Na hora da virada

Angie Thomas · Capítulo 25 de 40

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Na hora da virada

Vinte e três

— Pode parecer assim...

— É assim!

— Brianna — diz Jay. É um aviso. Ela se vira para a diretora. — Dra. Rhodes, meu filho me contou que os guardas implicavam com alguns alunos mais do que com outros quando ele estudava aqui. Não acho que meus filhos estejam inventando. Eu odiaria pensar que você está dizendo isso.

— Vai haver uma investigação. — A dra. Rhodes diz isso com tanta calma que me irrita. — Mas mantenho o que disse, sra. Jackson. Os guardas tratam todos os alunos igualmente.

— Ah — diz Jay. — Eles jogam todos no chão, é?

Silêncio.

A dra. Rhodes limpa a garganta.

— Mais uma vez, Brianna não cooperou. Me informaram que ela foi argumentativa e agressiva. Não é a primeira vez que temos problemas de comportamento com ela.

Lá vamos nós.

— O que você está tentando dizer? — pergunta Jay.

— O comportamento de hoje segue um padrão...

— Sim, um padrão da minha filha ser visada...

— Mais uma vez, ninguém está visando...

— As garotas brancas que fazem comentários indesejados são enviadas para a sua sala a cada duas semanas também? — pergunta Jay.

— Sra. Jackson, Brianna é frequentemente agressiva...

Agressiva. Uma palavra. Quatro sílabas. Rima com excessiva.

 

Sou tão excessiva

que sou agressiva.

 

“Agressiva” é usada para me descrever com muita frequência. Deveria significar ameaçadora, mas nunca ameacei ninguém. Só digo coisas das quais os professores não gostam. Todos, exceto a sra. Murray, que por acaso é minha única professora negra. Houve um momento na aula de história durante o Mês da História Negra. Eu perguntei ao professor Kincaid por que nunca falamos sobre as pessoas negras antes da escravidão. As bochechas pálidas dele ficaram vermelhas.

— Porque nós seguimos um planejamento de aulas, Brianna — disse ele.

— É, mas não é você que cria o plano de aula? — eu perguntei.

— Não vou tolerar esse tipo de comentário na aula.

— Só estou dizendo para você não agir como se as pessoas negras não existissem antes...

Ele me mandou ir para a diretoria. Me deu uma advertência por ter sido “agressiva”.

Aula de ficção. A professora Burns estava falando sobre o cânone literário e eu revirei os olhos porque todos os livros pareciam chatos pra cacete. Ela perguntou se havia algum problema e eu disse exatamente isso, só que sem dizer o “pra cacete”. Ela me mandou para a diretoria. Eu murmurei baixinho quando estava saindo e ela me deu advertência por comportamento agressivo.

Não esqueço o incidente na eletiva de teatro. Tínhamos repetido a mesma cena cem vezes. O professor Ito nos mandou começar tudo de novo. Eu inspirei fundo e disse “Ah, meu Deus”, baixando as mãos para as laterais do corpo. Meu roteiro voou da minha mão e o atingiu. Ele jurou que joguei de propósito. Isso me fez ser suspensa por dois dias.

Isso só neste ano. O nono ano e o primeiro do ensino médio também foram cheios de incidentes. Agora, tenho mais um na bagagem.

— Pela política da escola, Brianna vai ter que ser suspensa por três dias por vender itens proibidos dentro da escola sem permissão — diz a dra. Rhodes. Ela fecha a minha mochila e me entrega.

Saímos para o corredor na hora que o sinal do segundo tempo toca. As portas das salas de aula se abrem, e parece que todo mundo na face da Terra sai para o corredor. Ganho olhares que nunca recebi antes, espiadas e sussurros.

Não sou mais invisível, mas agora, queria ser.

 

Fico em silêncio no trajeto até em casa.

Marginal. Uma palavra, três sílabas. Pode rimar com muitas coisas. Sinônimos: bandido, delinquente, baderneiro, vagabundo, gângster e, de acordo com o Long, Brianna.

 

Não se pode esperar nada legal

Vindo dessa marginal.

 

Não. Foda-se essa palavra.

Foda-se aquela escola.

Foda-se isso tudo.