Na hora da virada
Trinta e um
— Pooh! — Um homem magrelo mais velho ziguezagueia pelo pátio. — Preciso dar um alô pra você!
— Caramba, Tony! — resmunga tia Pooh. — Estou no meio de uma conversa importante.
Não é tão importante. Ela vai até ele.
Eu mordo o lábio. Não sei como ela consegue. Não estou falando da parte da venda de drogas. Ela entrega o produto, eles entregam o dinheiro. É simples. O que quero dizer é que não sei como ela consegue, sabendo que em algum momento outra pessoa era o traficante e a minha mãe, irmã dela , era a drogada.
Mas se eu conseguir fazer essa coisa de rap acontecer, espero que ela pare com isso.
— Falando sério, Bri — diz Scrap. — Apesar do Milez estar ganhando toda a atenção, você devia sentir orgulho. Você tem talento. Ele está estourando e eu não sei o que vai acontecer com você, mas que você tem talento, isso tem.
Que tipo de elogio velado é esse?
— Valeu, eu acho.
— O Garden precisa de você, de verdade — diz ele. — Lembro quando seu pai estava surgindo. Toda vez que ele fazia um vídeo de música no bairro, eu tentava aparecer. Só queria estar na presença dele. Ele nos dava esperança. Ainda não vi nada como os segundos versos dele. Não tem nada de bom que sai daqui, sabe?
Vejo tia Pooh colocar alguma coisa na mão trêmula do Tony.
— É, eu sei.
— Mas você pode ser uma coisa boa — diz Scrap.
Eu não tinha pensado dessa forma. Nem no fato de que tanta gente admirava meu pai. Que gostava da música dele? Sim. Mas que sentiam esperança por causa dele? Ele não era o rapper mais “feliz”.
Mas, no Garden, nós fazemos nossos próprios heróis. As crianças do conjunto habitacional amam a tia Pooh porque ela lhes dá dinheiro. Não querem saber como ela consegue. Meu pai falava de coisas ruins, sim, mas são coisas que acontecem aqui. Isso o tornou herói.
Talvez eu também possa ser uma.
Scrap bebe o resto do leite na tigela.
— “Chocrível, me chame de incrível” — canta ele, com um movimento de ombros. — “Choc-rível. Choc-rível... Choc, choc, choc...”