.
Ainda mais agora. Eu olho para ela.
— Aconteceu alguma coisa?
Ela se mexe no banco.
— Por que você diz isso?
— A sra. Clark ligou pra igreja. Disseram que você não trabalha mais lá.
— Brianna, não vamos falar...
Ah, Deus.
— Você perdeu o emprego?
— É temporário, tá?
— Você perdeu o emprego?
Ela engole em seco.
— Perdi.
Ah, não.
Não.