Na hora da virada
Vinte e oito
Já faço isso há meses e a grana é gradual,
Então usei as regras do Big e fiz o meu manual
Alguns passos legais que não são nada de mais, Algumas regras claras pra vender essas balas.
A regra número um é que amigo nenhum
pode ter noção da grana que eu tenho na mão,
porque a inveja desperta e é quase certa
ainda mais se for Básico. É muito rápido.
Número dois, nunca conto o que vou fazer depois. É que a concorrência tem tendência de ser consequência quando alguém quer copiar o que consigo ganhar. Vão querer meu lugar só pra roubar os clientes que forem me procurar. Número três sem chilique, só confio em Sonny e Malik. Tem gente que vai cheirar e armar de me pegar, de moletom e cara coberta só por uns dólares, na certa, Vão me roubar no parque só por recalque.
Número quatro é uma regra que eu idolatro:
Não posso comer nada que é de vender.
Número cinco, não vendo as paradas em casa.
Podem me pedir o que for, bala ou batata, e eu digo vaza. Número seis, devolução? Comigo não.
A gente vende e pega a grana. Se arrepende? Vacilão. Sete, tem gente que não gosta desse ponto,
Mas nem pra minha mãe eu dou desconto.
Família e negócios não se misturam, como água e gordura. E eu sempre penso: “Não é frescura.”
Número oito não é besteira, a grana inteira
eu guardo, e não na bolsa nem na carteira.
A número nove é muito importante:
A polícia nunca pode dar flagrante.
Se desconfiarem de mim, posso falar sem fim.
Só vão atirar e mais um pra estatística. Será meu fim. Número dez, duas palavras: momento perfeito.
Querem saber o certo? Tem que fazer direito,
Se a clientela sumir, um problema vai surgir,
Se eu sumo de fato, eles vão comprar no mercado. Seguindo esses passos o sucesso é completo
Posso comprar minhas coisas e pagar os boletos, Vender mais biscoito que o pessoal do mercado Pra minha mãe e meu pai, e alô pro Big, o mais irado.
— E aí? — eu termino.
Um “Ohhhh!” coletivo soa. A boca do Jojo está aberta. Um ou dois GDs se curvam para mim.
Não tem nada no mundo assim. Tudo bem, eles são de gangue e já fizeram todo o tipo de merda que nem quero saber nem imaginar. Mas sou suficiente para eles e, sinceramente, eles são suficientes para mim.
— Beleza, beleza — diz tia Pooh para eles. — Mas preciso falar com a estrela em particular. Vocês têm que pular fora.
Todo mundo vai embora, menos Scrap e Jojo.
Tia Pooh empurra de leve a cabeça do Jojo.
— Vai, malandrinho.
— Droga, Pooh! Quando você vai me deixar assumir?
Ele quer dizer assumir as cores, que quer dizer se tornar um Garden Disciple. O garotinho sempre quer entrar, como se fosse o time de basquete do Maple Grove. Ele faz sinais do GD desde que eu o conheço.
— Nunca nessa vida — diz tia Pooh. — Agora vai.
Jojo faz um som de pneu furado.
— Cara — geme ele, mas sai pedalando a bicicleta.
Tia Pooh se vira para o Scrap, que ainda não foi embora. Ela inclina a cabeça como quem diz E aí?
— O quê? — pergunta ele. — O carro é meu. Eu fico se quiser.
— Cara, tá bom — diz tia Pooh. — Por você tá tranquilo, Bri?
Dou de ombros. É estranho. Desde que Long me chamou de marginal, parece que a palavra está marcada a ferro na minha testa e não consigo arrancar de mim. Odeio isso estar me incomodando tanto.
— Tem certeza de que não quer que eu dê um jeito nos guardas? — pergunta a tia Pooh.
Ela fala tão sério que quase me dá medo.
— Absoluta.
— Tudo bem. Eu cuido de tudo, basta você falar. — Ela abre um pirulito e enfia na boca. — O que a Jay vai fazer sobre isso?
— Ela não vai me deixar sair da escola, então não importa.
— O quê, por acaso você quer ir pra Garden High?
Eu puxo meus joelhos para o corpo.
— Pelo menos eu não seria invisível lá.
— Você não é invisível — diz tia Pooh.